sábado, 15 de agosto de 2026

Guapuruvu

 

 Será que alguém notou

que nestes últimos anos

a mata atlântica ficou menor?

Será que alguém reparou

que há menos gigantes do que dantes?

Ou foi o bicho-carpinteiro,

ou doença desconhecida,

ou banzo desde a desaparição

da onça até ao guaiamu

que aos poucos está matando

o gigante guapuruvu.

Retorno do mar de fora

 

A primeira visão de terra é o azul da serra

que a proximidade acaba por tingir

de tons verdes da mata,

que como onda do continente

acaba por se esboroar na planície costeira

até se acabar na faixa de areia.

Os olhos mais acostumados

distinguem marcas humanas:

fumaças das chaminés, ranchos de canoas,

casas discretas sob as copas das árvores,

abençoadas pela cantoria dos pássaros,

pelo perfume das flores

e por Nossa Senhora dos Navegantes,

protetora dos pescadores.

Genealogia


Sou neto de José Almiro,

bisneto de Almiro Mesquita.

Quantas gerações atrás

estavam os mouros,

meus antepassados,

invadindo a Ibéria?

Sou neto de Eugênia de Jesus,

bisneto de João da Barra,

metade mar metade terra.

Sou neto de Estevan Félix,

bisneto de Francisco Félix,

com uma grande percentagem

de bugre nas veias,

dono de muitas terras

que a gripe espanhola deserdou.

Sou neto de Martinha Cabral,

tataraneto de Francisco Cabral

do engenho do Pulso,

da época das canoas de voga

que demandavam o Porto de Santos e

que, a muito custo, arrastavam

a vila de Ubatuba fundeada em âncoras e poitas

desde o final do século XIX.

Fortaleza’s girl


Os jovens caiçaras no final dos anos 70,

na Praia da Fortaleza, faziam uma farofa

de inglês com português,

por obra e graça dos irmãos Thomas e Olívia.

E foi por isso que Toninho do Dario

ao buscar minha tia que trabalhava

na casa de uns estrangeiros na praia vizinha,

não entrou em crise e, poliglota, sapecou:

the Fortaleza’s girl, please!

E, por aquela singeleza, assim ficou conhecida

Tia Maria Aparecida.

Foto antiga

 

Eu tenho uma fotografia

de minha avó no roseiral,

com chapéu de palha

sobre os cabelos grisalhos,

usando vestido de variadas cores,

com um sorriso radiante

de causar inveja às flores.

FLIP – Festa Literária no Paraíso

  

Os poetas dos versos, que eu devorava
com farinha e peixe assado estão todos mortinhos.
Cora Coralina foi para o Céu,
Cacaso foi para o céu,
Vinicíus de Moraes foi para o céu,
Mário Quintana foi para o céu,
Carlos Drummond foi para o céu,
João Cabral de Melo Neto foi para o céu.
E assim baixou a noite sobre a poesia
no final do século XX.

Lições de tio Tonico


Nosso corpo é o casulo

e a alma é a borboleta,

nosso corpo é a pulpa

e a alma é o besouro,

nosso corpo é o cofre

e a alma é o tesouro,

nosso corpo é o castiçal

e a alma é a vela,

nossa alma é a artista

e o corpo é a tela.

 

Filhos da Chuva

 

 Se nós praianos temos o corpo mais líquido

é por causa de alguma bebida

e muita pluviosidade

que há em nossa terra.

Se nós caiçaras temos os olhos úmidos

é por causa de alguma emotividade

e muita chuva de Ubatuba.

Se nós nativos temos o riso fácil no rosto

é porque temos a alma limpa,

lavada quase todo dia

pela benditas águas de Ubachuva.

Fiapos de memória

  

Na minha infância de caiçara

a refeição malemá enchia

o prato de porcelana

com paisagens de distantes portos

com navios a vapor

a soltar fiapos de fumos

pelas chaminés.

Enquanto a sopa esfriava

eu, distraído, navegava. 
 

Festa na Praia


Há mais de trinta anos

os cantores da folia do Divino

faziam pouso na casa de Tio Genésio

para reabastecer a força e a fé

no escaldado de peixe feito por Tia Maria.

Até hoje não esqueci o estribilho da saudação

que a gente parodiava:

- “Quero café com farinha de milhoooo...

Café com pão! Café com pão! Café com pão!”

Pregoeiro de poesia

 

A festa de São João Batista

começa com o repique dos sinos

e o primeiro de muitos foguetes.

O leiloeiro Tio Maneco Almiro,

tentará impingir toalhas de mesa,

bolos de fubá, despertador,

produtos de beleza ou ferro de passar,

dando saltos de adolescente

em corpo de septuagenário.

Dou-lhe uma,

dou-lhe duas e

dou-lhe três...

Um elixir da juventude

aqui para o freguês!

 

Presente

 

Entre todos os presentes eletrônicos, comestíveis,

de vestir ou de enfeitar,

desejo-lhes um abraço filial, um carinho fraternal,

uma bênção familiar, como havia antigamente

e foram rareando, iguais os presépios e as novenas

oferecidas a Jesus, o aniversariante.

Os anjos digam amém.


Vaquinha, cabrito, galinha,

jumento, camelo, bezerro,

anjinhos, pastores e reis magos,

ouvem maravilhados

numa manjedoura de Belém,

a canção de ninar

que Santa Maria canta

para Jesus Cristinho,

que veio para o nosso bem

e tem dores de cólicas,

igual todo neném,

que o carinho de mãe cura,

os anjos digam amém. 

Uma boa notícia


O amor de Maria,

o carinho de José,

os braços de Simeão,

a dedicação de Pedro,

a conversão de Paulo,

a devoção de Madalena,

são mais fortes

que a raiva de Herodes,

que a traição de Judas,

que a fúria dos soldados,

que tanto o farão sofrer...

Por isso no Natal

o menino Jesus vai nascer.

 

Feliz aniversário, Flavinha

 


Quando a gente nasce

recebe uma página em branco

pra escrever e desenhar a vida.

Quando a gente morre

tem que mostrar pra Deus

tudo o que a gente fez.

E aí vamos perceber

rabiscos de crianças,

desenhos de flores,

corações desenhados,

palavras escolhidas para rimar

entremeando nossas obras.

E é isso que vai nos salvar.

 

Fábula com poesia


Duas míseras lagartas
comiam couve na minha horta
e discutiam metafísica:
- Tem vida após a morte, dizia uma.
- Não seja idiota, respondia a outra.
Em teimosia típica de lagarta
mastigavam mais um pouco de couve
e voltavam ao mesmo assunto:
- A vida não acaba aqui, dizia uma.
- Guarde seu fôlego pra comer couve, respondia a outra.
Enquanto isso borboletas multicores
pairavam acima de toda essa discussão
e bebiam o néctar das flores.

Evolução

 

Antigamente nos ensinavam
Que é preciso proteger a nação
Com paus e pedras,
Com mosquetes e bombardas,
Com bombas e canhões.
Felizmente os tempos mudaram
E todo esse belicismo acabou,
agora defendemos a Pátria
Com chutes e bolas ao gol.

Dona Eugênia, minha avó.

 

Seu coração tem a simplicidade

de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.

Eternidade da lembrança

 


A casa de meu bisavô
feita de pau-a-pique,
com reboco esmerado,
de assoalhos bem lavrados
e de frente para o mar
nunca desabará,
pois tem os alicerces bem firmes 
em meu coração de menino.

Eternidade


O armazém do Bananinha,

a mercearia do Maciel,

o bar São Paulo,

a pensão do Maestro,

a casa Souza,

morreram junto com seus donos.

Por isso Tio Antônio

desistiu da cidade

e enfurnou-se no Sertão

e na perenidade

da mata, do rio, do matacão.