sábado, 28 de dezembro de 2019

Os nomes do povo



São nomes de santos
João, Antônio, Teresa, Maria...
São nomes de reis
Fernando, Henrique, Isabel, Beatriz...
São nomes de filósofos
Cícero, Alcides, Euclides...
São nomes de germânicos
Rodrigo, Ludovico, Gertrudes...
São nomes de mouros
Omar, Almiro, Fátima, Palmira...
São nomes ibéricos
Manuel, Leonor, Matilde, Diogo...
São nomes indígenas
Moema, Moacir, Iara, Araci...
São nomes estrangeiros e são nomes caiçaras,
são nomes de longe e são nomes daqui.

Pessoas humildes, grandes almas



Além do alto da Serra
onde o Céu está mais perto da Terra
vive João Pobrezinho,
dono de um sítio pequeno,
mas com o Rio Paraibuna nos fundos.
Ele cultiva o próprio feijão,
tem algumas galinhas para cuidar
e o resto do dia ele desperdiça em viver:
conversa com os amigos na praça da vila,
vai na capelinha fazer oração
e visita o covo para retirar os peixes da armadilha,
pega para si um só
e o restante distribui com a vizinhança e diz:
um só me basta, amanhã Deus me dará mais.
Pensem em um homem feliz!

domingo, 22 de dezembro de 2019

Lembranças do mundo caiçara



Minha família toda pescava,
meus avós e meus tios tinham redes e canoas
e viveram da generosidade do mar
até quando existiram manguezais
e os peixes podiam se reproduzir,
até quando os rios eram limpos
e levavam só água doce para temperar os oceanos,
até quando existiam jundus
para moradia da batuíra e do guaruçá,
até quando Nosso Senhor tinha, em cada casa,
oratórios e corações para se aconchegar.




Tempo bom



Céu obscurecido por nuvens pesadas,
ar parado,
pássaros com voos mais curtos,
a praia vazia de pessoas
e a natureza na expectativa
do aviso que logo vem:
um açoite de relâmpago
no alto do morro
e um trovão que desperta o mundo,
que faz correr as mulheres
para tirarem as roupas do varal,
aos adultos faz se abrigarem nas casas
e às crianças... cadê as crianças?
Estão agora no terreiro
fazendo a coreografia da chuva e outras danças.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A paisagem distorcida



Vista pela vidraça fosca
É uma lembrança tosca
Do que acontece lá fora...
E se todo esse firmamento
Com seus milhões de pingentes
for apenas uma pálida imagem
do verdadeiro céu
detrás de enganadoras lentes?

Ovo de indez




Seguindo o exemplo
de Vovó Eugênia que
com suas galinhas
não admitia talvez,
quando percebo
que meus versos
estão aíbos,
por minha vez,
leio e releio
Mário Quintana
e Manuel Bandeira
que são meus ovos de indez.

Outras sabedorias



- Zé Almiro, onde você foi homem?
- Fui à praia, fui ao mar
ver a cor do tempo,
ouvir a voz das ondas,
escutar a arenga das gaivotas
porque um homem precisa ficar informado
das coisas que importam,
amanhã não vou à pescaria.
E tão forte veio a tempestade
que a noite invadiu o dia.

O time da nossa praia



Os jovens jogavam
futebol de praia
no domingo de manhã,
porque de tarde havia missa.
O dia ainda estava claro
e o badalo batia bão balalão,
igualzinho ao sino
de Manuel Bandeira.
E todo mundo se dirigia à igreja
para conversar, se informar,
rezar e cantar,
especialmente para Santa Maria,
Mãe de Deus:
Ave, Ave, Ave Maria ...
Ai de quem não fosse à Missa,
ai de quem se portasse como incréu,
na partida seguinte
perderia a vaga no time e no céu. 

Segredo culinário




Entre o cheiro de coentro,
limão e outros temperos,
preparo um peixe para a família
e peço ajuda pra mulher.
Ela chega de mansinho
e pergunta se beijar o cozinheiro
melhora a receita.
Sim, respondo, é muito eficaz,
vai ficar com gosto de quero mais.

O segredo da farinha de mandioca




Filhos e netos
transportavam,
descascavam,
lavavam,
ralavam,
prensavam
para tirar o veneno
da mandioca brava,
enquanto Vovô forneava,
controlando o calor
e o ponto certo,
para fazer a gostosa
farinha da terra,
farinha do céu.

Os pássaros não morrem




Exceto por maldades como bodocadas e arapucas,
os pássaros não morrem.
Pesquisei no mato,
espiei sob as fruteiras,
questionei o bem-te-vi
e cheguei à conclusão,
após percorrer esse mundéu,
que os pássaros não morrem:
sobem em corpo e alma ao céu.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Para Hélio Rosa de Miranda










Hélio, fazendo jus ao nome,
faz girar à sua volta
um universo de pessoas que fazem  literatura
na teoria ou na prática, na escrita ou na ação.
É um idealista do livro de cada dia  na mesa,
tal qual deve haver o necessário pão.
Quando ele anda sumido, creiam,
é porque perdeu-se nas páginas dos livros,
por isso já foi visto em Cordisburgo,
Pasárgada, Itabira ou Samarcanda.
Por caminharmos juntos um pedaço da estrada,
receba  lá um abraço, Hélio Rosa de Miranda.


sábado, 16 de novembro de 2019

Poemas caiçaras

 
 Meus amigos, minhas amigas, quase 50.000 pessoas visualizaram meu blog de poemas. Confiram, acessem barbatuba.blogspot.com.br, leiam e deixem seus comentários no próprio blog. Reparem que a maioria são de outros países, sendo que 403 são de região desconhecida (será que são aliens?)
 
 
EntradaVisualizações de páginas
Estados Unidos 
28383
Brasil
13980
França
1678
Alemanha
872
Ucrânia
841
Portugal
476
Região desconhecida
403
Polônia
277
Rússia
181
Reino Unido
90

domingo, 10 de novembro de 2019

Vida preciosa




Eu vivi e dou testemunho
que nas praias de Ubatuba
tinham recifes rochosos
com muitos peixes, algas,
corais, crustáceos e moluscos.
Em todas as barras de rios
tinham manguezais
onde entravam tainhas, paratis
e robalos para fazer a procriação.
Era o tempo em que
os caiçaras plantavam na terra
e colhiam no Atlântico
e até nas areias tinha muita vida
com moluscos e caranguejos.
Ah, se eu pudesse prever o futuro,
quando eu morava pertinho do mar,
quebraria o relógio, rasgava o calendário
e faria o tempo parar.

Assim no sertão como no litoral












Foi por causa do trator que lhe tirou o emprego
que o moço do interior desceu a Serra do Mar
e chegou de viagem no fim do dia muito cansado.
À noite espiou o céu estrelado,
o mesmo céu já conhecido do sertão
com o Cruzeiro do Sul
servindo de relógio das estações, fim do verão.
E isso o deixou muito sereno.
No dia seguinte, costume não se perde,
logo cedo o capiau estava,
diante do mar, muito admirado,
vendo, conforme as horas avançavam,
as mesmas estrelas do céu
que começam a chegar,
desfilar e tomar lugar na praia.
E sua serenidade aumentou ainda mais,
no sertão ou litoral, a velha poesia não falha.





sábado, 9 de novembro de 2019

Foto antiga



Casa, quintal, roseiras
e crianças de pés descalços,
em uma foto tão antiga
que nem faço ideia,
acho que bem anterior
à divisão da Pangeia.

Vazios do tempo



Vontade imensa de acordar,
olhar o mundo e ver
mais rostos familiares,
mais pessoas nas capelas,
mais pássaros no céu,
mais peixes no mar,
mais crianças brincando nas ruas,
mais poesias, músicas e epopeias
mais matas e mais bichos
gritando onomatopeias.



segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Evolução?


Meu parente estava lá
quando acabou-se a Era do Gelo
em águas que foram engrossando
em córregos,  riachos, ribeirões, rios
e dilúvio que acabou com o mundo,
a mega fauna do pleistoceno extinguiu-se
e o mais frágil dos seres
ficou jururu no alto dos montes,
esperando a água baixar
para começar a cavar a terra
e inventar a agricultura
ao plantar trigo, arroz, cevada,
junto plantou, por consequência, a primeira cidade,
que fez nascer a desigualdade,
pobreza, riqueza, ralé, realeza.
Meu parente estava lá
vendo os homens ficarem poderosos,
as guerras mais frequentes e cruéis,
sujando os rios Tigre, Eufrates, Nilo
e o Mar, cada vem mais, Vermelho de sangue.
E o morticínio se sucedeu
de um império dominando outro,
para ser derrubado pelo seguinte:
Babilônia, Egito, Pérsia,
Síria, Fenícia, Grécia,
Roma, Arábia, Turquia,
Espanha, Grã-Bretanha, Tio Sam...
E as armas cada vez mais mortais,
bordunas e tacapes, lanças e flechas,
bestas e alabardas, trabucos e catapultas,
carabinas e espingardas, bombardas e canhões,
metralhadoras e fuzis, tanques e aviões,
raios laser e bombas atômicas
made in Rússia, Coreia do Norte, USA...
Meu parente estava lá,
mas pensando em partir para longe, far, far away.










domingo, 3 de novembro de 2019

Festa da tainha



No morro da espia
ficava alguém de boa vista
a olhar o horizonte
à espera dos sinais das tainhas,
que não tinham hora para chegar.
Caiçara nenhum ia trabalhar na roça,
nada de namorar,
todos ficavam de prontidão
à espera do toque do búzio
para lançar a rede ao mar
e começar a labuta
de remar a canoa,
de cercar o peixe,
de puxar os cabos,
de sentir o peso do cardume
de trabalhar e festejar,
na época em que os pescadores,
vizinhos ao paraíso,
viviam na orla do mar.








sábado, 2 de novembro de 2019

Lula Livre!





É minha irmã, é meu irmão
quem abraçou o humilhado,
quem alimentou o faminto,
quem salvou a vida frágil,
quem desdenhou o perigo,
quem enxugou o rosto
de Nosso Senhor Jesus,
quem foi supliciado em defesa
da floresta amazônica,
quem foi mártir por causa da justiça,
quem salvou refugiados das guerras,
quem não se curvou a Herodes
e quem não se deixou intimidar
pelo ditador militar.