É de entristecer um quintal sem criação,
sem galinhas a ciscar,
sem, pelos menos, três espécies de roseiras,
sem crianças a reinar,
sem um cachorro viralata sequer...
eu acho a coisa mais triste do mundo
um balanço onde só o vento é quem brinca.
É de entristecer um quintal sem criação,
sem galinhas a ciscar,
sem, pelos menos, três espécies de roseiras,
sem crianças a reinar,
sem um cachorro viralata sequer...
eu acho a coisa mais triste do mundo
um balanço onde só o vento é quem brinca.
Com tantas coisas interessantes
para brincar de vir a ser:
tarzan entre as árvores,
jogador de futebol,
buscador de mães do ouro,
aprendiz de pescador,
dançarino de cirandas...
Eu acabei, olha só,
de gravata e paletó.
Eu não sabia que não sabia, por exemplo,
morar longe do mar,
navegar só nos panos,
brincar de namorar,
pedalar a bicicleta...
então eu fui lá e quebrei a cara.
No meio do caminho tem uma pedra,
mas que pedra, Senhor CDA!,
um obstáculo microscópico,
um vírus, ser incompleto que nem tem DNA,
mas que virou pandemia,
que perturbou a vida,
que puxou o freio da economia:
fecharam os hotéis e pousadas,
nada de festas e carnavais,
nenhuma viagem de avião,
aulas só virtuais
e cancelaram até os abraços nos avós.
Médicos, médicas, enfermeiros e enfermeiras
ministram oxigênio e a esperança da cura;
cientistas procuram soluções,
poetas procuram rimas:
adrenalina, celestina, aglutina, vaticina,
hemoglobina, horizontina, examina,
penicilina, raciocina, reexamina,
serotonina, interdisciplina, nitroglicerina
até chegar, Cristina, ufa!, na descoberta da vacina.
É juntando os fios,
Cada qual com sua função,
Cada fio com sua cor,
Juntos por associação,
Que se constrói uma tapeçaria.
Se houver algum fio rompido,
a obra fica incompleta
e o tecido fica enfraquecido.
Assim é com a vida,
Cujos tecidos são os ecossistemas,
Cujos fios são os seres vivos,
Que convivem em equilíbrio,
Eu vivo, você vive e viva nós,
como acontece nos manguezais
Que só existe na foz
Onde o rio se encontra com o mar,
Onde muitos peixes e outros bichos
Vêm se reproduzir e se alimentar.
Ali a vida tem um equilíbrio tão delicado
Que se um louco cometer o pecado
De poluir, aterrar ou fazer o corte
Das águas, das margens, das plantas,
É uma sentença de morte
Para santos e pecadores,
Para peixes e pescadores.
Mas, por causa do ouro,
Os gananciosos não veem o tesouro
Que é a vida em abundância,
E destroem e matam
Por causa da ganância,
Como aconteceu de sul
Até ao centro de Ubatuba.
Por enquanto só escaparam da morte
os manguezais do norte.
Destruir os ecossistemas passou a ser um jogo,
Mas é um jogo terrível,
Do qual sairemos todos perdedores...
Quem consertará a tapeçaria?
Quem reconstituirá suas cores?