De bicicleta, bermudas jeans, óculos escuros
e cabelos presos por uma bandana singela,
lá vai Dona Eunice pedalando contra o relógio.
Torço por ela.
De bicicleta, bermudas jeans, óculos escuros
e cabelos presos por uma bandana singela,
lá vai Dona Eunice pedalando contra o relógio.
Torço por ela.
O poeta comprou uma cartola,
estudou a teoria das mágicas
e pôs-se a tirar flores, lenços coloridos,
moedas e cartas de baralho.
Mas ainda não estava satisfeito:
continuou a praticar de noite e de dia,
até que conseguiu tirar da cartola uma poesia.
Inventário do conteúdo do embornal
de um aluno de mil novecentos e antigamente:
caderno e lápis, um estilingue,
gibi do Tarzan, figurinhas de times de futebol,
um ímã, um novelo de barbante
e um recado nada romântico da namoradinha:
'Quer ir ao cinema comigo, seu ignorante?'
As flores nascem, embelezam, perfumam e fenecem.
Animais de estimação encantam, marcam e partem.
Se para nós a vida é um sopro fugaz,
para as estrelas de cinema a lei é diferente:
com a beleza que nunca sai de cartaz,
parecem viver em eterno presente.
Pai e mãe estão trabalhando,
as crianças estão brincando,
o presente está passando
e o futuro está chegando.
As crianças estão estudando,
as brincadeiras esquecendo,
o tempo está passando
e os pais, envelhecendo.
As crianças já cresceram,
o passado já passou,
pai e mãe são indiscretos
e agora exigem netos.
Tudo começou com Caim e Abel.
Depois vieram as flechadas, as bodocadas,
os tiros de balestras, de trabucos, de bombardas,
de fuzis, de metralhadoras, de canhões,
de navios, de tanques e de aviões
que lançam a última tecnologia em bombas assassinas.
Muitos quilômetros acima, pairam as aves de rapina.
papel para pipa, corda para pular...
Quando eu era criança,
qualquer coisa servia para brincar.
No nosso bairro de famílias pobres,
não faltava companhia para as brincadeiras
e, com companhia, não era preciso mais nada
para brincar de pique-esconde, de cirandar,
de competição de saltos, de adivinhação,
e - o que era moda nos anos 1970 -
a gente brincava até de festival da canção.
Me dê um abrigo para me refugiar,
que lhe darei meus braços para aninhar.
Me abrace para me aquecer,
que eu a abraço para aconchegar.
Me dê um tugúrio para me recuperar,
que lhe darei colo para acarinhar.
Me dê um porto para fundear,
que lhe darei um barco para navegar.
O contrário de certo é errado.
Antes Jorge Amado do que desprezado.
Grosseria é o antônimo de sutileza.
Sua Baixaria é o oposto de Sua Alteza?
Celibato é o contrário de matrimônio.
E qual é o antônimo de Antônio?
Caio não devia trabalhar nas alturas.
Clara devia ser deputada ou senadora.
Bento, padre.
Vitória, esportista.
Luna, astronauta.
Leão, lutador feroz.
Isadora, eu Isadoro, ele Isadora, nós...
sentado à mesa da cozinha,
com uma xícara de chá,
escondido do frio de fora e da ventania
que não cessa de me chamar
com um contínuo ooooooooô.
O que será que o vento quer me contar?
Hoje, 22/05/2026, o frio predominou
e as nuvens coroaram os altos da Mantiqueira.
Cá, no meio da névoa,
estou a escrever bobagens,
mas tem gente ordenhando as vacas,
agricultor cuidando da plantação
e madeireiros cortando eucaliptos.
No meio da densa cerração
passou um tropeiro tocando suas mulas;
pensei até que era assombração.
Depois, uma boa alma pôde me explicar
que as esforçadas mulas vão
onde os tratores não conseguem chegar.
Eu queria fazer poesias com rimas, viola e violão
e escrever poemas com ventos, mares, rios e sertão.
Eu queria ser um poeta dos bão,
de percorrer os caminhos alimentando os passarinhos,
e, em troca, ganhar inspiração.
Eu queria que minhas palavras fossem de brincar
como jogos de armar, como pipas para empinar.
como cirandas para dançar.
Eu queria fazer versos com as coisas do dia a dia:
risos, carinhos, lar, afeição,
amizades, histórias, cantorias...
Eu queria fazer poesia arroz com feijão.
É preciso ter força, é preciso ter raça;
Todo artista tem de ir aonde o povo está;
A lição sabemos de cor, só nos resta aprender;
Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves;
A abelha fazendo o mel, vale o tempo que não voou;
Para quem não sabe, eu sou brasileiro;
Mas onde se chega assim? Eu, caçador de mim...
Na minha opinião, com piano, violão e rimas,
o Clube da Esquina reconstruiu Minas.
Dona Maria, não sei seu sobrenome,
tinha um oratório feito com capricho,
enfeitado com desenhos de flores
e todo revestido, por dentro,
com santinhos daqueles que se encontram no átrio das capelas.
Entre tantos, reconheci Santa Rita de Cássia,
os Sagrados Corações de Jesus e de Nossa Senhora,
São Benedito com o Menino Jesus no colo,
São João com o cordeiro nos ombros
e São Francisco falando com os pássaros.
- E quem é este, Dona Maria, de quem nunca ouvi dizer?
- É o Padre Donizetti, de Tambaú,
ainda não foi canonizado, mas vai ser.
então entrei na sala simples.
Nas paredes, os retratos de santos
se misturam com retratos da família,
que contam histórias de fé,
de aniversários, de formaturas escolares,
de avôs que faleceram, de crianças que cresceram
e partiram para trabalhar ou estudar.
Alguns até mudaram de continente...
Como dizer-lhes, então,
que o melhor lugar para morar
é onde está o coração da gente?
São Isidoro Lavrador, rogai por nós
que só queremos, só:
um ranchinho com varanda para sestear;
um pedaço de terra para lavrar;
um fogão esmaltado para cozinhar;
um moinho manual para moer café;
um oratório para fortalecer a fé;
um pilão para pilar milho, arroz, temperos também
e paçoca de amendoim. Amém!
Menino, deixe de besteira,
na metade da curva, no meio do caminho,
se precate para não acabar sozinho.
A vida costuma ser dura caminhada
e com parceria fica mais leve a empreitada.
Vá ver a semente germinar,
uma flor ainda em botão,
as crianças jogando nas praças,
o peixe saltando no ribeirão.
Vá conhecer os detalhes do mundo
e aumentar a teia de amizades
para encontrar seu bem.
Comece pelos passos das danças,
pois quem dança, abraça alguém.
Eu queria escrever um poema
com jeito de onda do mar,
onde os filhos dos pescadores
vão aprender a navegar.
Uma montanha-russa líquida,
que é a própria onda do mar
a levantar e baixar golfinhos,
que vão brincar de surfar.
Uma onda de movimento cíclico,
que vem se movendo devagar,
que forma vales e montanhas
e depois se espraia no lagamar.