sábado, 4 de abril de 2020

Parada obrigatória













A correria era tão grande,
casa-condução-trabalho-condução-casa,
que não nos importávamos com o corpo,
muito menos com a alma,
não tínhamos tempo para a família,
nem para sentir saudades,
já não dormíamos, apagávamo-nos.
E de tanto nos apagar
o corpo foi dando sinais,
o brilho dos olhos a falhar,
os ossos e músculos a doer,
o coração a disritmar,
o pulmão com muita tosse...
Isso é poesia? Antes fosse.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

1970: trecho de notas sociais da Praia da Fortaleza












Hoje de manhã a rede do Zé Almiro
trouxe muitos cações, betaras, corvinas,
linguados, carapebas e robalos
e os parceiros na pescaria ganharam uma boa porção.
Dona Eugênia, capricha no coentro e no limão!

Tia Aninha manda avisar que não esqueçam
da novena na Capela de São João Batista
para pedir a Deus para vir nos abençoar
com abundância de peixe e farinha de mandioca,
ou depois não adianta choramingar.

O ônibus do Expresso Rodoviário Atlântico
trouxe de Santos, via São Paulo,
o Marcelino do Zé Almiro, que trouxe  notícias
dos parentes que foram para a cidade grande,
mas, maior que tudo, são as saudades.

Oliveira Antero de Oliveira
está completando 45 anos de idade
e avisa que combinou com Nosso Senhor
que pretende viver mais 50 anos
e que isso não é papo de pescador.










terça-feira, 31 de março de 2020

Histórias contadas pelo rio











Da antiga propriedade restaram a ruínas da casa grande
abraçadas pelos cipós que pendem das árvores imensas
que lançam sombras sobre histórias muito tristes
do tempo em que o país era sustentado pela escravidão,
quem será que ali plantou um salgueiro da babilônia,
que o vulgo também chama de chorão?

Os homens se ausentaram da terra
mas os semelhantes acharam espaço para os semelhantes
e agora entre os guapuruvus e embaúbas tem bananeiras,
no meio dos caniveteiros e manacás tem laranjeiras,
ao virar a página do livro de história, a exploração acaba,
e agora só os pássaros aproveitam a doçura da jabuticaba.

O rio do lugar continua a correr entre as pedras
e contar as mesmas histórias do começo da criação:
"aqui a alga virou limo e grimpou as pedras,
ali nasceu o avô do peixe e pai do camarão,
o Cuidador das águas sempre amou os viventes
desde quando as ondas do mar vinham até às nascentes".







domingo, 29 de março de 2020

Celebração da vida













Para espantar a tristeza e a alegria voltar a rir
eu aqui canto o segredo para quem quiser me ouvir:
quando o passarinho fica jururu
tira umas notas do peito e se põe a cantar,
cantador quando fica triste
abraça a viola e faz a alegria voltar.


Para assustar a tristeza e a alegria voltar a rir
eu aqui canto o segredo para quem quiser me ouvir,
as delícias da cozinha caipira
são galinha com quiabo,
carne-seca com cambuquira,
polenta bem temperada,
arroz com tutu de feijão
couve-manteiga refogada
de trazer a alegria de volta
e manter a tristeza afastada.


Quando o passarinho fica jururu
tira umas notas do peito e se põe a cantar,
cantador quando fica triste
abraça a viola e faz a alegria voltar.


Para acabar com a tristeza e fazer alegria sorrir
eu aqui canto o segredo para quem quiser me ouvir,
o bule com café quente nos dias frios do inverno
mantém a alma aquecida e o coração sempre terno,
se a alegria é vida, que a tristeza vá para o inferno.
Eu vou voltar ao rancho em que vivi
com o bananal a crescer entre as alegrias
gerando em cada cacho uma penca de poesias
e onde as águas da bica põe o monjolo a socar
o amendoim para a paçoca, o milho para o fubá
para fazer angu de isso com tudo que a vida dá.

Para espantar a tristeza e a alegria voltar a rir,
eu aqui canto o segredo para quem quiser me ouvir:
quando o passarinho fica jururu
tira umas notas do peito e se põe a cantar,
cantador quando fica triste
abraça a viola e faz a alegria voltar.



sábado, 28 de março de 2020

Vovó Eugênia


Nós vivíamos no sopé da serra bruta
respeitando os limites das encostas, grotas e margens de rios,
minha família era de pescadores,
mas também criava patos, galinhas,
plantava aipim, inhame, feijão, 
pés de bananas, jabuticabeiras
que dividíamos com os pássaros, saruês, 
cachorros do mato e as saúvas que vinham,
em correição de milhares, sem ninguém convidar.
Quando elas começaram a atacar as roseiras,
Dona Eugênia ficou indignada e proibiu,
daquela data em diante, a caça ao tamanduá.




quarta-feira, 25 de março de 2020

Abrindo o coração








Eu gosto de dormir com a música da chuva
nas folhas das bananeiras;
costumo sonhar com os olhos abertos
e minha mulher diz que é sina de família;
me perco nas páginas de um bom livro
e fico a dever tempo aos deveres;
me emociono com a história de Malala
até aos dias de hoje;
sintonizo sempre nas palavras, cantadas ou não,
dos pássaros da mata atlântica;
gosto de beijar meus filhos,
mesmo depois de crescidos
e canto músicas bregas debaixo do chuveiro
e tudo escorre para o ralo.

terça-feira, 24 de março de 2020

Coronavírus e outros vírus













As maiores pragas a ameaçar o planeta
vêm dos micróbios patogênicos
e, também, dos macróbios oportunistas
cujo deus é o dinheiro:
os incendiários que tocam fogo na Amazônia,
os especuladores a lucrarem com a miséria alheia,
os milicianos cujas riquezas pingam sangue,
os traficantes que transformam jovens em zumbis,
os políticos a desviarem recursos da merenda escolar,
os covardes que atacam índios, crianças e mulheres,
os falsos profetas que usam o nome de Deus em vão,
os grileiros de terras que deixaram Dona Luzia na rua,
os capitalistas que aterraram os manguezais de Ubatuba,
os criminosos que lançam esgotos e lixos nos rios
e que depois vão matar a vida no mar...
Mas agora emperrou a máquina de produzir dinheiro,
travou a engrenagem do sistema que fez seis bilionários
concentrarem tanta riqueza quanto metade da humanidade,
está suspensa a exploração dos mais pobres e assalariados,
parou a queimada das florestas e extinção dos bichos,
as fábricas deixaram de lançar poluição nos ares,
os peixes voltaram a se reproduzir nos mares,
as árvores voltaram a respirar,
na China o ar está com mais leveza
e as águas estão mais limpas
no litoral de São Paulo e nos canais de Veneza.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Leituras














Tem gente culta que sabe ler em línguas estrangeiras
ou até os hieróglifos dos egípcios,
mas não tem a sabedoria de ler a escrita cuneiforme
das pegadas dos pássaros na areia da praia,
ou não compreendem o significado
das mensagens do telégrafo dos grilos.
Meu avô pescador sabia de tudo isso e dizia:
- "A batuíra chegou de arribação,
vai começar o tempo bom."
Ou, então, - "O tempo vai mudar,
os grilos estão afoitos
chamando as fêmeas para namorar."

sexta-feira, 20 de março de 2020

Amor é o remédio











A noite foi sacudida com aplausos
para os trabalhadores da saúde,
vi jovens a se oferecer
para fazer compras de idosos
e vizinhos que cantam parabéns nas janelas
para animar o aniversário de uma criança.
Eu amo a criatividade
daqueles que vencem os vírus
com o despertar da solidariedade...
Tá proibido beijar e abraçar,
tá probido até andar de mãos dadas,
mas não tá proibido amar.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Poema para um artista
















Um tanto de mistério
Dos tempos que se perdeu a conta
Nas areias do deserto
Misturado com um quê de Brasil matuto
Que recende a café feito no fogão a lenha,
litanias entoadas por uma avozinha;
pios da saracura na capoeira,
que saram, Rui Cláudio, que curam,
Até as chagas das nostalgias que perduram.

terça-feira, 10 de março de 2020

Mares de morros




Quando eu era ingênuo,
espiando as alturas da Serra do Mar,
imaginava o que havia mais além,
só depois descobri que depois do morro,
havia outro morro,
com mais morros depois por uma jornada inteira,
e, quando atinava-se com o fim,
ainda estava  por vir a Serra da Mantiqueira.

Além das aparências





Na folha vide o verso,
nos versos leia as entrelinhas,
a pálida estrela no firmamento
revelou-se um universo-ilha,
o que o cientista descobriu,
o poeta já sabia.

Regras de trânsito




Gente, asteroide, carro, caminhão,
favor não entrar na rodovia, na via-láctea,
ou na vida na contramão.

domingo, 1 de março de 2020

A música mais antiga


Desde pequeno a gente aprendeu
a imitar os passarinhos
e eles se achegavam curiosos, bobinhos,
para espiar quem estava assoviando
de forma tão arrevesada
suas palavras tão bonitas.
A gente imitava mas não entendia
todas as histórias que cabem nas canções
dos sabiás, canários, etc... e corrupiões.


domingo, 23 de fevereiro de 2020

Dias de mansidão




Depois da plantação cuidada,
de toda a criação tratada,
da rede de pesca recolhida,
minha avó cuidava das flores,
meu avô consertava a rede
e meus tios namoravam.
Só nós crianças estávamos
com os dias simplesmente lotados
em jogar bola na praia,
empinar pipas,
pular amarelinhas,
brincar de jacaré nas ondas,
balançar nos galhos das amendoeiras
e brincar de esconder
até que o tempo nos achou
e tivemos que crescer.






Poesia para preservar




Antigamente todos os rios nasciam
e nunca morriam,
se transformavam em mar.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Escola de poesia


O que eu queria mesmo
era trabalhar em uma escola especializada
em tratar os ferimentos da alma,
que recebesse as crianças mais tristinhas,
iguais plantas murchas carecendo de água
e as devolvessem para a vida
totalmente protegidas contra as mágoas
provocadas por uma sociedade que machuca
quem tanto já sofre com carência de paz ou pais.

Jardim do céu




Como se não bastassem as flores da Mata
cheia de ipês, helicônias, ciosas, manacás,
Vovó ainda cultivava roseiras,
onze horas, hibiscos, mimos
e mais mil flores.
E Deus ficava tão contente
que todos os dias mandava recados de carinhos
pelas mariquitas, abelhas e cuitelinhos.





domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sinais da Era do Amor?




Conheço muito moços e moças
com as mãos bem unidas,
filhos únicos de famílias reduzidas,
ou, no máximo, têm outro irmão ou irmã,
com os pais separados,
que vão por aí afora plantando árvores,
salvando os cachorros
ou abraçando a causa da ecologia.
São muito amorosos,
porque se sustentam de carinhos.
E assim o rumo do mundo
vai tomando novos caminhos



sábado, 8 de fevereiro de 2020

Anúncio













Não sei em que ponto da história,
de tanto me preocupar com trabalho,
salário, resultado e vitória,
acabei por perder a ancestral calma
dos caiçaras, caipiras do litoral,
não sei onde ficou minha alma,
a situação está ruim,
tô com saudades de mim,
quem me encontrar por aí
favor despachar para a caixa postal
na Praia do Perequê-Mirim,
para o ano de 1976,
para a casa com cercas de hibiscos
pelos beija-flores muito frequentada.
Agradeço a atenção dispensada.