Toda manhã,
surpreendendo o sol ainda sonolento,
o pescador Júlio Barbosa espia o céu,
repara no vento,
sente na pele a meteorologia
do ventochuvasol.
Quem tem juízo que o escute
antes de começar o dia.
Toda manhã,
surpreendendo o sol ainda sonolento,
o pescador Júlio Barbosa espia o céu,
repara no vento,
sente na pele a meteorologia
do ventochuvasol.
Quem tem juízo que o escute
antes de começar o dia.
Gosto do silêncio
porque é quando posso escutar
trechos da música dos anjos
na cantoria do sabiá.
E foi no silêncio que uma vez ouvi
Santa Maria, na voz de uma mãe,
cantando música de
ninar
para o filhinho menor,
doentinho de dar dó.
Quem tem dinheiro que pague advogado
para reaver suas terras aos bandidos de
gravatas.
E quem não tem,
que os ataque com petas aqui na Terra,
pra ir afinando o riso,
para quando os bandidos,
ao fim da jornada,
apresentarem somente as terras roubadas
como resultado de toda uma vida desperdiçada
José Almiro, meu avô, remou sete quilômetros
para embarcar no Expresso Rodoviário Atlântico,
viajou mais trinta quilômetros
até chegar na Vila de Ubatuba
e, pela ordem,
benzeu-se na igreja matriz,
pagou o Souza da Casa Souza,
bebeu cachaça no Bar São Paulo
e comprou no armazém do Maciel
sal, arroz, carne seca, queijo do reino,
macarrão padre-nosso, pinga ubatubana,
balas paulistinha - para nós, crianças -
e mais nada,
que o resto ele plantava,
pescava ou criava.
História de timbuíba
O filho mais velho de um pescador
cantou, comeu, bebeu,
até rasgar os trajes da alegria
e perceber que ali
o vazio se escondia.
Resolveu, então,
Mudar de vida e pedir,
em constante oração,
para virar timbuíba,
fincar-se na terra,
e resguardar os sentimentos
de antigos e novos ventos.
O Cândido,
da família Mesquita,
do armazém da praia,
da Praia da Fortaleza,
do tresmalho de sororoca,
recolheu a rede
e foi visitar São Pedro,
como tem que fazer
todos os bons pescadores,
foi encontrar os antigos parceiros
de pesca e de prosa
e passear entre as estrelas
de todas as grandezas,
incontáveis como os grãos de areia,
na Praia da Fortaleza.
inclinou o penacho
da fumaça da chaminé
do fogão a lenha
de Tia Aninha
e todo mundo ficou sabendo
que naquele dia haveria
garoupa no pirão
e visitas inesperadas
na hora da refeição.
Mamãe, é para você ficar contente,
Eu tenho sonhos a realizar
Entre a alvorada e o poente.
Eu devia estudar
Os verbos e suas conjugações
Os números e suas variações
Ser aprovado no vestibular
Para ficar bem empregado
Para trabalhar engravatado,
Escolher o parlamento,
Votar para presidente,
mas, lamento, o mundo está doente
e eu tenho sonhos a realizar
entre a alvorada e o poente.
Aqui na Terra continua a ter
poucos ricos e muitos pobres,
penúria de um lado;
de outro, ostentação;
e muitas vítimas de balas perdidas
em guerras declaradas ou não.
Mas ainda não é caso,
mesmo com o dinheiro no controle,
de descartar este pobre planeta
em um maldito black hole.
Não, não quero viver com bons modos,
com roupa social e o escambau,
passando calor no país tropical,
pagando o pecado de Pai Adão,
perdido em meio à civilização.
Mamãe, vou seguir em frente,
eu tenho sonhos a realizar
entre a alvorada e o poente.
Dorme, menininho,
que o sol também já foi dormir
e levou consigo todas as cores do mundo.
Menininho, tá na hora de adormecer,
pois o vento já estendeu um cobertor
de nuvens espessas para aquecer
quem não tem onde se abrigar.
Dorme, menininho,
dorme para o sonho acordar.
Dorme para acordar o sonho
de que todas as crianças,
mesmo as de apartamentos,
terão direito a um jardim,
para viverem bons momentos
em brincadeiras de amarelinha, pique-esconde
e o rei mandou, com poder de autoridade suprema,
que se cumpra este poema.
Dorme, menininho,
e sonha um sonho que traz
a esperança de que todas as crianças
terão o direito de ter mães, pais, pão e paz.
Dorme menininho, dorme para o sonho acordar.
Os dias passam e vem o tempo
Em que a tristeza vai chegar,
vai chegar para importunar,
Mas não, não deixe ela ficar.
Sem perceber, a saudade vai querer
Que você fique ensimesmada,
Para que não possa ver
que o futuro está todo dia
Germinando plantas no quintal.
Preparando os botões das flores
para brotar um novo astral.
Vá se aquecer ao sol
e seu coração esquentará também.
E se chover, dance na chuva,
Que a chuva lava a alma, meu bem.
Pega leve consigo e não esqueça
que tem uma criança dentro de si,
a fazer traquinagens
só para você voltar a rir.
O tempo frio vai passar,
o sol da primavera chegará
para aquecer, só para aquecer
você, e você vai florescer.
São Isidoro, rogai a Deus por nós,
Que só queremos, só:
dormir com a noite, acordar com o sol;
cuidar da terra, cuidar das amizades
plantar, ter fé, colher, pescar;
e encarar com naturalidade,
no meio do que é comum,
os nuances da eternidade.
São Isidoro, rogai a Deus por nós,
Que só queremos, só:
Uma roça de mandioca e feijão
para ter farinha na barrica
e sustança na refeição.
Uma viola para pontear
E as bênçãos de Deus, Nosso Senhor,
para nunca nos faltar amor.
São Isidoro, rogai por nós
que só queremos, só:
um ranchinho com varanda para sestear;
um pedaço de terra para lavrar;
um fogão bom de cozinhar;
um moinho de moer café;
um oratório para fortalecer a fé;
um pilão de pilar milho,
arroz, temperos também
e paçoca de amendoim. Amém!
Voo de tanajura, toca de tatu,
pio de inhambu, canto de sabiá,
balbúrdia de bugio, passos de saracura,
luz de vaga-lume, fagulhas de boitatá...
Onde é que estão, onde foram parar?
Esturro de onça, alvoroço de tiriba,
música de mamangava, dança de tangará,
bote de jararaca, susto de guariba,
casa de jataí, grito de carcará...
Onde estão, onde foram parar?
Salto de jubarte, cardume de tainhas,
alerta de maritaca, abraço de tamanduá,
chamado de acauã, papo de jacaré,
manha de ariranha, voo de panapaná...
Onde é que estão, onde foram parar?
Rastro de paca, disfarce de urutau,
sombra de caipora, listras de maracajá,
pulo de cutia, esperteza de guaxinim,
toca de João de barro, cores de surucuá...
Onde estão, onde foram parar?
Não, não, não, não,
Não se amarre em um homem do mar,
pois quando você estiver envolvida,
irremediavelmente apaixonada,
vem o tempo da partida
Vem o tempo de deixar
o porto bom de seus braços
e enfrentar as tempestades
que podem levar para o fundo
quem não está bem ancorado
nas convenções do mundo.
Não, não, não, não,
não lhe dê seu coração,
não lhe entregue seus sentimentos,
que amanhã ele poderá se distanciar
à mercê das mudanças dos ventos.
Não, não, não, não,
não lhe dê seu coração,
pois se o vento soprar por rumos tortos,
onde reencontrá-lo
nessa infinidade de portos?
A maioria dos alunos prefere educação física,
a maioria dos meninos quer ser jogador de futebol,
a maioria das meninas quer ser médica ou juíza,
mas tem alguns sem juízo, valei-me santa didática,
que querem ser engenheiros, mas não gostam de matemática;
ou pretendem ser jornalistas, mas detestam a gramática.
Caiçara, desde criança,
aprende a remar canoa,
a mergulhar em apneia,
a pescar com arpão,
a nadar nas ondas,
a almoçar pirão,
a saltar com efeito...
E ainda dizem por aí
que pescador bom já nasce feito.
uma história para contar,
uns versinhos para declamar
e um violão para encantar?
- Quem tem tudo isso e muito mais:
adivinhação para adivinhar,
músicas para cantar,
e balas no bolso para compartilhar?
- O Zeca brasileiro, o Zeca festeiro, o Zeca Baleiro!
Meu parente estava lá
vendo os homens ficarem cruéis,
sujando os rios e o Mar,
cada vez mais, Vermelho de sangue.
E os impérios se sucederam:
Babilônia, Egito, Pérsia,
Síria, Fenícia, Grécia,
Roma, Arábia, Turquia,
Grã Bretã, grande Tio Sam...
E as pessoas passaram a se matar
Com bordunas, lanças e flechas,
carabinas, bombardas e canhões,
fuzis, tanques e aviões,
e bombas made in Rússia, USA,
Meu parente estava lá
far, far, far away...
Senhor viajante, que hoje está aqui
e amanhã, está acolá;
quando vir uma casa com jardim
e crianças entretidas em brincar,
veja se tem goiabeira de galhos fortes,
onde os pássaros vão se aninhar.
Espia se tem criação no terreiro
e um cachorrinho chamado guerreiro.
repara se tem uma gentil vovozinha.
observe e me avise;
pois é, essa casa já foi minha.
Uma casinha com paredes de cal,
de janelas e portas azuis,
cafeeiros e bananeiras no quintal
e um renque de palmeiras
para de longe acenar,
quando, afinal,
para casa eu retornar.
Palmeiras à distância a acenar,
Logo... logo... eu vou chegar.