Dona Eugênia dos Santos,
do café com garapa,
da farinha no pirão,
do tutu de feijão,
da paçoca no pilão,
disse, com muita propriedade,
que a pressa é inimiga da refeição.
Dona Eugênia dos Santos,
do café com garapa,
da farinha no pirão,
do tutu de feijão,
da paçoca no pilão,
disse, com muita propriedade,
que a pressa é inimiga da refeição.
Vovó Eugênia nasceu e sempre viveu
na Praia da Fortaleza,
mas seu jardim tinha
cananga do Japão,
jasmim das Arábias,
flamboião da África,
buganvília de além-mar,
hibisco do Havaí,
flores do Bornéu,
rosas do céu,
e mais dama da noite e gardênia.
Que navegantes do tempo,
que viajantes das distâncias,
trouxeram o mundo
para o jardim de Vovó Eugênia?
Minha avó Martinha,
sábia sem nenhum
estudo,
era parteira e
benzedeira
que conhecia todas as
ervas
e orações contra as
doenças.
Só não conseguiu
remédio
para o novo tempo
que separou toda sua
família
pelos sertões e outros
municípios.
Minha avó,
caiçaramente,
enfrentava os perigos
das rodovias
e da vida
como se ainda fosse
dona
de tudo o que tem na
terra que lhe pertencera:
- Cuidado com o carro,
vovó!
- Ele se quiser que
pare, cheguei aqui primeiro!
Desejo
que os prolegômenos de sua vida
seja como a alvorada
da praia em que nasci:
o negro torna-se gris,
o gris vira azulado
pintalgado com os pincéis
do amarelo e dourado,
as cores despertam no céu,
o mistério e a escuridão
mergulham nas profundezas do mar
e após essa cerimônia real
ergue-se o sol
do berço oriental.
Desejo, ainda,
que no momento de fenecer,
E teve um anjinho
que veio brincar na terra
depois do almoço,
se divertiu no quintal
da casa do meu avô,
debaixo da laranjeira,
até que se cansou
e acabou a brincadeira.
Em um dia, no ano de 1915,
no Sertão da Quina,
o céu esteve azul,
as nuvens brancas,
o sanhaço azul,
as casas brancas,
as janelas e portas
azuis,
as garças brancas,
o manto de celeste
azul,
o véu branco
e os enfeites de
estrelas
de todas as cores:
Foi Santa Maria
em visita aos
pescadores.
Um ilhéu foi tratar
de negócios com meu avô,
que o convidou para almoçar
para recuperar as forças
após quatro horas de remo.
Minha avó serviu o almoço
acompanhado de salada
colhida direto da horta.
- Não sou cabrito
para comer mato,
respondeu o ilhéu no ato.
Minha avó ficou pasmada
com a desfeita
só depois deu muita risada.
Sem cais para aportar,
sem carro para
transportar,
sem hotel para
hospedar,
sem comércio para
comerciar,
sem sinos para
anunciar,
sem incrédulos para
duvidar,
sem sábios para
explicar,
Santa Maria veio
visitar
no Sertão da Quina,
os caiçaras, filhos
seus.
Quem haverá de saber
os mistérios do bom
Deus?
Debaixo das árvores
e
entre as sombras da tarde
parece
que vi caminhar
o
último mastodonte
no
alto do monte.
A observação dos detalhes da natureza
pelas crianças é um especial dom .
Por exemplo, esse relâmpago verde-azulado
que passou diante dos olhos,
na opinião do menino Victor,
foi mais um colibri
querendo quebrar a barreira do som.
Do céu dá pra ver
os caminhos dos
caiçaras
que ligam a praia e o
morro
às clareiras das
casinhas
construídas entre
as bananeiras e
cafeeiros.
Em cada casa ergue-se
um fio de fumaça
de fogão a lenha
tresandando a café
com peixe assado.
As pessoas andam para a
praia,
caminham para o morro,
com remos e samburás,
com enxadas e jacás.
E trabalham no mar e na
roça,
enquanto o Sol
abençoar,
porque depois das 11
horas,
todos têm ciência
disso,
o Sol começa a castigar
No teatrinho da escola
foi montada a festa dos bichos
e teve papel pra todo mundo.
Mas, para o menino mais
arteiro,
sobrou só o de burro.
E todo mundo achou graça
ao ver aquele peralta
vestir a pele de asno
com orelhas de abano.
E a peça acontecendo
e os bichos se esmerando,
uma onça muito imponente,
a anta desastrada,
o tatu muito elegante,
uma vaca malhada
e ,contagiado pela alegria,
o burro se pôs a zurrar,
e a gente ria, ria, ria.
O chupim, o anu, o urubu
todos se vestem a rigor
em pretos paletós.
O tangará, o colibri, a arara
todos os dias se vestem
como quem vai para a folia.
Eu já fui urubu, hoje sou tangará,
amanhã é uma incógnita
e a que pássaro, então, minh'alma passará?
Em dia de domingo
deveria ser proibido
filmes com finais tristes,
principalmente ao fim do dia,
quando cessa a chuva
mas as árvores continuam a chorar
lágrimas de melancolia.
Que seria das árvores
se não fossem os cipós
dando-lhes apoio e companhia
para enfrentar a ventania?
Vento noroeste
quem vem do coração do Brasil,
Foi o vento forte
que pôs cisco nos
olhos,
chocalhou as árvores,
deixou as ondas
revoltas,
desnorteou pássaros e
borboletas.
E até houve
aquela que partiu para
o mar
para nunca mais voltar.
Naquele dia do ano de 1963,
Almiro Mesquita não pôs a canoa no mar
e aconselhou os companheiros a se aquietarem,
com receio da alvorada avermelhada demais.
E alguns já murmuravam
contra a caduquice do velho pescador,
quando começou
o tormento das árvores nas garras dos ventos,
o morticíniodas aves nos ninhos,
o destelhamento dos tetos,
o desespero de quem estava em mar aberto,
a despeito dos sinais da natureza.
Naquele dia morreram muitos,
ninguém da Fortaleza.