terça-feira, 26 de outubro de 2021
Nos tempos da prática da poesia
terça-feira, 21 de setembro de 2021
Gênese caiçara
Um de meus avós, sem brincadeira,
chegou aqui e conheceu a farinha da terra,
a banana da terra e o canto do canário da terra,
então resolveu esquecer Portugal e suas parcimônias,
rasgou a certidão de nascimento e sem mais cerimônias
tratou de arranjar uma tupinambá,
minha antepassada, Vó Dina,
que ensinou tudo o que a gente sabe,
de remédios da mata às técnicas de pescar.
Parem os psicopatas do desmatamento já!
Eu, meu pensamento e mais o que o vento traz:
idiomas de pássaros,
rios contando sobre as chuvas no alto da serra,
histórias antigas de árvores e bichos
que os avozinhos também já tinham ouvido...
Ninguém fica solitário nas latitudes tropicais,
já os ventos dos desertos falam só a língua
das pedras e areais.
domingo, 12 de setembro de 2021
História do vento forte
domingo, 22 de agosto de 2021
Homenagem a uma vovó caiçara
Cores tropicais
Mar azul, areia branca,
cabelos lisos e escuros, pele morena,
serra verde, café preto, bananas amarelas,
farinha de mandioca tem que ser torrada,
mulheres dos olhos verdes, todas elas minhas parentes
e não há cor nenhuma nos rios de águas transparentes.
sábado, 21 de agosto de 2021
Avó das flores
Pensa em um curta planície toda praia e restinga
entre os esporões da Serra do Mar,
pensa em uma casa branca e azul
no meio de um pomar,
pensa em cafeeiros, bananeiras,
aqui um limoeiro, adiante duas jabuticabeiras,
pensa em detalhes como um jardim
frequentado por colibris, borboletas
e criaturas celestes em geral,
pensa em uma avózinha querendo aperfeiçoar
a natureza com mais perfumes e cores,
que plantou uma flor-trepadeira no pé do coqueiro
que subiu, subiu e encheu o céu de flores.
Para Malala Yousafzai, de um professor brasileiro.
Quando tudo parecia perdido,
quando as trevas venciam a luz
e a ignorância atacava a ciência,
eis que surge uma adolescente
e, com toda sua fragilidade e inocência,
assesta um golpe profundo na violência.
Obrigado, Deus de Amor,
meu Deus e Deus de Malala,
foi mais uma lição para a gente,
nem a força de uma bala
transpassa um coração valente.
Quem disse que as meninas não podem estudar?
Estudar é perigoso, faz o injustiçado acordar
a leitura burila a mente e deixa a pessoa consciente.
O que mete medo na vilania
é que a educação e conhecimento
podem desvendar uma alma vazia.
sexta-feira, 30 de julho de 2021
Cuidados necessários
quinta-feira, 29 de julho de 2021
Plantando na terra, colhendo no mar
terça-feira, 13 de julho de 2021
Valente, meu barco
Quando crescer eu vou comprar um barco à vela
para me levar aonde o vento sopra,
vou pintá-lo de nuvens e ondas
e chamá-lo de valente.
Vou deixar de bobagem,
navegar só de cabotagem,
ter amigos em cada porto,
pescar o peixe grande e soltar o filhote,
assistir o espetáculo dos golfinhos,
respeitar os sinais dos tempos,
fugir das tempestades,
e ter tenência das coisas,
pois, como disse vovô José:
"escute e veja se não erra,
o pior dos tubarões
muitas vezes está em terra".
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Poesia não escrita
No tempo em que lá em casa
Não se escrevia,
Mas se praticava poesia,
Vovó costurou uma blusinha
para um franguinho doentio transido de frio.
Foi o tempo de repô-lo no quintal
E o gavião catar o bichinho,
Mas ficou só com a flanela
E deixou na Terra um escarcéu
De pinto que pia
De neto que berra
De avó que se ria.
domingo, 13 de junho de 2021
No meu país
Quem ultrapassou as alturas
Não quer voltar ao chão
Quem conheceu o céu
Não se limita à Terra
Quem provou das liberdades
Quer que vá para o inferno
O ditador e suas maldades.
No meu país ideal, aliás,
Fechará a escola superior de guerra
E abrirá a escola superior de paz.
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Vida caiçara
começa com o pé no
mar
até tomar intimidades
e pular nas ondas,
mergulhar no mar
e se benzer com água do mar.
E conforme cresce em
idade e experiência,
ao mesmo tempo vai
tomando ciência
em manejar o remo, em
costurar a rede,
e adquire a sabedoria
dos nomes dos peixes,
da força dos ventos,
dos humores do mar,
dos sinais dos
tempos,
até merecer a
distinção mais cara
de ser, no trabalho e
na cultura,
mestre em tradição
caiçara.
Antigos significados
Os caiçaras mais velhos eram analfabetos,
os signos eram outros.
Liam-se os sinais do tempo no comportamento do mar,
na direção do vento, na cor do pôr-do-sol.
Sabia-se das plantas conforme suas serventias
e elas eram conhecidas pelos nomes
como se fossem velhas amigas.
Liam-se os animais pelos respectivos sinais,
já os pássaros eram conhecidos
principalmente pelos ouvidos.
cada vivente com seu encanto.
Casa de caiçara
Houve um tempo em que minha casa
e eu era muito rico,
porque maravilhas aconteciam sob a minha janela:
os botos brincavam de pega-pega na Baía da Fortaleza,
as fragatas planavam ao sopro do vento leste,
a Ilha Vitória aparecia e desaparecia
conforme as condições do tempo,
os barcos faziam complicadas manobras
para atracar ou para zarpar,
muralhas de nuvens erguiam-se sobre a Ilha Bela
anunciando a frente fria
e nenhum dia era igual ao outro.
As janelas da minha casa,
naquela época não sabia,
abriam-se para a poesia.
Inventário de meus avós maternos
Tem bananal que sobe e desce morros,
pomar de todas as
frutas,
casa de telhas de
barro feitas nas coxas,
sala de chão
assoalhado
de dançar a chiba e
fazer o baile,
rádio de ondas curtas
pra pegar todas as
emissoras do planeta
na antena de fio de
cobre instalada sobre o telhado.
Na cozinha tem
farinha no barril
e muitos quilos de
sal
guardados sob o calor
do fogão à lenha.
Têm casa de farinha
com roda de ralar, prensa de fuso,
cocho, gamelas de
madeira e forno com tacho de cobre,
pra deixar a farinha
torradinha, farinha boa, farinha da terra.
No quintal tem café
secando ao sol, peixes secando no jirau,
dezenas de galinhas,
patos e alguns perus.
Tem uma jabuticabeira
carregada de frutas
E uma vovó que sempre
nos lembrava
para deixar um pouco
para os passarinhos,
Vovó era assim, não
lia nem escrevia,
Então falava poesia.
Nova lição
Quando vovô perguntou
o que eu tinha aprendido
eu respondi que a professora ensinou
que a baleia é animal mamífero
e não peixe como eu pensava.
- Mas não fique triste,
consolou-me o avozinho,
com aquela cara de peixe
a qualquer um ela enganava.
No quintal de meus avós
com a lembrança do quintal
de Seu José e Dona Eugênia:
Roupas, Peixes e grãos de café secando ao sol,
lenha empilhada à espera do machado,
galinhas e patos no terreiro
que vai até uma pequena queda d’água
suficientemente generosa para sustentar
guaru-guarus, camarões, rãs,
cobras d’água, cafulas
e matar a sede de curiosidades
das crianças de casa e arrabaldes.
Trilha caiçara
passa sob as árvores carregadas de frutos,
passarinhos, gaiolas de alçapão,
meninas de tranças, meninos de pés no chão,
ranchos de canoas, casas de farinha,
sapos na gamboa,
criação de patos e galinhas,
amendoeiras de raízes expostas,
pessoas com as almas expostas,
pescados às dezenas, aos centos
e continua a trilha
no recôndito dos sentimentos.















