domingo, 21 de junho de 2026

Lição de amanhecer

 


Toda manhã,
surpreendendo o sol ainda sonolento,
o pescador Júlio Barbosa espia o céu,
repara no vento,
sente na pele a meteorologia
do ventochuvasol.
Quem tem juízo que o escute
antes de começar o dia.

Lição de D. Astrogilda

 

Gosto do silêncio

porque é quando posso escutar

trechos da música dos anjos

na cantoria do sabiá.

E foi no silêncio que uma vez ouvi

Santa Maria, na voz de uma mãe,

cantando música de ninar

para o filhinho menor,

doentinho de dar dó.

Lição de Seu Dario

 

Quem tem dinheiro que pague advogado

para reaver suas terras aos bandidos de gravatas.

E quem não tem,

que os ataque com petas aqui na Terra,

pra ir afinando o riso,

para quando os bandidos,

ao fim da jornada,

apresentarem somente as terras roubadas

como resultado de toda uma vida desperdiçada

Lista de compras

  

José Almiro, meu avô, remou sete quilômetros

para embarcar no Expresso Rodoviário Atlântico,

viajou mais trinta quilômetros

até chegar na Vila de Ubatuba

e, pela ordem,

benzeu-se na igreja matriz,

pagou o Souza da Casa Souza,

bebeu cachaça no Bar São Paulo

e comprou no armazém do Maciel

sal, arroz, carne seca, queijo do reino, 

macarrão padre-nosso, pinga ubatubana, 

balas paulistinha - para nós, crianças -

e mais nada,

que o resto ele plantava,

pescava ou criava.

Historia de timbuíba

 


História de timbuíba

 

 

O filho mais velho de um pescador

cantou, comeu, bebeu,

até rasgar os trajes da alegria

e perceber que ali

o vazio se escondia.

Resolveu, então,

Mudar de vida e pedir,

em constante oração,

para virar timbuíba,

fincar-se na terra,

e resguardar os sentimentos

de antigos e novos ventos.


Homenagem

 

O Cândido,

da família Mesquita,

do armazém da praia,

da Praia da Fortaleza,

do tresmalho de sororoca,

recolheu a rede

e foi visitar São Pedro,

como tem que fazer

todos os bons pescadores,

foi encontrar os antigos parceiros

de pesca e de prosa

e passear entre as estrelas

de todas as grandezas,

incontáveis como os grãos de areia,

na Praia da Fortaleza.

Ideal

 

Igual a Cândido e Albertina,
quando crescer eu quero ter
uma casa de tijolos,
com um rio próximo o suficiente
para ouvir a música antiga
que pelos séculos é repetida,
na casa de espetáculos da mata atlântica:
a sinfonia da vida.

Indiscrições


 O vento leste indiscreto

inclinou o penacho

da fumaça da chaminé

do fogão a lenha

de Tia Aninha

e todo mundo ficou sabendo

que naquele dia haveria

garoupa no pirão

e visitas inesperadas

na hora da refeição.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sonhos a realizar


Mamãe, é para você ficar contente,

Eu tenho sonhos a realizar

Entre a alvorada e o poente.

Eu devia estudar

Os verbos e suas conjugações

Os números e suas variações

Ser aprovado no vestibular

Para ficar bem empregado

Para trabalhar engravatado,

Escolher o parlamento,

Votar para presidente,

mas, lamento, o mundo está doente

e eu tenho sonhos a realizar

entre a alvorada e o poente.

 

Aqui na Terra continua a ter

poucos ricos e muitos pobres,

penúria de um lado; 

de outro, ostentação;

e muitas vítimas de balas perdidas

em guerras declaradas ou não.

Mas ainda não é caso,

mesmo com o dinheiro no controle,

de descartar este pobre planeta

em um maldito black hole.

 

Não, não quero viver com bons modos,

com roupa social e o escambau,

passando calor no país tropical,

pagando o pecado de Pai Adão,

perdido em meio à civilização.

Mamãe, vou seguir em frente,

eu tenho sonhos a realizar

entre a alvorada e o poente.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Canção de ninar



Dorme, menininho,

que o sol também já foi dormir

e levou consigo todas as cores do mundo.

Menininho, tá na hora de adormecer,

pois o vento já estendeu um cobertor

de nuvens espessas para aquecer

quem não tem onde se abrigar.

Dorme, menininho,

dorme para o sonho acordar.

 

Dorme para acordar o sonho

de que todas as crianças,

mesmo as de apartamentos,

terão direito a um jardim,

para viverem bons momentos

em brincadeiras de amarelinha, pique-esconde

e o rei mandou, com poder de autoridade suprema,

que se cumpra este poema.

 

Dorme, menininho,

e sonha um sonho que traz

a esperança de que todas as crianças

terão o direito de ter mães, pais, pão e paz.

 

Dorme menininho, dorme para o sonho acordar.

 

Espie lá fora



Os dias passam e vem o tempo

Em que a tristeza vai chegar,

vai chegar para importunar,

Mas não, não deixe ela ficar.

 

Sem perceber, a saudade vai querer

Que você fique ensimesmada,

Para que não possa ver

que o futuro está todo dia

Germinando plantas no quintal.

Preparando os botões das flores

para brotar um novo astral.

 

Vá se aquecer ao sol

e seu coração esquentará também.

E se chover, dance na chuva,

Que a chuva lava a alma, meu bem.

 

Pega leve consigo e não esqueça

que tem uma criança dentro de si,

a fazer traquinagens

só para você voltar a rir.

 

O tempo frio vai passar,

o sol da primavera chegará

para aquecer, só para aquecer

você, e você vai florescer.

 

São Isidoro, rogai por nós


São Isidoro, rogai a Deus por nós,

Que só queremos, só:

dormir com a noite, acordar com o sol;

cuidar da terra, cuidar das amizades

plantar, ter fé, colher, pescar;

e encarar com naturalidade,

no meio do que é comum,

os nuances da eternidade.

 

São Isidoro, rogai a Deus por nós,

Que só queremos, só:

Uma roça de mandioca e feijão

para ter farinha na barrica

e sustança na refeição.

Uma viola para pontear

E as bênçãos de Deus, Nosso Senhor,

para nunca nos faltar amor.

 

São Isidoro, rogai por nós

que só queremos, só:

um ranchinho com varanda para sestear;

um pedaço de terra para lavrar;

um fogão bom de cozinhar;

um moinho de moer café;

um oratório para fortalecer a fé;

um pilão de pilar milho,

arroz, temperos também

e paçoca de amendoim. Amém!



 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Canção dos seres das matas e dos mares



Voo de tanajura, toca de tatu,

pio de inhambu, canto de sabiá,

balbúrdia de bugio, passos de saracura,

luz de vaga-lume, fagulhas de boitatá...

Onde é que estão, onde foram parar?

 

Esturro de onça, alvoroço de tiriba,

música de mamangava, dança de tangará,

bote de jararaca, susto de guariba,

casa de jataí, grito de carcará...

Onde estão, onde foram parar?

 

Salto de jubarte, cardume de tainhas,

alerta de maritaca, abraço de tamanduá,

chamado de acauã, papo de jacaré,

manha de ariranha, voo de panapaná...

Onde é que estão, onde foram parar?

 

Rastro de paca, disfarce de urutau,

sombra de caipora, listras de maracajá,

pulo de cutia, esperteza de guaxinim,

toca de João de barro, cores de surucuá...

Onde estão, onde foram parar?



 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Não se amarre em um homem do mar





Não, não, não, não,

Não se amarre em um homem do mar,

pois quando você estiver envolvida,

irremediavelmente apaixonada,

vem o tempo da partida

 

Vem o tempo de deixar

o porto bom de seus braços

e enfrentar as tempestades

que podem levar para o fundo

quem não está bem ancorado

nas convenções do mundo.

 

Não, não, não, não,

não lhe dê seu coração,

não lhe entregue seus sentimentos,

que amanhã ele poderá se distanciar

à mercê das mudanças dos ventos.

 

Não, não, não, não,

não lhe dê seu coração,

pois se o vento soprar por rumos tortos,

onde reencontrá-lo

nessa infinidade de portos?

 

Tem poema na escola


A maioria dos alunos prefere educação física,

a maioria dos meninos quer ser jogador de futebol,

a maioria das meninas quer ser médica ou juíza,

mas tem alguns sem juízo, valei-me santa didática,

que querem ser engenheiros, mas não gostam de matemática;

ou pretendem ser jornalistas, mas detestam a gramática.



domingo, 14 de junho de 2026

Caiçarinha


Caiçara, desde criança,

aprende a remar canoa,

a mergulhar em apneia,

a pescar com arpão,

a nadar nas ondas,

a almoçar pirão,

a saltar com efeito...

E ainda dizem por aí

que pescador bom já nasce feito.


Viva o Zeca Baleiro!

 - Quem é que tem

uma história para contar,

uns versinhos para declamar

e um violão para encantar?

- Quem tem tudo isso e muito mais:

adivinhação para adivinhar,

músicas para cantar,

e balas no bolso para compartilhar?

- O Zeca brasileiro, o Zeca festeiro, o Zeca Baleiro!



terça-feira, 9 de junho de 2026

Far away



Meu parente estava lá

vendo os homens ficarem cruéis,

sujando os rios e o Mar,

cada vez mais, Vermelho de sangue.

E os impérios se sucederam:

Babilônia, Egito, Pérsia,

Síria, Fenícia, Grécia,

Roma, Arábia, Turquia,

Grã Bretã, grande Tio Sam...

 

E as pessoas passaram a se matar

Com bordunas, lanças e flechas,

carabinas, bombardas e canhões,

fuzis, tanques e aviões,

e bombas made in Rússia, USA,

Meu parente estava lá

far, far, far away...

 

domingo, 7 de junho de 2026

Onde você pisa nasce uma flor


Meu bem, tô cuidando do jardim,
árvores atiram flores em mim,
rosas se abrem na roseira,
o rádio canta música brasileira.

Os pássaros também estão a cantar
Que a primavera está pa chegar,
Por isso comprei, meu bem,
Uns panos cheios de cores também,
Para você ornar
com a nova estação que logo chegará.

 Sabia que amor feito carinho não acaba, meu bem,
mesmo que venha a idade,
é começo de caminho
que continua na eternidade.
Mesmo que passe o tempo,
por qualquer lugar que for,
será fácil achar os seus passos:
onde você pisa, nasce uma flor.

  




 

sábado, 6 de junho de 2026

Morada da memória




Senhor viajante, que hoje está aqui

e amanhã, está acolá;

quando vir uma casa com jardim

e crianças entretidas em brincar,

veja se tem goiabeira de galhos fortes,

onde os pássaros vão se aninhar.

 

Espia se tem criação no terreiro

e um cachorrinho chamado guerreiro.

repara se tem uma gentil vovozinha.

observe e me avise;

pois é, essa casa já foi minha.

 

Uma casinha com paredes  de cal,

de janelas e portas azuis,

cafeeiros e bananeiras no quintal

 

e um renque de palmeiras

para de longe acenar,

quando, afinal,

para casa eu retornar.

 

Palmeiras à distância a acenar,

Logo... logo... eu vou chegar.