domingo, 10 de setembro de 2017

Cochilo



Tudo estava normal na vida
e na vila dos caiçaras,
homens saindo para pescar,
mulheres fazendo mil coisas,
crianças aprontando reinações,
rio se atirando na cachoeira,
vento agitando as árvores,
mas bastou o anjo da guarda cochilar
e deu a louca em três ou quatro pessoas
que partiram para a capital
para viver para trabalhar. Que sina!



Tia Joana












A casa de pau-a-pique
de Tia Joana,
escorada pra não cair
ao sopro do vento leste,
era cercada por um jardim
dos jasmins mais cheirosos,
de beijos de todos os feitios,
de brincos de todas as princesas,
de rosas de todas as cores,
de campânulas aos quatro ventos,
que Tia Joana colhia
e ajeitava em ramalhetes
para enfeitar o altar
da igrejinha da Praia da Fortaleza,
para alegrar São João Batista
que nunca teve tanta riqueza.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Semente latente



Um caiçara sem praia
é Jorge Luis Borges sem os olhos,
trazendo para a luz as imagens
que compõem suas memórias,
mas que histórias!
Um marinheiro sem embarcação
é Herbert Vianna sem poder caminhar
que leva outros a viajarem,
mas que viagem!
Um pescador sem mar
é Ludwig van Beethoven sem audição
tirando músicas dos silêncios
para compor suas sinfonias,
mas que melodias!

Edificando castelos



Crianças que brincam nas praias
serão arquitetos ou arquitetas
porque desde cedo edificam
castelos na areia (e nas nuvens)
e mesmo que não cursem universidades,
tem todo um mundo na imaginação
de edifícios, jardins do futuro e arrabaldes.





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Heranças

O avô do avô de meu avô veio de Portugá,
no tempo dos reis barbados,
porque tinha muita monotonia por lá,
chegou aqui em tempo de chuva,
passou alguns dias encharcado
até que uma boa alma tupinambá
ensinou, com a melhor técnica da pré-história,
a fazer uma tapera com folhas de guaricanga
para se abrigar.
Ah, se ele aprendesse a lição inteira...
ah, se ele aprendesse a descansar
e esperasse a chuva passar...
ah, se ele não conjugasse o verbo colonizar... 

domingo, 3 de setembro de 2017

Tempero da vida


Cantar os altos e baixos da vida
não é para qualquer um,
música alegre em tempo de fartura,
toada triste em tempo de carestia,
mas sempre com a confiança
que amanhã será outro dia.
Rádio a pilha em lugar alto
e violão em lugar baixo
por causa da criançada arteira.
Esse é o segredo da família Pereira

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Tati


O que o professor ensinou eu esqueci,
por causa do seu sorriso, Tati;
No retorno para casa o caminho eu perdi,
por causa do seu sorriso, Tati;
Não brigue comigo, tenha dó de mim,
por causa do seu sorriso, Tati.

Sofia



Eu vinha,
ela ia;
eu sorria,
ela, fria;
eu sofria,
ela, Sofia.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O maior mágico do mundo














Nélsono nome inteiro eu nunca soube,
era operário de construção
e, também, mágico amador,
que para o respeitável público
(nós, crianças da rua),
moveu papéis com a força do pensamento;
fez desaparecer e depois aparecer
pedras, sementes e gravetos
tocou fogo nos papéis e nada se queimou;
fez uma moeda atravessar uma tábua,
pôs sementes dentro de um chapéu
e retirou flores desabrochadas.
Batemos palmas de admiração e agradecimento,
ele fez uma mesura e se despediu.
Mas a magia maior, percebemos depois,
foi que virou uma grata lembrança
do nosso tempo de crianças.

sábado, 19 de agosto de 2017

Marinheiro sem mar


O que os pescadores fazem
quando são obrigados
a ficar em terra?
Reúnem-se com os amigos?
Vão à igreja? Cuidam da horta?
Fazem compras? 
Tocam violão? Fazem filosofia?
Bebem cachaça? Pensam em poesia?
Ficam enamorados?
Tudo isso eles fazem, só não ficam ancorados.

Atavismo












O pai, o avô e todos os antepassados
dos quais Silvário tem memória
foram pescadores e senhores do mar
e de um pedaço da restinga
no lado sul de Ubatuba.
Todo dia ele toma passagem em um ônibus,
desde o piemonte da Serra, onde agora mora
e vai até à praia, pisa na areia, molha os pés no Atlântico,
para manter viva a recordação, para alegrar o coração.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Caapora



Em matéria de angelologia
eu não estou tão por fora,
o anjo da guarda dos bichos do mato
acho que é a caapora.

domingo, 13 de agosto de 2017

Arqueologia familiar


Antes de pintar as paredes
rabiscadas e desenhadas
pelas mãos das crianças
é recomendável registrá-las em fotos
pois quando elas se tornarem
desenhistas, arquitetos, poetas,
vai ser possível entender
como tudo começou.

domingo, 6 de agosto de 2017

Na camarinha da infância

Nossa cama era uma tarimba,
com esteiras de taboa,
com travesseiro de macela.
Talvez seja por isso
que nosso sono
era tranquilo e revigorante,
ou porque o mundo
já foi mais aconchegante?

sábado, 5 de agosto de 2017

Não nos disseram que eles era heróis...













Quando Gandhi convidava
para fazer jejum pela liberdade, eu jejuei?
Quando Mandela pedia solidariedade à sua luta
pelo fim do Apartheid, eu me solidarizei?
Quando D. Oscar Romero
clamava por justiça social, eu escutei?
Quando Madre Teresa esmolava
para tratar dos párias do mundo, eu me sensibilizei?
Quando Chico Mendes foi morto, eu chorei?
Quando Lula liderou as lutas pelas diretas, eu lutei?
Quando R. Wallenberg desapareceu, eu o procurei?

domingo, 30 de julho de 2017

Criança não paga passagem













A imaginação do menino sentado na praia
embarcou na traineira que atravessou a baía
e foi pescar anchovas no mar de fora,
enfrentou procelas, quase foi ao fundo,
desviou da rota e conheceu meio mundo.
Como o sol já estava quase se escondendo
por detrás da Serrinha da Fortaleza,
o menino resolveu pôr os pés no chão
e voltar para casa.
Amanhã, quem sabe,
daria para avistar um navio cargueiro
passando por fora da Ilha Vitória
para o levar mais longe, para uma nova história.

poesia do cotidiano












Peixe, farinha, banana
eram do nosso lugar,
de fora só a pimenta do reino,
que tratamos logo de plantar
e cresceu abraçada
ao coqueiro no quintal.
Quando a gente abria um coco,
vovô o provava, piscava os olhos
e dizia que a água estava apimentada.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O lado de cá do mundo









Eu tava de bem com a vida,
aprendendo a ser caiçara,
brincando de pescar,
aprendendo a nadar,
brincando de remar canoa,
levando tudo numa boa,
quando me puseram roupa nova,
sapato de machucar os dedos
e me mandaram para a escola
para aprender os segredos
de decifrar os símbolos, alinhar as letras
e repetir as fórmulas.
Quando pensei que tinha acabado,
que já estava livre,
que podia voltar para a praia em que nasci,
me mandaram para outro grau
para aprender os mandamentos,
respeitar a disciplina,
ter uma profissão de verdade,
porque o país precisa de mim.
E eu? Alguém sabe que para viver
eu preciso de gêneros de primeiras,
segundas, terceiras e outras necessidades,
tipo, ar, água, carinhos, alimentos
e mais um pouquinho de mar
para pôr meus sonhos para navegar?





Canção do mar













O ritmo das ondas do mar
é a primeira canção de ninar
que põem as crianças caiçaras
para dormir e sonhar
com os horizontes amplos
e a vida mais livre
no território sem cercas
do latifúndio oceânico:
o peixe é de quem o pescar;
o tesouro é de quem o achar;
meu parente levou uma garrafa de cachaça
em troca de um pedaço de âmbar.

sábado, 22 de julho de 2017

Cordeiros de Deus













Depoimento da caiçara Astrogilda da Conceição:
Os jagunços do inglês estavam expulsando todo mundo
e nós também fomos ameaçados, saí correndo atrás de um deles
com a enxada na mão. Mas, um dia, voltando da roça,
encontramos a casa derrubada, as panelas furadas,
e fomos obrigados a sair, sem nada, nem panelas,
fomos expulsos da nossa praia, Praia do Pulso,
com um chão de areia tão gostoso de pisar,
das nossas plantas, das nossas árvores de frutas,
fomos expulsos do paraíso por um bando de demônios.
Para onde, meu Deus?