quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sonhos a realizar


Mamãe, é para você ficar contente,

Eu tenho sonhos a realizar

Entre a alvorada e o poente.

Eu devia estudar

Os verbos e suas conjugações

Os números e suas variações

Ser aprovado no vestibular

Para ficar bem empregado

Para trabalhar engravatado,

Escolher o parlamento,

Votar para presidente,

mas, lamento, o mundo está doente

e eu tenho sonhos a realizar

entre a alvorada e o poente.

 

Aqui na Terra continua a ter

poucos ricos e muitos pobres,

penúria de um lado; 

de outro, ostentação;

e muitas vítimas de balas perdidas

em guerras declaradas ou não.

Mas ainda não é caso,

mesmo com o dinheiro no controle,

de descartar este pobre planeta

em um maldito black hole.

 

Não, não quero viver com bons modos,

com roupa social e o escambau,

passando calor no país tropical,

pagando o pecado de Pai Adão,

perdido em meio à civilização.

Mamãe, vou seguir em frente,

eu tenho sonhos a realizar

entre a alvorada e o poente.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Canção de ninar



Dorme, menininho,

que o sol também já foi dormir

e levou consigo todas as cores do mundo.

Menininho, tá na hora de adormecer,

pois o vento já estendeu um cobertor

de nuvens espessas para aquecer

quem não tem onde se abrigar.

Dorme, menininho,

dorme para o sonho acordar.

 

Dorme para acordar o sonho

de que todas as crianças,

mesmo as de apartamentos,

terão direito a um jardim,

para viverem bons momentos

em brincadeiras de amarelinha, pique-esconde

e o rei mandou, com poder de autoridade suprema,

que se cumpra este poema.

 

Dorme, menininho,

e sonha um sonho que traz

a esperança de que todas as crianças

terão o direito de ter mães, pais, pão e paz.

 

Dorme menininho, dorme para o sonho acordar.

 

Espie lá fora



Os dias passam e vem o tempo

Em que a tristeza vai chegar,

vai chegar para importunar,

Mas não, não deixe ela ficar.

 

Sem perceber, a saudade vai querer

Que você fique ensimesmada,

Para que não possa ver

que o futuro está todo dia

Germinando plantas no quintal.

Preparando os botões das flores

para brotar um novo astral.

 

Vá se aquecer ao sol

e seu coração esquentará também.

E se chover, dance na chuva,

Que a chuva lava a alma, meu bem.

 

Pega leve consigo e não esqueça

que tem uma criança dentro de si,

a fazer traquinagens

só para você voltar a rir.

 

O tempo frio vai passar,

o sol da primavera chegará

para aquecer, só para aquecer

você, e você vai florescer.

 

São Isidoro, rogai por nós


São Isidoro, rogai a Deus por nós,

Que só queremos, só:

dormir com a noite, acordar com o sol;

cuidar da terra, cuidar das amizades

plantar, ter fé, colher, pescar;

e encarar com naturalidade,

no meio do que é comum,

os nuances da eternidade.

 

São Isidoro, rogai a Deus por nós,

Que só queremos, só:

Uma roça de mandioca e feijão

para ter farinha na barrica

e sustança na refeição.

Uma viola para pontear

E as bênçãos de Deus, Nosso Senhor,

para nunca nos faltar amor.

 

São Isidoro, rogai por nós

que só queremos, só:

um ranchinho com varanda para sestear;

um pedaço de terra para lavrar;

um fogão bom de cozinhar;

um moinho de moer café;

um oratório para fortalecer a fé;

um pilão de pilar milho,

arroz, temperos também

e paçoca de amendoim. Amém!



 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Canção dos seres das matas e dos mares



Voo de tanajura, toca de tatu,

pio de inhambu, canto de sabiá,

balbúrdia de bugio, passos de saracura,

luz de vaga-lume, fagulhas de boitatá...

Onde é que estão, onde foram parar?

 

Esturro de onça, alvoroço de tiriba,

música de mamangava, dança de tangará,

bote de jararaca, susto de guariba,

casa de jataí, grito de carcará...

Onde estão, onde foram parar?

 

Salto de jubarte, cardume de tainhas,

alerta de maritaca, abraço de tamanduá,

chamado de acauã, papo de jacaré,

manha de ariranha, voo de panapaná...

Onde é que estão, onde foram parar?

 

Rastro de paca, disfarce de urutau,

sombra de caipora, listras de maracajá,

pulo de cutia, esperteza de guaxinim,

toca de João de barro, cores de surucuá...

Onde estão, onde foram parar?



 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Não se amarre em um homem do mar





Não, não, não, não,

Não se amarre em um homem do mar,

pois quando você estiver envolvida,

irremediavelmente apaixonada,

vem o tempo da partida

 

Vem o tempo de deixar

o porto bom de seus braços

e enfrentar as tempestades

que podem levar para o fundo

quem não está bem ancorado

nas convenções do mundo.

 

Não, não, não, não,

não lhe dê seu coração,

não lhe entregue seus sentimentos,

que amanhã ele poderá se distanciar

à mercê das mudanças dos ventos.

 

Não, não, não, não,

não lhe dê seu coração,

pois se o vento soprar por rumos tortos,

onde reencontrá-lo

nessa infinidade de portos?

 

Tem poema na escola


A maioria dos alunos prefere educação física,

a maioria dos meninos quer ser jogador de futebol,

a maioria das meninas quer ser médica ou juíza,

mas tem alguns sem juízo, valei-me santa didática,

que querem ser engenheiros, mas não gostam de matemática;

ou pretendem ser jornalistas, mas detestam a gramática.



domingo, 14 de junho de 2026

Caiçarinha


Caiçara, desde criança,

aprende a remar canoa,

a mergulhar em apneia,

a pescar com arpão,

a nadar nas ondas,

a almoçar pirão,

a saltar com efeito...

E ainda dizem por aí

que pescador bom já nasce feito.


Viva o Zeca Baleiro!

 - Quem é que tem

uma história para contar,

uns versinhos para declamar

e um violão para encantar?

- Quem tem tudo isso e muito mais:

adivinhação para adivinhar,

músicas para cantar,

e balas no bolso para compartilhar?

- O Zeca brasileiro, o Zeca festeiro, o Zeca Baleiro!



terça-feira, 9 de junho de 2026

Far away



Meu parente estava lá

vendo os homens ficarem cruéis,

sujando os rios e o Mar,

cada vez mais, Vermelho de sangue.

E os impérios se sucederam:

Babilônia, Egito, Pérsia,

Síria, Fenícia, Grécia,

Roma, Arábia, Turquia,

Grã Bretã, grande Tio Sam...

 

E as pessoas passaram a se matar

Com bordunas, lanças e flechas,

carabinas, bombardas e canhões,

fuzis, tanques e aviões,

e bombas made in Rússia, USA,

Meu parente estava lá

far, far, far away...

 

domingo, 7 de junho de 2026

Onde você pisa nasce uma flor


Meu bem, tô cuidando do jardim,
árvores atiram flores em mim,
rosas se abrem na roseira,
o rádio canta música brasileira.

Os pássaros também estão a cantar
Que a primavera está pa chegar,
Por isso comprei, meu bem,
Uns panos cheios de cores também,
Para você ornar
com a nova estação que logo chegará.

 Sabia que amor feito carinho não acaba, meu bem,
mesmo que venha a idade,
é começo de caminho
que continua na eternidade.
Mesmo que passe o tempo,
por qualquer lugar que for,
será fácil achar os seus passos:
onde você pisa, nasce uma flor.

  




 

sábado, 6 de junho de 2026

Morada da memória




Senhor viajante, que hoje está aqui

e amanhã, está acolá;

quando vir uma casa com jardim

e crianças entretidas em brincar,

veja se tem goiabeira de galhos fortes,

onde os pássaros vão se aninhar.

 

Espia se tem criação no terreiro

e um cachorrinho chamado guerreiro.

repara se tem uma gentil vovozinha.

observe e me avise;

pois é, essa casa já foi minha.

 

Uma casinha com paredes  de cal,

de janelas e portas azuis,

cafeeiros e bananeiras no quintal

 

e um renque de palmeiras

para de longe acenar,

quando, afinal,

para casa eu retornar.

 

Palmeiras à distância a acenar,

Logo... logo... eu vou chegar.

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O amor é o melhor remédio





Eu queria uma borracha de apagar cicatrizes

e lápis especiais

para desenhar finais felizes.

Eu queria que toda dor

fosse como bolha de sabão:

leve para ir com o vento

e breve para durar só um momento.

E que para curar qualquer tristeza

bastasse um poema, um carinho

ou até a lambida de um cachorrinho.


 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Poema de gato


Um gato achou uma criança na rua,

uma menina com jeito de ter carência

de um gato.

E a seguiu até chegar a uma casa,

a qual, pela aparência,

também não tinha a sorte de ter um gato.

Mas havia flores no quintal - um bom sinal -

o felino também gostava de flores

e suas consequências:

cores, perfumes, colibris e borboletas.

O animalzinho então teve a benemerência

de ficar por ali mesmo

e dar-lhes o privilégio de sua presença.



terça-feira, 2 de junho de 2026

O marinheiro Benedito


Benedito balança, 

o barco balança,

o horizonte balança, 

vinte e um dias por mês.

E quando atraca em um porto,

Benedito estranha a imobilidade de tudo,

fundeia em um bar 

e bebe, mas bebe, 

até o mundo voltar a balançar.

domingo, 31 de maio de 2026

31/05/2026 - Coroação da Rainha do Céu

Do lugar onde estou,

penso em onde quero estar;

aqui tem notícias de guerras,

lá é melhor que sonhar.

Lá, São Moisés faz brotar água da pedra,

Santa Teresa D´Ávila paira no ar,

mais leve do que qualquer beija-flor;

Santo Elias ateia fogo em lenha molhada,

São Filipe Néri arde com peito dilatado de amor,

Santo Antônio multiplica o pão

e um milhão de crianças abraçam Nossa Senhora

na festa de sua coroação.

Do lugar onde estou, sonho com onde quero estar;

se aqui tem teoria, lá tem a prática da poesia.



quinta-feira, 28 de maio de 2026

Artes no céu

 O jovem estava no litoral da Bahia,

deitado à sombra de uma árvore.

Viu aparecer um camelo, um leão, 

uma raposa do deserto e um falcão.

Todos eles, feitos de nuvens,

percorriam um pedaço do firmamento

e se desmanchavam ao sopro do vento.

O moço logo compreendeu o fenômeno:

"É o sopro da massa de ar saariana,

que atravessou o oceano

e veio modelar animais do deserto,

bem aqui, na costa baiana."


Viva a vida!


De bicicleta ceci, bermudas jeans, óculos escuros

e cabelos presos por uma bandana singela,

lá vai Dona Eunice pedalando contra o relógio.

Torço por ela.




quarta-feira, 27 de maio de 2026

Magia da poesia

O poeta comprou uma cartola,

estudou a teoria das mágicas

e pôs-se a tirar flores, lenços coloridos,

moedas e cartas de baralho.

Mas ainda não estava satisfeito:

continuou a praticar de noite e de dia,

até que conseguiu, da cartola, tirar uma poesia.

Poema de mil novecentos e antigamente

 

Inventário do conteúdo do embornal

de um aluno de mil novecentos e antigamente:

caderno e lápis, um estilingue,

gibi do Tarzan, figurinhas de times de futebol,

um ímã, um novelo de barbante

e um recado nada romântico da namoradinha:

'Quer ir ao cinema comigo, seu ignorante?'

terça-feira, 26 de maio de 2026

Quebrando ciclos


As flores nascem, embelezam, perfumam e fenecem.

Animais de estimação encantam, marcam e partem.

Se para nós a vida é um sopro fugaz,

para as estrelas de cinema a lei é diferente:

com a beleza que nunca sai de cartaz,

parecem viver em eterno presente.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Coisas de clã


Pai e mãe estão trabalhando,

as crianças estão brincando,

o presente está passando

e o futuro está chegando.


As crianças estão estudando,

as brincadeiras esquecendo,

o tempo está passando

e os pais, envelhecendo.


As crianças já cresceram,

o passado já passou,

pai e mãe são indiscretos

e agora exigem netos.


Até quando?

Tudo começou com Caim e Abel.

Depois vieram as flechadas, as bodocadas,

os tiros de balestras, de trabucos, de bombardas,

de fuzis, de metralhadoras, de canhões,

de navios, de tanques e de aviões

que lançam a última tecnologia em bombas assassinas.

Muitos quilômetros acima, pairam as aves de rapina.


Com companhia não é preciso mais nada



Bola de pano, tábua para gangorra,

papel para pipa, corda para pular...

Quando eu era criança,

qualquer coisa servia para brincar.

No nosso bairro de famílias pobres,

não faltava companhia para as brincadeiras

e, com companhia, não era preciso mais nada

para brincar de pique-esconde, de cirandar,

de competição de saltos, de adivinhação,

e - o que era moda nos anos 1970 -

a gente brincava até de festival da canção.

domingo, 24 de maio de 2026

Porto seguro


Me dê um abrigo para me refugiar,

que lhe darei meus braços para aninhar.

Me abrace para me aquecer,

que eu a abraço para aconchegar.

Me dê um tugúrio para me recuperar,

que lhe darei colo para acarinhar.

Me dê um porto para fundear,

que lhe darei um barco para navegar.






Pé na estrada

 



Aos que vão iniciar a jornada:

a mais difícil das estradas

só pode ser percorrida de mãos dadas.


sábado, 23 de maio de 2026

Poema gramatical


O contrário de certo é errado.

Antes Jorge Amado do que desprezado.

Grosseria é o antônimo de sutileza.

Sua Baixaria é o oposto de Sua Alteza?

Celibato é o contrário de matrimônio.

E qual é o antônimo de Antônio?

Detalhes dos nomes

Caio não devia trabalhar nas alturas.

Clara devia ser deputada ou senadora.

Bento, padre.

Vitória, esportista.

Luna, astronauta.

Leão, lutador feroz.

Isadora, eu Isadoro, ele Isadora, nós...


Vendaval

Estou na Serra da Mantiqueira

sentado à mesa da cozinha,

com uma xícara de chá,

escondido do frio de fora e da ventania 

que não cessa de me chamar

com um contínuo ooooooooô.

O que será que o vento quer me contar?

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Poesia e meteorologia


Hoje, 22/05/2026, o frio predominou

e as nuvens coroaram os altos da Mantiqueira.

Cá, no meio da névoa,

estou a escrever bobagens,

mas tem gente ordenhando as vacas,

agricultor cuidando da plantação

e madeireiros cortando eucaliptos.

No meio da densa cerração

passou um tropeiro tocando suas mulas;

pensei até que era assombração.

Depois, uma boa alma pôde me explicar

que as esforçadas mulas vão

onde os tratores não conseguem chegar.




Poesia arroz com feijão


Eu queria fazer poesias com rimas, viola e violão

e escrever poemas com ventos, mares, rios e sertão.

Eu queria ser um poeta dos bão,

de percorrer os caminhos alimentando os passarinhos,

e, em troca, ganhar inspiração.


Eu queria que minhas palavras fossem de brincar

como jogos de armar, como pipas para empinar.

como cirandas para dançar.


Eu queria fazer versos com as coisas do dia a dia:

risos, carinhos, lar, afeição,

amizades, histórias, cantorias...

Eu queria fazer poesia arroz com feijão.

Trechos de Minas Gerais

É preciso ter força, é preciso ter raça;

Todo artista tem de ir aonde o povo está;

 A lição sabemos de cor, só nos resta aprender;

Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves;

A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou;

Para quem não sabe, eu sou brasileiro;

Mas onde se chega assim? Eu, caçador de mim...

Na minha opinião, com piano, violão e rimas,

o Clube da Esquina reconstruiu Minas.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Oratório de Dona Maria

Dona Maria, não sei seu sobrenome,

tinha um oratório feito com capricho,

enfeitado com desenhos de flores

e todo revestido, por dentro,

com santinhos daqueles que se encontram no átrio das capelas.

Entre tantos, reconheci Santa Rita de Cássia,

os Sagrados Corações de Jesus e de Nossa Senhora, 

São Benedito com o Menino Jesus no colo,

São João com o cordeiro nos ombros

e São Francisco falando com os pássaros.

- E quem é este, Dona Maria, de quem nunca ouvi dizer?

- É o Padre Donizetti, de Tambaú,

ainda não foi canonizado, mas vai ser.

Casa com histórias nas paredes


A dona da casa me convidou,

então entrei na sala simples.

Nas paredes, os retratos de santos

se misturam com retratos da família,

que contam histórias de fé,

de aniversários, de formaturas escolares,

de avôs que faleceram, de crianças que cresceram

e partiram para trabalhar ou estudar.

Alguns até mudaram de continente...

Como dizer-lhes, então, 

que o melhor lugar para morar

é onde está o coração da gente?



terça-feira, 19 de maio de 2026

Oração a São Isidoro


São Isidoro Lavrador, rogai por nós

que só queremos, só:

um ranchinho com varanda para sestear;

um pedaço de terra para lavrar;

um fogão esmaltado para cozinhar;

um moinho manual para moer café;

um oratório para fortalecer a fé;

um pilão para pilar milho, arroz, temperos também

e paçoca de amendoim. Amém!


Dança da vida

Menino, deixe de besteira,

na metade da curva, no meio do caminho,

se precate para não acabar sozinho.

A vida costuma ser dura caminhada

e com parceria fica mais leve a empreitada.


Vá ver a semente germinar,

uma flor ainda em botão,

as crianças jogando nas praças,

o peixe saltando no ribeirão.


Vá conhecer os detalhes do mundo

e aumentar a teia de amizades

para encontrar seu bem.

Comece pelos passos das danças,

pois quem dança, abraça alguém.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Poema onda do mar




Eu queria escrever um poema

com jeito de onda do mar,

onde os filhos dos pescadores

vão aprender a pescar.


Eu queria escrever um poema

que é a própria onda do mar

a levantar e baixar golfinhos,

que vão brincar de surfar.


Eu queria escrever um poema

com jeito de onda do mar,

onde os filhos dos pescadores

vão começar a se aventurar.


Um poema que é onda

que vem se movendo devagar,

forma vales e montanhas

e depois se espalha no lagamar.


Eu queria escrever um poema

com jeito de onda do mar,

onde os filhos dos pescadores

vão aprender a navegar.


sábado, 9 de maio de 2026

Conselho

Ao poeta que entra em crise

de bloqueio criativo:

vá jogar e perder uma partida de xadrez;

vá catar coquinhos;

passe uma tarde inteira a pescar, em vão;

porque esse negócio de escrever poemas

não dá futuro, não.

sábado, 2 de maio de 2026

Uma questão de vida ou morte



Quando a luz elétrica chegou em nossa praia,

instalaram também lâmpadas nas ruas que levam ao mar.

Logo, Vovó, sempre atenta aos detalhes da vida,

notou mariposas, efêmeras e vagalumes mortos

pelo chão e dentro dos globos das luminárias.

— José, venha cá ver este morticínio!

Meu avô aproximou-se, olhou e desdenhou:

— São só insetos mortos, mulher. É o preço de chegarmos ao futuro.

— Futuro? Prefiro que as noites continuem no escuro!



terça-feira, 28 de abril de 2026

Lâmpadas x mariposas

 

Foi em Ubatuba, na Praia da Fortaleza,

no ano de 1975, com toda a certeza,

que a mariposa saiu do casulo,

admirou as maravilhosas asas 

e lançou-se ao ar, procurando a luz da lua.

Isso aconteceu, infelizmente, no mesmo dia

em que se inaugurou a benfeitoria da iluminação de rua.

A pobrezinha lepidóptera,  assim como acontece com muita gente,

se ofuscou com a falsa luz e finou-se na lâmpada incandescente.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Viva a vida!

A criança brincava na chuva, pulava no rio,

subia em árvores e andava com os pés no chão,

como se não sentisse frio.

Uma madame de São Paulo viu tudo aquilo

e acusou a mãe, uma caiçara das antigas,

de ser muito negligente.

- Toda criança, senhora, tem o direito de viver plenamente!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O velho oeste era aqui

Quando os filmes de caubóis estavam na moda,

após as sessões de cinema, por dias seguidos,

a gente mudava a postura, os modos e até o andar.

Nossos nomes eram Durango Kid,  Touro Sentado, Búfalo Bill

e, vez ou outra, no grupo havia até a Calamity Jane.

Nossa linguagem se tornava peculiar:

'Tenho um encontro marcado com o destino!';

'Não preciso de sua piedade!';

'Respeito é bom e conserva os dentes!' 

E, olhando em retrospectiva, 

mal dá para acreditar o quanto éramos valentes.




Sonho sob a amendoeira


Não era muito tarde
quando deitei na areia da praia.
Fiquei a olhar o desenho animado
de céus, pássaros e nuvens;
a ouvir a trilha sonora das ondas
que quebram no lagamar, 
até que adormeci e sonhei em tupi-guarani,
que o rei das matas voltou a ser o jaguar;
que o rei dos céus é taguá, o gavião;
e que o reino do mar é de iperu, o tubarão;
Já o ser humano não apareceu,
nem estragou o meu sonho, não.




Só para contrariar

Algumas pessoas foram tão santas e a sintonia com o céu foi tanta, que chegaram a levitar.

- Santa Teresa, São José de Cupertino e São Martinho: desçam já daí! Gente não pode voar.


A práxis poética

Escrever poesia é fácil, difícil é praticar.

São Francisco orou, reformou igrejas, escreveu poemas

e conversou com os bichos. E eles respondiam:

"- Irmão lobo, por que você é tão violento com as pessoas?

- Violento? Eu só as ataco antes que elas venham me atacar!"


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Noites antigas


Quando eu  era mais criança

As noites eram mais belas,

Viam-se mais estrelas,

havia visões de licantropos

E, até um ou outro caso de boitatá.

Tudo isso a civilização da luz elétrica

acabou por expulsar.

Sinto mais falta, mesmo, é dos fabulosos pirilampos.

Hoje, para ver unzinho que seja,

só indo bem longe, nas matas ou campos.




terça-feira, 21 de abril de 2026

Meu bom José

Rita Lee chegou ao céu, viu um santo barbudo,

pensou que era São Pedro, mas se enganou.

Ele se apresentou: - Pode entrar, Eu sou o José da sua canção!

Tomou-a pela mão e a fez se sentar.

Então, o coro dos anjos, acompanhado de harpa e violão, começou a cantar:

"Olha o que foi, meu bom José,

Se apaixonar pela donzela

Entre todas, a mais bela

De toda a sua Galileia..."

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Ajudante Nerd

Quando a mãe chegou em casa, estranhou a cozinha limpa:

-  Filho, cadê a louça do almoço?

- Eu lavei, mãe!

- Mas não tem nada sobre a pia!

- Está lá fora, no estrado, sendo tratada

com raios infravermelhos e ultravioletas.

- O quê?

- Está secando ao sol, mamãe!


Maranduba, 1967

 Quando um eletricista da Light

despencou do poste de alta tensão,

buscaram minha avó benzedeira

para fazer o primeiro atendimento,

pois o socorro ia demorar.

Logo, o acidentado deu sinais de recuperação.

Vovó Martinha curava com orações cristãs

e remédios da tradição tupinambá.



Projeto de vida


Paulinha me contou que, quando crescer, 

quer ser uma "rocamboleira".

- Quer ser o quê, Paula?

- Rocamboleira, para fazer rocamboles deliciosos, doces ou salgados, tá ligado?

Devo confessar que fui surpreendido,

e que estava mesmo desligado da beleza da lógica da criança,

mas vou me ligar; ainda tenho essa esperança.

domingo, 19 de abril de 2026

Caso sério


 A mãe escutava o filho conversar com o coleguinha:

- Hoje não vou à escola, mamãe vai me levar ao ornitorrinco!

- Otorrino, Victor, vou levá-lo ao médico otorrinolaringologista!

- Ah, mãe, não foi isso que entendi. Então não quero ir!

O menino e o mar

A mãe quis saber onde o menino tinha ido.

- Fui espiar o mar, mamãe.

- E o que mais?

- Mais nada. Só espiar já foi suficiente.



Cabelos ao vento


Todos os dias, ao acordar,

Ana Maria penteia os cabelos,

exceto naquele sábado.

- Ué, menina, vai ficar assim toda desguedelhada?

(desguedelhada é uma palavra muito usada pelas vovós,

em especial, aquelas do litoral de São Paulo).

- Hoje é trabalho perdido, vovó.

Daqui a pouco vou sair e, veja só:

lá fora está o vento bagunceiro,

despenteando até folhas de coqueiro!



Ex-astronauta

Na aula de ciências,

as crianças da sétima série viajaram pelo sistema solar.

A prô mostrou o vídeo da Terra girando,

com a lua e os planetas rodopiando também,

e até o Sol em um giro sem fim.

No melhor da aula, Régis sentiu um mal-estar.

- O que lhe aconteceu, menino? Perguntou a professora.

- Ai, estou passando mal...

a culpa é de tanta rotação e translação,

acho que não sirvo para ser viajante espacial.


sábado, 18 de abril de 2026

A vida não tem bis

Escola primária até meio-dia,
duas vezes por semana tem natação,
mais o curso de inglês e a escola de dança.
Beatriz ficou doente e a levaram à pediatra,
que logo diagnosticou  e escreveu na receita:
"A menina não tem tempo para ser criança.
Precisa brincar mais de pique, 
de balanço, de pular corda, de ciranda..."
Sua vovó, ao saber, decretou:
- Começaram as férias!
E  veio buscá-la para levar para Minas
(Toda criança devia ter uma vovó em Minas Gerais).
- Ufa, foi por um triz, Beatriz!


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Massa de ar frio


Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



terça-feira, 14 de abril de 2026

A culpa foi de Jackson Pollock!


Uma moça bonita, usando blusa de moletom,
reparou nos tinhorões, voltou-se para mim
e mostrou as folhas verdes
com manchas vermelhas e brancas:
- Algum pintor desastrado
derramou tinta nestas plantinhas,
mas o resultado ficou bom!
O que eu poderia dizer
a uma moça bonita de moletom?

A teoria, na prática, é outra.


Sem mais nem menos, uma vozinha veio lá do quarto:

— Papai, será que tem algum óleo para lubrificar o tucano? Ele range igual a uma dobradiça enferrujada!

O pai, pego de surpresa, respondeu: — Uai, de onde foi que você tirou essa ideia, filhinha? E, pelo que consta, a vocalização do tucano é o grasnado, não o ranger!

Nesse momento, escutou-se o "nheeeeeec" do tucano nas árvores, ao fundo do terreno.

— Escuta só, pai!

E a menina pôs-se a rir, até a barriga doer.


Bichos teimosos

Sir Newton, explique a lei da gravidade para a lagartixa,

pois parece que ela não entendeu nada:

olha ela subindo a parede,

agora está pendurada no teto,

olha ela dando risadas...

Sir Newton, me diga se isso está certo!


Monsieur Bernoulli, diga ao besouro 

que ele não pode voar - não pode!

E que, pelos princípios da aerodinâmica,

seu destino é rastejar no chão;

e, nunquinha, nanja, negativo,

jamais poderia alçar voo melhor que um avião.


Dominus Arquimedes, o lagarto-basilisco,

de novo, está fazendo subversão;

a sua lei diz que o mais pesado não pode flutuar,

mas o bicho - oh, nem te ligo! - 

corre sobre o lago sem afundar.


Gynura aurantiaca

Para onde ia, Vovó Martinha levava presentinhos:

geralmente, ramalhetes ou mudas de flores.

Ela gostava muito de rosas, margaridinhas, 

lírios de todas as cores e tinhorões psicodélicos. 

Um dia ela chegou com uma planta maravilhosa:

a veludo-roxo, que na verdade é furta-cor.

E sempre dizia: - Trouxe um presente para vós!

Esse era o seu jeito de demonstrar amor.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Não é verdade, Zé?


Se, por um infortúnio, houver espaço

para uma só planta em seu jardim,

escolha o malvavisco-de-flores-vermelhas,

que oferta néctar em abundância.

Além das flores, seus olhos terão satisfação

na delicada elegância de beija-flores e mariquitas,

e com a beleza das borboletas de todas as cores.

Ou seja: o malvavisco é uma planta superstar

com muitos tietes a lhe rodear.