É preciso investigar
quem é o responsável
pelas lições camicases
dadas aos carapirás
da Ilha dos Alcatrazes.
É preciso investigar
quem é o responsável
pelas lições camicases
dadas aos carapirás
da Ilha dos Alcatrazes.
É preciso espaço entre as bananeiras
para plantar café,
crianças brincando de aprender
a colher café,
espaço no terreiro
para secar café,
caldeirão de ferro
para torrar café,
moinho manual
para moer café,
fogão à lenha
Para esquentar
a água na chaleira
para fazer café,
um peixe frito com farinha
pra acompanhar o café.
Devagarinho benza os
olhos com o sinal da cruz.
banhe-o com água de
rosa branca
e recite a oração de
Santa Luzia:
"Santa Luzia
passou por aqui
com seu cavalinho
comendo capim.
Corre, corre cavaleiro
pela porta de São Pedro
e diz a Santa Luzia
que me mande seu
lencinho
para tirar-me esse
argueiro."
Em dias nublados
procurem janelas no céu
para surpreender
os anjinhos que as abrem
procurando arejar o ambiente.
Procurem apanhar um sorriso de anjo,
como dizem que aconteceu outrora
a Quintana que marchou para o crepúsculo
imaginando ser a aurora.
Com 1 kg de mangarito,
2 kg de galinha do quintal,
2 xícaras de arroz,
1 xícara de óleo,
1 litro de água quente,
e mais 2 tomates, 2 pimentões,
1 dedo de açafrão, Gengibre,
Manjericão, Louro,
Cheiro-verde, Alho, Cebola
Sal e Pimenta a gosto,
mais um toque de alecrim,
tudo isso rematado com um copo de mucungo,
o que será de mim?
Modo de Preparo: Cozinhe o mangarito e tire a
casca. Refogue a cebola, o alho, o gengibre e o açafrão. Ponha os pedaços de
galinha em um litro de água quente. Quando a carne começar a amaciar, coloque
mais um litro de água quente e misture o arroz e o mangarito. Mexa para não
grudar. Quando o arroz estiver no ponto, ponha o resto dos temperos e aguarde o
cozimento se completar.
E o mucungo, para quem não sabe, é vinho de garapa. Antigamente deixava-se a
garapa fermentar dentro de um pote de barro debaixo da terra por três dias,
depois coava-se, devolvia-se a bebida ao pote sob o solo para fermentar mais
três dias e boa carraspana.
Recomenda-se comer e beber como antigamente,
isto é, fazendo a sesta após a refeição.
Em uma lasca de madeira
da proa de um barco,
encontrada na areia da praia,
pode ser lido um drama
de tempestade e naufrágio,
que uma criança achou,
acertou os lados com um canivete,
por mastro fincou um graveto,
esticou um velame de brinquedo
e devolveu às ondas,
muito agradecido
pelo recado recebido.
O rádio
de válvulas,
cuja
antena era um fio de cobre
esticado
de uma ponta à outra do telhado
da casa de Vovô José Almiro,
captava
as ondas hertzianas de
Orlando
Silva, Nelson Gonçalves,
Tonico
e Tinoco, Pixinguinha,
conversa
de anjos e pios de passarinhos.
O quintal de meus avós
tinha tamanho suficiente
para jogar bola,
brincar de esconder,
pular corda e
jogar malha.
Cabia ainda
um jardim de rosas de todas cores
(as flores preferidas de Vovó
e de Nossa Senhora),
um bananal nos fundos,
laranjeiras, cafezal, jabuticabeiras
uma horta protegida
das aves do quintal
e outros seres rapaces
(nós, inclusive).
Era um quintal tão grande
que até hoje ocupa
quase todo o meu coração.
Do quintal de meu avô
tenho saudades paladares:
jabuticaba, goiaba,
abacaxi, bacupari,
araçá, cambucá,
fruta do conde,
recendendo não sei como,
não sei donde,
gostinho de sol,
sabor de chuva,
aroma de infância.
No início da tempestade,
ao ribombar do trovão,
não tranque a porta de casa,
não feche seu coração,
para que os anjinhos da guarda
em espantada revoada
tenham onde se abrigar
quando o chuva desabar.
Volte para casa,
Que seus pulmões são fracos,
Sr. Manuel Bandeira,
Olha o bacilo da pneumonia,
Ou o vírus da poesia.
Até 1970 São Pedro vinha
puxar rede com os caiçaras,
rezar oração,
remar canoa,
desfiar timbopeva,
fazer farinha,
tramar balaio,
contar causo,
tocar viola,
assoviar pro guaiá
e, como falam os mais velhos,
deixou uma saudade grande que coá.
De março a abril,
por causa da quaresma
e acidentes rodoviários,
tinticuias e manacás
dão flores de luto
ao longo da SP- 125.
Na casa de meus avós não tinha luz elétrica,
mas havia lampiões e lamparinas iluminando
o pedaço do escuro
entre o jantar e as orações.
E o restante do breu não nos afetava
porque no nosso sono
havia a luz dos sonhos,
até o sol intrometer-se
entre os vãos das telhas para avisar
a hora de acordar.
E o fogão a lenha, graças a Deus e à Vovó,
já irradiava luz, calor,
cheiro de café fresquinho,
inhame, mandioca e cará.
Bons augúrios para o dia
que estava por começar.
Meu avô ajuntou um dinheirinho
com a venda de banana e farinha
e trocou as tarimbas pelas camas,
o fogão a lenha por um fogão a gás,
as esteiras de taboa pelos colchões,
comprou um rádio de válvulas,
um verdadeiro requinte,
e, com setenta anos de atraso,
pôs a família no século XX.
Tem gente que faz festa de aniversário
pra cachorro
e outros estão matando cachorro a grito;
tem pessoas que só bebem água importada
e outras sequer tem água tratada;
tem gente lutando pra viver,
outros defendem a pena de morte;
tem pouca gente com muita terra
e muita gente deserdada.
E ainda cantam que dos filhos deste solo és mãe
gentil,
Ó pátria amada Brasil?
Más notícias de guerra em países distantes
atravessavam as escarpas
e seus esporões que isolavam nossa praia
trazendo inquietações para o cotidiano
da pequena vila de pescadores.
A pedido do padre rezávamos
pelas almas de tantas vítimas.
Mas Vovó Zulmira não se abalava e dizia:
por defunto que não conheço,
não rezo nem ofereço.
Vovó foi para o céu,
sem ler nem escrever,
mas sabia muito bem
prestar serviços de
parteira,
rezar o rosário de
memória,
fazer remédio de ervas
e presentear com mudas
de flores
quem nada sentia no
corpo,
mas na alma tinha
dores.
e espantem os
passarinhos,
mas não matem os
pobrezinhos
que não lhes queremos
mal,
é só pra mantê-los
longe do arrozal.
E, nós, os netos, afinávamos nossas pontarias
mirando em gongos
improvisados
pendurados num varal: latas, chapas e outros objetos de metal.
Meu avô faleceu,
mas ficou seu retrato
na parede da sala,
em branco, preto e pretérito.
Rosto de caiçara
com marcas do tempo
e vincos de ventania
dos dias de pescaria.
Face tranqüila de quem sabe
e tem a vivência
que após a tempestade
vem o período de claridade.
Nos seus olhos, só para quem sabe,
pode-se ler a história de vida
de quem fez por merecer
um pedaço da terra prometida.