quinta-feira, 22 de maio de 2025

Minha avó materna


Dona Eugênia dos Santos,

do café com garapa,

da farinha no pirão,

do tutu de feijão,

da paçoca no pilão,

disse, com muita propriedade,

que a pressa é inimiga da refeição.

 

Vovó Eugênia

 

Vovó Eugênia nasceu e sempre viveu

na Praia da Fortaleza,

mas seu jardim tinha

cananga do Japão,

jasmim das Arábias,

flamboião da África,

buganvília de além-mar,

hibisco do Havaí,

flores do Bornéu,

rosas do céu,

e mais dama da noite e gardênia.

Que navegantes do tempo,

que viajantes das distâncias,

trouxeram o mundo

para o jardim de Vovó Eugênia?

Vó Martinha

 

Minha avó Martinha,

sábia sem nenhum estudo,

era parteira e benzedeira

que conhecia todas as ervas

e orações contra as doenças.

Só não conseguiu remédio

para o novo tempo

que separou toda sua família

pelos sertões e outros municípios.

Minha avó, caiçaramente,

enfrentava os perigos das rodovias

e da vida

como se ainda fosse dona

de tudo o que tem na terra que lhe pertencera:

- Cuidado com o carro, vovó!

- Ele se quiser que pare, cheguei aqui primeiro!

Votos




Desejo
que os prolegômenos de sua vida
seja como a alvorada
da praia em que nasci:
o negro torna-se gris,
o gris vira azulado
pintalgado com os pincéis
do amarelo e dourado,
as cores despertam no céu,
o mistério e a escuridão
mergulham nas profundezas do mar
e após essa cerimônia real
ergue-se o sol
do berço oriental.

Desejo, ainda,

que no momento de fenecer,
após uma provecta existência,
que seu anoitecer
seja como o poente
que acontece em minha terra
cá no piemonte da paliçada da Serra:
com as galinhas cacarejando
no terreiro do dia
e os outros viventes exercendo
a vida com energia,
o astro principal
tropeça no obstáculo
da elevada escarpa
e sem maiores delongas,
estende-se sobre o mundo
o longo manto das sombras.

Visita ilustre

 

E teve um anjinho

que veio brincar na terra

depois do almoço,

se divertiu no quintal

da casa do meu avô,

debaixo da laranjeira,

até que se cansou

e acabou a brincadeira. 

Visita de Nossa Senhora

 


Em um dia, no ano de 1915,

no Sertão da Quina,

o céu esteve azul,

as nuvens brancas,

o sanhaço azul,

as casas brancas,

as janelas e portas azuis,

as garças brancas,

o manto de celeste azul,

o véu branco

e os enfeites de estrelas

de todas as cores:

Foi Santa Maria

em visita aos pescadores.

Visita da Ilha Vitória

 Um ilhéu foi tratar

de negócios com meu avô,

que o convidou para almoçar

para recuperar as forças

após quatro horas de remo.

Minha avó serviu o almoço

acompanhado de salada

colhida direto da horta.

- Não sou cabrito

para comer mato,

respondeu o ilhéu no ato.

Minha avó ficou pasmada

com a desfeita

só depois deu muita risada.

Visitação

 


Sem cais para aportar,

sem carro para transportar,

sem hotel para hospedar,

sem comércio para comerciar,

sem sinos para anunciar,

sem incrédulos para duvidar,

sem sábios para explicar,

Santa Maria veio visitar

no Sertão da Quina,

os caiçaras, filhos seus.

Quem haverá de saber

os mistérios do bom Deus?

Visão de criança (ou de poeta)

 

Debaixo das árvores

e entre as sombras da tarde

parece que vi caminhar

o último mastodonte

no alto do monte.

Visão de criança

 

A observação dos detalhes da natureza

pelas crianças é um especial dom .

Por exemplo, esse relâmpago verde-azulado

que passou diante dos olhos,

na opinião do menino Victor,

foi mais um colibri

querendo quebrar a barreira do som.

Fotografia antiga


Retrato antigo

de delicadezas passadas:

no caminho da escola,

irmãos de mãos dadas. 

 

Vila caiçara


Do céu dá pra ver

os caminhos dos caiçaras

que ligam a praia e o morro

às clareiras das casinhas

construídas entre

as bananeiras e cafeeiros.

Em cada casa ergue-se

um fio de fumaça

de fogão a lenha

tresandando a café

com peixe assado.

As pessoas andam para a praia,

caminham para o morro,

com remos e samburás,

com enxadas e jacás.

E trabalham no mar e na roça,

enquanto o Sol abençoar,

porque depois das 11 horas,

todos têm ciência disso,

o Sol começa a castigar

Vigias da natureza

 


Pássaros escandalosos

e fofoqueiros sem tirar nem pôr:

araponga, maritaca

e martim-pescador. 

Vida de artista

 


No teatrinho da escola

foi montada a festa dos bichos

e teve papel pra todo mundo.

Mas, para o menino mais arteiro,

sobrou só o de burro.

E todo mundo achou graça

ao ver aquele peralta

vestir a pele de asno

com orelhas de abano.

E a peça acontecendo

e os bichos se esmerando,

uma onça muito imponente,

a anta desastrada,

o tatu muito elegante,

uma vaca malhada

e ,contagiado pela alegria,

o burro se pôs a zurrar,

e a gente ria, ria, ria.

Vestes do espírito

 

O chupim, o anu, o urubu

todos se vestem a rigor

em pretos paletós.

O tangará, o colibri, a arara

todos os dias se vestem

como quem vai para a folia.

Eu já fui urubu, hoje sou tangará,

amanhã é uma incógnita

e a que pássaro, então, minh'alma passará?

Veto


Em dia de domingo

deveria ser proibido

filmes com finais tristes,

principalmente ao fim do dia,

quando cessa a chuva

mas as árvores continuam a chorar

lágrimas de melancolia.

 


Versinhos da Terra

 


 

Que seria das árvores

se não fossem os cipós

dando-lhes apoio e companhia

para enfrentar a ventania?

 

Vento noroeste

 Vento noroeste

quem vem do coração do Brasil,

traga notícias

das lonjuras do Planalto Central,[

mesmo que sejam ecos da voz de meu bem

que carinhosamente, mente, mente,

que ainda gosta de mim.

Vento forte

 

Foi o vento forte

que pôs cisco nos olhos,

chocalhou as árvores,

deixou as ondas revoltas,

desnorteou pássaros e borboletas.

E até houve

aquela que partiu para o mar

para nunca mais voltar.

Tormenta de ventos

 

Naquele dia do ano de 1963,

Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar

e aconselhou os companheiros a se aquietarem,

com receio da alvorada avermelhada demais.

E alguns já murmuravam

contra a caduquice do velho pescador,

quando começou 

o tormento das árvores nas garras dos ventos,

o morticíniodas aves nos ninhos,

o destelhamento dos tetos,

o desespero de quem estava em mar aberto,

a despeito dos sinais da natureza.

Naquele dia morreram muitos,

ninguém da Fortaleza.