segunda-feira, 6 de abril de 2026

Escola da vida

Pais não fazem cursos para serem pais;

aprendem muito com a primeira criança,

um pouco mais com o segundo bebê

e, no terceiro, já sabem interpretar 

choro, cólica, sono, xixi, cocô...

Se quiserem podem se especializar

e alcançar o nível de avó ou de avô.

domingo, 5 de abril de 2026

São João da Praia da Fortaleza

Os adultos vestem roupas domingueiras

para a missa na capela de São João Batista.

Já as crianças vão de bermudas e chinelos de dedos

e São João nem liga;

o importante é que elas estejam por perto.

Afinal, o próprio santo vestia-se de peles de animais

e comia gafanhotos no deserto.


Rico com os pés descalços


Quem tem o pleno uso das faculdades mentais
sabe que a maior riqueza não é o ouro;
isso, qualquer psicopata pode acumular.
Melhor que tudo isso-
lição de São Francisco de Assis-
é partir pelas estradas com uma túnica
e um par de sandálias,
para ganhar o bronzeado da vida ao ar livre,
para conhecer os lugares, gentes e costumes,
e aprender outras linguagens,
inclusive a língua dos animais.
São Francisco pregou para as pessoas e pássaros,
abençoou os peixes, 
as ovelhas gostavam de sua companhia,
fez amizade até com o lobo de Gubbio, chamando-o de irmão.
Encontrou uma riqueza escondida,
aquela que se leva quando chega a hora
de partir para o outro lado da vida.



Tratado sobre poemas


Se eu fosse poeta dos "bão",

reservava as manhãs para pesquisar

os assuntos mais importantes:

memórias de velhinhos,

pérolas ditas por crianças

e conversas de passarinhos.

Também ia ler os livros tipo:

'Arquitetura dos castelos de areia',

'Técnicas de voo de Ícaro',

'Biografia do Padre Bartolomeu de Gusmão'...

Tudo isso para obter matéria-prima de poesias,

se eu fosse poeta dos "bão".




Notícias que o vento traz

É tempo de o vento minuano,

vir cavalgando do sul,

com corpo de nuvens e crinas de ventos,

acima das coxilhas e dunas, cânions e lagunas,

matas, praias e restingas,

trazendo mensagens de abril 

para São Luiz do Paraitinga,

terra natal de Aziz Ab'Sáber:

lá vem a geada e o frio! 




sábado, 4 de abril de 2026

Poema de cuitelinho


Um cuitelinho novo por aqui -

será que veio de Minas?

Será o mesmo da música de Milton?

Chegou no jardim de casa, beijou as flores que quis,

voou, pairou, revoou e chocou-se com a vidraça.

Acho que bebeu néctar fermentado, o infeliz.

Biologia caiçara

Eu sei o que tem no meio do mato:

bichos de todas as espécies,

tem herbívoros, carnívoros

e os colibris, que vivem de beber néctar.

Serão eles bebívoros?

Meu tio também bebia muito,

mas não bebia para viver,

somente para esquecer.

Ave Maria!

No século passado só havia escola na cidade, 

bem longe da gente,

porque o país não tinha escola suficiente

para atender a nós, nas praias isoladas.

Mas a catequista que vinha ensinar religião,

também nos ensinava como enfileirar as letras em palavras

e a pôr ordem nos números até fazerem sentido.

Ela nos chamava de "meus queridinhos analfabetos".

mas completava sempre: "- Analfabetos, mas espertos".

Eu gostava muito quando falava dos Santos de Deus,

dos seus milagres e de muita sabedoria.

Depois escrevia algumas palavras em uma lousa e perguntava:

- "O que está escrito aqui?"

 - "Ave Maria!"



Brasileiro, americano.

Sol ao sul, céu azul,

quem precisa, vai trabalhar;

quem está de folga, vai para o mar;

de manhã tem o calor do sol,

de tarde vem a chuva de verão;

crianças dançam na chuva

e quanto mais sujam os pés na lama,

mais limpa fica a alma.

Sol ao sul, céu azul,

sou brasileiro, sou americano do sul.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Popótis e outros bichos


Passear no zoológico é bom,

mas ouvir as crianças é melhor:

"- Esse leão preguiçoso só dorme,

alguém devia cutucá-lo!"

"- Não vou entender nada da voz do elefante,

ainda não aprendi elefantês!"

"- Gostei mesmo foi do popótis!"




Ave, urutau!



John Audubon embrenhou-se no mato,

foi observar e pintar pombos, corujas, gaviões, pica-paus,

um bando de aves, centenas de passarinhos...

Será que viu o pássaro urutau,

ou pensou que era só um pedaço de pau?


Pedro é pedra


Na praia cheia de pessoas
e poucos caranguejinhos da areia,
todo mundo repara no mar,
nas mulheres de biquíni,
na vegetação de restinga,
nos morros cobertos pela mata atlântica;
mas ninguém repara nas pedras da costeira...
Eita, uma pedra se moveu!
Ora, é o Pedro Caipira, que seria campeão de estátua,
se entrasse na brincadeira.

Histórias de Ubachuva

Não sei como está o resto de Ubatuba,
mas na Praia da Fortaleza choveu uma semana inteira.
A estrada dos automóveis ficou vazia
e não havia ninguém nas vielas que levam ao mar,
Um animal marinho subiu à areia,
sentindo-se à vontade
em cem por cento de umidade relativa do ar
e sem nenhum ser desumano à vista.
Meu avô estava lá para vistoriar sua canoa,
com capa de chuva bem protegido;
mas era um velho conhecido.








terça-feira, 31 de março de 2026

Procura-se



Senhor Viramundo 
que hoje está aqui e amanhã, acolá, 
quando vir uma casa simplesinha,
de paredes caiadas e janelas azuis,
repare se tem goiabeiras no quintal
com ramos fortes para passarinho pousar e cantar,
para pendurar balanço e para criança se exercitar.

Espie se no terreiro tem patos, galinhas
e um cachorrinho chamado Peri.
Escute se tem músicas e alegrias extravasando por portas e janelas.
Veja se tem uma Vovó Martinha,
observe e depois me avise;
pois é, meu amigo, essa casa já foi minha.


Um dia desses...

- Antigamente o mar era mais recuado,

aqui era a casa do Bertolino, 

o mar avançou sobre o antigo cemitério,

lá para cima tinha roças de feijão e mandioca,

e se procurar no meio do mato,

ainda se encontram laranjeiras...

você quer uma laranja, eu busco!

- Não, obrigado, deixa para os passarinhos

e fantasmas.

Causo de Tio Neco

"Demorei porque parei para beber água
da fonte à beira da estrada.
Um desconhecido chegou
com um jarro na mão
e perguntou se a água era limpa;
só mostrei a mina sob o granito gigante.
Ele disse que vinha de muito longe
e respondi que longe para mim é Santos,
Rio de Janeiro, Aparecida do Norte...
Deu uma risadinha e falou que vinha de mais distante.
Encheu o vasilhame e atravessou para o caminho da praia.
Logo um troço luminoso se levantou,
girou e disparou para além das nuvens,
Cre'DeusPai!"

Praia da Fortaleza de Ubatuba

Até 1970, a nossa praia isolada

era acessível somente por mar

ou por sete quilômetros de caminhada.

Ao  longo do caminho, havia casas de pau-a-pique,

com terreiros onde se viam apetrechos de pescarias,

bananeiras, cafeeiros, jaqueiras, goiabeiras, 

laranjeiras e muitas espécies de flores.

A riqueza das pessoas se media em roseiras, 

antúrios, hibiscos, primaveras, margaridas...

A vida tinha sabor de eternidade,

mas depois a estrada foi alargada

para virem os automóveis e a modernidade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Lista de arrelás

Balbúrdia de bugio, passo de saracura,

pio de inhambu, voo de tanajura,

toca de tatu, canto de sabiá,

luzes de vaga-lume, fagulhas de boitatá,

Bafo de onça, alvoroço de tiriba,

bote de jararaca, susto de guariba,

casa de jataí, grito de carcará,

música de mamangava, dança de tangará...

Arrelá!  




Linguagem do mar

 

Debaixo de sol, debaixo de chuva,

os tropeiros conduziam a tropa de mulas

serra abaixo trazendo artigos do planalto,

serra acima levando produtos de Ubatuba

e um estranho linguajar com sotaque de mar:

“Arrelá, bedes lá,

de gente sem-bergonha

não sejais alcobiteiro!”

E outros papos do povo canoeiro.

Lições caiçaras

 

Foi com o tupinambá

que meu antepassado

aprendeu a fazer casa

de barro pilado,

de teto de sapé

de imbé amarrado,

no verão refrescado,

no inverno aquecido.

E depois da casa pronta

acrescentou um toque de poesia

ao fazer uso das taramelas

para trancar portas e janelas.