sábado, 12 de julho de 2025

No meu quintal


Em troca de um braço forte,

um abraço suave,

uma chuva de pingos de ouro

e uma parceria para a vida inteira:

orquídea na laranjeira

Poema minúsculo

 

Operários e soldados

percorrem as trilhas de terra

que cruzam todo o reino de D. Eugênia.

Desde o pomar,

desde o canteiro,

todas os caminhos

levam ao formigueiro.

Mistério nos anos 1970

 

Um gigante caminhante

nas sombras e ermos do Sertão da Quina

 cruzou o caminho

do pescador noctívago Antônio Félix

que, por muito tempo, ficou assombrado.

E espanto maior só teve

quando conheceu os olhos cor de céu

de tia Conceição

e, que, por eles se perdeu.

Nocaute

 



Após o almoço de domingo
todo mundo na casa de meus avós
ficava completamente derrubado
na rede da varanda,
na tarimba da camarinha,
na esteira de taboa,
ou no cocho da casa de farinha.
Culpa, data venia,
do pirão de peixe
de Vovó Eugênia.

Poema do mundo natural

 

As mamangavas

cantavam música de ninar

para meu bisavô,

enquanto escavavam tocas

nas paredes de pau-a-pique.

E debaixo do assoalho

uma família de lagartos

morava e ainda mora.

Quem quiser que vá ver

lá na praia da Fortaleza

enquanto a casa, pobrezinha,

maltratada e em ruínas

ainda resiste em pé,

igual à imagem que restou,

após 35 anos,

de meu saudoso bisavô. 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Negaceando

 

 

Aonde vai, Sr. Fernando Pessoa,

com esse chapéu de palheta,

esse bigode cofiado,

essa gravata borboleta,

em plena luz do dia?

- Vou caçar, ora pois,

caçar versos para minha poesia.

Poema de outros tempos

 


Do rumo leste e guinando sobre as ondas,

o veleiro veio, acho que do século passado.

Será que veio buscar pimenta-do-reino,

café do Vale do Paraíba,

farinha de Ubatuba

e ouro de Minas Gerais?

Que pena, chegou tarde demais.


Não esqueça dos amigos

 


 

Leve de presente

uma penca de banana da terra,

ou um pedaço de torta,

ou abacates maduras,

ou um buquê de flores

aos amigos que precisam de visitas

 como profilaxia

para evitar a doença da solidão

e precisam reencontrar motivos

 da alegria d-e-v-i-v-e-r.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Na Guerra do Paraguai

 


Quando chegava a noticia

de belonave que aportava

na Vila de Ubatuba,

quem era homem

corria e se escondia

nas alturas da pedra da Igreja

na praia da Fortaleza,

até que se afastassem

os alistadores parrudos

que buscavam voluntários da Pátria,

no tempo dos generais barbudos

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Na cozinha do Senhor

 


Se eu for convidado,

quando chegar o dia

de abrir-se a porta

da Casa de Deus,

vou direto para a cozinha

ver se tem fogão a lenha

e sobre ele um caldeirão

com garoupa e banana verde,

no ponto de pirão.

 

Música para ninar o menino Jesus


A paz vencerá a guerra,
O amor sufocará o ódio,
A vida vencerá a morte,
Quando a fragilidade valer mais do que a força,
Quando o carinho ganhar da agressão,
Quando o ouro for encontrado nos corações,
Quando a luz vencer as trevas,
Quando a mão parar a espada,
Quando a descrença der lugar à fé
E quando os castelos tiverem a riqueza
De uma casinha de Nazaré.

Música nas alturas


Minha viola

toca benditos,

chora saudades,

saúda o Divino

e cai na folia.

E nos mantemos

em perfeita afinação

para nossa salvação.

Muito prazer, família dos siris

 

Siri-candeia,

siri-patola,

siri-babão,

siri-na-lata,

sirigaita. 

Mudança de foco


Se todo caiçara pudesse

ser pescador embarcado

e à terra retornasse

a cada quinzena,

novo homem renasceria

e o coração palpitaria

pelos olhos reconhecidos

à visão da Ilha Vitória

entre líquidos montes e vales

do mais duro oceano,

antecipando, poucas milhas além,

a Vila Nova da Exaltação à Santa Cruz

do Salvador de Ubatuba, amém.

Movimento cíclico


 

Tantas voltas a Terra dá,

tantos giros de carrossel,

tantas revoluções telúricas,

tantas translações e rotações,

tantos rodeios só pra dizer

que quero tanto um beijo seu. 

 

Modéstia à parte

 


Sou, modéstia à parte, caiçara,

da alta gastronomia,

da ostra com limão,

do mexilhão na caldeirada,

da lagosta assada,

do pirão de garoupa,

do caviar de tainha

salgado e seco ao sol

e posto para ser assado

nas brasas do fogão à lenha.

Quem tem juízo que prove

o gostinho do passado.

Minha casa

 


Quando crescer, quero uma moradia

de pau-a-pique com reboco, pintada de branco

de janelas e portas azuis.

E, no quintal, cafeeiros, bananeiras

jabuticabeiras e um coqueiro

para de longe acenar quando para casa eu  retornar.

 

Quero uma casa de esteios do mato,

de ripas de jiçara, de teto baixo com vãos para guardar

navalha de barbear, anzol para caçoa,

agulha de costurar rede e retratos de santos por todas as paredes.

 

Minha casa terá fogão a lenha com chapa de ferro de três bocas,

uma chaminé bem comportada

que expulsa toda a fumaça e deixa só um bocadim

para fazer picumã contra o bicho-cupim.

 

Uma casa com camarinhas de janelas abertas

para as bandas do leste, para o caminho do sol,

para o mar e  as fruteiras carregadas de pássaros

que cantam a Deus, gratos pela alvorada,

como todo mundo devia fazer em início de jornada.

 

Uma casa muito simples com luxo só na camarinha,

com tarimba de ripas, esteiras de taboa e travesseiro de macela.

Minha casa de adulto será minha casa de infância.

Milagre de Santa Bárbara

 


A chuva estava além da serra

e da previsão da meteorologia,

quando começou a cantoria

dos sapos na gamboa,

a intanha é a que mais berra.

Vovó correu pra tirar

o café seco do terreiro

e depois para preparar

a queima da palha benta

que, com a oração de Santa Bárbara,

afasta qualquer tormenta.

Versos apócrifos


- Filho, vou à vila comprar mantimentos,

olhe a roupa do varal para mim,

preste atenção que o tempo pode mudar,

mas não deixa chover, viu?

O menino Jesus só respondeu: - Podexá.



Milagre de mãe

 


Certa vez, Nosso Senhor Jesus Cristo,

gastou suas energias curando doentes,

convertendo descrentes,

e voltou para casa cansado e faminto.

Abriu a porta da cozinha,

levantou as tampas da panelas

para ver o que tinha

e beijou sua mãe,

era quiabo  com galinha.