sábado, 9 de maio de 2026


Os gatos não sabem o que é perigo,

deitam nos corredores

e quem quiser passar, que desvie.

Dão saltos acrobáticos para capturar

tudo o que se move,

mariposas, lagartixas e até mamangás.

Bagunçam de noite, dormem após as refeições

nas sombras das plantas, em caixas de papelão.

De manhã são os primeiros que despertam

e, diante da porta do quarto,

esperam seu humano de estimação;

se houver demora em despertar, começam a esbravejar.






sábado, 2 de maio de 2026

Uma questão de vida ou morte



Quando a luz elétrica chegou em nossa praia,

instalaram também lâmpadas nas ruas que levam ao mar.

Não passou muito tempo e minha avó,

sempre atenta aos detalhes da vida,

notou mariposas, efêmeras e vagalumes mortos

pelo chão e dentro dos globos das luminárias.

— José, venha cá ver este morticínio!

Meu avô aproximou-se, olhou e desdenhou:

— São só insetos mortos, mulher. É o preço de chegarmos ao futuro.

— O futuro é assim? Prefiro que as noites continuem no escuro!



terça-feira, 28 de abril de 2026

Lâmpadas x mariposas

 

Foi em Ubatuba, na Praia da Fortaleza,

no ano de 1975, com toda a certeza,

que a mariposa saiu do casulo,

admirou as maravilhosas asas 

e lançou-se ao ar, procurando a luz da lua.

Isso aconteceu, infelizmente, no mesmo dia

em que se inaugurou a benfeitoria da iluminação de rua.

A pobrezinha lepidóptera,  assim como acontece com muita gente,

se ofuscou com a falsa luz e finou-se na lâmpada incandescente.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Viva a vida!

A criança brincava na chuva, pulava no rio,

subia em árvores e andava com os pés no chão,

como se não sentisse frio.

Uma madame de São Paulo viu tudo aquilo

e acusou a mãe, uma caiçara das antigas,

de ser muito negligente.

- Toda criança, senhora, devia ter o direito de viver plenamente!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O velho oeste era aqui

Quando os filmes de caubóis estavam na moda,

após as sessões de cinema, por dias seguidos,

a gente mudava a postura, os modos e até o andar.

Nossos nomes eram Durango Kid,  Bat Masterson, Búfalo Bill

e, vez ou outra, no grupo havia até a Calamity Jane.

Nossa linguagem se tornava peculiar:

'Tenho um encontro marcado com o destino!';

'Não preciso de sua piedade!';

'Respeito é bom e conserva os dentes!' 

E, olhando em retrospectiva, 

mal dá para acreditar o quanto éramos valentes.




Sonho sob a amendoeira


Não era muito tarde
quando deitei na areia da praia.
Fiquei a olhar o desenho animado
de céus, pássaros e nuvens;
a ouvir a trilha sonora das ondas
que quebram no lagamar, 
até que adormeci e sonhei em tupi-guarani,
que o rei das matas voltou a ser o jaguar;
que o rei dos céus é taguá, o gavião;
e que o reino do mar é de iperu, o tubarão;
Já o ser humano não apareceu,
nem estragou o meu sonho, não.




Só para contrariar

Algumas pessoas foram tão santas e a sintonia com o céu foi tanta, que chegaram a levitar.

- Santa Teresa, São José de Cupertino e São Martinho: desçam já daí! Gente não pode voar.


A práxis poética

Escrever poesia é fácil, difícil é praticar.

São Francisco orou, reformou igrejas, escreveu poemas

e conversou com os bichos. E eles respondiam:

"- Irmão lobo, por que você é tão violento com as pessoas?

- Violento? Eu só as ataco antes que elas venham me atacar!"


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Noites antigas


Quando eu  era mais criança

As noites eram mais belas,

Viam-se mais estrelas,

havia visões de licantropos

E, até um ou outro caso de boitatá.

Tudo isso a civilização da luz elétrica

acabou por expulsar.

Sinto mais falta, mesmo, é dos fabulosos pirilampos.

Hoje, para ver unzinho que seja,

só indo bem longe, nas matas ou campos.




terça-feira, 21 de abril de 2026

Meu bom José

Rita Lee chegou ao céu, viu um santo barbudo,

pensou que era São Pedro, mas se enganou.

Ele se apresentou: - Pode entrar, Eu sou o José da sua canção!

Tomou-a pela mão e a fez se sentar.

Então, o coro dos anjos, acompanhado de harpa e violão, começou a cantar:

"Olha o que foi, meu bom José,

Se apaixonar pela donzela

Entre todas, a mais bela

De toda a sua Galileia..."

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Ajudante Nerd

Quando a mãe chegou em casa, estranhou a cozinha limpa:

-  Filho, cadê a louça do almoço?

- Eu lavei, mãe!

- Mas não tem nada sobre a pia!

- Está lá fora, no estrado, sendo tratada

com raios infravermelhos e ultravioletas.

- O quê?

- Está secando ao sol, mamãe!


Maranduba, 1967

 Quando um eletricista da Light

despencou do poste de alta tensão,

buscaram minha avó benzedeira

para fazer o primeiro atendimento,

pois o socorro ia demorar.

Logo, o acidentado deu sinais de recuperação.

Vovó Martinha curava com orações cristãs

e remédios da tradição tupinambá.



Projeto de vida


Paulinha me contou que, quando crescer, 

quer ser uma "rocamboleira".

- Quer ser o quê, Paula?

- Rocamboleira, para fazer rocamboles deliciosos, doces ou salgados, tá ligado?

Devo confessar que fui surpreendido,

e que estava mesmo desligado da beleza da lógica da criança,

mas vou me ligar; ainda tenho essa esperança.

domingo, 19 de abril de 2026

Caso sério


 A mãe escutava o filho conversar com o coleguinha:

- Hoje não vou à escola, mamãe vai me levar ao ornitorrinco!

- Otorrino, Victor, vou levá-lo ao médico otorrinolaringologista!

- Ah, mãe, não foi isso que entendi. Então não quero ir!

O menino e o mar

A mãe quis saber onde o menino tinha ido.

- Fui espiar o mar, mamãe.

- E o que mais?

- Mais nada. Só espiar já foi suficiente.



Cabelos ao vento


Todos os dias, ao acordar,

Ana Maria penteia os cabelos,

exceto naquele sábado.

- Ué, menina, vai ficar assim toda desguedelhada?

(desguedelhada é uma palavra muito usada pelas vovós,

em especial, aquelas do litoral de São Paulo).

- Hoje é trabalho perdido, vovó.

Daqui a pouco vou sair e, veja só:

lá fora está o vento bagunceiro,

despenteando até folhas de coqueiro!



Ex-astronauta

Na aula de ciências,

as crianças da sétima série viajaram pelo sistema solar.

A prô mostrou o vídeo da Terra girando,

com a lua e os planetas rodopiando também,

e até o Sol em um giro sem fim.

No melhor da aula, Régis sentiu um mal-estar.

- O que lhe aconteceu, menino? Perguntou a professora.

- Ai, estou passando mal...

a culpa é de tanta rotação e translação,

acho que não sirvo para ser viajante espacial.


sábado, 18 de abril de 2026

A vida não tem bis

Escola primária até meio-dia,
duas vezes por semana tem natação,
mais o curso de inglês e a escola de dança.
Beatriz ficou doente e a levaram à pediatra,
que logo diagnosticou  e escreveu na receita:
"A menina não tem tempo para ser criança.
Precisa brincar mais de pique, 
de balanço, de pular corda, de ciranda..."
Sua vovó, ao saber, decretou:
- Começaram as férias!
E  veio buscá-la para levar para Minas
(Toda criança devia ter uma vovó em Minas Gerais).
- Ufa, foi por um triz, Beatriz!


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Massa de ar frio


Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



terça-feira, 14 de abril de 2026

A culpa foi de Jackson Pollock!


Uma moça bonita, usando blusa de moletom,
reparou nos tinhorões, voltou-se para mim
e mostrou as folhas verdes
com manchas vermelhas e brancas:
- Algum pintor desastrado
derramou tinta nestas plantinhas,
mas o resultado ficou bom!
O que eu poderia dizer
a uma moça bonita de moletom?