segunda-feira, 25 de maio de 2026

Com companhia não é preciso mais nada



Bola de pano, tábua para gangorra,

papel para pipa, corda para pular...

Quando eu era criança,

qualquer coisa servia para brincar.

No nosso bairro de famílias pobres,

não faltavam companheiros para brincadeiras

e, com companhia, não era preciso mais nada

para brincar de pique-esconde, de cirandar,

de competição de saltos, de adivinhação,

e - o que era moda nos anos 1970 -

a gente brincava até de festival da canção.

domingo, 24 de maio de 2026

Porto seguro


Me dê um abrigo para me refugiar,

que lhe darei meus braços para aninhar.

Me abrace para me aquecer,

que eu a abraço para aconchegar.

Me dê um tugúrio para me recuperar,

que lhe darei colo para acarinhar.

Me dê um porto para fundear,

que lhe darei um barco para navegar.






Pé na estrada

 



Aos que vão iniciar a jornada:

a mais difícil das estradas

só pode ser percorrida de mãos dadas.


sábado, 23 de maio de 2026

Poema gramatical


O contrário de certo é errado.

Antes Jorge Amado do que desprezado.

Grosseria é o antônimo de sutileza.

Sua Baixaria é o oposto de Sua Alteza?

Celibato é o contrário de matrimônio.

E qual é o antônimo de Antônio?

Detalhes dos nomes

Caio não devia trabalhar nas alturas.

Clara devia ser deputada ou senadora.

Bento, padre.

Vitória, esportista.

Luna, astronauta.

Leão, lutador feroz.

Isadora, eu Isadoro, ele Isadora, nós...


Vendaval

Estou na Serra da Mantiqueira

sentado à mesa da cozinha,

com uma xícara de chá,

escondido do frio de fora e da ventania 

que não cessa de me chamar

com um contínuo ooooooooô.

O que será que o vento quer me contar?

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Poesia e meteorologia


Hoje, 22/05/2026, o frio predominou

e as nuvens coroaram os altos da Mantiqueira.

Cá, no meio da névoa,

estou a escrever bobagens,

mas tem gente ordenhando as vacas,

agricultor cuidando da plantação

e madeireiros cortando eucaliptos.

No meio da densa cerração

passou um tropeiro tocando suas mulas;

pensei até que era assombração.

Depois, uma boa alma pôde me explicar

que as esforçadas mulas vão

onde os tratores não conseguem chegar.




Poesia arroz com feijão

Eu queria fazer poesias com rimas, viola e violão

e escrever poemas com ventos, mares, rios e sertão.

Eu queria ser um poeta dos bão,

de percorrer os caminhos alimentando os passarinhos,

e, em troca, ganhar inspiração.


Eu queria que minhas palavras fossem de brincar

como jogos de armar, como pipas para empinar.

como cirandas para dançar.


Eu queria fazer versos com as coisas do dia a dia:

risos, carinhos, lar, afeição,

amizades, histórias, cantorias...

Eu queria fazer poesia arroz com feijão.

Trechos de Minas Gerais

É preciso ter força, é preciso ter raça;

Todo artista tem de ir aonde o povo está;

 A lição sabemos de cor, só nos resta aprender;

Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves;

A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou;

Para quem não sabe, eu sou brasileiro;

Mas onde se chega assim? Eu, caçador de mim...

Na minha opinião, com piano, violão e rimas,

o Clube da Esquina reconstruiu Minas.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Oratório de Dona Maria

Dona Maria, não sei seu sobrenome,

tinha um oratório feito com capricho,

enfeitado com desenhos de flores

e todo revestido, por dentro,

com santinhos daqueles que se encontram no átrio das capelas.

Entre tantos, reconheci Santa Rita de Cássia,

os Sagrados Corações de Jesus e de Nossa Senhora, 

São Benedito com o Menino Jesus no colo,

São João com o cordeiro nos ombros

e São Francisco falando com os pássaros.

- E quem é este, Dona Maria, de quem nunca ouvi dizer?

- É o Padre Donizetti, de Tambaú,

ainda não foi canonizado, mas vai ser.

Casa com histórias nas paredes


A dona da casa me convidou,

então entrei na sala simples.

Nas paredes, os retratos de santos

se misturam com retratos da família,

que contam histórias de fé,

de aniversários, de formaturas escolares,

de avôs que faleceram, de crianças que cresceram

e partiram para trabalhar ou estudar.

Alguns até mudaram de continente...

Como dizer-lhes, então, 

que o melhor lugar para morar

é onde está o coração da gente?



terça-feira, 19 de maio de 2026

Oração a São Isidoro


São Isidoro Lavrador, rogai por nós

que só queremos, só:

um ranchinho com varanda para sestear;

um pedaço de terra para lavrar;

um fogão esmaltado para cozinhar;

um moinho manual para moer café;

um oratório para fortalecer a fé;

um pilão para pilar milho, arroz, temperos também

e paçoca de amendoim. Amém!


Dança da vida

Menino, deixe de besteira,

na metade da curva, no meio do caminho,

se precate para não acabar sozinho.

A vida costuma ser dura caminhada

e com parceria fica mais leve a empreitada.


Vá ver a semente germinar,

uma flor ainda em botão,

as crianças jogando nas praças,

o peixe saltando no ribeirão.


Vá conhecer os detalhes do mundo

e aumentar a teia de amizades

para encontrar seu bem.

Comece pelos passos das danças,

pois quem dança, abraça alguém.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Eu queria escrever um poema


Eu queria escrever um poema

com jeito de onda do mar,

onde os filhos dos pescadores

vão aprender a navegar.


Uma montanha-russa líquida,

que é a própria onda do mar

a levantar e baixar golfinhos,

que vão brincar de surfar.


Uma onda de movimento cíclico,

que vem se movendo devagar,

que forma vales e montanhas

e depois se espraia no lagamar.



sábado, 9 de maio de 2026

Conselho

Ao poeta que entra em crise

de bloqueio criativo:

vá jogar e perder uma partida de xadrez;

vá catar coquinhos;

passe uma tarde inteira a pescar, em vão;

porque esse negócio de escrever poemas

não dá futuro, não.

sábado, 2 de maio de 2026

Uma questão de vida ou morte



Quando a luz elétrica chegou em nossa praia,

instalaram também lâmpadas nas ruas que levam ao mar.

Logo, Vovó, sempre atenta aos detalhes da vida,

notou mariposas, efêmeras e vagalumes mortos

pelo chão e dentro dos globos das luminárias.

— José, venha cá ver este morticínio!

Meu avô aproximou-se, olhou e desdenhou:

— São só insetos mortos, mulher. É o preço de chegarmos ao futuro.

— Futuro? Prefiro que as noites continuem no escuro!



terça-feira, 28 de abril de 2026

Lâmpadas x mariposas

 

Foi em Ubatuba, na Praia da Fortaleza,

no ano de 1975, com toda a certeza,

que a mariposa saiu do casulo,

admirou as maravilhosas asas 

e lançou-se ao ar, procurando a luz da lua.

Isso aconteceu, infelizmente, no mesmo dia

em que se inaugurou a benfeitoria da iluminação de rua.

A pobrezinha lepidóptera,  assim como acontece com muita gente,

se ofuscou com a falsa luz e finou-se na lâmpada incandescente.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Viva a vida!

A criança brincava na chuva, pulava no rio,

subia em árvores e andava com os pés no chão,

como se não sentisse frio.

Uma madame de São Paulo viu tudo aquilo

e acusou a mãe, uma caiçara das antigas,

de ser muito negligente.

- Toda criança, senhora, tem o direito de viver plenamente!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O velho oeste era aqui

Quando os filmes de caubóis estavam na moda,

após as sessões de cinema, por dias seguidos,

a gente mudava a postura, os modos e até o andar.

Nossos nomes eram Durango Kid,  Touro Sentado, Búfalo Bill

e, vez ou outra, no grupo havia até a Calamity Jane.

Nossa linguagem se tornava peculiar:

'Tenho um encontro marcado com o destino!';

'Não preciso de sua piedade!';

'Respeito é bom e conserva os dentes!' 

E, olhando em retrospectiva, 

mal dá para acreditar o quanto éramos valentes.




Sonho sob a amendoeira


Não era muito tarde
quando deitei na areia da praia.
Fiquei a olhar o desenho animado
de céus, pássaros e nuvens;
a ouvir a trilha sonora das ondas
que quebram no lagamar, 
até que adormeci e sonhei em tupi-guarani,
que o rei das matas voltou a ser o jaguar;
que o rei dos céus é taguá, o gavião;
e que o reino do mar é de iperu, o tubarão;
Já o ser humano não apareceu,
nem estragou o meu sonho, não.