sexta-feira, 30 de julho de 2021
Cuidados necessários
quinta-feira, 29 de julho de 2021
Plantando na terra, colhendo no mar
terça-feira, 13 de julho de 2021
Valente, meu barco
Quando crescer eu vou comprar um barco à vela
para me levar aonde o vento sopra,
vou pintá-lo de nuvens e ondas
e chamá-lo de valente.
Vou deixar de bobagem,
navegar só de cabotagem,
ter amigos em cada porto,
pescar o peixe grande e soltar o filhote,
assistir o espetáculo dos golfinhos,
respeitar os sinais dos tempos,
fugir das tempestades,
e ter tenência das coisas,
pois, como disse vovô José:
"escute e veja se não erra,
o pior dos tubarões
muitas vezes está em terra".
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Poesia não escrita
No tempo em que lá em casa
Não se escrevia,
Mas se praticava poesia,
Vovó costurou uma blusinha
para um franguinho doentio transido de frio.
Foi o tempo de repô-lo no quintal
E o gavião catar o bichinho,
Mas ficou só com a flanela
E deixou na Terra um escarcéu
De pinto que pia
De neto que berra
De avó que se ria.
domingo, 13 de junho de 2021
No meu país
Quem ultrapassou as alturas
Não quer voltar ao chão
Quem conheceu o céu
Não se limita à Terra
Quem provou das liberdades
Quer que vá para o inferno
O ditador e suas maldades.
No meu país ideal, aliás,
Fechará a escola superior de guerra
E abrirá a escola superior de paz.
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Vida caiçara
começa com o pé no
mar
até tomar intimidades
e pular nas ondas,
mergulhar no mar
e se benzer com água do mar.
E conforme cresce em
idade e experiência,
ao mesmo tempo vai
tomando ciência
em manejar o remo, em
costurar a rede,
e adquire a sabedoria
dos nomes dos peixes,
da força dos ventos,
dos humores do mar,
dos sinais dos
tempos,
até merecer a
distinção mais cara
de ser, no trabalho e
na cultura,
mestre em tradição
caiçara.
Antigos significados
Os caiçaras mais velhos eram analfabetos,
os signos eram outros.
Liam-se os sinais do tempo no comportamento do mar,
na direção do vento, na cor do pôr-do-sol.
Sabia-se das plantas conforme suas serventias
e elas eram conhecidas pelos nomes
como se fossem velhas amigas.
Liam-se os animais pelos respectivos sinais,
já os pássaros eram conhecidos
principalmente pelos ouvidos.
cada vivente com seu encanto.
Casa de caiçara
Houve um tempo em que minha casa
e eu era muito rico,
porque maravilhas aconteciam sob a minha janela:
os botos brincavam de pega-pega na Baía da Fortaleza,
as fragatas planavam ao sopro do vento leste,
a Ilha Vitória aparecia e desaparecia
conforme as condições do tempo,
os barcos faziam complicadas manobras
para atracar ou para zarpar,
muralhas de nuvens erguiam-se sobre a Ilha Bela
anunciando a frente fria
e nenhum dia era igual ao outro.
As janelas da minha casa,
naquela época não sabia,
abriam-se para a poesia.
Inventário de meus avós maternos
Tem bananal que sobe e desce morros,
pomar de todas as
frutas,
casa de telhas de
barro feitas nas coxas,
sala de chão
assoalhado
de dançar a chiba e
fazer o baile,
rádio de ondas curtas
pra pegar todas as
emissoras do planeta
na antena de fio de
cobre instalada sobre o telhado.
Na cozinha tem
farinha no barril
e muitos quilos de
sal
guardados sob o calor
do fogão à lenha.
Têm casa de farinha
com roda de ralar, prensa de fuso,
cocho, gamelas de
madeira e forno com tacho de cobre,
pra deixar a farinha
torradinha, farinha boa, farinha da terra.
No quintal tem café
secando ao sol, peixes secando no jirau,
dezenas de galinhas,
patos e alguns perus.
Tem uma jabuticabeira
carregada de frutas
E uma vovó que sempre
nos lembrava
para deixar um pouco
para os passarinhos,
Vovó era assim, não
lia nem escrevia,
Então falava poesia.
Nova lição
Quando vovô perguntou
o que eu tinha aprendido
eu respondi que a professora ensinou
que a baleia é animal mamífero
e não peixe como eu pensava.
- Mas não fique triste,
consolou-me o avozinho,
com aquela cara de peixe
a qualquer um ela enganava.
No quintal de meus avós
com a lembrança do quintal
de Seu José e Dona Eugênia:
Roupas, Peixes e grãos de café secando ao sol,
lenha empilhada à espera do machado,
galinhas e patos no terreiro
que vai até uma pequena queda d’água
suficientemente generosa para sustentar
guaru-guarus, camarões, rãs,
cobras d’água, cafulas
e matar a sede de curiosidades
das crianças de casa e arrabaldes.
Trilha caiçara
passa sob as árvores carregadas de frutos,
passarinhos, gaiolas de alçapão,
meninas de tranças, meninos de pés no chão,
ranchos de canoas, casas de farinha,
sapos na gamboa,
criação de patos e galinhas,
amendoeiras de raízes expostas,
pessoas com as almas expostas,
pescados às dezenas, aos centos
e continua a trilha
no recôndito dos sentimentos.
segunda-feira, 26 de abril de 2021
10 coisinhas para deixar o dia feliz
Feriado prolongado. Café saboroso na xícara. Encontrar o guarda-chuva perdido. Ganhar livro bom de presente. Chocolate em dia frio. Refresco gelado em dia quente. Ouvir uma piada bem hilária. Saldo positivo em conta bancária. Perder menos tempo com problemas. Ter mais tempo para poemas.
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Escola de pescadores
Desde pequeno,
como se fosse brincadeira de criança,
ajudava meu avô a puxar rede
e receber os presentes do mar :
cação-viola,
treme-treme,
água-viva,
camarão-rosa,
peixe-voador,
siri-candeia,
peixe-tapa
e outros espantos.
Boas notícias
O vento leste com pressa de tormenta
correu
sobre o mar só para contar às orelhas de pau
- tem
ao menos uma em cada árvore do meu quintal -
que
a primavera acabou de atravessar
a
linha equinocial.
Bem-aventuranças
Desde pequeno eu pude
sentir o cheiro do
mar
trazido pelo vento leste,
o gosto do coentro
bravo
no caldo de peixe
com banana verde,
o sabor do biju de
farinha
assado na hora e
o sabor do limão
cravo e
da alfavaca no cação
refogado.
E não há nada que
apague
de minha memória
o aroma da banana
assada no fogão a lenha,
do café torrado na
panela de ferro
e da batata doce
preparada
na fogueira de São
João,
padroeiro da Praia de
Fortaleza.
Belvedere
Não havia lugar para nós na praia,
por isso fomos morar
no morro
de onde se podia
avistar
toda a baía da
Fortaleza,
o parcel do Mar
Virado,
a coreografia dos
botos,
o frio vindo do sul,
a Ilha Vitória
e os navios que
deixavam sinais de fumaça
antes de se perderem
no horizonte.
domingo, 11 de abril de 2021
A verdadeira sabedoria
li muitos livros,
aprendi a enfileirar palavras,
a repetir a enciclopédia
e fiquei muito prosa,
até descobrir
que Tia Aninha benzedeira,
sem escrita e nem leitura,
somente com suas orações,
aprendeu a ler as pessoas
e o estado de seus corações.
Do jardim de Vovó Eugênia
havia o mais bonito jardim
com as mais belas flores
admirado por mim
e bem frequentado
pelos especialistas conhecedores:
as abelhas, as borboletas,
as mariquitas e os beija-flores.
Homenagem ao Tio Tonico
Entre constelações de estrelas do mar
e revoadas de peixes-voadores e carapirás,
parte a derradeira viagem
do barco que tem São Pedro à proa
e conduz quem pescou o peixe,
mas soltou o filhote,
e quem se benzeu com a água benta do mar
antes de sair para pescar.

















