terça-feira, 3 de junho de 2025

Prêmio



Pago a ira com sorrisos,

pago abraços com beijos,

pago o abandono com a atenção

e sei que estou no caminho certo,

pois quando saio às ruas,

as crianças me acham um igual

e as árvores das praças e jardins

jogam flores em mim. 

Preço alto demais

 


Quantos litros de cana?

Quantos alqueires de farinha?

Quantos cachos de bananas?

Quantas violas caladas?

Quantas redes recolhidas?

Quantos peixes não nascidos?

Quantos mangues aterrados?

Quantas chibas não dançadas?

Quantos reisados?

Quantas teses de mestrados?

Quantos bailados?

Quantos ranchos destruídos?

Quantos anos utópicos?

Quantas milhas devoradas?

Quantas vidas sacrificadas?

Precisa-se


De pessoas com boa aparência,
segundo grau completo,
arrivistas e ambiciosas,
com conhecimento de chefia
e feitoria em geral.
Apresentem-se no inferno
até às 14 horas. 


Precipitações

 

Coriscos, riscos de luz,

chuva de meteoros,

anjos caídos, um escarcéu:

deve haver algum furo no céu.

Praia do Pulso


Piso macio nesta praia,

pois a areia é sagrada.

Banho-me com respeito neste mar,

pois é benta a água salgada,

com maior teor de sal

pelas lágrimas derramadas

de Nossa Senhora de Ubatuba

e demais caiçaras despejados

da praia e da vida.

Praia da Fortaleza de São João Batista


Menino ainda

eu subia o morro

porque gostava de espiar

do alto, a povoação da Fortaleza

sob um tapete verde

formado pelas copas

dos tarumãs, timbuíbas,

jaqueiras, laranjeiras

entremeadas de muitas bananeiras.

Aqui e ali um fio de fumaça

de fogão a lenha a denunciar

a presença humana.

Mas o esconderijo

não foi suficiente,

e mesmo tão distante da cidade,

mesmo sob as copas das árvores,

mesmo disfarçando

suas casas na natureza,

os caiçaras da Fortaleza

foram achados e intimados

a ingressar no século XX

e nunca mais viveram sossegados.

Praia da Fortaleza, 1973

 

Lagartos esquentando ao sol.

Casas com alicerces de pedras

com franjas de capim negro.

Fumaça de chaminé enviando recado

de pirão no fogão a lenha.

Sol depositando moedas de luz

pelos vãos das telhas

da casa de meus avós.

Borboletas-folha e bichos-pau

indecisos entre os reinos

animal e vegetal. 

Praia da Fortaleza

 


Uma casa de pau-a-pique no morro,

uma grande pedra no quintal,

um menino na pedra. 

No céu, uma ciranda de urubus,

com um ou outro carapirá intrometido,

comemorando a luz e o calor do sol. 

Uma casa de pau-a-pique no morro,

uma grande pedra no quintal,

um menino nas nuvens. 

Por que me ufano deste país

 


Tem dias em que o Sol

põe ouro na Serra Geral

e a paisagem vira

bandeira nacional.

Poesia e solidão


 

A maioria dos poetas

carrega um farnel

de poemas e solidão

e deles se alimentam

como o vulgo

tira o sustento do pão.

Mesmo com namorada

mesmo com o pé na estrada

mesmo com profissão

sua vida verdadeira

desenvolve-se na solidão.

Mesmo em praças públicas

ou em portas de bares

ou no burburinho dos lares

o poeta estrito senso

somente será encontrado

no cultivo do silêncio.

E acham graça e lirismo

em nuvens de calças

em ruas de cataventos

nas cinzas das horas

em anjos depenados

e corações disparados. 

Poeminha para Régis

 

 

Sabia que um anjo depenado

é igual uma criança

com o braço quebrado?

 

Poesia de memória

 


O bom da arquitetura pau-a-pique

é que a manhã vem sem convite,

entra casa adentro

pelos vãos dos telhados,

pelas frinchas das paredes,

trazendo a luz do sol

e a canção de pássaros

que estão na hit parade

dos sucessos musicais

desde tempos ancestrais.

Poema para as mães de atuais e futuros poetas

 

É o carinho de mãe,
é o cuidado de mãe,
é a preocupação de mãe,
é a alegria de mãe,
é o amor de mãe
é o exemplo de mãe
que nutrem os poetas,
até os que não escrevem
mas vivem a poesia:
um abraço aqui,
uma solidariedade ali,
porque poesia é amor em ação
até mesmo umas moedas
para o bêbado mentiroso
que gasta em cachaça
o que era para comprar pão.


Poema dos fortes



Foi no braço de ferro

contra o vento -

uma refrega muito dura -

que o pé de goiaba

desenvolveu sua musculatura.

Plantação


Meu avô plantou no quintal

coqueiros,

goiabeiras,

laranjeiras,

bananeiras,

cafeeiros

e a pedra matacão

quem plantou

foi um vulcão. 

PHD


Quanta onda,

quanto peixe,

quanto vento,

quanta rede,

quanto gente

é necessário estudar,

para ser especialista

nas coisas do mar? 

 

Pirão abençoado



Quando o padre foi benzer
a casa de meus avós,
aspergiu a água benta
nas portas e janelas
e todos os cantos
para afastar os perigos
de raios, doenças, fogo,
acidentes, brigas e inimigos.
E ao fogão a lenha de Vovó,
deu a especial bênção,
de nunca faltar pirão.

Pescaria na Baía de Fortaleza


Águas do sul,

sardinhas em polvorosa,

canoas com velas de traquete

ao largo.

Aquilo foi um rabo de boto

ou cauda de sereia? 

Pesca abençoada

 


A praia é da Fortaleza,

o mar está mais limpo,

os pescadores mais humildes,

meu avô e outros pescadores

puxam os cabos no lagamar

de um rede que já não existe

e tamanha quantidade de peixes

na alvorada da luz,

parecendo a rede de São Pedro,

abençoada por Jesus. 

 

Pergunta ao vento



Que notícia urgente

faz o vento noroeste

bater as portas de madrugada

e acordar com maus modos a gente?