sexta-feira, 20 de março de 2026

Histórias do mar

 


 
O apóstolo São Pedro 
é protetor dos pescadores 
e dos pescados também. 
Quando é necessário 
dar um sossego 
para os bichinhos do mar, 
o Santo solta o arreio dos ventos 
e deixa a tempestade a uivar, 
de não sobrar uma canoa ao largo 
e nenhuma vela no horizonte, 
pois, se o pescador é valente, 
é, também, às ordens do céu, obediente. 

História do Mano Grande

 

Tia Ana da Fortaleza

contou-me que seu avô,

Manoel Alves Barreto,

conhecido por Mano Grande

da Praia Brava,

andava por todo lugar

e a fé testemunhava

com sua escritura sagrada,

até que em dia de pesca

sua fé foi provada

com a canoa emborcada

em pleno mar-virado.

Ele e João de Deus

acabaram arrastados

junto com a embarcação

para a morte no costão

da Praia da Caçandoca.

Foi aí que Mano Grande apelou

pra Nossa Senhora Aparecida,

que mandou um boto

que resgatou suas vidas,

ainda que meios rotos.

Depois, em trajes de pesca,

fizeram a prometida peregrinação

para Aparecida do Norte,

em agradecimento e devoção

à Santa que os livrou da morte.

História de ventos

 

Um dia, na capoeira lá de casa,

houve uma briga feia

entre as massas de ar,

a casa de farinha desabou,

foi a nocaute o bananal,

as aves ficaram arrepiadas,

e o gigante tarumã

por pouco não tombou.

Irremediavelmente perdida,

porque o vento levou,

ficou a camisa do Santos F. C.,

um regalo de meu amor.

Histórias de pescador


Vinte mil léguas submarinas,

A Ilha do Tesouro,

Robinson Crusoé,

Moby Dick,

Trabalhadores do Mar,

Os Lusíadas,

O Velho e o Mar

e nos diários de bordo

do piloto Nelson José,

acredite quem quiser.

Histórias de pescador

 


O pescador Benedito,

por ordem da medicina,

ficou fundeado em casa

por longas semanas de inverno

e começou a piorar

à medida que lá fora

o tempo principiava a melhorar.

E foi por teimosia

e marinheira intuição,

depois de uma prece a S. Pedro,

santo de sua devoção,

que mandou tirar as cracas

que iam tomando conta

de si e de sua embarcação,

pinchou fora os cataplasmas

e saiu para pescar.

A partir de então

viu sua saúde retornar.

História do pescador Tonico


 

Por ilusão de ótica

ou excesso de poesia,

Tio Tonico, por um momento,

pensou ter colhido a Lua

nas malhas do picaré. 

Histórias de céu, terra e mar

 

No dia que Tio Chico
chegou diante de São Pedro
não foi reconhecido
porque vestia fatiota de defunto.
- Ó, meu São Pedrinho,
que sua intercessão me salvou
na tormenta de 63,
me valei mais uma vez!
Sou eu, meu Santo,
de pescar de corrico,
de largar o espinhel,
de consertar um peixe
e de pescar no parcel!
Então São Pedro abriu a porta
porque para entrar no reino do Senhor
tem que ser igual uma criança,
tal qual o velho pescador.

História de Caronte

 

Antigamente havia só a trilha

que subia e descia

seis morros e seis praias

por sete quilômetros

de canseiras e de belezas

até atingir a Fortaleza.

Cargas grandes só pelo mar,

inclusive a última viagem

de quem cumpriu seu eito.

E foi assim que lá do alto da estrada,

Bito Celidônio gritou para saber

quem tinha falecido

e o canoeiro respondeu

que tinha sido o Bito Celidônio. 

Sinfonia das alturas


Nada de silêncio na Serra da Mantiqueira:

curicacas gritam o próprio nome,

maritacas disparam rajadas de barulho,

tucanos soam como dobradiças enferrujadas.

E há ruídos de ventos, gados que mugem,

trinados e gorjeios de passarinhos.

Nada de silêncio, mas a sinfonia ancestral

de celebração da vida natural.

Sensibilidade rústica

 

De manhã o vento sopra do mar;

nuvens escondem os altos das montanhas.

Há muita umidade no ar.

O roceiro sabe que vai chover;

faz uma prece de agradecimento a Deus.

Há muita humildade no ar.

quinta-feira, 19 de março de 2026

A linguagem dos bichos

 

Um pássaro avisa outro,

que informa a maritaca;

esta logo faz uma gritaria,

que alerta toda a criação.

Quem não entende pensa que é festa,

mas todo esse palavreado significa:

- Cuidado, tem homem na floresta!


Em São Luís do Maranhão


Eu vi uma casa vitimada pelo tempo,

disputada pelos herdeiros,

a derruir-se em telhas quebradas,

fragmentos de estuque e pau a pique.

No quintal cheio de mato,

as laranjeiras e goiabeiras teimam em ofertar

frutos para os fantasmas.


Umanità

 

Olha isso, Alfred Nobel: a sua dinamite

que fazia as pedras em pedacinhos,

foi modificada por um demente

para fazer o mesmo com a gente.

O avião de Santos Dumont,

feito para nos aproximar do céu,

foi municiado de bombas e metralhadoras

para precipitar pilotos no inferno.

E o drone, das úteis imagens aéreas

e serviços para a agricultura,

é usado hoje - ninguém merece! - 

para matar pessoas por GPS.

sábado, 1 de novembro de 2025

História de caçador


 
Quando vovô voltou da caçada

com uma carga de cambucás maduros,

vovó ficou admirada:

“nunca ouvi falar de quem sai para apanhar 

os frutos da fruteira 

com espingarda cartucheira”. 

História de bem-te-vi

 


Igual ao minúsculo bem-te-vi
que enfrenta e afugenta o carcará,
a menina Malala Yousafzai
enfrentou a barbárie
e vai pintando de luz do sol
a ignorância sob a escuridão
nas terras do Paquistão.

Herança


Do índio Tupinambá

ficaram os nomes

pregados aos lugares:

Itaguá, Marambaia,

Saquarema, Ubatuba,

Bertioga, Maranduba...

Ficaram suas palavras

nas asas das aves:

sabiá, saíra, bacurau,

inhambu, tié, uru...

Deixaram as armadilhas

com mil anos de sabedorias:

covo, mundéu, jirau,

cica, arapuca...

Suspenderam nos ramos

Das árvores suas iguarias

bacupari, cambucá,

caju, abiu, jabuticaba,

goiaba, sapoti, araçá...

Perdida só a gastronomia

da mais fina antropofagia.

Harmonia das criaturas


A primeira notícia

de um dia ensolarado

mal brilhou no céu

e os cantos dos galos

começaram a divulgá-la

para todos os moradores

da Praia da Fortaleza:

Bem forte, no quintal de Vovó Eugênia;

à distância, na casa de Seu Dario;

longínquo, no terreiro de Tio Clemente.

E quase inaudível, tão baixinho

que foi impossível ouvir até o fim,

após ter atravessado três décadas,

cantou o galo de Seu Joaquim.

Haikais

 


Nos ventos da frente fria

o bananal de meu avô

fazia uma louca coreografia.

 

Notícia boa

A chuva de ouro

Não cai à toa.

 

 

Urgente:

Parapentistas e anjos caídos procuram

correntes de ar ascendente.

 

 

No virar das ampulhetas,

entregues ao sono,

Lagartas sonham borboletas.

O segredo de João Alegre

 


O segredo pra fazer música bonita

é sair de casa e andejar

pra ver e ouvir as obras de Deus

e dos homens:

o pescador que retorna da pescaria,

um carinho de namorada,

um sol que se anuncia

no vermelho da alvorada

e mais um monte

de lições de rejuvenescer.

Ora pro nobis

 


Peixes-frades

pássaros cardeais,

bichinho louva-a-deus,

por nós rogais.