segunda-feira, 23 de março de 2026

Lista de arrelás

Balbúrdia de bugio, passo de saracura,

pio de inhambu, voo de tanajura,

toca de tatu, canto de sabiá,

luzes de vaga-lume, fagulhas de boitatá,

Bafo de onça, alvoroço de tiriba,

bote de jararaca, susto de guariba,

casa de jataí, grito de carcará,

música de mamangava, dança de tangará...

Arrelá!  




Linguagem do mar

 

Debaixo de sol, debaixo de chuva,

os tropeiros conduziam a tropa de mulas

serra abaixo trazendo artigos do planalto,

serra acima levando produtos de Ubatuba

e um estranho linguajar com sotaque de mar:

“Arrelá, bedes lá,

de gente sem-bergonha

não sejais alcobiteiro!”

E outros papos do povo canoeiro.

Lições caiçaras

 

Foi com o tupinambá

que meu antepassado

aprendeu a fazer casa

de barro pilado,

de teto de sapé

de imbé amarrado,

no verão refrescado,

no inverno aquecido.

E depois da casa pronta

acrescentou um toque de poesia

ao fazer uso das taramelas

para trancar portas e janelas.

Lição do mar


Tem dias que o vento sul

transtornado em tormenta

ruge entre os brandais

e obriga o capitão

a orçar a embarcação,

porque no mar,

assim como na vida,

às vezes é preciso cambar

para não naufragar. 

Lição de homem do mar

 


Quando o marinheiro embarcou pela primeira vez,

para pescar no mar de fora a bordo do barco Taurus,

foi o Mestre Benedito quem o recebeu:

- Veio preparado, moço,

pediu bênção à sua mãe e ao seu pai?

Se não, comigo não vai!

Lição de geografia


Nas alturas do Equador,

o Oceano Atlântico

sente tanta sede

ao atravessar aquelas zonas,

que abre a bocarra

e bebe todo o Amazonas.

Lição de Antônio Félix


Minha primeira casa

eu fiz de pau-a-pique em três semanas.

Depois minha mulher a enfeitou

com um jardim e filhos bonitos iguais a nós

e foi o lar de minha família

por muitos e muitos anos.

Mas, veja só, já trabalhei mais de dois anos

junto com minha turma na construção da casa

de um doutor de São Paulo

que a aproveitou por seis meses e depois morreu.

E ainda dizem que o ignorante sou eu.

Lição caiçara

 


Saibam que inimizade de gente grande
dura uma eternidade,
mas briga de criança
dura até ao próximo folguedo
de jogar bola, empinar pipa,
mergulhar no mar ou fazer castelos de areia.
E como está escrito
que delas é o reino dos céus,
Sebastião Almiro, caiçara,
preferiu fazer artes e brincadeiras
do que gastar o tempo em asneiras.

Lição

 

Os golfinhos nós chamamos de botos
e os botos, na linguagem deles,
devem nos chamar de loucos.
De vez em quando,
dando mostras de comiseração,
eles salvam um náufrago, um afogado,
como salvaram Mano Grande, o 
Manuel Barreto,
ao largo do Mar Virado,
quando sua canoa emborcou.
E nunca se viu um boto
matar seu semelhante,
ou emporcalhar tudo com poluição.
Será que ainda somos
o ápice de toda a criação

Licantropo?

 

Apareceu no quintal de Tia Astrogilda

antes do romper da alvorada,

iluminado pela lua que ia a meia altura

e envolveu-se em uma briga

com os cachorros de casa

num jogo de pega e morde

e o resto não tem explicação.

Labirinto

 

Comecei tão bem a jornada
entre o mar e a terra,
princípio de vida caiçara,
mas acabei por me desviar
não sei em qual curva da estrada,
quando fecharam as possibilidades
de viver da pesca e da roça.
Desde então guio-me
mais pelo que ouço e vejo
sem dar atenção ao que sinto
e eis-me aqui perdidinho neste labirinto.

Juruquivi


Um pingo de chuva

infiltrou-se pela palha do sapé

e caiu no rosto do índio Juruquivi,

despertando-o para espiar

a chuva em todos os quadrantes

e lembrá-lo da luta pela subsistência.

Sem condições para luta nenhuma

ele teve uma ligeira refrega

com uns pés de inhame,

fez o desjejum e voltou para a rede.

Pra que ir contra as vontades celestiais?

Tupã é mais.

Avô caiçara

 

Tem tantos Josés no mundo

e meu avô foi um deles.

Um José pescador,

devoto de Santa Maria,

um José que se ria tanto

ao contar as histórias

que, rogo a São José,

eu possa transformar em poesias

seus casos de pescarias.

Avô pescador

 

Meu avô era rico com três canoas de madeira de lei

e uma rede de arrastar curtida na casca da aroeira

pra não se estragar.

Uma vez por semana tocava o búzio

chamando companhia pra participar da pescaria.

A rede era arriada distante

algumas centenas de metros e quando a canoa aportava,

homens, mulheres e crianças puxavam os cabos.

Os mais velhos, ao experimentar o peso da rede,

com antecedência se riam ou se lamentavam.

Mas sempre tinha peixes bons,

estrelas do mar, tartarugas, peixe-elétrico,

caranguejos, camarões,

baiacus para coçar a barriga

só pra vê-los indignados

encherem-se como balões.

Nós que éramos pequeninos

tínhamos a tarefa de salvar os filhotinhos

devolvendo-os às ondas.

Ao fim do trabalho procedia-se à partilha

da mistura para os próximos dias.

Todo dia de pescaria era dia de se maravilhar,

porque a rede sempre trazia surpresas do fundo mar.

José Almiro

 

Não vos preocupeis em sair na chuva

pois um dia há de parar, dizia meu avô,

e enquanto o tempo estava ruim

fabricava balaios, torrava café,

fazia farinha, cuidava do tresmalho,

dos aviamentos de pesca

e, acredite quem quiser,

consertava peixes também.

Jesus Cristinho


Santa Maria, cadê seu menino?

Está brincando de pião,

de pipa, de bola de pano.

Santa Maria, cadê seu Menino?

Está reinando, nem liga pro frio,

sobe em árvores, pula no rio.

Santa Maria, cadê seu menino?

Está aproveitando a vida, como toda criança,

que aí vem o destino e um dia o alcança. 

Jardim da memória


No jardim de Vovó Eugênia

floresciam as rosas,

jasmins, gardênias,

campânulas, rabos-de-galos,

damas-da-noite, açucenas,

e as flores da saudade,

da esperança e redenção,

que ainda cultivo na memória

para ulterior ressurreição.

Já dizia Vovó Eugênia


Brincos de princesa,
estrelitzias,
câmpanulas ao vento,
flor do japão,
açucena, flor de lis,
chuva de ouro…
quem tem um jardim
tem um tesouro.

Ipê-Amarelo

  

Todas as horas do dia,

todos os dias do ano,

o ipê se prepara para,

no final do inverno,

despir-se das folhas,

vestir-se de ouro

e nos dias seguintes,

derramar todo seu tesouro

aos pés dos transeuntes. 

domingo, 22 de março de 2026

Abobrinhas

 

Meu chuchu diz que há de me amar,

mesmo sem cacau,

e que basta caqui, caju, cajá...

Se juntarmos os temperos,

quais serão os nomes dos filhos?

— Sálvia, Celso e Salsão!

Amo-a tanto, mas tanto,

que passo a me chamar Amaranto.