Pago a ira com sorrisos,
pago abraços com beijos,
pago o abandono com a atenção
e sei que estou no caminho certo,
pois quando saio às ruas,
as crianças me acham um igual
e as árvores das praças e jardins
jogam flores em mim.
pago abraços com beijos,
pago o abandono com a atenção
e sei que estou no caminho certo,
pois quando saio às ruas,
as crianças me acham um igual
e as árvores das praças e jardins
jogam flores em mim.
Quantos litros de cana?
Quantos alqueires de
farinha?
Quantos cachos de
bananas?
Quantas violas caladas?
Quantas redes
recolhidas?
Quantos peixes não
nascidos?
Quantos mangues
aterrados?
Quantas chibas não
dançadas?
Quantos reisados?
Quantas teses de
mestrados?
Quantos bailados?
Quantos ranchos destruídos?
Quantos anos utópicos?
Quantas milhas
devoradas?
Quantas vidas
sacrificadas?
Coriscos, riscos de luz,
chuva de meteoros,
anjos caídos, um escarcéu:
deve haver algum furo no céu.
Piso macio nesta praia,
pois a areia é sagrada.
Banho-me com respeito
neste mar,
pois é benta a água
salgada,
com maior teor de sal
pelas lágrimas
derramadas
de Nossa Senhora de
Ubatuba
e demais caiçaras
despejados
da praia e da vida.
Menino ainda
eu subia o morro
porque gostava de espiar
do alto, a povoação da Fortaleza
sob um tapete verde
formado pelas copas
dos tarumãs, timbuíbas,
jaqueiras, laranjeiras
entremeadas de muitas bananeiras.
Aqui e ali um fio de fumaça
de fogão a lenha a denunciar
a presença humana.
Mas o esconderijo
não foi suficiente,
e mesmo tão distante da cidade,
mesmo sob as copas das árvores,
mesmo disfarçando
suas casas na natureza,
os caiçaras da Fortaleza
foram achados e intimados
a ingressar no século XX
e nunca mais viveram sossegados.
Lagartos esquentando ao sol.
Casas com alicerces de pedras
com franjas de capim negro.
Fumaça de chaminé enviando recado
de pirão no fogão a lenha.
Sol depositando moedas de luz
pelos vãos das telhas
da casa de meus avós.
Borboletas-folha e bichos-pau
indecisos entre os reinos
animal e vegetal.
Uma casa de pau-a-pique no morro,
uma grande pedra no quintal,
um menino na pedra.
No céu, uma ciranda de urubus,
com um ou outro carapirá intrometido,
comemorando a luz e o calor do sol.
Uma casa de pau-a-pique no morro,
uma grande pedra no quintal,
um menino nas nuvens.
A maioria dos poetas
carrega um farnel
de poemas e solidão
e deles se alimentam
como o vulgo
tira o sustento do pão.
Mesmo com namorada
mesmo com o pé na estrada
mesmo com profissão
sua vida verdadeira
desenvolve-se na solidão.
Mesmo em praças públicas
ou em portas de bares
ou no burburinho dos lares
o poeta estrito senso
somente será encontrado
no cultivo do silêncio.
E acham graça e lirismo
em nuvens de calças
em ruas de cataventos
nas cinzas das horas
em anjos depenados
e corações disparados.
O bom da arquitetura pau-a-pique
é que a manhã vem sem convite,
entra casa adentro
pelos vãos dos telhados,
pelas frinchas das paredes,
trazendo a luz do sol
e a canção de pássaros
que estão na hit parade
dos sucessos musicais
desde tempos ancestrais.
contra o vento -
uma refrega muito dura -
que o pé de goiaba
desenvolveu sua musculatura.
Meu avô plantou no quintal
coqueiros,
goiabeiras,
laranjeiras,
bananeiras,
cafeeiros
e a pedra matacão
quem plantou
foi um vulcão.
Quanta onda,
quanto peixe,
quanto vento,
quanta rede,
quanto gente
é necessário estudar,
para ser especialista
nas coisas do mar?
Quando o padre foi benzer
a casa de meus avós,
aspergiu a água benta
nas portas e janelas
e todos os cantos
para afastar os perigos
de raios, doenças, fogo,
acidentes, brigas e inimigos.
E ao fogão a lenha de Vovó,
deu a especial bênção,
de nunca faltar pirão.
Águas do sul,
sardinhas em polvorosa,
canoas com velas de traquete
ao largo.
Aquilo foi um rabo de boto
ou cauda de sereia?
A praia é da Fortaleza,
o mar está mais limpo,
os pescadores mais humildes,
meu avô e outros pescadores
puxam os cabos no lagamar
de um rede que já não existe
e tamanha quantidade de peixes
na alvorada da luz,
parecendo a rede de São Pedro,
abençoada por Jesus.
Que notícia urgente
faz o vento noroeste
bater as portas de madrugada
e acordar com maus modos a gente?