segunda-feira, 13 de abril de 2026

A rainha do império botânico


Tem gente que se acha afortunada por ter

meia dúzia de espécie de flores no jardim;

imagina, então, a riqueza de Vovó Eugênia com:

margarida, azevinho, helicônia, samambaia,

antúrio, begônia, lírio, dracena,

 hibisco, coração-sangrento, marianinha,

 rosa-louca, tumbérgia, jasmim, alecrim,

filodendro, alegria-dos-jardins, mariquinha-da-serra,  

estrelitzia, flor-borboleta, coromandel, caliandra,

 orelha-de-onça, primavera, manacá, resedá,

 mil-cores, campânula, amapola, bela-manhã, 

amor perfeito, centáurea,  amarílis, flor-de-lis,

orquídeas, cananga-do-japão, costela-de-adão...


Para Paula, com umas flores.

 


Ah, Paula, filha querida, se eu tivesse a vivência de hoje, seu nome de batismo seria: 

Paula Nadina Bela-Emília Sálvia Amapola Verônica Angélica Cravina Íris Violeta Rosa Margarida  Hortênsia Petúnia Dália Vanda Açucena Zínia Verbena Orquídea Camélia Félix dos Santos.


A hora da borboleta azul

Todos os dias, lá pelas cinco da tarde,

mesmo que estivesse jogando futebol,

eu retornava para casa:

era a hora da borboleta azul.

Ela vinha borboleteando da mata

e, se ficássemos quietinhos,

chegava bem perto da gente.

Via que estava tudo em paz,

pousava nas flores do quintal,

descansava um tanto, muito à vontade,

e depois partia, muito lepidóptera.

Mas voltava no dia seguinte, bem pontual.


Poema de outono


Gosto tanto das tardes de outono

que até dá vontade de ficar doidinho

e sair por aí pintando as folhas secas,

só para reverdecê-las

e retardar o início do inverno.

domingo, 12 de abril de 2026

Vaga para peixinho dourado

Se eu fosse um peixinho do Rio Indaiá,

eu ficaria mareado, eu ficaria enjoado

de tanto ser jogado para lá e para cá.

Eu iria me mudar, iria migrar

para o fundo do mar.

Se o mar não tivesse lugar para mim,

então eu seria o novo peixinho dourado

no aquário tranquilo e bem cuidado

da menina dos cabelos cacheados.




.


Jardim caiçara

Vovó Eugênia foi uma jardineira de mãos cheias,

que plantou margaridinhas, flores-de-maio,

campânulas, lágrimas-de-cristo e flor-do-japão;

cultivou a mil-cores, da folhagem

em todos os tons de verde, branco e rosa.

Seus canteiros de flores atraíam as abelhas, 

borboletas, mariquitas, colibris e a mim.

Quando chegávamos ao seu quintal,

primeiramente cheirávamos todas as rosas e jasmins

 

sábado, 11 de abril de 2026

Aprendiz de naturalista

Entreguei o binóculo para Paula e disse:

- Olha para o mar e veja se tem 

peixe pulando, ou baleia saltando, ou tartaruga boiando...

Ela olhou para uma direção, depois para outra,

e balançou a cabeça:

- Para facilitar para a gente,

bem que eles podiam ter cor fosforescente.



Vó sabida

Prefiro fogão a gás,

geladeira elétrica

e lâmpada de Édison.

Quem discordar que vá rachar lenha,

salgar peixe

e cheirar fumaça de querosene. 

Vovó Dina

Muito antigamente, eu tive uma vovó

que ensinou para seus filhos, que passaram adiante,

que o jeito certo de criar crianças

é com alimento na barriguinha e muito carinho.

Que a meninada deve brincar

e, ao mesmo tempo, aprender:

nomes de bichos, plantas, lugares;

remédios feitos de ervas e orações;

técnicas certas de plantar, caçar, pescar...

Eu tive uma avó que foi apresada e batizada de Dina,

mas o correto seria Flor da Praia - Poty Rebembeybá.

Ela foi uma sobrevivente do povo Tupinambá.





Poesia em dia sem ventos


Se em dia sem ventos, em uma praça arborizada,

uma única árvore balançar os finos ramos,

pode se aproximar sem receios,

para investigar e se maravilhar:

é o bichinho caxinguelê entretido em viver.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Poema do paradoxo


-  Cento e trinta e quatro, cento e trinta e cinco, cento e...

Um menino contando os passos passou por mim, 

descendo a rua da praia.

Não quis atrapalhar sua matemática,

então não perguntei nada,

mas, também, já adivinhava sua intenção,

pois também já fui criança que quis saber a distância

que nos separava do mar.

Mas, adianto desde já, 

é uma distância que conforme a gente cresce,

só faz aumentar.




quarta-feira, 8 de abril de 2026

Calango tango


O rapaz, acho que tinha um parafuso a menos,

achou um bichinho parecido  com calango.

- Que animal bonitinho!

O réptil gostava de pedacinhos de peixe.

- Que animal fofinho!

Mas logo passou a comer peixes inteiros. 

- Que animal crescidinho!

- Existe calango com mais de metro? - quis saber um vizinho.

- Esse é um deles, Zé! 

Mas para ninguém criar caso, vou apelidá-lo de jacaré.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Um mundão de passarinhos


De que adiantariam todas as árvores da floresta

se não houvesse passarinhos?

Um mundo sem cantos, sem voos rasantes,

sem a festa de cores nas matas.

Sem o grito e sem o susto do gavião-carcará,

sem as sete vestes da saíra-de-sete-lenços

e nada do tangará a dançar balé.

E como a gente ia viver

sem a poesia e melodia de Patativa do Assaré?

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Escola da vida

Pais não fazem cursos para serem pais;

aprendem muito com a primeira criança,

um pouco mais com o segundo bebê

e, no terceiro, já sabem interpretar 

choro, cólica, sono, xixi, cocô...

Mas, melhor mesmo, posso usar a rima? 

é alcançar a perfeição sendo avó ou avô.

domingo, 5 de abril de 2026

São João da Praia da Fortaleza

Os adultos vestem roupas domingueiras

para a missa na capela de São João Batista.

Já as crianças vão de bermudas e chinelos de dedos

e São João nem liga;

o importante é que elas estejam por perto.

Afinal, o próprio santo vestia-se de peles de animais

e comia gafanhotos no deserto.


Rico com os pés descalços


Quem tem o pleno uso das faculdades mentais
sabe que a maior riqueza não é o ouro;
isso, qualquer psicopata pode acumular.
Melhor que tudo isso-
lição de São Francisco de Assis-
é partir pelas estradas com uma túnica
e um par de sandálias,
para ganhar o bronzeado da vida ao ar livre,
para conhecer os lugares, gentes e costumes,
e aprender outras linguagens,
inclusive a língua dos animais.
São Francisco pregou para as pessoas e pássaros,
abençoou os peixes, 
as ovelhas gostavam de sua companhia,
fez amizade até com o lobo de Gubbio, chamando-o de irmão.
Encontrou uma riqueza escondida,
aquela que se leva quando chega a hora
de partir para o outro lado da vida.



Tratado sobre poemas


Se eu fosse poeta dos "bão",

reservava as manhãs para pesquisar

os assuntos mais importantes:

memórias de velhinhos,

pérolas ditas por crianças

e conversas de passarinhos.

Também ia ler os livros tipo:

'Arquitetura dos castelos de areia',

'Técnicas de voo de Ícaro',

'Biografia do Padre Bartolomeu de Gusmão'...

Tudo isso para obter matéria-prima de poesias,

se eu fosse poeta dos "bão".




Notícias que o vento traz

É tempo de o vento minuano,

vir cavalgando do sul,

com corpo de nuvens e crinas de ventos,

acima das coxilhas e dunas, cânions e lagunas,

matas, praias e restingas,

trazendo mensagens de abril 

para São Luiz do Paraitinga,

terra natal de Aziz Ab'Sáber:

lá vem a geada e o frio! 




sábado, 4 de abril de 2026

Poema de cuitelinho


Um cuitelinho novo por aqui -

será que veio de Minas?

Será o mesmo da música de Milton?

Chegou no jardim de casa, beijou as flores que quis,

voou, pairou, revoou e chocou-se com a vidraça.

Acho que bebeu néctar fermentado, o infeliz.

Biologia caiçara

Eu sei o que tem no meio do mato:

bichos de todas as espécies,

tem herbívoros, carnívoros

e os colibris, que vivem de beber néctar.

Serão eles bebívoros?

Meu tio também bebia muito,

mas não bebia para viver,

somente para esquecer.