segunda-feira, 7 de julho de 2025

Minha casa

 


Quando crescer, quero uma moradia

de pau-a-pique com reboco, pintada de branco

de janelas e portas azuis.

E, no quintal, cafeeiros, bananeiras

jabuticabeiras e um coqueiro

para de longe acenar quando para casa eu  retornar.

 

Quero uma casa de esteios do mato,

de ripas de jiçara, de teto baixo com vãos para guardar

navalha de barbear, anzol para caçoa,

agulha de costurar rede e retratos de santos por todas as paredes.

 

Minha casa terá fogão a lenha com chapa de ferro de três bocas,

uma chaminé bem comportada

que expulsa toda a fumaça e deixa só um bocadim

para fazer picumã contra o bicho-cupim.

 

Uma casa com camarinhas de janelas abertas

para as bandas do leste, para o caminho do sol,

para o mar e  as fruteiras carregadas de pássaros

que cantam a Deus, gratos pela alvorada,

como todo mundo devia fazer em início de jornada.

 

Uma casa muito simples com luxo só na camarinha,

com tarimba de ripas, esteiras de taboa e travesseiro de macela.

Minha casa de adulto será minha casa de infância.

Milagre de Santa Bárbara

 


A chuva estava além da serra

e da previsão da meteorologia,

quando começou a cantoria

dos sapos na gamboa,

a intanha é a que mais berra.

Vovó correu pra tirar

o café seco do terreiro

e depois para preparar

a queima da palha benta

que, com a oração de Santa Bárbara,

afasta qualquer tormenta.

Versos apócrifos


- Filho, vou à vila comprar mantimentos,

olhe a roupa do varal para mim,

preste atenção que o tempo pode mudar,

mas não deixa chover, viu?

O menino Jesus só respondeu: - Podexá.



Milagre de mãe

 


Certa vez, Nosso Senhor Jesus Cristo,

gastou suas energias curando doentes,

convertendo descrentes,

e voltou para casa cansado e faminto.

Abriu a porta da cozinha,

levantou as tampas da panelas

para ver o que tinha

e beijou sua mãe,

era quiabo  com galinha. 

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Alô, Ubatuba onde nasci!


Alô, lugar onde nasci,
quantas saudades eu estava
das matas que descem da serra
como onda verde sobre a terra
e rios que nascem nas nuvens,
e trazem do alto algo que acalma
e cura as dores da alma!

Alô, praia onde nasci,
com o som das ondas 
a fazer a gente sonhar
que o tempo ruim passou
e a gente voltou ao mar.

Alô, Ubatuba onde nasci,
com o som do mar a acalentar
e fazer a gente sonhar
com rios  que vêm das nuvens,
e trazem do céu algo que acalma
e cura as dores da alma,
e cura as dores da alma.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Mulheres de luta!



Quando vai começar o novo capítulo

em que as mulheres tenham igualdades

nos trabalhos, nos salários e nas oportunidades?

Uma nova história vai começar na consciência das pessoas

para repudiarem  a ideologia dos machistas

e para se somarem à resistência antifascista!

 Quem tem essa sabedoria

sabe qual lado está no jogo da existência,

toma partido a favor da vida e tem a consciência

de que serão as novas Evas

que vencerão as forças das trevas!






quarta-feira, 25 de junho de 2025

Bote à deriva



Antigamente não fazia sentido se dizer dono de tudo

das terras,  árvores, rios feitos por Deus, God, Dios.

Antigamente não tinha essa história

de dividir a terra em lotes,

as pessoas em classes, o  tesouro em lingotes

o trabalho era em  comunidade,

não fazia sentido ser egoísta porque a vida era brevidade

e ainda é... e  ainda é...

ainda somos marinheiros à deriva na maré...

 O que é e o que será depende de nós para mudar

e fazer uma corrente de gente consciente

de que a vida deve ser respeitada

nas cidades, na mata, no mar, para o mudo se iluminar,

pois  é o amor  que nos levará além,

rumo ao novo tempo de ninguém soltar a mão de ninguém!




A gente sabia tudo



 A gente sabia ler as nuvens, acompanhar a direção dos ventos,

para perceber, antes que fosse tarde, os sinais de tempestade.

 A gente sabia os remédios do mato, as sabedorias do tupinambá,

o jeito certo de conversar com Deus, de tocar rabeca e dançar,

 

A gente sabia tudo o que a vida tinha para ensinar,

a gente era alfabetizado em sabedoria popular!



domingo, 22 de junho de 2025

Onde você pisa, nasce uma flor.



Meu bem, tô cuidando do jardim,

árvores atiram flores em mim,

rosas se abrem na roseira,

rádio toca música brasileira.

Os pássaros estão a cantar

Que a primavera chegará

Por isso comprei, meu bem,

Uns panos cheios de cores também,

Para você ornar

Com a primavera que logo vai chegar.

 

amor feito carinho não acaba, meu bem,

mesmo que venha a idade,

é começo de caminho

que continua na eternidade.

Mesmo que passe o tempo,

por qualquer lugar que for,

será fácil achar os seus passos:

onde você pisa, nasce uma flor.

 

Árvores do jardim atiram flores em mim

e por qualquer lugar que for,

será fácil achar os seus passos:

onde você pisa, nasce uma flor.

Procura-se



Uma revoada de pássaros levanta voo

de partida para a casa de inverno. Onde?

Uma pessoa colhe flores

e ajeita um ramalhete de presente. Para quem?

Um retrato na parede mira distante. O quê?

Uma nostalgia mansinha tá querendo me pegar. Por quê?

 

Procura-se um lugar igual antigamente

onde toda minha gente

sabia a refinada arte

de tocar viola ou violão,

dançar conforme a música

e compor uma canção. 

Um lugar igual antigamente,

com quintal para os filhos

viverem a infância plenamente

no espaço de jogar, dançar, cantar,

alegrar toda a vizinhança

e dar saudades do tempo de criança.

Tem que ser uma casa com jardim

com  roseira, margarida,  lírio,

dama-da-noite e amor-perfeito.

e já que a perfeição é um delírio,

serve até amor imperfeito.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Pega a visão!


Eu queria ser músico competente

de passar para o papel

as notas que vêm à mente

quando as andorinhas

ao chegar em migração

no Brasil tropical caliente

pousam nos fios de alta tensão.

Deve ser uma música muito louca

Pega a visão!

 

Deve ser uma música muito louca

Sobre aqueles que vivem no chão

Ou sobre paisagens estranhas

Em florestas e montanhas

ou lugares maravilhosos

Éden, Atlântida, Xangrilá…

Se ainda eu tivesse asas

voltaria para lá.

 

Será que realmente somos

O ápice da evolução???

Pega a visão!


domingo, 8 de junho de 2025

O sopro do vento




Chega de brincar,
guarde essa bola,
passe para dentro de casa já

saia do quintal do planeta
porque algum irresponsável
deixou a camada de ozônio aberta
e  entrou o raio ultravioleta.

É de entristecer um quintal 
sem galinhas a ciscar,
sem roseiras a perfumar,
sem crianças a reinar,
e a coisa mais triste do mundo
é um balanço onde só o vento brinca.
só o vento brinca.
Um balanço vazio tocado pelo vento,
como se vento tivesse sentimento.

a coisa mais triste do mundo
é um balanço onde só o vento brinca.
só o vento brinca.
Um balanço vazio tocado pelo vento,
como se vento tivesse sentimento.


sábado, 7 de junho de 2025

Ânimo!



Na cidade do stress há uma viela

com casa, quintal, flores,

um cachorro, pitangueira,

pássaros cantores,

tem balanço em goiabeira

tem beija-flor e borboleta

e no balanço uma criança brinca

de vai e vem sobre o planeta.

 

O planeta mal pode esperar:

Criança aprendendo a andar,

passarinho aprendendo a voar,

filhote de peixe voltando ao mar,

futuro artista a caprichar

a humanidade a se irmanar.

 

O filho do Todo Amoroso,

Nasceu bem aqui no planeta Gaia.

Há mais mistérios no céu

do que grãos de areia na praia.

 

 

O Todo Amoroso, louvado seja,

escolheu nosso planeta Gaia,

Há mais mistérios no céu

do que grãos de areia na praia.


O itabirense


Carlos Drummond
(corrijam-me se erro)
tinha um coração de ouro
moldado na terra do ferro.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Menino curioso



Não soube o que responder

quando o menino Victor Félix

perguntou se o ouriço do mar,

que não tem pé nem cabeça,

é um bicho de verdade,

pois parece feitiçaria

de um pajé tupinambá,

que juntou espinhos da brejaúva

e construiu o bicho pindá.  

Memória sob cerração


Os anos depositaram camadas de névoas

nas lembranças que guardo de Maria Alice:

sardas, tranças no cabelo,

uma esquecida música,

e sorrisos sob laço de fita,

que a pátina do tempo transformou

em quadro impressionista.

 

MDCCCLXXX


Benedito Barba da Praia da Enseada,

(meu tataravô),

o que você caçou?

Um sorriso de mulher,

uma gaivota que mergulhou

e a tintureira apanhou.

Benedito Barba

(barba de desertor),

o que você caçou?

Um papo de baiacu,

um bote de jaracuçu

e aragem no vento sul.

Benedito Barba

(de sobrenome Bento),

o que você caçou?

Uma esperança no vento,

uma dose de espanta-tristeza

e viagem só de ida

para a Praia da Fortaleza.

Mata Atlântica

 


Esta mata tem segredos

que a ciência não explica,

esta mata tem medos

que a coragem não vence,

esta mata tem luzes

que espalham escuros

nas mentes das pessoas,

esta mata tem vozes

de seres que não existem.

Martinha Cabral


Lá vai Dona Martinha, minha avó,

com o pé no presente e a cabeça no passado.

Lá vai Dona Martinha

levando um galho de roseira

para plantar no jardim de alguém.

Lá vai a parteira Dona Martinha

abrir as janelas do mundo para algum neném.

Lá vai Dona Martinha a caminho da igreja

junto com Santa Teresinha.

Lá vai Dona Martinha levando mantimentos

tirados de sua despensa vazia

para quem precisa pôr a fome em dia.

Maria Galdina

 

 

No asilo do Sertão da Quina,

na páscoa de 1992,

com mais de cem anos de idade,

Maria Galdina partiu para o céu

deixou sua maior riqueza,

um conjunto de canecas de ágata

que ganhou na época da inocência,

quando todo estranho bem vestido

era chamado de doutor,

quando todo forasteiro era bem recebido,

quando se acreditava na gratuidade das intenções

e na boa vontade das pessoas.

E foi por isso que  Maria Galdina,

nascida na praia, morreu no sertão.

E foi por isso que Maria Galdina,

morta na Terra, renasceu no Céu.