sábado, 28 de novembro de 2015

Goteira sobre o poema


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As mensagens de despedidas
eram mais tristes antigamente
quando eram escritas em papel
com borrões de fácil interpretação
para quem sabia ler  nas entrelinhas:
lágrimas põem demasiados pingos nos is.

Ciência no poema



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Então, né, lembranças do que passou
e, às vezes, do que viria a ser, se condensam,
toldam os olhos e nublam o espírito.
Após a condensação atingir o ponto de saturação dos sentimentos,
ocorre a precipitação pelas glândulas lacrimais
e o choro desce aos borbotões ou discretamente,
conforme o estado geral do ser: corpo, alma e mente.

Caso verídico


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Tio Antônio tinha uma roça
que produzia milho, mandioca, feijão,
para a família, pássarinho e ladrão.
– Não vai dar parte na polícia, Antônio?
– Mas por que? Se estão tirando de mim,
que sou tão pobre, devem estar com mais fome do que eu.
Pronto, a poesia está feita e agora está na hora
de levantar a bunda da cadeira
e ver a poesia acontecendo na igreja,
na solidariedade, nas ruas e praças da Terra:
na Síria e no Brasil têm refugiados,
de antigas e novas guerras.

Cena marinha



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O pescador sondou o céu e um anjinho piscou pra ele:
era hora de virar a última dose de cachaça,
Dom Orleans de Bragança,
aproveitar o vento a favor e levantar o pano
para ver o que tem no outro lado do mundo.

Regras a cumprir


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Quem vive com o mar sabe
que ao soprar a viração
é preciso recolher a rede, içar a vela,
erguer a âncora e retornar pra casa.
Mesmo que o pescador esteja bêbado,
ou o  poeta um tanto ébrio,
o barco e o poema chegam ao porto
porque o vento está sempre sóbrio.

Terra caiçara

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Minha vontade, mesmo,
é um dia dormir na praia do Município de Ubatuba
e acordar na Vila Nova da Exaltação
da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba,
com todos os mangues intactos,
as praias enfeitadas de jundu
e o ubatubense voltando a ser caiçara.
E, quem sabe, assim vai acabar
a tristeza que enfeia meu poema.

Janela para o horizonte


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O mundo não é só o que existe:
gente, bicho, casa, mar, serra…
Tem também o que não existe:
sereia, boitatá, sombras…
Todo pescador sabe, por exemplo,
que tem o boitatá que corre sobre o mar
e ilumina a noite igual tatá, o fogo;
que há vultos tímidos que se escondem
nos desvãos dos mistérios;
que tem gente que sonha com santos
e tem gente que vê anjos.
Tenho dó daqueles que não tem uma casa
igual morada caiçara,
que é exatamente do tipo
que tem janelas adequadas
para espiar o outro lado da realidade.

São Sumé

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Á água do mar vem dos rios,
água dos rios vem da chuva
e a chuva vem do mar.
Até São Sumé de Ubatuba
veio caminhando sobre o mar
trazendo a ciência de fazer farinha de mandioca,
que ensinou ao meu parente tupinambá.
E só, pois que peixe bom e coentro para fazer pirão
já tinha neste lado do paraíso.

Só podia dar nisso

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Bem que mamãe sempre dizia
pra gente se contentar
com as praias de nossa baía
e havendo vontade de ir mais além
que conhecêssemos as bordas do oceano,
mas que nunca fôssemos nos aventurar
no lado de lá das montanhas,
pois que somos povo do mar
e não estamos acostumados
aos ritmos de quem precisa
se tornar áspero como o sertão
pra tirar o sustento do chão.

Blues poems



Resultado de imagem para billie holiday

Billie Holiday:
“Quando nasci,
eu, mamãe e papai éramos crianças.”

No way

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Os acertos são variados
cada qual com sua peculiaridade,
já os erros são sempre os mesmos,
escritos ou vividos,
nas Ilhas Marianas,
no outro lado da lua,
no quintal do vizinho
motivos de tantos desalinhos
de roupas, cabelos e destinos.

sábado, 24 de outubro de 2015

Caiu na rede é peixe

namorado
bonito
parati
perna-de-moça.

Aula de história


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Que coisa é o mundo,
D.Pedro, o último,
era pra ser somente o segundo.

Inconveniências

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Batidas em portas e janelas…
não vou atender, que voltem outro dia,
fantasmas cismam em fazer visitas
nos dias de ventania.

Homofonia

Feliz de quem ainda por aí descalço,
pisando em pedras e espinhos gramaticais,
não se importando com os puristas
e nem se vê em complicações
se assiste a um conserto ou um concerto,
se dá um cheque ou um xeque,
se prepara um cesto ou um sexto,
se faz um cozido ou um cosido…
eu mesmo, numa situação destas,
fiquei estático e extático,
quando uma moça contou-me em segredo,
que estava, céus!, com inflamação no nervo asiático.

Extinção

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Ditadura, pobreza, caçadas ilegais,
tanto atraso em algumas regiões d’África,
que o outrora rinoceronte,
hoje é rinocerontem.

Memória


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Quero registrar aqui
os nomes de meus antepassados
cujos domínios se estendiam
desde os esporões da Serrinha da Fortaleza
até ao oceano e adjacências,
incluindo as alvoradas,
o mar e suas candências:
Laurentina e Almiro Mesquita,
Ana e Manoel Almiro,
Maria e Genésio dos Santos,
Eugênia e José Almiro,
todos caiçaras de fé, casos de pescarias
e outras formas de poesias.

Insight

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À sombra de um guarda-sol ou palma
muita gente teve a revelação
que o caiçara sabe desde criancinha:
água do mar é bom pra lavar a alma.

Herança

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O mundo se encontrava
no quintal de meus avós:
o cheiro do limão cravo,
o gosto do cambucá
e as cores da flor do beijo.
O primeiro veio de portugal,
o segundo é tupinambá
e o beijo é iorubá.

Viagem para o outro lado do mundo

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Meu avô cruzava a Baía da Fortaleza até à Praia do Lázaro,
deixava a canoa no jundu
e tomava o ônibus da Viação Atlântico
para ir à Vila de Ubatuba comprar quase nada:
macarrão padre-nosso, manteiga viação,
biscoutos aymoré, queijo do reino,
cartuchos CBC, linhas e anzóis.
O resto era plantado, criado,
caçado ou pescado por nós.