sexta-feira, 13 de maio de 2022
Farol no nevoeiro
terça-feira, 10 de maio de 2022
Descompasso cordial
- Tio Maneco Almiro, rabequista popular,
qual é o instrumento mais difícil de afinar?
- Ora, é o ribombar do tambor
que bate no peito
de quem está perdido de amor!
sexta-feira, 29 de abril de 2022
Mendicância
Sou dono do ouro,
escorrem pratas entre meus dedos,
o que você trouxe para mim?
Os horizontes são meus,
tenho o destino de muitos em minhas mãos,
o que você tem para mim?
Batalhões estão às minhas ordens,
tenho mil olhos em todo instante,
o que você reserva para mim?
Joelhos dobram-se quando eu passo,
as vozes se calam quando eu falo,
você trouxe uma esperança para mim?
Poema da dúvida sideral
Este que vos escreve não sabe de nada,
só matuta no universo de 14 bilhões de anos old, e entrevê
o que as lentes do telescópio espacial Hubble permitem ver -
formações estelares a 13 bilhões de anos-luz de distância,
e ri baixinho enquanto vai girando no carrossel da Via-Láctea:
na cabeça dos cientistas falta um parafuso,
como viemos parar tão longe
se a velocidade da luz é impossível?
domingo, 24 de abril de 2022
Das riquezas
Meu avós não eram pobres,
na verdade tinham a riqueza
de uma casa caiçara no meio do bananal,
com um riacho de águas cantantes
e mais um rancho com canoas e redes de pescar.
Pobre sou eu que tenho, tão somente,
um baú de saudades para ostentar.
sexta-feira, 22 de abril de 2022
Pescador caiçara
Bagres dos fundos arenosos,
garoupa das pedras,
olhetes de meia-água,
paratis do lagamar...
Onde havia peixe, Tio Chico Félix ia buscar.
domingo, 17 de abril de 2022
Sugestões para o reformador do mundo
Citadino quer morar na roça;
roceiro quer ser urbano;
eu quero ser construtor;
tem gente que nasceu para ser outra coisa,
martim-pescador nasceu para ser pescador.
Antes da alvorada
De um pescador para outro:
- Há quanto vós estais esperando, parceiro?
- Desde quando os passarinhos não cantavam.
E eu que a tudo ouvia, só pensei em milhões de anos distantes
quando os pássaros nem eram entes cantantes.
quarta-feira, 23 de março de 2022
Casa sob as árvores
A casa mais bonita do bairro está escondida
por bananeiras, juçaras e até um pé de cambucá,
maravilhas desta terra em que plantando tudo dá.
Melhorando a paisagem
Um quintal fica bem melhor
se tirar o muro cinzento e morto
e plantar uma cerca viva em seu lugar
com flores, colibris e borboletas
borboleteando no ar.
quinta-feira, 17 de março de 2022
Entre terra e mar
Entre a certeza dos pés bem firmes no chão
entre a vida contida pelo intervalo entre o nascer e o pôr-do-sol
e a necessidade de trocar a noite pelo dia;
entre a paz com a vida e o desafio à sorte;
entre o conhecimento e a ignorância das regras com que é preciso jogar;
entre a terra e o mar; Manuel ficou na roça e Benedito foi pescar.
sexta-feira, 4 de março de 2022
Receita para fazer passarinhos
É preciso alimentar bem os gatos,
plantar flores de todas as cores e de todos os cheiros,
quebrar os concretos dos pátios e os asfaltos das calçadas,
pensar como pássaros, principalmente os colibris,
derrubar os muros mortos, construir cercas vivas
e, por fim, pôr Milton Nascimento de música chamariz.
sábado, 8 de janeiro de 2022
Os donos do mundo
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Desequilíbrio
Antigamente o tempo era dividido direitinho
entre a claridade do dia e a escuridão da noite.
A luz iluminava os seres humanos e seus ofícios,
que, de tanto elucubração,
inventaram archotes, lâmpadas a óleo, lampiões de gás,
luz elétrica e foram avançando
sobre os domínios das sombras,
chegando ao ponto de não restar aos boitatás
senão o refúgio no espaço das lendas.
sábado, 6 de novembro de 2021
No coração das estrelas
Eu aqui vou ouvindo histórias, palavras, músicas
que guardo na memória,
para, quiçá, formar outras histórias.
Se novas histórias não se formarem, não tem problema,
sei marear o barco nos piores ventos,
e sempre dá para construir um novo poema...
No coração das estrelas é que se formam os novos elementos.
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Nos tempos da prática da poesia
terça-feira, 21 de setembro de 2021
Gênese caiçara
Um de meus avós, sem brincadeira,
chegou aqui e conheceu a farinha da terra,
a banana da terra e o canto do canário da terra,
então resolveu esquecer Portugal e suas parcimônias,
rasgou a certidão de nascimento e sem mais cerimônias
tratou de arranjar uma tupinambá,
minha antepassada, Vó Dina,
que ensinou tudo o que a gente sabe,
de remédios da mata às técnicas de pescar.
Parem os psicopatas do desmatamento já!
Eu, meu pensamento e mais o que o vento traz:
idiomas de pássaros,
rios contando sobre as chuvas no alto da serra,
histórias antigas de árvores e bichos
que os avozinhos também já tinham ouvido...
Ninguém fica solitário nas latitudes tropicais,
já os ventos dos desertos falam só a língua
das pedras e areais.








