sábado, 2 de maio de 2026

Uma questão de vida ou morte



Quando a luz elétrica chegou em nossa praia,

instalaram também lâmpadas nas ruas que levam ao mar.

Não passou muito tempo e minha avó,

sempre atenta aos detalhes da vida,

notou mariposas, efêmeras e vagalumes mortos

pelo chão e dentro dos globos das luminárias.

— José, venha cá ver este morticínio!

Meu avô aproximou-se, olhou e desdenhou:

— São só insetos mortos, mulher. É o preço de chegarmos ao futuro.

— O futuro é assim? Prefiro que as noites continuem no escuro!



terça-feira, 28 de abril de 2026

Lâmpadas x mariposas

 

Foi em Ubatuba, na Praia da Fortaleza,

no ano de 1975, com toda a certeza,

que a mariposa saiu do casulo,

admirou as maravilhosas asas 

e lançou-se ao ar, procurando a luz da lua.

Isso aconteceu, infelizmente, no mesmo dia

em que se inaugurou a benfeitoria da iluminação de rua.

A pobrezinha lepidóptera,  assim como acontece com muita gente,

se ofuscou com a falsa luz e finou-se na lâmpada incandescente.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Viva a vida!

A criança brincava na chuva, pulava no rio,

subia em árvores e andava com os pés no chão,

como se não sentisse frio.

Uma madame de São Paulo viu tudo aquilo

e acusou a mãe, uma caiçara das antigas,

de ser muito negligente.

- Toda criança, senhora, devia ter o direito de viver plenamente!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O velho oeste era aqui

Quando os filmes de caubóis estavam na moda,

após as sessões de cinema, por dias seguidos,

a gente mudava a postura, os modos e até o andar.

Nossos nomes eram Durango Kid,  Bat Masterson, Búfalo Bill

e, vez ou outra, no grupo havia até a Calamity Jane.

Nossa linguagem se tornava peculiar:

'Tenho um encontro marcado com o destino!';

'Não preciso de sua piedade!';

'Respeito é bom e conserva os dentes!' 

E, olhando em retrospectiva, 

mal dá para acreditar o quanto éramos valentes.




Sonho sob a amendoeira


Não era muito tarde
quando deitei na areia da praia.
Fiquei a olhar o desenho animado
de céus, pássaros e nuvens;
a ouvir a trilha sonora das ondas
que quebram no lagamar, 
até que adormeci e sonhei em tupi-guarani,
que o rei das matas voltou a ser o jaguar;
que o rei dos céus é taguá, o gavião;
e que o reino do mar é de iperu, o tubarão;
Já o ser humano não apareceu,
nem estragou o meu sonho, não.




Só para contrariar

Algumas pessoas foram tão santas e a sintonia com o céu foi tanta, que chegaram a levitar.

- Santa Teresa, São José de Cupertino e São Martinho: desçam já daí! Gente não pode voar.


A práxis poética

Escrever poesia é fácil, difícil é praticar.

São Francisco orou, reformou igrejas, escreveu poemas

e conversou com os bichos. E eles respondiam:

"- Irmão lobo, por que você é tão violento com as pessoas?

- Violento? Eu só as ataco antes que elas venham me atacar!"


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Noites antigas


Quando eu  era mais criança

As noites eram mais belas,

Viam-se mais estrelas,

havia visões de licantropos

E, até um ou outro caso de boitatá.

Tudo isso a civilização da luz elétrica

acabou por expulsar.

Sinto mais falta, mesmo, é dos fabulosos pirilampos.

Hoje, para ver unzinho que seja,

só indo bem longe, nas matas ou campos.




terça-feira, 21 de abril de 2026

Meu bom José

Rita Lee chegou ao céu, viu um santo barbudo,

pensou que era São Pedro, mas se enganou.

Ele se apresentou: - Pode entrar, Eu sou o José da sua canção!

Tomou-a pela mão e a fez se sentar.

Então, um coro acompanhado de harpa e violão,

com vozes celestiais, começou a cantar:

"Olha o que foi, meu bom José,

Se apaixonar pela donzela

Entre todas, a mais bela

De toda a sua Galileia..."

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Ajudante Nerd

Quando a mãe chegou em casa, estranhou a cozinha limpa:

-  Filho, cadê a louça do almoço?

- Eu lavei, mãe!

- Mas não tem nada sobre a pia!

- Está lá fora, no estrado, sendo tratada

com raios infravermelhos e ultravioletas.

- O quê?

- Está secando ao sol, mamãe!


Maranduba, 1967

 Quando um eletricista da Light

despencou do poste de alta tensão,

buscaram minha avó benzedeira

para fazer o primeiro atendimento,

pois o socorro ia demorar.

Logo, o acidentado deu sinais de recuperação.

Vovó Martinha curava com orações cristãs

e remédios da tradição tupinambá.



Projeto de vida


Paulinha me contou que, quando crescer, 

quer ser uma "rocamboleira".

- Quer ser o quê, Paula?

- Rocamboleira, para fazer rocamboles deliciosos, doces ou salgados, tá ligado?

Devo confessar que fui surpreendido,

e que estava mesmo desligado da beleza da lógica da criança,

mas vou me ligar; ainda tenho essa esperança.

domingo, 19 de abril de 2026

Caso sério


 A mãe escutava o filho conversar com o coleguinha:

- Hoje não vou à escola, mamãe vai me levar ao ornitorrinco!

- Otorrino, Victor, vou levá-lo ao médico otorrinolaringologista!

- Ah, mãe, não foi isso que entendi. Então não quero ir!

O menino e o mar

A mãe quis saber onde o menino tinha ido.

- Fui espiar o mar, mamãe.

- E o que mais?

- Mais nada. Só espiar já foi suficiente.



Cabelos ao vento


Todos os dias, ao acordar,

Ana Maria penteia os cabelos,

exceto naquele sábado.

- Ué, menina, vai ficar assim toda desguedelhada?

(desguedelhada é uma palavra muito usada pelas vovós,

em especial, aquelas do litoral de São Paulo).

- Hoje é trabalho perdido, vovó.

Daqui a pouco vou sair e, veja só:

lá fora está o vento bagunceiro,

despenteando até folhas de coqueiro!



Ex-astronauta

Na aula de ciências,

as crianças da sétima série viajaram pelo sistema solar.

A prô mostrou o vídeo da Terra girando,

com a lua e os planetas rodopiando também,

e até o Sol em um giro sem fim.

No melhor da aula, Régis sentiu um mal-estar.

- O que lhe aconteceu, menino? Perguntou a professora.

- Ai, estou passando mal...

a culpa é de tanta rotação e translação,

acho que não sirvo para ser viajante espacial.


sábado, 18 de abril de 2026

A vida não tem bis

Escola primária até meio-dia,
duas vezes por semana tem natação,
mais o curso de inglês e a escola de dança.
Beatriz ficou doente e a levaram à pediatra,
que logo diagnosticou  e escreveu na receita:
"A menina não tem tempo para ser criança.
Precisa brincar mais de pique, 
de balanço, de pular corda, de ciranda..."
Sua vovó, ao saber, decretou:
- Começaram as férias!
E  veio buscá-la para levar para Minas
(Toda criança devia ter uma vovó em Minas Gerais).
- Ufa, foi por um triz, Beatriz!


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Massa de ar frio


Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



terça-feira, 14 de abril de 2026

A culpa foi de Jackson Pollock!


Uma moça bonita, usando blusa de moletom,
reparou nos tinhorões, voltou-se para mim
e mostrou as folhas verdes
com manchas vermelhas e brancas:
- Algum pintor desastrado
derramou tinta nestas plantinhas,
mas o resultado ficou bom!
O que eu poderia dizer
a uma moça bonita de moletom?

A teoria, na prática, é outra.


Sem mais nem menos, uma vozinha veio lá do quarto:

— Papai, será que tem algum óleo para lubrificar o tucano? Ele range igual a uma dobradiça enferrujada!

O pai, pego de surpresa, respondeu: — Uai, de onde foi que você tirou essa ideia, filhinha? E, pelo que consta, a vocalização do tucano é o grasnado, não o ranger!

Nesse momento, escutou-se o "nheeeeeec" do tucano nas árvores, ao fundo do terreno.

— Escuta só, pai!

E a menina pôs-se a rir, até a barriga doer.


Bichos teimosos

Sir Newton, explique a lei da gravidade para a lagartixa,

pois parece que ela não entendeu nada:

olha ela subindo a parede,

agora está pendurada no teto,

olha ela dando risadas...

Sir Newton, me diga se isso está certo!


Monsieur Bernoulli, diga ao besouro 

que ele não pode voar - não pode!

E que, pelos princípios da aerodinâmica,

seu destino é rastejar no chão;

e, nunquinha, nanja, negativo,

jamais poderia alçar voo melhor que um avião.


Dominus Arquimedes, o lagarto-basilisco,

de novo, está fazendo subversão;

a sua lei diz que o mais pesado não pode flutuar,

mas o bicho - oh, nem te ligo! - 

corre sobre o lago sem afundar.


Gynura aurantiaca

Para onde ia, Vovó Martinha levava presentinhos:

geralmente, ramalhetes ou mudas de flores.

Ela gostava muito de rosas, margaridinhas, 

lírios de todas as cores e tinhorões psicodélicos. 

Um dia ela chegou com uma planta maravilhosa:

a veludo-roxo, que na verdade é furta-cor.

E sempre dizia: - Trouxe um presente para vós!

Esse era o seu jeito de demonstrar amor.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Não é verdade, Zé?


Se, por um infortúnio, houver espaço

para uma só planta em seu jardim,

escolha o malvavisco-de-flores-vermelhas,

que oferta néctar em abundância.

Além das flores, seus olhos terão satisfação

na delicada elegância de beija-flores e mariquitas,

e com a beleza das borboletas de todas as cores.

Ou seja: o malvavisco é uma planta superstar

com muitos tietes a lhe rodear.


A rainha do império botânico


Tem gente que se acha afortunada por ter

meia dúzia de espécie de flores no jardim;

imagina, então, a riqueza de Vovó Eugênia com:

margarida, azevinho, helicônia, samambaia,

antúrio, begônia, lírio, dracena,

 hibisco, coração-sangrento, marianinha,

 rosa-louca, tumbérgia, jasmim, alecrim,

filodendro, alegria-dos-jardins, mariquinha-da-serra,  

estrelitzia, flor-borboleta, coromandel, caliandra,

 orelha-de-onça, primavera, manacá, resedá,

 mil-cores, campânula, amapola, bela-manhã, 

amor perfeito, centáurea,  amarílis, flor-de-lis,

orquídeas, cananga-do-japão, costela-de-adão...


Para Paula, com umas flores.

 


Ah, Paula, filha querida, se eu tivesse a vivência de hoje, seu nome de batismo seria: 

Paula Nadina Bela-Emília Sálvia Amapola Verônica Angélica Cravina Íris Violeta Rosa Margarida  Hortênsia Petúnia Dália Vanda Açucena Zínia Verbena Orquídea Camélia Félix dos Santos.


A hora da panambi

Todos os dias, lá pelas cinco da tarde,

mesmo que estivesse jogando futebol,

eu voltava para casa:

era a hora da panambi, a borboleta azul.

Ela vinha borboleteando da mata

e, se ficássemos quietinhos,

chegava bem perto da gente.

Via que estava tudo em paz,

pousava nas flores do quintal,

descansava um tanto, bem à vontade,

e depois partia, muito lepidóptera.

Mas retornava no dia seguinte, bem pontual.


Poema de outono


Gosto tanto das tardes de outono

que até dá vontade de ficar doidinho

e sair por aí pintando as folhas secas,

só para reverdecê-las

e retardar o início do inverno.

domingo, 12 de abril de 2026

Vaga para peixinho dourado

Se eu fosse um peixinho do Rio Indaiá,

eu ficaria mareado, eu ficaria enjoado

de tanto ser jogado para lá e para cá.

Eu iria me mudar, iria migrar

para o fundo do mar.

Se o mar não tivesse lugar para mim,

então eu seria o novo peixinho dourado

no aquário tranquilo e bem cuidado

da menina dos cabelos cacheados.




.


Jardim caiçara

Vovó Eugênia foi uma jardineira de mãos cheias,

que plantou margaridinhas, flores-de-maio,

campânulas, lágrimas-de-cristo e flor-do-japão;

cultivou a mil-cores, da folhagem

em todos os tons de verde, branco e rosa.

Seus canteiros de flores atraíam as abelhas, 

borboletas, mariquitas, colibris e a mim.

Quando chegávamos ao seu quintal,

primeiramente cheirávamos todas as rosas e jasmins

 

sábado, 11 de abril de 2026

Aprendiz de naturalista

Entreguei o binóculo para Paula e disse:

- Olha para o mar e veja se tem 

peixe pulando, ou baleia saltando, ou tartaruga boiando...

Ela olhou para uma direção, depois para outra,

e balançou a cabeça:

- Para facilitar para a gente,

bem que eles podiam ter cor fosforescente.



Vó sabida

Prefiro fogão a gás,

geladeira elétrica

e lâmpada de Édison.

Quem discordar que vá rachar lenha,

salgar peixe

e cheirar fumaça de querosene. 

Vovó Dina

Muito antigamente, eu tive uma vovó

que ensinou para seus filhos, que passaram adiante,

que o jeito certo de criar crianças

é com alimento na barriguinha e muito carinho.

Que a meninada deve brincar

e, ao mesmo tempo, aprender:

nomes de bichos, plantas, lugares;

remédios feitos de ervas e orações;

técnicas certas de plantar, caçar, pescar...

Eu tive uma avó que foi apresada e batizada de Dina,

mas o correto seria Flor da Praia - Poty Rebembeybá.

Ela foi uma sobrevivente do povo Tupinambá.





Poesia em dia sem ventos


Se em dia sem ventos, em uma praça arborizada,

uma única árvore balançar os finos ramos,

pode se aproximar sem receios,

para investigar e se maravilhar:

é o bichinho caxinguelê entretido em viver.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Poema do paradoxo


-  Cento e trinta e quatro, cento e trinta e cinco, cento e...

Um menino contando os passos passou por mim, 

descendo a rua da praia.

Não quis atrapalhar sua matemática,

então não perguntei nada,

mas, também, já adivinhava sua intenção,

pois também já fui criança que quis saber a distância

que nos separava do mar.

Mas, adianto desde já, 

é uma distância que conforme a gente cresce,

só faz aumentar.




quarta-feira, 8 de abril de 2026

Calango tango


O rapaz, acho que tinha um parafuso a menos,

achou um bichinho parecido  com calango.

- Que animal bonitinho!

O réptil gostava de pedacinhos de peixe.

- Que animal fofinho!

Mas logo passou a comer peixes inteiros. 

- Que animal crescidinho!

- Existe calango com mais de metro? - quis saber um vizinho.

- Esse é um deles, Zé! 

Mas para ninguém criar caso, vou apelidá-lo de jacaré.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Um mundão de passarinhos


De que adiantariam todas as árvores da floresta

se não houvesse passarinhos?

Um mundo sem cantos, sem voos rasantes,

sem a festa de cores nas matas.

Sem o grito e sem o susto do gavião-carcará,

sem as sete vestes da saíra-de-sete-lenços

e nada do tangará a dançar balé.

E como a gente ia viver

sem a poesia e melodia de Patativa do Assaré?

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Escola da vida

Pais não fazem cursos para serem pais;

aprendem muito com a primeira criança,

um pouco mais com o segundo bebê

e, no terceiro, já sabem interpretar 

choro, cólica, sono, xixi, cocô...

Mas, melhor mesmo, posso usar a rima? 

é alcançar a perfeição sendo avó ou avô.

domingo, 5 de abril de 2026

São João da Praia da Fortaleza

Os adultos vestem roupas domingueiras

para a missa na capela de São João Batista.

Já as crianças vão de bermudas e chinelos de dedos

e São João nem liga;

o importante é que elas estejam por perto.

Afinal, o próprio santo vestia-se de peles de animais

e comia gafanhotos no deserto.


Rico com os pés descalços


Quem tem o pleno uso das faculdades mentais
sabe que a maior riqueza não é o ouro;
isso, qualquer psicopata pode acumular.
Melhor que tudo isso-
lição de São Francisco de Assis-
é partir pelas estradas com uma túnica
e um par de sandálias,
para ganhar o bronzeado da vida ao ar livre,
para conhecer os lugares, gentes e costumes,
e aprender outras linguagens,
inclusive a língua dos animais.
São Francisco pregou para as pessoas e pássaros,
abençoou os peixes, 
as ovelhas gostavam de sua companhia,
fez amizade até com o lobo de Gubbio, chamando-o de irmão.
Encontrou uma riqueza escondida,
aquela que se leva quando chega a hora
de partir para o outro lado da vida.



Tratado sobre poemas


Se eu fosse poeta dos "bão",

reservava as manhãs para pesquisar

os assuntos mais importantes:

memórias de velhinhos,

pérolas ditas por crianças

e conversas de passarinhos.

Também ia ler os livros tipo:

'Arquitetura dos castelos de areia',

'Técnicas de voo de Ícaro',

'Biografia do Padre Bartolomeu de Gusmão'...

Tudo isso para obter matéria-prima de poesias,

se eu fosse poeta dos "bão".




Notícias que o vento traz

É tempo de o vento minuano,

vir cavalgando do sul,

com corpo de nuvens e crinas de ventos,

acima das coxilhas e dunas, cânions e lagunas,

matas, praias e restingas,

trazendo mensagens de abril 

para São Luiz do Paraitinga,

terra natal de Aziz Ab'Sáber:

lá vem a geada e o frio! 




sábado, 4 de abril de 2026

Poema de cuitelinho


Um cuitelinho novo por aqui -

será que veio de Minas?

Será o mesmo da música de Milton?

Chegou no jardim de casa, beijou as flores que quis,

voou, pairou, revoou e chocou-se com a vidraça.

Acho que bebeu néctar fermentado, o infeliz.

Biologia caiçara

Eu sei o que tem no meio do mato:

bichos de todas as espécies,

tem herbívoros, carnívoros

e os colibris, que vivem de beber néctar.

Serão eles bebívoros?

Meu tio também bebia muito,

mas não bebia para viver,

somente para esquecer.

Ave Maria!

No século passado só havia escola na cidade, 

bem longe da gente,

porque o país não tinha escola suficiente

para atender a nós, nas praias isoladas.

Mas a catequista que vinha ensinar religião,

também nos ensinava como enfileirar as letras em palavras

e a pôr ordem nos números até fazerem sentido.

Ela nos chamava de "meus queridinhos analfabetos".

mas completava sempre: "- Analfabetos, mas espertos".

Eu gostava muito quando falava dos Santos de Deus,

dos seus milagres e de muita sabedoria.

Depois escrevia algumas palavras em uma lousa e perguntava:

- "O que está escrito aqui?"

 - "Ave Maria!"



Brasileiro, americano.

Sol ao sul, céu azul,

quem precisa, vai trabalhar;

quem está de folga, vai para o mar;

de manhã tem o calor do sol,

de tarde vem a chuva de verão;

crianças dançarão na chuva

e quanto mais sujarem os pés na lama,

mais limpa ficará a alma.

Sol ao sul, céu azul,

sou brasileiro, sou americano do sul.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Popótis e outros bichos


Passear no zoológico é bom,

mas ouvir as crianças é melhor:

"- Esse leão preguiçoso só dorme,

alguém devia cutucá-lo!"

"- Não vou entender nada da voz do elefante,

ainda não aprendi elefantês!"

"- Gostei mesmo foi do popótis!"




Ave, urutau!



John Audubon embrenhou-se no mato,

foi observar e pintar pombos, corujas, gaviões, pica-paus,

um bando de aves, centenas de passarinhos...

Será que viu o pássaro urutau,

ou pensou que era só um pedaço de pau?


Pedro é pedra


Na praia cheia de pessoas
e poucos caranguejinhos da areia,
todo mundo repara no mar,
nas mulheres de biquíni,
na vegetação de restinga,
nos morros cobertos pela mata atlântica;
mas ninguém repara nas pedras da costeira...
Eita, uma pedra se moveu!
Ora, é o Pedro Caipira, que seria campeão de estátua,
se entrasse na brincadeira.

Histórias de Ubachuva

Não sei como está o resto de Ubatuba,
mas na Praia da Fortaleza choveu uma semana inteira.
A estrada ficou vazia
e não havia ninguém nas vielas que levam ao mar.
Um animal marinho subiu à areia,
sentindo-se à vontade
em cem por cento de umidade relativa do ar
e sem nenhum ser desumano à vista.
Meu avô estava lá para vistoriar sua canoa;
com capa de chuva, bem protegido,
mas era só um velho conhecido.








terça-feira, 31 de março de 2026

Procura-se



Senhor Viramundo 
que hoje está aqui e amanhã, acolá, 
quando vir uma casa simplesinha,
de paredes caiadas e janelas azuis,
repare se tem goiabeiras no quintal
com ramos fortes para passarinho pousar e cantar,
para pendurar balanço e para criança se exercitar.

Espie se no terreiro tem patos, galinhas
e um cachorrinho chamado Peri.
Escute se tem músicas e alegrias extravasando por portas e janelas.
Veja se tem uma Vovó Martinha,
observe e depois me avise;
pois é, meu amigo, essa casa já foi minha.