Foi o vento forte
que pôs cisco nos
olhos,
chocalhou as árvores,
deixou as ondas
revoltas,
desnorteou pássaros e
borboletas.
E até houve
aquela que partiu para
o mar
para nunca mais voltar.
Foi o vento forte
que pôs cisco nos
olhos,
chocalhou as árvores,
deixou as ondas
revoltas,
desnorteou pássaros e
borboletas.
E até houve
aquela que partiu para
o mar
para nunca mais voltar.
Naquele dia do ano de 1963,
Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar
e aconselhou os companheiros a se aquietarem,
com receio da alvorada avermelhada demais.
E alguns já murmuravam
contra a caduquice do velho pescador,
quando começou
o tormento das árvores nas garras dos ventos,
o morticíniodas aves nos ninhos,
o destelhamento dos tetos,
o desespero de quem estava em mar aberto,
a despeito dos sinais da natureza.
Naquele dia morreram muitos,
ninguém da Fortaleza.
Ainda era noite quando o vento noroeste
desceu a montanha roncando,
fez um estardalhaço no matagal,
pôs abaixo o bananal
e deu um tombo no gigante das matas,
um guaporuvu das grotas.
Ao raiar o dia,
Tio Antonio tomou um café reforçado,
pegou o machado e foi procurar
a vítima da ventania.
Desbastou os galhos,
lavrou um corpo tosco da popa à proa
e tomou posse de uma futura canoa.
Desconfio que os pirilampos
frequentaram a escola de Morse
e todo mundo sabe
que eles se comunicam
quando ficam pisca-piscando.
O que eles estão dizendo?
Se ainda existisse telegrafista
teríamos uma pista.
São Pedro pescou garoupa e sargo
no parcel do Mar Virado,
consertou os pescados
e pediu para Vovó Eugênia
fazer o azul-marinho.
E com ela aprendeu
que se deve temperar o peixe
com limão cravo,
pimenta e coentro bravo.
Mandou um dos meninos
buscar uma garrafa de vinho
no armazém do Tio Maneco,
abençoou aquele queima-tripas
e o transmutou em vin du paradis.
Comeu e bebeu como um santo,
depois se estendeu na esteira,
na areia da praia,
à sombra da amendoeira
e dormiu o sono dos justos,
até o sol descambar
detrás da Serra do Mar.
Na despedida apreciou
café com garapa,
peixe frito com farinha
e, antes do canto do bacurau,
desapareceu
em uma singularidade
espaço-temporal.
é boa pra deslizar no sapé,
morro abaixo, ganhando velocidade,
sai da frente minha gente!
Arranca toco, esbarra em pedra, lanha o pé
e no final derruba uma bananeira.
Prêmio: emplastros e pescoções.
Tomai um golpinho de chá,
é de capim-santo, moço.
Vinde cá se vós estais cansado,
repousai na camarinha,
basta que deiteis vossa cabeça
no travesseiro recheado de macela
para que esqueçais toda mazela.
Sonhai com uma praia
de caiçaras cheios de fé
que os mansos herdarão a terra
e os pescadores herdarão o mar.
Vinde e pousais vossa cabeça
no travesseiro de macela.
Caiçara é igual guaruçá,
tem que pisar na areia,
tem que viver junto ao
mar;
tem que ter canoa, rede de tresmalho,
balaio e samburá;
Tem que ter horta com coentro bravo,
pimenta, alfavaca, e limão cravo;
Tem que ter jabuticaba, carambola, cambucá,
Tem que ser devoto de Santa Maria,
para ter pra quem
rezar.
Antônio José, meu tio,
alcançou salvação,
por muita fé em Deus
e por praticar a lição
do pescador em canoa de traquete
que se lança ao largo de madrugada
com o vento terralão
e retorna à terra
no sopro da viração.
Tio Tonico aprendeu com seu pai,
que aprendeu com seu avô,
que aprendeu com seu bisavô,
que aprendeu com Cunhambebe,
as artes e segredos do oficio de ser
caiçara empedernido,
que amassa estrepe com os pés
e que resiste decidido,
todo dia benzendo-se
com água do mar,
antes de sair para pescar,
a melhor água benta que há .
.
Antônio Félix foi roceiro,
caçador, taifeiro, pescador, pedreiro
e se tornou jardineiro
só para fazer sua obra-prima,
uma cerca viva com arco sobre o portão
só para emoldurar
com o vermelho dos
mimos
e o verde das folhagens
os olhos
cor-de-céu-sem-nuvens
de Vovó Martinha.
A casa de Tia Rosa,
tão bonita que coá,
foi feita de
pau-a-pique
com reboco de argamassa
e pintada de azul e
branco,
as cores de Nossa
Senhora.
Mas ainda não estava
completa
e na sala ela fez um
oratório
com o retrato de Nossa
Senhora.
Mas faltava alguma
coisa
e ela plantou um jardim
com muita rosa e
jasmim,
as flores de Nossa
Senhora.
Tia Rosa se contentou
por fim
quando pode ouvir da
sala
o canto dos passarinhos
misturado com querubim
e viveu na paz de seu
lar,
até que um dia dormiu
e esqueceu de
despertar.
De sua casa pobrezinha
abria as janelas
direto para o céu,
dava risos sozinha,
igual criancinha,
que conversa com os anjos.
Fazia orações, benzimentos
e dizia palavras,
aparentemente sem tino:
- Menino, não sabeis
que sangue de passarinho
deixa nódoas na alma?
Tia Aninha ainda não era tia
e a noite não dera lugar ao dia
quando atravessou o mar
pra trabalhar na roça
na Ilha do Mar Virado,
quando uma onda mais forte
virou a embarcação
e Tia Aninha desapareceu
puxada por um turbilhão.
E foi procurada em vão,
até que com a tristeza
içada ao mastro,
o pai resolveu voltar
para buscar socorro.
Foi aí que Tia Aninha emergiu
e o pai a socorreu.
Ainda espantada,
perguntou ao pai choroso,
o porquê de tanta tristeza
se foi só por um instante
que ela havia afundado.
Foi então que o velho esclareceu
que por quase meia-hora
de suas vistas ela desapareceu.
Foi o primeiro milagre
entre outros que aconteceram
com Tia Aninha benzedeira,
que com ervas e orações,
curava males dos corpos
e até dos corações.
E quando alguém agradecia
respondia que ela só pedia
e curar a Deus competia.
Quem conhece os segredos
do fundo do mar?
Essa garoupa, por
exemplo,
podia ter a toca
em um baú do tesouro,
podia ter a cama
do mais puro ouro.
Essa garoupa, quem
diria,
que meu avô pescou,
que minha avó cozinhou,
que no pirão se acabou,
mas deixou a certeza
que cada partícula de
sabor
valeu toda aquela
riqueza.
Os ventos que desciam
Dos altos da Serra
Enchiam os panos das
velas
E fazia descolar do porto os pescadores
Fazendo-os transmutar
De tíbios e tímidos
terrestres
Em audazes senhores do
mar.
Quem andou pela
Terra do Nunca e Ilha de Utopia
sentiu-se em casa quando,
do alto do último morro avistou,
por volta de 1970,
entre árvores e bananeiras,
a Vila Escondida dos Pescadores
da Praia da Fortaleza, Ubatuba.
No começo somente as garças
bailavam delicadas valsas,
andorinhas faziam coreografias no ar
e os tangarás dançavam o cancã.
Depois veio Isadora Duncan.
Uma isca na ponta de uma vara
tira um guaiá da toca
e depois é preciso agilidade
para apanhá-lo,
ou tomar um beliscão
de sua potente tenaz...
descole se for capaz.
Quando o navio sai do porto,
ainda que se conheça a derrota,
há uma grande incógnita
sobre os comportamentos
dos tempos, mulheres, mares
que o destino põe
nas ondas, nos portos, nos ares.
A história está cheia
de navios festejados
que retornaram enlutados,
desde a nau Argos,
desde a capitânia de Magalhães
até ao barco Taurus
que afundou desarvorado,
ainda que cheio de glória,
nos escolhos da memória.