domingo, 11 de abril de 2021

Poesia de menino de praia

 

Por causa do muito frio e neblina,
a madrugada estendeu-se 
além de seus limites
e trouxe com a cerração,
de trinta anos passados,
o eco da buzina da traineira Taurus
com o aviso de partida
para o porto de São Pedro:Viagem só de ida.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Até parece poesia

 

São Francisco falou com os bichos,
São José de Cupertino andou nos ares,
Santa Clara de Assis enxergava à distância,
Santo Pio de Pieltrecina desviou bombas no ar,
São Paulo ressuscitou um jovem,
Santa Rita de Cássia conversou com anjos.
São Simão do Egito fez a montanha mover,
São Pedro curou um coxo,
São João Bosco multiplicou pães
e Santa Bernardete virou bela adormecida.
E ainda há quem diga
não ter espaço pra poesia
na rotina do dia-a-dia.

Estrelas ao alcance da mão

 

Qual é a árvore que dá estrelas?
É o pé de carambolas, ora bolas.
Quem duvida que colha uma fruta
e corte-a em fatias para ter, então,
uma bela constelação.

Jabuticabeira é coisa nossa

 

Goiabeiras, laranjeiras,

coqueiros, parreiras,

foram obras de Deus criador.

Já a jabuticabeira

com frutos em toda a extensão,

desde os galhos mais altos

até ao caule ao rés do chão,

decerto foi arte do menino Jesus

na Terra de Santa Cruz.

Imagens antigas

 



Uma revoada de pássaros levanta voo
de partida para sua casa de inverno.
Onde?
Uma pessoa colhe flores
e ajeita um ramalhete de presente.
Pra quem?
Um retrato na parede mira distante.
O quê?
Uma nostalgia mansinha
tá querendo me pegar.
Por que?

sábado, 3 de abril de 2021

Antigamente

 


Eram os Reis Magos que nos traziam presentes:
boneco desengoçado, corda de pular,
pião carrapeta, balanço na goiabeira,
canoa de caixeta, carrinho de madeira.
Mas chegou o Papai Noel que expulsou os Reis Magos
e acabou-se a brincadeira.

Café com garapa

 

Meu avô plantava café
para depois secar, peneirar e torrar.
Plantava cana de açúcar,
para cortar, moer e fazer garapa.
Plantava mandioca,
pra ralar, prensar,
torrar e fazer farinha
que com garapa e café,
até hoje dão sustância
para meus versos e minha fé.

Carta de Santos

 

A bênção pai, a bênção mãe,
espero que esta os encontre
com saúde.
Depois de carregar cargas
e mais cargas de café,
me tornei taifeiro, 
auxilio, oriento, recebo
e despacho, navios e passageiros.
Mas o que gosto mesmo é de ajudar as senhorinhas
a descerem dos navios,
algumas são tão delicadas,
são tão leves ao desembarcar
que ninguém acreditaria
o quanto pesam nos meus pensamentos.
Preciso me casar.

Agenda de passarinho

 

De manhãzinha escutei
o bem-te-vi assoviar
suas obrigações de hoje,
coisas banais de passarinho:
visitar as árvores fruteiras,
tomar lições de canto,
exibir acrobacias aéreas
e namorar um tanto.
Bem-te-vi, assoviou, ainda,
acho que só pra me alegrar,
que sempre bem me verá.

Amor saudável

  


Minha namorada é vegetariana
e ela me beija, me ameixa,
me faz um carinho,
uma salada de frutas e pergunta:
- Que couve?

 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Amarras

 



Reparem bem nas casas antigas:

como são bem construídas

com telhados centenários,

de madeira bem ajustadas

por grandes travas, pregos,

mais as teias das aranhas

feitas com muita paciência,

que justamente é o segredo

de tanta resistência.


Ambrosia

 

Vovó fazia um pirão tão bom

Com garoupa e coentro

Cujo cheiro subia pela chaminé

E chegava até ao céu

Com tão agradável odor

Que, Nosso Senhor,

cedo, para lá a levou.

Além da viagem

 

No começo não tinha estradas

e a gente ia aos lugares

por trilhas centenárias

feitas em primeiro lugar

pelos bichos que andam em carreira:

caititu, paca, tapir, formiga de correição…

A gente ia mais longe antigamente

porque viajava a pé.

Alegria no mar

 

Espio as nuvens arrastadas pelos ventos

que vão despejando chuva no mar,

como se estivessem regando um jardim.

E acho que por milagre brotam botos,

contentes toda a vida, aos saltos e trambolhões,

achando graça, salvo engano,

só porque a chuva está lavando o oceano.


Aldeia Global


 


Meu avô colhia café, banana e feijão,
que rendiam arroz, carne de charque
e pilhas pro rádio de ondas curtas
que captava a rádio tupi
e a globo-bo-bo do Rio de Janeiro.

A cobra caninana

 

 
Quando a escolinha agrupada do primeiro grau

da praia da Fortaleza era no sopé do morro,

no meio do bananal,

uma cobra caninana foi se enrodilhar

entre os caibros do telhado para aprender o beabá.

Mas acabou sendo expulsa, tão logo foi notada,

porque não estava inscrita no livro de chamada.

Abaetê Tupi

 


 

Onde foi parar o tamoio

que morava aqui?

Parte fugiu para o norte

e parte continua nos costumes,

nas técnicas de pesca e de agricultura,

nos nomes das plantas, de animais, de lugares

e no sangue dos caiçaras.

Minha avó dizia: esse curumim tá muito aíbo,

só come um cuí de comida.

Quem for tupinambá que entenda.

A benzedeira Tia Aninha morreu

 


 

Quem vai continuar

a receitar padre-nosso

e emplastro de plumera

para machucados e feridas?

Quem vai puxar a novena

e o ponto de caramelo

para adoçar a vida?

Quem vai dar lições

de mistérios e orações

em terços de capiá?

Quem vai abrir o véu

e explicar pra gente

sobre os assuntos do céu?

Poeminha caiçara

Antes do Progresso  

a simplicidade

estava em voga,

até as doenças

eram simples

e as pessoas sofriam

de quebranto,

defluxo,

dor nas cadeiras,

espinhela caída,

paixão recolhida,

e golpe de vento

era cama na certa. 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Atalho para o mar



A estrada mais linda 

que ligava minha casa ao mar 

era rio abaixo na canoa de meu avô

que ia nos dizendo os nomes

das árvores, peixes, aves e, 

de vez em quando, até poesia,

enquanto remava a canoa: 

- "Olha, meu filho,  borboleta é uma flor que voa."