A observação dos detalhes da natureza
pelas crianças é um especial dom .
Por exemplo, esse relâmpago verde-azulado
que passou diante dos olhos,
na opinião do menino Victor,
foi mais um colibri
querendo quebrar a barreira do som.
A observação dos detalhes da natureza
pelas crianças é um especial dom .
Por exemplo, esse relâmpago verde-azulado
que passou diante dos olhos,
na opinião do menino Victor,
foi mais um colibri
querendo quebrar a barreira do som.
Do céu dá pra ver
os caminhos dos
caiçaras
que ligam a praia e o
morro
às clareiras das
casinhas
construídas entre
as bananeiras e
cafeeiros.
Em cada casa ergue-se
um fio de fumaça
de fogão a lenha
tresandando a café
com peixe assado.
As pessoas andam para a
praia,
caminham para o morro,
com remos e samburás,
com enxadas e jacás.
E trabalham no mar e na
roça,
enquanto o Sol
abençoar,
porque depois das 11
horas,
todos têm ciência
disso,
o Sol começa a castigar
No teatrinho da escola
foi montada a festa dos bichos
e teve papel pra todo mundo.
Mas, para o menino mais
arteiro,
sobrou só o de burro.
E todo mundo achou graça
ao ver aquele peralta
vestir a pele de asno
com orelhas de abano.
E a peça acontecendo
e os bichos se esmerando,
uma onça muito imponente,
a anta desastrada,
o tatu muito elegante,
uma vaca malhada
e ,contagiado pela alegria,
o burro se pôs a zurrar,
e a gente ria, ria, ria.
O chupim, o anu, o urubu
todos se vestem a rigor
em pretos paletós.
O tangará, o colibri, a arara
todos os dias se vestem
como quem vai para a folia.
Eu já fui urubu, hoje sou tangará,
amanhã é uma incógnita
e a que pássaro, então, minh'alma passará?
Em dia de domingo
deveria ser proibido
filmes com finais tristes,
principalmente ao fim do dia,
quando cessa a chuva
mas as árvores continuam a chorar
lágrimas de melancolia.
Que seria das árvores
se não fossem os cipós
dando-lhes apoio e companhia
para enfrentar a ventania?
Vento noroeste
quem vem do coração do Brasil,
Foi o vento forte
que pôs cisco nos
olhos,
chocalhou as árvores,
deixou as ondas
revoltas,
desnorteou pássaros e
borboletas.
E até houve
aquela que partiu para
o mar
para nunca mais voltar.
Naquele dia do ano de 1963,
Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar
e aconselhou os companheiros a se aquietarem,
com receio da alvorada avermelhada demais.
E alguns já murmuravam
contra a caduquice do velho pescador,
quando começou
o tormento das árvores nas garras dos ventos,
o morticíniodas aves nos ninhos,
o destelhamento dos tetos,
o desespero de quem estava em mar aberto,
a despeito dos sinais da natureza.
Naquele dia morreram muitos,
ninguém da Fortaleza.
Ainda era noite quando o vento noroeste
desceu a montanha roncando,
fez um estardalhaço no matagal,
pôs abaixo o bananal
e deu um tombo no gigante das matas,
um guaporuvu das grotas.
Ao raiar o dia,
Tio Antonio tomou um café reforçado,
pegou o machado e foi procurar
a vítima da ventania.
Desbastou os galhos,
lavrou um corpo tosco da popa à proa
e tomou posse de uma futura canoa.
Desconfio que os pirilampos
frequentaram a escola de Morse
e todo mundo sabe
que eles se comunicam
quando ficam pisca-piscando.
O que eles estão dizendo?
Se ainda existisse telegrafista
teríamos uma pista.
São Pedro pescou garoupa e sargo
no parcel do Mar Virado,
consertou os pescados
e pediu para Vovó Eugênia
fazer o azul-marinho.
E com ela aprendeu
que se deve temperar o peixe
com limão cravo,
pimenta e coentro bravo.
Mandou um dos meninos
buscar uma garrafa de vinho
no armazém do Tio Maneco,
abençoou aquele queima-tripas
e o transmutou em vin du paradis.
Comeu e bebeu como um santo,
depois se estendeu na esteira,
na areia da praia,
à sombra da amendoeira
e dormiu o sono dos justos,
até o sol descambar
detrás da Serra do Mar.
Na despedida apreciou
café com garapa,
peixe frito com farinha
e, antes do canto do bacurau,
desapareceu
em uma singularidade
espaço-temporal.
é boa pra deslizar no sapé,
morro abaixo, ganhando velocidade,
sai da frente minha gente!
Arranca toco, esbarra em pedra, lanha o pé
e no final derruba uma bananeira.
Prêmio: emplastros e pescoções.
Tomai um golpinho de chá,
é de capim-santo, moço.
Vinde cá se vós estais cansado,
repousai na camarinha,
basta que deiteis vossa cabeça
no travesseiro recheado de macela
para que esqueçais toda mazela.
Sonhai com uma praia
de caiçaras cheios de fé
que os mansos herdarão a terra
e os pescadores herdarão o mar.
Vinde e pousais vossa cabeça
no travesseiro de macela.
Caiçara é igual guaruçá,
tem que pisar na areia,
tem que viver junto ao
mar;
tem que ter canoa, rede de tresmalho,
balaio e samburá;
Tem que ter horta com coentro bravo,
pimenta, alfavaca, e limão cravo;
Tem que ter jabuticaba, carambola, cambucá,
Tem que ser devoto de Santa Maria,
para ter pra quem
rezar.
Antônio José, meu tio,
alcançou salvação,
por muita fé em Deus
e por praticar a lição
do pescador em canoa de traquete
que se lança ao largo de madrugada
com o vento terralão
e retorna à terra
no sopro da viração.
Tio Tonico aprendeu com seu pai,
que aprendeu com seu avô,
que aprendeu com seu bisavô,
que aprendeu com Cunhambebe,
as artes e segredos do oficio de ser
caiçara empedernido,
que amassa estrepe com os pés
e que resiste decidido,
todo dia benzendo-se
com água do mar,
antes de sair para pescar,
a melhor água benta que há .
.
Antônio Félix foi roceiro,
caçador, taifeiro, pescador, pedreiro
e se tornou jardineiro
só para fazer sua obra-prima,
uma cerca viva com arco sobre o portão
só para emoldurar
com o vermelho dos
mimos
e o verde das folhagens
os olhos
cor-de-céu-sem-nuvens
de Vovó Martinha.