terça-feira, 31 de março de 2026
Procura-se
Um dia desses...
- Antigamente o mar era mais recuado,
aqui era a casa do Bertolino,
o mar avançou sobre o antigo cemitério,
lá para cima tinha roças de feijão e mandioca,
e se procurar no meio do mato,
ainda se encontram laranjeiras...
você quer uma laranja, eu busco!
- Não, obrigado, deixa para os passarinhos
e fantasmas.
Causo de Tio Neco
Praia da Fortaleza de Ubatuba
Até 1970, a nossa praia isolada
era acessível somente por mar
ou por sete quilômetros de caminhada.
Ao longo do caminho, havia casas de pau-a-pique,
com terreiros onde se viam apetrechos de pescarias,
bananeiras, cafeeiros, jaqueiras, goiabeiras,
laranjeiras e muitas espécies de flores.
A riqueza das pessoas se media em roseiras,
antúrios, hibiscos, primaveras, margaridas...
A vida tinha sabor de eternidade,
mas depois a estrada foi alargada
para virem os automóveis e a modernidade.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Lista de arrelás
Balbúrdia de bugio, passo de saracura,
pio de inhambu, voo de tanajura,
toca de tatu, canto de sabiá,
luzes de vaga-lume, fagulhas de boitatá,
Bafo de onça, alvoroço de tiriba,
bote de jararaca, susto de guariba,
casa de jataí, grito de carcará,
música de mamangava, dança de tangará...
Arrelá!
Linguagem do mar
Debaixo de sol, debaixo de
chuva,
os tropeiros conduziam a tropa
de mulas
serra abaixo trazendo artigos
do planalto,
serra acima levando produtos
de Ubatuba
e um estranho linguajar com
sotaque de mar:
“Arrelá, bedes lá,
de gente sem-bergonha
não sejais alcobiteiro!”
E outros papos do povo
canoeiro.
Lições caiçaras
Foi com o tupinambá
que meu antepassado
aprendeu a fazer casa
de barro pilado,
de teto de sapé
de imbé amarrado,
no verão refrescado,
no inverno aquecido.
E depois da casa pronta
acrescentou um toque de poesia
ao fazer uso das taramelas
para trancar portas e janelas.
Lição do mar
Tem dias que o vento sul
transtornado em tormenta
ruge entre os brandais
e obriga o capitão
a orçar a embarcação,
porque no mar,
assim como na vida,
às vezes é preciso cambar
para não naufragar.
Lição de homem do mar
Quando o marinheiro embarcou pela primeira vez,
para pescar no mar de fora a bordo do barco Taurus,
foi o Mestre Benedito quem o recebeu:
- Veio preparado, moço,
pediu bênção à sua mãe e ao seu pai?
Se não, comigo não vai!
Lição de geografia
Nas alturas do Equador,
o Oceano Atlântico
sente tanta sede
ao atravessar aquelas zonas,
que abre a bocarra
e bebe todo o Amazonas.
Lição de Antônio Félix
Minha primeira casa
eu fiz de pau-a-pique em três
semanas.
Depois minha mulher a enfeitou
com um jardim e filhos bonitos
iguais a nós
e foi o lar de minha família
por muitos e muitos anos.
Mas, veja só, já trabalhei
mais de dois anos
junto com minha turma na
construção da casa
de um doutor de São Paulo
que a aproveitou por seis
meses e depois morreu.
E ainda dizem que o ignorante
sou eu.
Lição caiçara
Saibam que inimizade de gente grande
dura uma eternidade,
mas briga de criança
dura até ao próximo folguedo
de jogar bola, empinar pipa,
mergulhar no mar ou fazer castelos de areia.
E como está escrito
que delas é o reino dos céus,
Sebastião Almiro, caiçara,
preferiu fazer artes e brincadeiras
do que gastar o tempo em asneiras.
Lição
e os botos, na linguagem deles,
devem nos chamar de loucos.
De vez em quando,
dando mostras de comiseração,
eles salvam um náufrago, um afogado,
como salvaram Mano Grande, o Manuel Barreto,
quando sua canoa emborcou.
E nunca se viu um boto
matar seu semelhante,
ou emporcalhar tudo com poluição.
Será que ainda somos
o ápice de toda a criação
Licantropo?
Apareceu no quintal de Tia
Astrogilda
antes do romper da alvorada,
iluminado pela lua que ia a
meia altura
e envolveu-se em uma briga
com os cachorros de casa
num jogo de pega e morde
e o resto não tem explicação.
Peixe fora d'água
Comecei tão bem a jornada entre a terra e o mar,
princípio de vida caiçara,
mas acabei por me desviar
não sei em qual curva do caminho,
quando fecharam as possibilidades
de viver das atividades de pesca.
Desde então guio-me mais pelo que ouço e vejo,
sem dar atenção ao que sinto
e eis-me aqui, perdidinho neste labirinto.
Juruquivi
Um pingo de chuva
infiltrou-se pela palha do
sapé
e caiu no rosto do índio
Juruquivi,
despertando-o para espiar
a chuva em todos os quadrantes
e lembrá-lo da luta pela
subsistência.
Sem condições para luta
nenhuma
ele teve uma ligeira refrega
com uns pés de inhame,
fez o desjejum e voltou para a
rede.
Pra que ir contra as vontades
celestiais?
Tupã é mais.
Avô caiçara
Tem tantos Josés no mundo
e meu avô foi um deles.
Um José pescador,
devoto de Santa Maria,
um José que se ria tanto
ao contar as histórias
que, rogo a São José,
eu possa transformar em
poesias
seus casos de pescarias.
Avô pescador
Meu avô era rico com três canoas de madeira de lei
e uma rede de arrastar curtida
na casca da aroeira
pra não se estragar.
Uma vez por semana tocava o
búzio
chamando companhia pra
participar da pescaria.
A rede era arriada distante
algumas centenas de metros e
quando a canoa aportava,
homens, mulheres e crianças puxavam
os cabos.
Os mais velhos, ao
experimentar o peso da rede,
com antecedência se riam ou se
lamentavam.
Mas sempre tinha peixes bons,
estrelas do mar, tartarugas,
peixe-elétrico,
caranguejos, camarões,
baiacus para coçar a barriga
só pra vê-los indignados
encherem-se como balões.
Nós que éramos pequeninos
tínhamos a tarefa de salvar os
filhotinhos
devolvendo-os às ondas.
Ao fim do trabalho procedia-se
à partilha
da mistura para os próximos
dias.
Todo dia de pescaria era dia
de se maravilhar,
porque a rede sempre trazia surpresas
do fundo mar.
José Almiro
Não vos preocupeis em sair na
chuva
pois um dia há de parar, dizia
meu avô,
e enquanto o tempo estava ruim
fabricava balaios, torrava
café,
fazia farinha, cuidava do
tresmalho,
dos aviamentos de pesca
e, acredite quem quiser,
consertava peixes também.
Jesus Cristinho
Santa Maria, cadê seu menino?
Está brincando de pião,
de pipa, de bola de pano.
Santa Maria, cadê seu Menino?
Está reinando, nem liga
pro frio,
sobe em árvores, pula no rio.
Santa Maria, cadê seu menino?
Está aproveitando a vida,
como toda criança,
Jardim da memória
No jardim de Vovó Eugênia
floresciam as rosas,
jasmins, gardênias,
campânulas, rabos-de-galos,
damas-da-noite, açucenas,
e as flores da saudade,
da esperança e redenção,
que ainda cultivo na memória
para ulterior ressurreição.
Já dizia Vovó Eugênia
Brincos
de princesa,
estrelitzias,
câmpanulas ao vento,
flor do japão,
açucena, flor de lis,
chuva de ouro…
quem tem um jardim
tem um tesouro.
Ipê-Amarelo
Todas as horas do dia,
todos os dias do ano,
o ipê se prepara para,
no final do inverno,
despir-se das folhas,
vestir-se de ouro
e, nos dias seguintes,
derramar todo seu tesouro
domingo, 22 de março de 2026
Abobrinhas
Meu chuchu
diz que há de me amar,
mesmo sem
cacau,
e que
basta caqui, caju, cajá...
Se
juntarmos os temperos,
quais
serão os nomes dos filhos?
— Sálvia, Celso e Salsão!
Amo-a tanto, mas tanto,
que passo
a me chamar Amaranto.
Parece, mas não é.
Para começo de poema
morango nada tem a ver com moranga,
lagarto não é o companheiro da lagarta,
e a cavala não é parceira do cavalo.
E abelhudo é marido da abelha?
Nananinanão, o correto é zangão!
Quem entende?
No sábado, o menino acordou cedo,
alimentou-se
e foi jogar futebol com os amigos.
Ao voltar,
estava todo sujo e estropiado.
Era caso
para se lamentar,
mas
retornou cheio de satisfação... por quê?
A menina
foi à praia com colegas:
nadou,
jogou, bronzeou-se, tomou sorvete.
Perdeu a
noção das horas e, ao voltar para casa,
ficou de
castigo no quarto.
Fez cara
de triste diante da mãe,
mas, por
dentro, sorria... por quê?
Já foi à praia hoje?
Em uma praia cabe, por exemplo:
campo de jogar bola descalço;
reino com castelos de areia;
área de pesquisa de conchinhas;
aeroporto de gaivotas;
tela para desenhos com gravetos;
mirante de horizontes
para sonhar com viagens
e dossel de areia para deitar-se,
admirar e viver nas nuvens.
sábado, 21 de março de 2026
Um pequeno detalhe
O carpinteiro desempregado, que má notícia!
Logo arranjou serviço de porteiro, que alegria!
O patrão mandou cerrar a porta, coisa simples de fazer...
Ai, ai, ai! Ele pegou um serrote e serra que serra,
e, em vez de cerrada, a porta foi serrada.
Perdeu o emprego de novo; na próxima vez, vê se não erra!
E as crianças da Ucrânia, Irã, Sudão e Gaza?
Que a ONU faça, com urgência,
a lei de que crianças precisam
de quintais, jardins, parques de diversão,
escolas, praias, amizades
e carinhos de pai e mãe.
Que a lei deixe bem claro
que infância não combina com conflitos
e que conste no novo estatuto infantil:
"Antes de começarem qualquer guerra,
mandem as crianças para o Brasil."
Universo arbóreo
As famílias de passarinhos,
crianças, bromélias e frutinhas crescem
nos troncos e galhos das jabuticabeiras,
cuidado com as vespas brabas!
É época das pretas, retintas, jabuticabas.
Araucária
No primeiro ano
O menino plantou a semente;
No segundo ano a planta brotou;
No terceiro, ramos tímidos foram lançados;
No quarto, cresceu em graça;
No quinto, abriu os braços;
No sexto, alcançou as alturas do céu;
No sétimo, o menino, agora jovem,
Estendeu a mão e colheu pinhão.
Poema escrito na Serra da Mantiqueira
Quem acha que o mundo é chato
devia conhecer as serras brasileiras:
do Mar, da Bocaina, da Mantiqueira,
da Canastra, da Cantareira...
É um sobe e desce
de morros, colinas e picos nublados;
surpresas de pássaros, bichos, paisagens,
histórias, culinárias e outras viagens.
Nomes com sabores
Camila é a mais bonita Pitanga;
Cacau é apelido de Cláudia;
Ainda tem a atriz Mel Lisboa,
O compositor Dorival Chocolate,
e o Carlos Martins, ou Mestre Guaraná.
Haverá alguma Carla Jabuticaba?
Algum Pedro Maracujá?
sexta-feira, 20 de março de 2026
Inventário de meus avós maternos
Tem bananal que sobe e desce
morros;
pomar de todas as frutas;
casa de telhas de barro feitas
nas coxas;
sala com oratório da Mãezinha do Céu
e com chão assoalhado para dançar bailes;
rádio de ondas curtas pra
pegar todas as emissoras do planeta
na antena de fio de cobre instalada
sobre o telhado.
Na cozinha, tem farinha de mandioca no barril
e muitos quilos de sal
guardados sob o calor do fogão a lenha;
tem casa de farinha com roda
de ralar, prensa de fuso,
cocho, gamelas de madeira e
forno com tacho de cobre,
pra deixar a farinha
torradinha,
farinha boa, farinha da terra.
No quintal, tem café secando ao
sol;
peixes secando no jirau;
dezenas de galinhas, patos e até perus.
Suíno não podia, porque era
pecado
comer carne de porco na casa
de meus avós.
Ingrediente secreto
Eu bem que tentei
Fazer um pirão de peixe
Igual ao de minha avó Martinha:
Usei o mesmo tempero,
O mesmo peixe correto,
Com a nossa farinha...
Só faltou aprender o bendito
Que Vovó costumava entoar
Enquanto mexia a panela,
Para o pirão não desandar.
Impressão
Céu azul
entre nuvens esfiapadas;
cerejeiras em flor
na paisagem espalhadas;
luzes e cores
em pinceladas entrelaçadas.
Desconfio que Van Gogh
quis aperfeiçoar
no que Deus tanto caprichou
no momento de criar.
Historinha
Paulinha ficou encantada quando desenhei
o tubarão-martelo, o peixe-rei, o peixe-espada
e o peixe-lua rodeados de
estrelas no fundo do mar.
E ela só ficou sabendo
que a imaginação ficou aquém
da realidade
quando descobriu
que esses peixes existem de
verdade.
História recente
Antigamente as crianças caiçaras tinham quintais
com bananeiras, laranjeiras,
goiabeiras,
jabuticabeiras e muita
caapoeira.
As crianças tinham espaço
pra jogar futebol,
pra empinar pipa,
pra fazer jogo de roda,
balanço e gangorra.
Tinham areia pra se sujar,
rio pra se lavar
e soltar barquinhos feitos em
pau de caixeta.
O tempo passou rápido demais
para aquela geração,
hoje seus filhos vivem
apertados
em terrenos 10 x 30, em
horizontes 10 x 30.
Nossa Senhora de Ubatuba
Quando, na opinião de Vovó
Martinha,
eu alcancei inteligência,
ela me contou uma história
maravilhosa
de flores que choveram do céu,
de uma panela de pirão
que alimentou uma multidão
e de crianças de pés descalços
que pisaram no reino dos céus.
Tudo isso sucedido no Sertão
da Quina,
quando ainda era menina,
quando os caiçaras ainda
pescavam
e as pessoas ainda rezavam.
História do marinheiro Benedito
Minha intimidade com o mar
começou na praia em que nasci,
no mergulho em que renasci,
na canoa de meu avô,
nos ofícios de pescador,
e fui ganhando confiança,
e fui vencendo distância,
e pesquei rente à costa,
e pesquei embarcado,
e fisguei quem me gosta
e também fui fisgado.
Mas quem há de enredar
um pescador escolado?
Adentrei o oceano,
naveguei em cabotagem,
ganhei muito dinheiro,
gastei tudo em bobagem.
Trabalhei em longo curso,
aportei até em Roterdão
e não consigo mais sossegar,
senti o gosto do mundo
meu destino é navegar.
Histórias do mar
O apóstolo São Pedro
é protetor dos pescadores
e dos pescados também.
Quando é necessário
dar um sossego
para os bichinhos do mar,
o Santo solta o arreio dos ventos
e deixa a tempestade a uivar,
de não sobrar uma canoa ao largo
e nenhuma vela no horizonte,
pois, se o pescador é valente,
é, também, às ordens do céu, obediente.
História do Mano Grande
Tia Ana da Fortaleza
contou-me que seu avô,
Manoel Alves Barreto,
conhecido por Mano Grande
da Praia Brava,
andava por todo lugar
e a fé testemunhava
com sua escritura sagrada,
até que em dia de pesca
sua fé foi provada
com a canoa emborcada
em pleno mar-virado.
Ele e João de Deus
acabaram arrastados
junto com a embarcação
para a morte no costão
da Praia da Caçandoca.
Foi aí que Mano Grande apelou
pra Nossa Senhora Aparecida,
que mandou um boto
que resgatou suas vidas,
ainda que meios rotos.
Depois, em trajes de pesca,
fizeram a prometida
peregrinação
para Aparecida do Norte,
em agradecimento e devoção
à Santa que os livrou da
morte.
História de ventos
Um dia, na capoeira lá de
casa,
houve uma briga feia
entre as massas de ar,
a casa de farinha desabou,
foi a nocaute o bananal,
as aves ficaram arrepiadas,
e o gigante tarumã
por pouco não tombou.
Irremediavelmente perdida,
porque o vento levou,
ficou a camisa do Santos F.
C.,
um regalo de meu amor.
Histórias de pescador
Vinte mil léguas submarinas,
A Ilha do Tesouro,
Robinson Crusoé,
Moby Dick,
Trabalhadores do Mar,
Os Lusíadas,
O Velho e o Mar
e nos diários de bordo
do piloto Nelson José,
acredite quem quiser.
Histórias de pescador
O pescador Benedito,
por ordem da medicina,
ficou fundeado em casa
por longas semanas de inverno
e começou a piorar
à medida que lá fora
o tempo principiava a
melhorar.
E foi por teimosia
e marinheira intuição,
depois de uma prece a S.
Pedro,
santo de sua devoção,
que mandou tirar as cracas
que iam tomando conta
de si e de sua embarcação,
pinchou fora os cataplasmas
e saiu para pescar.
A partir de então
viu sua saúde retornar.
História do pescador Tonico
Por ilusão de ótica
ou excesso de poesia,
Tio Tonico, por um momento,
pensou ter colhido a Lua
Histórias de céu, terra e mar
No dia que Tio Chico
chegou diante de São Pedro
não foi reconhecido
porque vestia fatiota de defunto.
- Ó, meu São Pedrinho,
que sua intercessão me salvou
na tormenta de 63,
me valei mais uma vez!
Sou eu, meu Santo,
de pescar de corrico,
de largar o espinhel,
de consertar um peixe
e de pescar no parcel!
Então São Pedro abriu a porta
porque para entrar no reino do Senhor
tem que ser igual uma criança,
tal qual o velho pescador.
História de Caronte
Antigamente havia só a trilha
que subia e descia
seis morros e seis praias
por sete quilômetros
de canseiras e de belezas
até atingir a Fortaleza.
Cargas grandes só pelo
mar,
inclusive a última viagem
de quem cumpriu seu eito.
E foi assim que lá do alto da
estrada,
Bito Celidônio gritou para
saber
quem tinha falecido
e o canoeiro respondeu
que tinha sido o Bito
Celidônio.
Sinfonia das alturas
Nada de silêncio na Serra da Mantiqueira:
curicacas gritam o próprio nome,
maritacas disparam rajadas de barulho,
tucanos soam como dobradiças enferrujadas.
E há ruídos de ventos, gados que mugem,
trinados e gorjeios de passarinhos.
Nada de silêncio, mas a sinfonia ancestral
de celebração da vida natural.
Sensibilidade rústica
De manhã o vento sopra do mar;
nuvens escondem os altos das montanhas.
Há muita umidade no ar.
O roceiro sabe que vai chover;
faz uma prece de agradecimento a Deus.
Há muita humildade no ar.
quinta-feira, 19 de março de 2026
A linguagem dos bichos
Um pássaro avisa outro,
que informa a maritaca;
esta logo faz uma gritaria,
que alerta toda a criação.
Quem não entende pensa que é festa,
mas todo esse palavreado significa:
- Cuidado, tem homem na floresta!
Em São Luís do Maranhão
Eu vi uma casa vitimada pelo tempo,
disputada pelos herdeiros,
a derruir-se em telhas quebradas,
fragmentos de estuque e pau a pique.
No quintal cheio de mato,
as laranjeiras e goiabeiras teimam em ofertar
frutos para os fantasmas.
Umanità
Olha isso, Alfred Nobel: a sua dinamite
que fazia as pedras em pedacinhos,
foi modificada por um demente
para fazer o mesmo com a gente.
O avião de Santos Dumont,
feito para nos aproximar do céu,
foi municiado de bombas e metralhadoras
para precipitar pilotos no inferno.
E o drone, das úteis imagens aéreas
e serviços para a agricultura,
é usado hoje - ninguém merece! -
para matar pessoas por GPS.

