sábado, 24 de maio de 2025

Recomendação


É preciso investigar

quem é o responsável

pelas lições camicases

dadas aos carapirás

da Ilha dos Alcatrazes.

 

Receita do melhor café do mundo


É preciso espaço entre as bananeiras

para plantar café,

crianças brincando de aprender

a colher café,

espaço no terreiro

para secar café,

caldeirão de ferro

para torrar café,

moinho manual

para moer café,

fogão à lenha

Para esquentar

a água na chaleira

para fazer café,

um peixe frito com farinha

pra acompanhar o café.

Receita de Tia Teresa para a dor d'ólhos

 


Devagarinho benza os olhos com o sinal da cruz.

banhe-o com água de rosa branca

e recite a oração de Santa Luzia:

"Santa Luzia passou por aqui

com seu cavalinho comendo capim.

Corre, corre cavaleiro

pela porta de São Pedro

e diz a Santa Luzia

que me mande seu lencinho

para tirar-me esse argueiro."

Aconteceu com Mário Quintana

 


Em dias nublados
procurem janelas no céu
para surpreender
os anjinhos que as abrem
procurando arejar o ambiente.
Procurem apanhar um sorriso de anjo,
como dizem que aconteceu outrora
a Quintana que marchou para o crepúsculo
imaginando ser a aurora.

 

Galinha com mangarito

 

Com 1 kg de mangarito,

2 kg de galinha do quintal,
2 xícaras de arroz,
1 xícara de óleo,
1 litro de água quente,
e mais 2 tomates, 2 pimentões,
1 dedo de açafrão, Gengibre,
Manjericão, Louro,
Cheiro-verde, Alho, Cebola
Sal e Pimenta a gosto,
mais um toque de alecrim,
tudo isso rematado com um copo de mucungo,
o que será de mim?

Modo de Preparo: Cozinhe o mangarito e tire a casca. Refogue a cebola, o alho, o gengibre e o açafrão. Ponha os pedaços de galinha em um litro de água quente. Quando a carne começar a amaciar, coloque mais  um litro de água quente e misture o arroz e o mangarito. Mexa para não grudar. Quando o arroz estiver no ponto, ponha o resto dos temperos e aguarde o cozimento se completar.
E o mucungo, para quem não sabe, é vinho de garapa. Antigamente deixava-se a garapa fermentar dentro de um pote de barro debaixo da terra por três dias, depois coava-se, devolvia-se a bebida ao pote sob o solo para fermentar mais três dias e boa carraspana.

Recomenda-se comer e beber como antigamente, isto é, fazendo a sesta após a refeição.

 

Recado das ondas


Em uma lasca de madeira

da proa de um barco,

encontrada na areia da praia,

pode ser lido um drama

de tempestade e naufrágio,

que uma criança achou,

acertou os lados com um canivete,

por mastro fincou um graveto,

esticou um velame de brinquedo

e devolveu às ondas,

muito agradecido

pelo recado recebido.

 

Rádio de válvulas

 

O rádio de válvulas,

cuja antena era um fio de cobre

esticado de uma ponta à outra do telhado

 da casa de Vovô José Almiro,

captava as ondas hertzianas de

Orlando Silva, Nelson Gonçalves,

Tonico e Tinoco, Pixinguinha,

conversa de anjos e pios de passarinhos.

 

Quintal de infância


O quintal de meus avós
tinha tamanho suficiente
para jogar bola,
brincar de esconder,
pular corda e
jogar malha.
Cabia ainda
um jardim de rosas de todas cores
(as flores preferidas de Vovó
e de Nossa Senhora),
um bananal nos fundos,
laranjeiras, cafezal, jabuticabeiras
uma horta protegida
das aves do quintal
e outros seres rapaces
(nós, inclusive).
Era um quintal tão grande
que até hoje ocupa
quase todo o meu coração.

 

Quintal da saudade

 Do quintal de meu avô

tenho saudades paladares:

jabuticaba, goiaba,

abacaxi, bacupari,

araçá, cambucá,

fruta do conde,

recendendo não sei como,

não sei donde,

gostinho de sol,

sabor de chuva,

aroma de infância.

 

Quem dará guarida aos anjos da guarda?

 No início da tempestade,

ao ribombar do trovão,

não tranque a porta de casa,

não feche seu coração,

para que os anjinhos da guarda

em espantada revoada

tenham onde se abrigar

quando o chuva desabar.

Quem avisa amigo é

 Saia da friagem,

Volte para casa,

Que seus pulmões são fracos,

Sr. Manuel Bandeira,

Olha o bacilo da pneumonia,

Ou o vírus da poesia.

Que coá

 

Até 1970 São Pedro vinha

puxar rede com os caiçaras,

rezar oração,

remar canoa,

desfiar timbopeva,

fazer farinha,

tramar balaio,

contar causo,

tocar viola,

assoviar pro guaiá

e, como falam os mais velhos,

deixou uma saudade grande que coá.

 

Quaresmeiras

 De março a abril,

por causa da quaresma

e acidentes rodoviários,

tinticuias e manacás

dão flores de luto

ao longo da SP- 125. 

 

Quando eu não era órfão dos avós

 

Na casa de meus avós não tinha luz elétrica,

mas havia lampiões e lamparinas iluminando

o pedaço do escuro

entre o jantar e as orações.

E o restante do breu não nos afetava

porque no nosso sono

havia a luz dos sonhos,

até o sol intrometer-se

entre os vãos das telhas para avisar

a hora de acordar.

E o fogão a lenha, graças a Deus e à Vovó,

já irradiava luz, calor,

cheiro de café fresquinho,

inhame, mandioca e cará.

Bons augúrios para o dia

que estava por começar.

Quando meu avô ficou rico

 

Meu avô ajuntou um dinheirinho

com a venda de banana e farinha

e trocou as tarimbas pelas camas,

o  fogão a lenha por um fogão a gás,

as esteiras de taboa pelos colchões,

comprou um rádio de válvulas,

um verdadeiro requinte,

e, com setenta anos de atraso,

pôs a família no século XX.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Voz das ruas

 


Tem gente que faz festa de aniversário

pra cachorro

e outros estão matando cachorro a grito;

tem pessoas que só bebem água importada

e outras sequer tem água tratada;

tem gente lutando pra viver,

outros defendem a pena de morte;

tem pouca gente com muita terra

e muita gente deserdada.

E ainda cantam que dos filhos deste solo és mãe gentil,

Ó pátria amada Brasil?

Bisavó Zulmira


Más notícias de guerra em países distantes

atravessavam as escarpas

e seus esporões que isolavam nossa praia

trazendo inquietações para o cotidiano

da pequena vila de pescadores.

A pedido do padre rezávamos

pelas almas de tantas vítimas.

Mas Vovó Zulmira não se abalava e dizia:

por defunto que não conheço,

não rezo nem ofereço.

Vovó parteira

 


Vovó foi para o céu,

sem ler nem escrever,

mas sabia muito bem

prestar serviços de parteira,

rezar o rosário de memória,

fazer remédio de ervas

e presentear com mudas de flores

quem nada sentia no corpo,

mas na alma tinha dores.

Vovó Martinha

 


Tomem seus bodoques

e espantem os passarinhos,

mas não matem os pobrezinhos

que não lhes queremos mal,

é só pra mantê-los longe do arrozal.

E, nós, os netos, afinávamos nossas pontarias

mirando em gongos improvisados

pendurados num varal: latas, chapas e outros objetos de metal.

Vovô José Almiro

 


Meu avô faleceu,

mas ficou seu retrato

na parede da sala,

em branco, preto e pretérito.

 

Rosto de caiçara

com marcas do tempo

e vincos de ventania

dos dias de pescaria.

 

Face tranqüila de quem sabe

e tem a vivência

que após a tempestade

vem o período de claridade.

 

Nos seus olhos, só para quem sabe,

pode-se ler a história de vida

de quem fez por merecer

um pedaço da terra prometida.