terça-feira, 29 de abril de 2014

Rescaldo





No torvelinho de estragos
Da última tormenta
As plantas perderam as folhas,
As flores perderam as borboletas,
Eu perdi você
E duas ou três estrelas cadentes
Despencaram das plêiades.
Depois quase tudo voltou ao normal.

domingo, 27 de abril de 2014

Haikais de Domingos Santos













Imitação de Bashô

Março em início,
alegria no fim do dia:
chuva pula na rodovia.

Praia da Fortaleza:
tormenta serra abaixo
orações serra acima.

 Escoa uma galáxia
entre meus dedos:
no mar, ardentia.

 O povo caiçara
era metade terra
e metade mar.

 No mar, dia virou noite
e descrente em devoto
desde criancinha.

 Vaga-lume
perilâmpada
pirilampo

 Dia indeciso
entre nuvens e sóis.
Girassol ficou confuso.

 Chuva fina e fria
cai sobre as bananeiras
saudades de 30 anos atrás.

 Em Ubatuba,
litoral Norte do Estado,
o oceano é mais molhado.
  
Oceano misterioso,
pescador puxou a rede
veio um dia radioso.


Fim de carreira:
marinheiro de todos os mares
afoga-se em aguardente.

  
Entre o céu e o mar
o pingüim escolheu o pior:
o mar antártico.
  

Chuva na mata,
festa para as plantas,
pandemônio na cascata.

 Mar Virado.
Sob a tempestade
um oceano de paz.
  
Gota a gota:
filete, riacho, ribeiro,
rio, Rio de Janeiro.
  
Fim do acordo de paz
entre mar e terra:
ressaca.

 Serra recatada
sob espesso véu.
Nuvens do vento leste.
  
Noite com lua.
Luz no mar
oscilante vaga.

 Sol nascente em Ubatuba.
Mineradores de alvoradas
buscam ouro no mar.
  
Inquietações cordiais,
Três Corações
em Minas Gerais.

  
Onda barquinho,
ainda barquinho,
onde barquinho?

 Plutônicas flores
só de lírios
kananga do Japão.

 No meu jardim
colibris fazem a ponte aérea
entre hibiscos e magnólias.

 Musgos e beijos
à sombra das árvores
florescem rochas.
  
Fiat lux,
vagalume é parente
de estrela cadente.

 No rastro do vento
desfiam os dias
folhas arrastadas.

 Mata atlântica
peneira a luz do sol
e o colibri beija flor.

 Na mata atlântica
erguem-se as árvores
e palmas para o sol.

 Na nuvem que passa
passeia uma abelha
pela vidraça.

O negro Amaro


O negro Amaro não era louco
até ficar gira da cabeça
e ficou igual criança
rindo à toa,
falando sozinho
ou cantando o mesmo tema
de uma antiga canção…
igual criança ou um poeta
que atingiu a perfeição.


Ressaca


As ondas intrometidas
entram em todas as baías,
batem-se contra as pedras,
avançam ressacadas
além do limite combinado,
invadem o quintal das casas,
mexem com as plantas do jundu,
alagam a toca do guaruçá,
porque o que é do mar
a onda vai buscar.


Manuéis e Isabéis


Ai que saudade que dá,
do tempo em que a canoa
era o principal meio de transporte
e tocar a rabeca
era a suprema arte;
do tempo em que as tainhas
se alvoroçavam no mar
e os caiçaras benziam-se
ao sair para pescar;
do tempo em que as crianças
eram batizadas
de Antônios, Joaquins ou Manuéis,
Marias, Eugênias ou Isabéis.
Ai que saudade que dá!

Uma coisa puxa a outra

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Cheiro de mexerica lembra minha infância,
que lembra a casa de meus avós,
que lembra a Praia da Fortaleza,
que lembra o mar oceano,
que lembra as distantes colunas de Hércules,
que lembram o jardim das Hespérides
onde cresciam os pomos de ouro,
que são as mesmas mexericas
do quintal de meus avós.

Céu furado


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Esse céu todo esburacado
deixando vazar luz
é obra do caçador Órion
depois que passou a usar
espingarda com cartuchos
que espalham chumbo
por todo o universo.
Para confirmar, vide o verso.

sábado, 26 de abril de 2014

Artes do Menino Jesus



Goiabeiras, laranjeiras,
coqueiros, parreiras,
foram obras de Deus criador.
Já a jabuticabeira
com frutos em toda a extensão,
desde os galhos mais altos
até ao caule ao rés do chão,
decerto foi arte do menino Jesus
na Terra de Santa Cruz.

domingo, 30 de março de 2014

Consertando peixes

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O novo Padre que veio do estrangeiro
ficou muito admirado
quando eu informei
que minha Avó estava no rio
consertando peixes.
(Tem gente que não acredita,
mas na beira do mar
a gente aprende desde cedo
a consertar peixes).
E ficou por curiosidade esperando na sala
até que Vovó chegou com o balaio de pescados
todos devidamente consertados
e logo estava feita uma caldeirada,
acompanhada do devido pirão
com o cheiro do tempero a tresandar
que até fez o padre pecar
ao quebrar seu jejum quaresmal:
modéstia à parte, quanto aos peixes,
minha Avó mais do que consertava,
ela os aperfeiçoava.

História de Isolina






Isolina, neta de Francisco Cabral,
é por livre e espontânea vontade
que vós estais deixando a brisa do mar,
a areia da praia,o pirão de peixe,a festa das gaivotas,
a raiz da família,a história de sua terra,
 por marido e nova vida
em Cunha do alto da serra?
Isolina Cabral,
vós acreditais que a força do verbo amar
é mais forte que o mar?

No outro lado do sono

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A criança despertou
após um bom sono com sonhos aventurosos
acompanhado de seu urso preferido
e resolveu levantar em silêncio
para não perturbar o descanso merecido
do companheiro adormecido.
Penso eu que o urso de pelúcia continuou aventurando
a transpor vales, a pescar em rios limpos
que depois em lagos se transformam…
E que, assim, continuou a construção
do universo paralelo onde os sonhos se formam.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Boas práticas reais

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É facultativo aos reis terem
cetro, coroa e manto.
Porém, o cultivo de uma barba
é peremptoriamente obrigatório,
de preferência igual a Pedro II,
um exemplo para o mundo.

Viagem sideral

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Os sábios dizem
que o planeta rotaciona
a 1700 km por hora,
que faz a translação em volta do Sol
a 170.000 km por hora
e a quase 1 milhão de km por hora
em torno da Via Láctea.
um número que nos dá vertigem
e nos deixa cismados
sobre onde iremos parar.
Sobre tanta ciência e filosofia,
mais sábio era José Almiro (meu avô)
que nessas ocasiões dizia:
- Ora, deixemos de bobagem
e vamos apreciar a viagem.

Estilo caiçara

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Minha família era dona
de um pedaço (o melhor) do mundo.
Metade era para o bananal,
noutra metade do (nosso) universo
a gente plantava maniva
pra colher mandioca.
Da mandioca vinha a farinha,
da farinha vinha o pirão de peixe,
o tutu de feijão, a farofa
e os beijus que davam sustança
para tanta vida e fé
(até onde a memória alcança).

quarta-feira, 26 de março de 2014

Tempus fugit



Quem souber que dê notícias:
dos antigos leiteiros
que entregavam o leite
em garrafas de vidros
aos domicílios;
dos ceguinhos
e seus inseparáveis violões
fazendo escambo de músicas
por pouso e almoço;
dos mascates e suas malas
com cortes de panos,
tesouras de unhas
e  outros artigos
de primeira necessidade
para damas e cavalheiros
de fino trato.

Redemoinho


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Entre tantas indecisões
que ocorrem com o tempo
nas mudanças de estações,
um pé-de-vento
perdeu-se por um momento
na curva da estrada
e ficou rodopiando
no quintal de casa:
jogou para o alto
as folhas secas,
sujou as roupas do varal
com a poeira do terreiro
e depois sumiu de cena
igual menino arteiro.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Poesia para o menino Régis


menino
Muita atenção:
o capim-melado
serve apenas de morada
para o bicho preá
e não se come com torrada.
O capim-santo
é santo de casa
que faz o milagre
de dar à gente nervosa
uma cara mais alegre.
E não se engane pelo nome
o capim arranha-gato
arranha gente também.
Senti na pele esse fato.

Era tudo brincadeira


saco

Minha infância foi tão antigamente
(e pobre)
que não conheci televisão,
videogame ou internet.
Nossos brinquedos e brincadeiras eram
sapatos de lata de leite,
carrinhos de lata,
barquinhos de caixeta,
corda de pular,
jogo de miriguitos,
pernas-de-pau,
pipa, pião, peteca,
estátua, mãe-da-rua,
joão-bobo, vivo-morto,
queimada, futebol, passa-anel,
cabra-cega,
beijo-abraço-aperto de mão, cansei.
Minha infância foi tão antigamente
(e rica).