sábado, 13 de janeiro de 2018

Mar nosso


 


A casa de meus avós navegava
em um mar de bananeiras,
cuja chaminé
soltava rolos de fumaça
e cheiro de pirão de peixe. 
A casa de meus avós
era uma embarcação
no oceano do bananal,
só percebida pela bandeira
do padroeiro São João
no mastro principal. 

Sofrê









Todas as árvores
da mata atlântica
balançam animadas
com a brisa do mar,
menos o guapuruvu
às margens do Rio Fortaleza,
porque ontem um menino pendurou
em um dos seus galhos,
uma gaiola de alçapão
e capturou uma ilustre visita:
o passarinho corrupião.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Busca











Eu,
que há muito tempo atrás
senti o gosto
da garapa de engenho,
da farinha de mandioca
recém saída do forno,
da jabuticaba colhida na hora,
do café feito no fogão a lenha,
procuro rede de pescar,
casa de farinha,
rancho de canoa,
roça em coivara,
para voltar a ser
cem por cento caiçara. 

Cachoeira do céu




Na casa de meu avô
quem sempre nos deu
a água de beber
é uma cachoeirinha
que brota de uma grota
entre pedras, raízes e caetês,
que alimenta um córrego de guarus,
cobras d'água e pitus.
Uma queda d'água tão bonitinha,
com um rumorejar tão baixinho,
parecendo que foi feita por Deus
quando ainda era menino.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Consulta com o bom Dr. João










Da praia, da mata,
da Serra do Mar,
mudei para São Paulo,
estudei em São Paulo,
adoeci em São Paulo
e fui procurar o doutor.
Seu doutor me examinou
e na receita aviou
que diariamente
bebesse café
feito no fogão a lenha,
acompanhado de inhame
cará ou mandioca-doce,
que às refeições
tivesse escaldado
de peixe ou de galinha,
e de sobremesa
jabuticaba, goiaba, pitanga,
cambucá, cambuci, araçá,
ou fruta-do-conde.
Bom moço, obedeci,
e desde aquela época
nunca mais adoeci.

Caso de urutau



É preciso muito sentido
para não ser enganado
pelo bicho urutau
que em um instante é pássaro,
noutro é pedaço de pau.

Céu furado








Esse céu todo esburacado
deixando vazar luz
é obra do caçador Órion
depois que passou a usar
espingarda cartucheira
que espalha chumbo
por todo o universo.
Para confirmar, vide o verso.

Categoria luxo



As vaidosas senhoras
da mata atlântica
sacodem seus ornamentos
(bromélias e orquídeas)
na passarela dos ventos.

Cavalo-marinho




Nos espaços marinhos
galopam os hipocampos
por montes e vales
por florestas e campos
entre os cardumes de peixes
em elegante cavalgar.
Bendita seja a delicadeza de Deus
que criou o cavalinho-do-mar.

Ciclone extratropical sul



Tormenta de ventos,
mares enfurecidos,
raios e trovoadas em vão.
Nenhuma instituição no chão

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sinais de trânsito insano

Cruzes,
quanta cruz
na rodovia Osvaldo Cruz!

Cruz


Quem vive de pescar
conhece a inconstância do mar
e suas súbitas mudanças
desde as ressacas mal comportadas
até relatos e marcas de antigos maremotos.
É por isso que plantou-se cruzeiros
em Ubatuba e restante do litoral
na antiga Terra da Santa Cruz.
Convém deixá-los lá.

Criança tem cada uma




- Menino, de quem você  gosta mais,
da mamãe ou do papai?
- Eu gosto mais é de sorvete! 

sábado, 6 de janeiro de 2018

A ciência de comprar peixe




Quem compra sargo, olhete, xaréu
ou, até mesmo sardinha,
tem que ser experiente
na gastronomia e na filosofia do litoral,
pois não se compra só o peixe,
se compra as memórias
de gostos e sabores do mar.
Uma mistura de coentro,
cheiro-verde, um toque de pimenta,
o cheiro do limão-cravo
e a lembrança de uma mãezinha
dos tempos antigos, de muitas orações:
- Que esse menino, meu Deus,
não perca o pé do fundo do mar do mundo!








sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando os poetas vão à guerra



Soube de uma história que aconteceu na 2ª guerra
em uma estação meteorológica
cujo único contato diário com o mundo era através do rádio
e de um avião inimigo que chegava,
metralhava as pedras, decerto que só para constar no relatório,
depois fazia um novo sobrevoo para assegurar
que estava tudo bem, balançava as asas
e voltava para seu aeródromo.
Mas teve um dia que as balas
arrancaram estilhaços de rochas
que machucaram o cachorrinho mascote da base.
O piloto alemão ficou um tanto aflito,
mas da terra foram feitos sinais
que o bichinho estava bem.
O piloto balançou as asas e depois deixou
cair um objeto branco,  que deixou, por um momento,
as pessoas de terra assustadas. 
Mas era só seu estojo de primeiros socorros.

P.J. Reader's Digest nov/68

Beijinho de mãe


Eu vi um menino que caiu,
fez cara de choro
e a mãe o levantou,
fez um carinho e o beijou.
Alguma coisa curou nele,
alguma coisa curou em mim.

Dia sem ventos




Ah, uma rede de capturar borboletas...
Peixes nadam nas nuvens
quando o lago está um espelho.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Ciências caiçaras











Minha família era toda do mar
mesmo quem chegou mais tarde
vindo de Portugal, ou da África,
teve que ser batizado nas águas salgadas,
ter intimidades com as ondas,
aprender a lida da pesca,
conhecer os peixes e
saber os nomes deles todos,
aprender a ciência dos ventos,
deixá-los despentear os cabelos
e sussurrar nos ouvidos
a previsão da meteorologia:
amanhã promete ser um bom dia.








Uma casa de mil portas












A vida começa com muitas portas
e à medida que uma passagem é escolhida
outras se fecham para sempre,
as possibilidades se afunilam
quando se faz opções de cursos,
estado civil, ideologia,
profissão, artes e pessoas para amar,
até que no fim todas as portas se fecham
e abre-se uma janela
para quem aprendeu a voar.




Raízes



A casa de meus avós na Praia da Fortaleza
era muito antiga,
construída pelos meus antepassados
com alicerces de pedras,
colunas de tijolos,
revestidas de estuque,
com ripas de jiçara
e telhas feitas nas coxas.
Eu recebia carinhos e bênçãos
quando os visitava e,
depois de bem abençoado,
ia até ao mar e completava
meu mergulho no passado.