Em troca de um braço forte,
um abraço suave,
uma chuva de pingos de ouro
e uma parceria para a vida
inteira:
Em troca de um braço forte,
um abraço suave,
uma chuva de pingos de ouro
e uma parceria para a vida
inteira:
Operários e soldados
percorrem as trilhas de terra
que cruzam todo o reino de D.
Eugênia.
Desde o pomar,
desde o canteiro,
todas os caminhos
levam ao formigueiro.
Um gigante caminhante
nas sombras e ermos do Sertão da Quina
cruzou o caminho
do pescador noctívago Antônio Félix
que, por muito tempo, ficou assombrado.
E espanto maior só teve
quando conheceu os olhos
cor de céu
de tia Conceição
e, que, por eles se perdeu.
As mamangavas
cantavam música de ninar
para meu bisavô,
enquanto escavavam tocas
nas paredes de pau-a-pique.
E debaixo do assoalho
uma família de lagartos
morava e ainda mora.
Quem quiser que vá ver
lá na praia da Fortaleza
enquanto a casa, pobrezinha,
maltratada e em ruínas
ainda resiste em pé,
igual à imagem que restou,
após 35 anos,
de meu saudoso bisavô.
Aonde vai, Sr. Fernando
Pessoa,
com esse chapéu de palheta,
esse bigode cofiado,
essa gravata borboleta,
em plena luz do dia?
- Vou caçar, ora pois,
caçar versos para minha
poesia.
Do rumo
leste e guinando sobre as ondas,
o
veleiro veio, acho que do século passado.
Será
que veio buscar pimenta-do-reino,
café do
Vale do Paraíba,
farinha
de Ubatuba
e ouro
de Minas Gerais?
Que
pena, chegou tarde demais.
Leve de presente
uma penca de banana da terra,
ou um pedaço de torta,
ou abacates maduras,
ou um buquê de flores
aos amigos que precisam de
visitas
como profilaxia
para evitar a doença da
solidão
e precisam reencontrar motivos
da alegria d-e-v-i-v-e-r.
Quando chegava a noticia
de belonave que aportava
na Vila de Ubatuba,
quem era homem
corria e se escondia
nas alturas da pedra da Igreja
na praia da Fortaleza,
até que se afastassem
os alistadores parrudos
que buscavam voluntários da
Pátria,
no tempo dos generais barbudos
Se eu for convidado,
quando chegar o dia
de abrir-se a porta
da Casa de Deus,
vou direto para a cozinha
ver se tem fogão a lenha
e sobre ele um caldeirão
com garoupa e banana verde,
no ponto de pirão.
A paz vencerá a guerra,
O amor
sufocará o ódio,
A vida
vencerá a morte,
Quando a
fragilidade valer mais do que a força,
Quando o
carinho ganhar da agressão,
Quando o
ouro for encontrado nos corações,
Quando a
luz vencer as trevas,
Quando a
mão parar a espada,
Quando a
descrença der lugar à fé
E quando os
castelos tiverem a riqueza
De uma
casinha de Nazaré.
Minha viola
toca benditos,
chora saudades,
saúda o Divino
e cai na folia.
E nos mantemos
em perfeita afinação
para nossa salvação.
Se todo caiçara pudesse
ser pescador embarcado
e à terra retornasse
a cada quinzena,
novo homem renasceria
e o coração palpitaria
pelos olhos reconhecidos
à visão da Ilha Vitória
entre líquidos montes e vales
do mais duro oceano,
antecipando, poucas milhas
além,
a Vila Nova da Exaltação à
Santa Cruz
do Salvador de Ubatuba, amém.
Tantas voltas a Terra dá,
tantos giros de carrossel,
tantas revoluções telúricas,
tantas translações e rotações,
tantos rodeios só pra
dizer
que quero tanto um beijo
seu.
Sou, modéstia à parte,
caiçara,
da alta gastronomia,
da ostra com limão,
do mexilhão na caldeirada,
da lagosta assada,
do pirão de garoupa,
do caviar de tainha
salgado e seco ao sol
e posto para ser assado
nas brasas do fogão à lenha.
Quem tem juízo que prove
o gostinho do passado.
Quando crescer, quero uma
moradia
de pau-a-pique com reboco, pintada
de branco
de janelas e portas azuis.
E, no quintal, cafeeiros,
bananeiras
jabuticabeiras e um coqueiro
para de longe acenar quando
para casa eu retornar.
Quero uma casa de esteios do
mato,
de ripas de jiçara, de teto
baixo com vãos para guardar
navalha de barbear, anzol para
caçoa,
agulha de costurar rede e
retratos de santos por todas as paredes.
Minha casa terá fogão a lenha com
chapa de ferro de três bocas,
uma chaminé bem comportada
que expulsa toda a fumaça e
deixa só um bocadim
para fazer picumã contra o
bicho-cupim.
Uma casa com camarinhas de
janelas abertas
para as bandas do leste, para
o caminho do sol,
para o mar e as fruteiras carregadas de pássaros
que cantam a Deus, gratos pela
alvorada,
como todo mundo devia fazer em
início de jornada.
Uma casa muito simples com
luxo só na camarinha,
com tarimba de ripas, esteiras
de taboa e travesseiro de macela.
Minha casa de adulto será
minha casa de infância.
A chuva estava além da serra
e da previsão da meteorologia,
quando começou a cantoria
dos sapos na gamboa,
a intanha é a que mais berra.
Vovó correu pra tirar
o café seco do terreiro
e depois para preparar
a queima da palha benta
que, com a oração de Santa
Bárbara,
afasta qualquer tormenta.
- Filho, vou à vila comprar mantimentos,
olhe a roupa do varal para mim,
preste atenção que o tempo pode mudar,
mas não deixa chover, viu?
O menino Jesus só respondeu: - Podexá.
Certa vez, Nosso Senhor Jesus
Cristo,
gastou suas energias curando
doentes,
convertendo descrentes,
e voltou para casa cansado e
faminto.
Abriu a porta da cozinha,
levantou as tampas da panelas
para ver o que tinha
e beijou sua mãe,
era quiabo com
galinha.