sentado à mesa da cozinha,
com uma xícara de chá,
escondido do frio de fora e da ventania
que não cessa de me chamar
com um contínuo ooooooooô.
O que será que o vento quer me contar?
sentado à mesa da cozinha,
com uma xícara de chá,
escondido do frio de fora e da ventania
que não cessa de me chamar
com um contínuo ooooooooô.
O que será que o vento quer me contar?
Hoje, 22/05/2026, o frio predominou
e as nuvens coroaram os altos da Mantiqueira.
Cá, no meio da névoa,
estou a escrever bobagens,
mas tem gente ordenhando as vacas,
agricultor cuidando da plantação
e madeireiros cortando eucaliptos.
No meio da densa cerração
passou um tropeiro tocando suas mulas;
pensei até que era assombração.
Depois, uma boa alma pôde me explicar
que as esforçadas mulas vão
onde os tratores não conseguem chegar.
Eu queria fazer poesias com rimas, viola e violão
e escrever poemas com ventos, mares, rios e sertão.
Eu queria ser um poeta dos bão,
de percorrer os caminhos alimentando os passarinhos,
e, em troca, ganhar inspiração.
Eu queria que minhas palavras fossem de brincar
como jogos de armar, como pipas para empinar.
como cirandas para dançar.
Eu queria fazer versos com as coisas do dia a dia:
risos, carinhos, lar, afeição,
amizades, histórias, cantorias...
Eu queria fazer poesia arroz com feijão.
É preciso ter força, é preciso ter raça;
Todo artista tem de ir aonde o povo está;
A lição sabemos de cor, só nos resta aprender;
Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves;
A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou;
Para quem não sabe, eu sou brasileiro;
Mas onde se chega assim? Eu, caçador de mim...
Na minha opinião, com piano, violão e rimas,
o Clube da Esquina reconstruiu Minas.
Dona Maria, não sei seu sobrenome,
tinha um oratório feito com capricho,
enfeitado com desenhos de flores
e todo revestido, por dentro,
com santinhos daqueles que se encontram no átrio das capelas.
Entre tantos, reconheci Santa Rita de Cássia,
os Sagrados Corações de Jesus e de Nossa Senhora,
São Benedito com o Menino Jesus no colo,
São João com o cordeiro nos ombros
e São Francisco falando com os pássaros.
- E quem é este, Dona Maria, de quem nunca ouvi dizer?
- É o Padre Donizetti, de Tambaú,
ainda não foi canonizado, mas vai ser.
então entrei na sala simples.
Nas paredes, os retratos de santos
se misturam com retratos da família,
que contam histórias de fé,
de aniversários, de formaturas escolares,
de avôs que faleceram, de crianças que cresceram
e partiram para trabalhar ou estudar.
Alguns até mudaram de continente...
Como dizer-lhes, então,
que o melhor lugar para morar
é onde está o coração da gente?
São Isidoro Lavrador, rogai por nós
que só queremos, só:
um ranchinho com varanda para sestear;
um pedaço de terra para lavrar;
um fogão esmaltado para cozinhar;
um moinho manual para moer café;
um oratório para fortalecer a fé;
um pilão para pilar milho, arroz, temperos também
e paçoca de amendoim. Amém!
Menino, deixe de besteira,
na metade da curva, no meio do caminho,
se precate para não acabar sozinho.
A vida costuma ser dura caminhada
e com parceria fica mais leve a empreitada.
Vá ver a semente germinar,
uma flor ainda em botão,
as crianças jogando nas praças,
o peixe saltando no ribeirão.
Vá conhecer os detalhes do mundo
e aumentar a teia de amizades
para encontrar seu bem.
Comece pelos passos das danças,
pois quem dança, abraça alguém.
Eu queria escrever um poema
com jeito de onda do mar,
onde os filhos dos pescadores
vão aprender a navegar.
Uma montanha-russa líquida,
que é a própria onda do mar
a levantar e baixar golfinhos,
que vão brincar de surfar.
Uma onda de movimento cíclico,
que vem se movendo devagar,
que forma vales e montanhas
e depois se espraia no lagamar.
Ao poeta que entra em crise
de bloqueio criativo:
vá jogar e perder uma partida de xadrez;
vá catar coquinhos;
passe uma tarde inteira a pescar, em vão;
porque esse negócio de escrever poemas
não dá futuro, não.
Quando a luz elétrica
chegou em nossa praia,
instalaram também lâmpadas nas ruas que levam ao mar.
Logo, Vovó, sempre atenta aos detalhes da vida,
notou mariposas, efêmeras e vagalumes mortos
pelo chão e dentro dos
globos das luminárias.
— José, venha cá ver este
morticínio!
Meu avô aproximou-se,
olhou e desdenhou:
— São só insetos mortos, mulher. É o preço de chegarmos ao futuro.
— Futuro? Prefiro que as noites continuem no escuro!
Foi em Ubatuba, na Praia da Fortaleza,
no ano de 1975, com toda a certeza,
que a mariposa saiu do casulo,
admirou as maravilhosas asas
e lançou-se ao ar, procurando a luz da lua.
Isso aconteceu, infelizmente, no mesmo dia
em que se inaugurou a benfeitoria da iluminação de rua.
A pobrezinha lepidóptera, assim como acontece com muita gente,
se ofuscou com a falsa luz e finou-se na lâmpada incandescente.
A criança brincava na chuva, pulava no rio,
subia em árvores e andava com os pés no chão,
como se não sentisse frio.
Uma madame de São Paulo viu tudo aquilo
e acusou a mãe, uma caiçara das antigas,
de ser muito negligente.
- Toda criança, senhora, tem o direito de viver plenamente!
Quando os filmes de caubóis estavam na moda,
após as sessões de cinema, por dias seguidos,
a gente mudava a postura, os modos e até o andar.
Nossos nomes eram Durango Kid, Touro Sentado, Búfalo Bill
e, vez ou outra, no grupo havia até a Calamity Jane.
Nossa linguagem se tornava peculiar:
'Tenho um encontro marcado com o destino!';
'Não preciso de sua piedade!';
Algumas pessoas foram tão santas e a sintonia com o céu foi tanta, que chegaram a levitar.
- Santa Teresa, São José de Cupertino e São Martinho: desçam já daí! Gente não pode voar.
Escrever poesia é fácil, difícil é praticar.
São Francisco orou, reformou igrejas, escreveu poemas
e conversou com os bichos. E eles respondiam:
"- Irmão lobo, por que você é tão violento com as pessoas?
- Violento? Eu só as ataco antes que elas venham me atacar!"
Quando eu era mais criança
As noites eram
mais belas,
Viam-se mais estrelas,
havia visões de licantropos
E, até um ou outro caso de boitatá.
Tudo isso a civilização da luz elétrica
acabou por expulsar.
Sinto mais falta, mesmo, é dos fabulosos pirilampos.
Hoje, para ver unzinho que seja,
só indo bem longe, nas matas ou campos.
Rita Lee chegou ao céu, viu um santo barbudo,
pensou que era São Pedro, mas se enganou.
Ele se apresentou: - Pode entrar, Eu sou o José da sua canção!
Tomou-a pela mão e a fez se sentar.
Então, o coro dos anjos, acompanhado de harpa e violão, começou a cantar:
"Olha o que foi, meu bom José,
Se apaixonar pela donzela
Entre todas, a mais bela
De toda a sua Galileia..."
Quando a mãe chegou em casa, estranhou a cozinha limpa:
- Filho, cadê a louça do almoço?
- Eu lavei, mãe!
- Mas não tem nada sobre a pia!
- Está lá fora, no estrado, sendo tratada
com raios infravermelhos e ultravioletas.
- O quê?
- Está secando ao sol, mamãe!