quinta-feira, 22 de maio de 2025

Visão de criança

 

A observação dos detalhes da natureza

pelas crianças é um especial dom .

Por exemplo, esse relâmpago verde-azulado

que passou diante dos olhos,

na opinião do menino Victor,

foi mais um colibri

querendo quebrar a barreira do som.

Fotografia antiga


Retrato antigo

de delicadezas passadas:

no caminho da escola,

irmãos de mãos dadas. 

 

Vila caiçara


Do céu dá pra ver

os caminhos dos caiçaras

que ligam a praia e o morro

às clareiras das casinhas

construídas entre

as bananeiras e cafeeiros.

Em cada casa ergue-se

um fio de fumaça

de fogão a lenha

tresandando a café

com peixe assado.

As pessoas andam para a praia,

caminham para o morro,

com remos e samburás,

com enxadas e jacás.

E trabalham no mar e na roça,

enquanto o Sol abençoar,

porque depois das 11 horas,

todos têm ciência disso,

o Sol começa a castigar

Vigias da natureza

 


Pássaros escandalosos

e fofoqueiros sem tirar nem pôr:

araponga, maritaca

e martim-pescador. 

Vida de artista

 


No teatrinho da escola

foi montada a festa dos bichos

e teve papel pra todo mundo.

Mas, para o menino mais arteiro,

sobrou só o de burro.

E todo mundo achou graça

ao ver aquele peralta

vestir a pele de asno

com orelhas de abano.

E a peça acontecendo

e os bichos se esmerando,

uma onça muito imponente,

a anta desastrada,

o tatu muito elegante,

uma vaca malhada

e ,contagiado pela alegria,

o burro se pôs a zurrar,

e a gente ria, ria, ria.

Vestes do espírito

 

O chupim, o anu, o urubu

todos se vestem a rigor

em pretos paletós.

O tangará, o colibri, a arara

todos os dias se vestem

como quem vai para a folia.

Eu já fui urubu, hoje sou tangará,

amanhã é uma incógnita

e a que pássaro, então, minh'alma passará?

Veto


Em dia de domingo

deveria ser proibido

filmes com finais tristes,

principalmente ao fim do dia,

quando cessa a chuva

mas as árvores continuam a chorar

lágrimas de melancolia.

 


Versinhos da Terra

 


 

Que seria das árvores

se não fossem os cipós

dando-lhes apoio e companhia

para enfrentar a ventania?

 

Vento noroeste

 Vento noroeste

quem vem do coração do Brasil,

traga notícias

das lonjuras do Planalto Central,[

mesmo que sejam ecos da voz de meu bem

que carinhosamente, mente, mente,

que ainda gosta de mim.

Vento forte

 

Foi o vento forte

que pôs cisco nos olhos,

chocalhou as árvores,

deixou as ondas revoltas,

desnorteou pássaros e borboletas.

E até houve

aquela que partiu para o mar

para nunca mais voltar.

Tormenta de ventos

 

Naquele dia do ano de 1963,

Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar

e aconselhou os companheiros a se aquietarem,

com receio da alvorada avermelhada demais.

E alguns já murmuravam

contra a caduquice do velho pescador,

quando começou 

o tormento das árvores nas garras dos ventos,

o morticíniodas aves nos ninhos,

o destelhamento dos tetos,

o desespero de quem estava em mar aberto,

a despeito dos sinais da natureza.

Naquele dia morreram muitos,

ninguém da Fortaleza.

 

Ventania

 

Ainda era noite quando o vento noroeste

desceu a montanha roncando,

fez um estardalhaço no matagal,

pôs abaixo o bananal

e deu um tombo no gigante das matas,

um guaporuvu das grotas.

Ao raiar o dia,

Tio Antonio tomou um café reforçado,

pegou o machado e foi procurar

a vítima da ventania.

Desbastou os galhos,

lavrou um corpo tosco da popa à proa

e tomou posse de uma futura canoa.

Vagalumes


Desconfio que os pirilampos

frequentaram a escola de Morse

e todo mundo sabe

que eles se comunicam

quando ficam pisca-piscando.

O que eles estão dizendo?

Se ainda existisse telegrafista

teríamos uma pista.

Um pedaço do céu

 São Pedro pescou garoupa e sargo

no parcel do Mar Virado,

consertou os pescados

e pediu para Vovó Eugênia

fazer o azul-marinho.

E com ela aprendeu

que se deve temperar o peixe

com limão cravo,

pimenta e coentro bravo.

Mandou um dos meninos

buscar uma garrafa de vinho

no armazém do Tio Maneco,

abençoou aquele queima-tripas

e o transmutou em vin du paradis.

Comeu e bebeu como um santo,

depois se estendeu na esteira,

na areia da praia,

à sombra da amendoeira

e dormiu o sono dos justos,

até o sol descambar

detrás da Serra do Mar.

Na despedida apreciou

café com garapa,

peixe frito com farinha

e, antes do canto do bacurau,

desapareceu

em uma singularidade

espaço-temporal.

 

Totoa

  A totoa do coqueiro jerivá

é boa pra deslizar no sapé,

morro abaixo, ganhando velocidade,

sai da frente minha gente!

Arranca toco, esbarra em pedra, lanha o pé

e no final derruba uma bananeira.

Prêmio: emplastros e pescoções.

 

Travesseiro de macela


Tomai um golpinho de chá,

é de capim-santo, moço.

Vinde cá se vós estais cansado,

repousai na camarinha,

basta que deiteis vossa cabeça

no travesseiro recheado de macela

para que esqueçais toda mazela.

Sonhai com uma praia

de caiçaras cheios de fé

que os mansos herdarão a terra

e os pescadores herdarão o mar.

Vinde e pousais vossa cabeça

no travesseiro de macela. 

Sabedorias

 

Caiçara é igual guaruçá,

tem que pisar na areia,

tem que viver junto ao mar;

tem que ter canoa, rede de tresmalho,

balaio e samburá; 

Tem que ter horta com coentro bravo,

pimenta, alfavaca, e limão cravo;

Tem que ter jabuticaba, carambola, cambucá,

Tem que ser devoto de Santa Maria,

para ter pra quem rezar.

 

Tio Tonico

 

Antônio José, meu tio,

alcançou salvação,

por muita fé em Deus

e por praticar a lição

do pescador em canoa de traquete

que se lança ao largo de madrugada

com o vento terralão

e retorna à terra

no sopro da viração.

Tio Tonico

 


Tio Tonico aprendeu com seu pai,

que aprendeu com seu avô,

que aprendeu com seu bisavô,

que aprendeu com Cunhambebe,

as artes e segredos do oficio de ser

caiçara empedernido,

que amassa estrepe com os pés

e que resiste decidido,

todo dia benzendo-se

com água do mar,

antes de sair para pescar,

a melhor água benta que há .

.


Tio Antônio e Vovó Martinha

 


Antônio Félix foi roceiro,

caçador, taifeiro, pescador, pedreiro

e se tornou jardineiro

só para fazer sua obra-prima,

uma cerca viva com arco sobre o portão

só para emoldurar

com o vermelho dos mimos

e o verde das folhagens

os olhos cor-de-céu-sem-nuvens

de Vovó Martinha.