domingo, 3 de novembro de 2019
Festa da tainha
No morro da espia
ficava alguém de boa vista
a olhar o horizonte
à espera dos sinais das tainhas,
que não tinham hora para chegar.
Caiçara nenhum ia trabalhar na roça,
nada de namorar,
todos ficavam de prontidão
à espera do toque do búzio
para lançar a rede ao mar
e começar a labuta
de remar a canoa,
de cercar o peixe,
de puxar os cabos,
de sentir o peso do cardume
de trabalhar e festejar,
na época em que os pescadores,
vizinhos ao paraíso,
viviam na orla do mar.
sábado, 2 de novembro de 2019
Lula Livre!

quem abraçou o humilhado,
quem alimentou o faminto,
quem salvou a vida frágil,
quem desdenhou o perigo,
quem enxugou o rosto
de Nosso Senhor Jesus,
quem foi supliciado em defesa
da floresta amazônica,
quem foi mártir por causa da justiça,
quem salvou refugiados das guerras,
quem não se curvou a Herodes
e quem não se deixou intimidar
pelo ditador militar.
sábado, 26 de outubro de 2019
Brasil, olha a sua cara.
sábado, 19 de outubro de 2019
Pés descalços sobre a terra sagrada
Pela minha lei
os manguezais e os recifes são lugares sagrados,
pelo mesmo motivo que é sagrado
o ventre da mulher grávida.
Pela minha lei
ninguém pode matar a mata,
pelo mesma razão
que não se fere o próprio coração.
Pela minha lei
apenas os pés descalços podem ir à praia,
só porque, nos tempos juvenis,
foi assim que aprendi a ser feliz.
Tem uma lágrima no poema
Mais do que fazer versos,
eu quero que todos os corais,
caranguejos, moluscos e peixes
voltem ao universo
dos recifes e manguezais.
Eu quero ver os guaruçás de volta aos jundus,
quero ver as garças pescando nas lagunas,
tenho saudades das lagostas nos costões
e dos ventos a modelar as dunas.
Eu sei que canto a vida pretérita,
eu sei que canto o que já não existe,
Eu acredito na poesia,
só não acredito em bobagens,
como comover todos os corações
se nem têm almas os capitalistas selvagens?
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
Abram as portas
Despertar com o cheiro do café
feito por Vovó no fogão a lenha
ou acordar com a claridade do dia
que entrava por todas as frestas
das telhas feitas nas coxas
da casa de caiçara onde cresci?
Brincar de ser criança na areia da praia
ou voar com os pássaros em pensamento?
Jogar bola na areia rente ao mar
ou se fazer de peixe que fura
as ondas da Praia da Fortaleza?
Averiguar se tinha araçá docinho no quintal
ou espiar as jabuticabeiras
para ver se havia frutos maduros nelas?
Muitas eram as possibilidades para o futuro,
eu nasci em uma casa de muitas portas e janelas.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Quintana e Suassuna no céu
Suassuna é um pândego,
Quintana, muito comedido;
o paraibano escreve como quem brinca
e o gaúcho burila palavras introspectivas;
Quintana tenta tocar a rabeca do nordeste,
e ri como quem ri por último;
Suassuna aperta os foles da gaita gaúcha
e ri no começo, meio e fim;
ambos sob as asas e o divertimento
do Anjo Serafim.
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
Ouvidos atentos para a poesia
Uma vez um menino viu
uma casa de joão-de-barro sobre outra
e perguntou para sua mamãe
se eles já não se contentavam
em ter casas térreas.
De onde as crianças
tiram tanta poesias e ideias?
Telúrico
Sei da minha condição telúrica,
mas muitas vezes eu fico tão tontinho
que até dá vontade de cair fora...
Mas também com esse planeta
rodando em volta do próprio eixo
à velocidade de 1700 km por hora!
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
O pescador Zé Almiro
Na rede de tresmalhos
tresmalhou uma cambeba
daquelas brabas
que espadanou, saltou e fugiu.
A rede ficou lá toda estragada,
da cambeba ficou só o suspiro
Mãe do céu, cada coisa acontece
com a rede do Zé Almiro
domingo, 29 de setembro de 2019
Duas mães
Você sabia que o sabiá sabia assobiar?
O passarinho alma-de-gato
tem pios que lembram miados;
o passarinho bem-te-vi
com avisos de advertência
faz a segurança das matas;
já o sabiá aprendeu a cantar
com o Arcanjo Gabriel
só para depois vir à Terra
nos trazer música do céu.
sábado, 28 de setembro de 2019
Amor de mãe

Mamãe sempre nos inspecionava
para ver se os cabelos estavam penteados,
roupas limpas, os sapatos lustrados
e depois nos deixava sair pelo mundo
para estudar, para trabalhar, para namorar...
No fim do dia, cansados, sujos,
bem tratados ou maltratados,
ela nos recebia de volta
com o café quentinho, a bênção maternal
e a oração do rosário
para nos proteger de todo mal.
domingo, 15 de setembro de 2019
Quando o céu toca a Terra

Na época em que os ipês se enfeitam,
em que os sabiás começam a cantar,
e as nuvens cobrem a serra,
é quando o céu toca a Terra.
Sentidos atentos, então,
mamãe deixou-nos muita herança
roseiras de todas as cores
e o perfume da flor-do-japão,
rezava o terço todos os dias
e pedia por todos os seus,
dizia um chiste, rezava uma ave-maria
e assim alcançou as graças de Deus.
Foi bem numa época assim
que um anjo passou por mim,
eu no meio de uma multidão,
sacolas de compras nas mãos,
minhas mãos estavam ocupadas,
minha mente em outra sintonia,
como eu poderia abraçá-lo
se em meu coração ele não cabia?
Você viu o que eu vi?
perguntei a uma senhora.
Ela nem precisou responder
o que, em seu rosto, podia-se ler.
Luz contra as trevas
Cuidado, meus amigos,
os pseudo-ditadores retornaram
com posturas ou palavras de intimidação,
são gente sem graça e sem cerimônia
que trazem nuvens escuras para o Brasil
e não é só o incêndio da Amazônia.
Meus amigos, peço a vocês
que mantenham viva a esperança,
pois somos o povo dos livros
e vamos derrotar a ignorância,
escrevam poesias, abracem a liberdade,
pratiquem a coerência, façam canções,
leiam romances, defendam a verdade.
Coragem, meus amigos,
continuem firmes no bom combate
e não esqueçam de estender a mão
àqueles que são mais vulneráveis
que estão por aí, nos mares,
a bordejar na resistência,
ou a enfrentar as correntezas
na peleja pela sobrevivência.
sábado, 7 de setembro de 2019
À margem do Brasil
Tá vendo essa estrada, rapaz,
ela sobe serra acima
até chegar no Brasil.
O Brasilzão fica lá no alto
e nós vivemos cá na borda
que nem era terra há cinco mil anos,
pois o oceano chegava cá no piemonte.
Tudo isso que você está vendo,
casas, prédios, condomínios,
marinas construídas sobre o manguezal,
tudo isso já foi mar e você sabe,
o que é dele, ele vem buscar...
Me diga, rapaz, você sabe nadar?
Queimada no coração do Brasil
Foge, capivara,
entoca, tatu,
voa, arara,
mergulha, jacaré,
corre, paca...
Ai, meus São Francisco de Assis,
Curupira tupinambá,
anjos da guarda, matimpererê,
a ignorância dos incendiários
quem haverá de deter?
Agosto, mês do desgosto.
Quero deixar aqui um recado de José Almiro, meu avô,
para os piromaníacos
que querem fazer dos cerrados, um deserto
e da Amazônia, um inferno:
"Quem faz coivara em julho ou agosto
só colhe desgosto."
para os piromaníacos
que querem fazer dos cerrados, um deserto
e da Amazônia, um inferno:
"Quem faz coivara em julho ou agosto
só colhe desgosto."
domingo, 1 de setembro de 2019
Não vacile na ortografia
Meus pais, vou viajar pelo país,
vou provar as mangas e os mangás,
quero beijar a miss de maio, de maiô,
que sabe que baba está para babá,
assim como camelo está para camelô.
Além de bela, ela é sábia, sabiá!
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