sexta-feira, 29 de abril de 2022

Mendicância

 Sou dono do ouro,

escorrem pratas entre meus dedos,

o que você trouxe para mim?

Os horizontes são meus,

tenho o destino de muitos em minhas mãos,

o que você tem para mim?

Batalhões estão às minhas ordens,

tenho mil olhos em todo instante,

o que você reserva para mim?

Joelhos dobram-se quando eu passo,

as vozes se calam quando eu falo,

você trouxe uma esperança para mim?



Poema da dúvida sideral

 Este que vos escreve não sabe de nada, 

só matuta no universo de 14 bilhões de anos old, e entrevê

o que as lentes do telescópio espacial Hubble permitem ver -

formações estelares a 13 bilhões de anos-luz de distância,

e ri baixinho enquanto vai girando no carrossel da Via-Láctea:

na cabeça dos cientistas falta um parafuso,

como viemos parar tão longe

se a velocidade da luz é impossível?


domingo, 24 de abril de 2022

Das riquezas

 

Meu avós não eram pobres,

na verdade tinham a riqueza

de uma casa caiçara no meio do bananal,

com um riacho de águas cantantes

e mais um rancho com canoas e redes de pescar.

Pobre sou eu que tenho, tão somente,

um baú de saudades para ostentar.




sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pinta de estrela

 

Apesar de parecer

a estrela d'alva não é estrela,

mas merecia ser.

Pescador caiçara

Bagres dos fundos arenosos,

garoupa das pedras,

olhetes de meia-água,

paratis do lagamar...

Onde havia peixe, Tio Chico Félix ia buscar.



domingo, 17 de abril de 2022

Sugestões para o reformador do mundo



Citadino quer morar na roça;

roceiro quer ser urbano;

eu quero ser construtor;

tem gente que nasceu para ser outra coisa,

martim-pescador nasceu para ser pescador.

Antes da alvorada



De um pescador para outro:

- Há quanto vós estais esperando, parceiro?

- Desde quando os passarinhos não cantavam.

E eu que a tudo ouvia, só pensei em milhões de anos distantes

quando os pássaros nem eram entes cantantes.



quarta-feira, 23 de março de 2022

Casa sob as árvores



A casa mais bonita do bairro está escondida

por bananeiras, juçaras e  até um pé de cambucá,

 maravilhas desta terra em que plantando tudo dá.

Melhorando a paisagem





Um quintal fica bem melhor

se tirar o muro cinzento e morto

e plantar uma cerca viva em seu lugar

com flores, colibris e borboletas

borboleteando no ar.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Entre terra e mar



Entre a certeza dos pés bem firmes no chão
e a inconstância do convés balouçante dos barcos pesqueiros;
entre a vida contida pelo intervalo entre o nascer e o pôr-do-sol
e a necessidade de trocar a noite pelo dia;
entre a paz com a vida e o desafio à sorte;
entre o conhecimento e a ignorância das regras com que é preciso jogar;
entre a terra e o mar; Manuel ficou na roça e Benedito foi pescar.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Receita para fazer passarinhos



É preciso alimentar bem os gatos,

plantar flores de todas as cores e de todos os cheiros,

quebrar os concretos dos pátios e os asfaltos das calçadas,

pensar como pássaros, principalmente os colibris,

derrubar os muros mortos, construir cercas vivas

e, por fim, pôr Milton Nascimento de música chamariz.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Os donos do mundo




Jogo de sementes de cubatã,
piões de coquinhos brejaúva,
canoinhas de caixeta feitas por nós mesmos,
pipas feitas de papéis usados
e ir além dos céus da praia da Fortaleza:
para quem não tinha nada
qualquer coisa era uma riqueza.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Desequilíbrio

 

Antigamente o tempo era dividido direitinho

entre a claridade do dia e a escuridão da noite.

A luz iluminava os seres humanos e seus ofícios,

que, de tanto elucubração,

inventaram archotes, lâmpadas a óleo, lampiões de gás,

luz elétrica e foram avançando

sobre os domínios das sombras,

chegando ao ponto de  não restar aos boitatás

senão o refúgio no espaço das lendas.

sábado, 6 de novembro de 2021

No coração das estrelas

 


Eu aqui vou ouvindo histórias, palavras, músicas

que guardo na memória,

para, quiçá, formar outras histórias.

Se novas histórias não se formarem, não tem problema,

sei marear o barco nos piores ventos,

e sempre dá para construir um novo poema...

No coração das estrelas é que se formam os novos elementos.


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Nos tempos da prática da poesia


Do sul do mundo vêm chuvas e ventos fortes
de quebrar galhos de árvores nas serranias,
arrepiar as folhas dos coqueiros,
ludibriar a meteorologia
e assustar a criação no quintal.
Mas, aqui tudo está normal,
não tememos a ventania e,
desde que Vovó Martinha acendeu a palha benta
e fez a oração de Santa Bárbara,
nos anos de mil novecentos e setenta,
estamos bem seguros em terra,
não aconteceu mais o dilúvio, não desabou mais a Serra.













terça-feira, 21 de setembro de 2021

Gênese caiçara

Um de meus avós, sem brincadeira,

chegou aqui e conheceu a farinha da terra,

a banana da terra e o canto do canário da terra,

então resolveu esquecer Portugal e suas parcimônias,

rasgou a certidão de nascimento e sem mais cerimônias

tratou de arranjar uma tupinambá, 

minha antepassada, Vó Dina,

que ensinou tudo o que a gente sabe,

de remédios da mata às técnicas de pescar.


Parem os psicopatas do desmatamento já!


Eu, meu pensamento e mais o que o vento traz:

idiomas de pássaros, 

rios contando sobre as chuvas no alto da serra,

histórias antigas de árvores e bichos

que os avozinhos também já tinham ouvido...

Ninguém fica solitário nas latitudes tropicais,

já os ventos dos desertos falam só a língua

das pedras e areais.


domingo, 12 de setembro de 2021

História do vento forte


A ventania de ontem me trouxe a história 
de quem teve a sorte de nascer
entre mar e mata de restinga,
onde há ranchos de canoas,
casinhas de caiçaras,
muita criação nos quintais
e mais as crianças de pés no chão,
que as mães têm que chamar pelos nomes:
Ana Maria! Eugênia! João!
para lembrar a hora de almoçar
e de tomar banho para ir à escola
para saber um pouco a mais todo dia
e crescer em graça e sabedoria.
É o vento forte que traduz melhor
o sentido das palavras que vêm
de muito, muito longe.



domingo, 22 de agosto de 2021

Homenagem a uma vovó caiçara




Rosas da Arábia,
Kanangas do Japão,
Lírios da França,
Hibiscos do Havaí,
O ipê  é brasileiro...
Tem gente que acumula ouro,
Vovó só queria só
as flores do mundo inteiro.

Cores tropicais



Mar azul, areia branca,

cabelos lisos e escuros, pele morena,

serra verde, café preto, bananas amarelas,

farinha de mandioca tem que ser torrada,

mulheres dos olhos verdes, todas elas minhas parentes

e não há cor nenhuma nos rios de águas transparentes.