quinta-feira, 22 de maio de 2025

Vento forte

 

Foi o vento forte

que pôs cisco nos olhos,

chocalhou as árvores,

deixou as ondas revoltas,

desnorteou pássaros e borboletas.

E até houve

aquela que partiu para o mar

para nunca mais voltar.

Tormenta de ventos

 

Naquele dia do ano de 1963,

Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar

e aconselhou os companheiros a se aquietarem,

com receio da alvorada avermelhada demais.

E alguns já murmuravam

contra a caduquice do velho pescador,

quando começou 

o tormento das árvores nas garras dos ventos,

o morticíniodas aves nos ninhos,

o destelhamento dos tetos,

o desespero de quem estava em mar aberto,

a despeito dos sinais da natureza.

Naquele dia morreram muitos,

ninguém da Fortaleza.

 

Ventania

 

Ainda era noite quando o vento noroeste

desceu a montanha roncando,

fez um estardalhaço no matagal,

pôs abaixo o bananal

e deu um tombo no gigante das matas,

um guaporuvu das grotas.

Ao raiar o dia,

Tio Antonio tomou um café reforçado,

pegou o machado e foi procurar

a vítima da ventania.

Desbastou os galhos,

lavrou um corpo tosco da popa à proa

e tomou posse de uma futura canoa.

Vagalumes


Desconfio que os pirilampos

frequentaram a escola de Morse

e todo mundo sabe

que eles se comunicam

quando ficam pisca-piscando.

O que eles estão dizendo?

Se ainda existisse telegrafista

teríamos uma pista.

Um pedaço do céu

 São Pedro pescou garoupa e sargo

no parcel do Mar Virado,

consertou os pescados

e pediu para Vovó Eugênia

fazer o azul-marinho.

E com ela aprendeu

que se deve temperar o peixe

com limão cravo,

pimenta e coentro bravo.

Mandou um dos meninos

buscar uma garrafa de vinho

no armazém do Tio Maneco,

abençoou aquele queima-tripas

e o transmutou em vin du paradis.

Comeu e bebeu como um santo,

depois se estendeu na esteira,

na areia da praia,

à sombra da amendoeira

e dormiu o sono dos justos,

até o sol descambar

detrás da Serra do Mar.

Na despedida apreciou

café com garapa,

peixe frito com farinha

e, antes do canto do bacurau,

desapareceu

em uma singularidade

espaço-temporal.

 

Totoa

  A totoa do coqueiro jerivá

é boa pra deslizar no sapé,

morro abaixo, ganhando velocidade,

sai da frente minha gente!

Arranca toco, esbarra em pedra, lanha o pé

e no final derruba uma bananeira.

Prêmio: emplastros e pescoções.

 

Travesseiro de macela


Tomai um golpinho de chá,

é de capim-santo, moço.

Vinde cá se vós estais cansado,

repousai na camarinha,

basta que deiteis vossa cabeça

no travesseiro recheado de macela

para que esqueçais toda mazela.

Sonhai com uma praia

de caiçaras cheios de fé

que os mansos herdarão a terra

e os pescadores herdarão o mar.

Vinde e pousais vossa cabeça

no travesseiro de macela. 

Sabedorias

 

Caiçara é igual guaruçá,

tem que pisar na areia,

tem que viver junto ao mar;

tem que ter canoa, rede de tresmalho,

balaio e samburá; 

Tem que ter horta com coentro bravo,

pimenta, alfavaca, e limão cravo;

Tem que ter jabuticaba, carambola, cambucá,

Tem que ser devoto de Santa Maria,

para ter pra quem rezar.

 

Tio Tonico

 

Antônio José, meu tio,

alcançou salvação,

por muita fé em Deus

e por praticar a lição

do pescador em canoa de traquete

que se lança ao largo de madrugada

com o vento terralão

e retorna à terra

no sopro da viração.

Tio Tonico

 


Tio Tonico aprendeu com seu pai,

que aprendeu com seu avô,

que aprendeu com seu bisavô,

que aprendeu com Cunhambebe,

as artes e segredos do oficio de ser

caiçara empedernido,

que amassa estrepe com os pés

e que resiste decidido,

todo dia benzendo-se

com água do mar,

antes de sair para pescar,

a melhor água benta que há .

.


Tio Antônio e Vovó Martinha

 


Antônio Félix foi roceiro,

caçador, taifeiro, pescador, pedreiro

e se tornou jardineiro

só para fazer sua obra-prima,

uma cerca viva com arco sobre o portão

só para emoldurar

com o vermelho dos mimos

e o verde das folhagens

os olhos cor-de-céu-sem-nuvens

de Vovó Martinha.

Tia Rosa, afilhada de Nossa Senhora

 

A casa de Tia Rosa,

tão bonita que coá,

foi feita de pau-a-pique

com reboco de argamassa

e pintada de azul e branco,

as cores de Nossa Senhora.

Mas ainda não estava completa

e na sala ela fez um oratório

com o retrato de Nossa Senhora.

Mas faltava alguma coisa

e ela plantou um jardim

com muita rosa e jasmim,

as flores de Nossa Senhora.

Tia Rosa se contentou por fim

quando pode ouvir da sala

o canto dos passarinhos

misturado com querubim

e viveu na paz de seu lar,

até que um dia dormiu

e esqueceu de despertar.


Tia Aninha benzedeira


 De sua casa pobrezinha

abria as janelas

direto para o céu,

dava risos sozinha,

igual criancinha,

que conversa com os anjos.

Fazia orações, benzimentos

e dizia palavras,

aparentemente sem tino:

- Menino, não sabeis

que sangue de passarinho

deixa nódoas na alma? 


Tia Aninha

 


Tia Aninha ainda não era tia

e a noite não dera lugar ao dia

quando atravessou o mar

pra trabalhar na roça

na Ilha do Mar Virado,

quando uma onda mais forte

virou a embarcação

e Tia Aninha desapareceu

puxada por um turbilhão.

E foi procurada em vão,

até que com a tristeza

içada ao mastro,

o pai resolveu voltar

para buscar socorro.

Foi aí que Tia Aninha emergiu

e o pai a socorreu.

Ainda espantada,

perguntou ao pai choroso,

o porquê de tanta tristeza

se foi só por um instante

que ela havia afundado.

Foi então que o velho esclareceu

que por quase meia-hora

de suas vistas ela desapareceu.

Foi o primeiro milagre

entre outros que aconteceram

com Tia Aninha benzedeira,

que com ervas e orações,

curava males dos corpos

e até dos corações.

E quando alguém agradecia

respondia que ela só pedia

e curar a Deus competia.

Tesouro culinário

 Quem conhece os segredos

do fundo do mar?

Essa garoupa, por exemplo,

podia ter a toca

em um baú do tesouro,

podia ter a cama

do mais puro ouro.

Essa garoupa, quem diria,

que meu avô pescou,

que minha avó cozinhou,

que no pirão se acabou,

mas deixou a certeza

que cada partícula de sabor

valeu toda aquela riqueza.

Vento terralão

 


Os ventos que desciam

Dos altos da Serra

Enchiam os panos das velas

E fazia descolar do porto os pescadores

Fazendo-os transmutar

De tíbios e tímidos terrestres

Em audazes senhores do mar.

Terra de sonhos

 

Quem andou pela

Terra do Nunca e Ilha de Utopia

sentiu-se em casa quando,

do alto do último morro avistou,

por volta de 1970,

entre árvores e bananeiras,

a Vila Escondida dos Pescadores

da Praia da Fortaleza, Ubatuba.

 

Teoria da dança

 


No começo somente as garças

bailavam delicadas valsas,

andorinhas faziam coreografias no ar

e os tangarás dançavam o cancã.

Depois veio Isadora Duncan.

Técnica de pesca

 

Uma isca na ponta de uma vara

tira um guaiá da toca

e depois é preciso agilidade

para apanhá-lo,

ou tomar um beliscão

de sua potente tenaz...

descole se for capaz.

 

Taurus


Quando o navio sai do porto,

ainda que se conheça a derrota,

há uma grande incógnita

sobre os comportamentos

dos tempos, mulheres, mares

que o destino põe

nas ondas, nos portos, nos ares.

A história está cheia

de navios festejados

que retornaram enlutados,

desde a nau Argos,

desde a capitânia de Magalhães

até ao barco Taurus

que afundou desarvorado,

ainda que cheio de glória,

nos escolhos da memória.