terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Resistência


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Não é qualquer vento ciclone
Que derruba coqueiro,
Mesmo que a palmeira seja esguia
E alcance as nuvens estratos...
PS:  em dias de cerração
As nuvens descem até ao chão.

O lugar mais bonito do mundo



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A casa de meus avós ainda existe
na região da memória
Com o terreiro de flores, laranjeiras,
Bananeiras e dois coqueiros tão antigos
que cresceram para além das esperanças
de terem os cocos ao alcance

das varas nas mãos das crianças.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Turbilhão

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Nas lonjuras do Atlântico aconteceu uma batalha
tão grande entre mar e vento
que sobrou vagas furiosas
até pra quem navegava de cabotagem
entre portos do mesmo mar
entre braços do mesmo amar
que ainda vai levar muito tempo
para ventania voltar a ser aragem
para as feridas cicatrizarem
e a gente conversar sobre isso
como se tudo fora bobagem.





Movimentos marinhos


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O pior de se envolver com o mar
é o risco de se apaixonar
e esquecer a certeza da terra
e convenções firmes sob os pés.
O melhor de ir para o mar
é criar intimidades e descobrir
que o oceano e a vida são movimentos
de correntes, marés e ventos.
(Na corrente do atlântico-sul
foi-se embora
Francisco Félix, meu parente).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Calendas

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O calendário do caiçara
era diferente do resto do mundo
e os compromissos eram marcados
para a virada da lua,
no sopro da viração,
na florada do ipê,
quando o tempo melhorar,
no mês da enchovas
ou quando madurar a jabuticaba.
É, esse tempo passou...
e a saudade que não acaba?

Ano de 1983

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Tão longe no tempo,
tão perto do coração,
mas coração de estudante,
me desculpe o auê,
me dê motivo,
anjo,
pena que os sonhos não voltam atrás.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Domingo,29/11/15.

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Esse rabo-de-galo
essas músicas do programa Sr Brasil
estão me deixando saudosista em demasia
que nem me arrisco a pegar da caneta
pra começar uma nova poesia.

Prestidigitação

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As prestidigitações da tecelã
ao interligar fios, cores, sombras, ideias
para construir uma nova pangeia
são mais rápidas do que os olhos meus
e a mulher sorri e diz:
“Estou brincando de Deus.”

Aquarela


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É preciso fazer uma aguada de azul celeste
sem esquecer de deixar máscaras
para insinuar nuvens na tela
(sabemos que há anjos entre elas),
nuances de ouro na linha do horizonte
para contrastar com o verde-ciano
e um rebanho de ondas-carneirinhos
a povoar os campos do oceano,
por fim, pinceladas de azul-caiçara
mostram meu avô na canoa que foi buscar
o perfeito equilíbrio entre céu e mar.

sábado, 28 de novembro de 2015

Goteira sobre o poema


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As mensagens de despedidas
eram mais tristes antigamente
quando eram escritas em papel
com borrões de fácil interpretação
para quem sabia ler  nas entrelinhas:
lágrimas põem demasiados pingos nos is.

Ciência no poema



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Então, né, lembranças do que passou
e, às vezes, do que viria a ser, se condensam,
toldam os olhos e nublam o espírito.
Após a condensação atingir o ponto de saturação dos sentimentos,
ocorre a precipitação pelas glândulas lacrimais
e o choro desce aos borbotões ou discretamente,
conforme o estado geral do ser: corpo, alma e mente.

Caso verídico


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Tio Antônio tinha uma roça
que produzia milho, mandioca, feijão,
para a família, pássarinho e ladrão.
– Não vai dar parte na polícia, Antônio?
– Mas por que? Se estão tirando de mim,
que sou tão pobre, devem estar com mais fome do que eu.
Pronto, a poesia está feita e agora está na hora
de levantar a bunda da cadeira
e ver a poesia acontecendo na igreja,
na solidariedade, nas ruas e praças da Terra:
na Síria e no Brasil têm refugiados,
de antigas e novas guerras.

Cena marinha



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O pescador sondou o céu e um anjinho piscou pra ele:
era hora de virar a última dose de cachaça,
Dom Orleans de Bragança,
aproveitar o vento a favor e levantar o pano
para ver o que tem no outro lado do mundo.

Regras a cumprir


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Quem vive com o mar sabe
que ao soprar a viração
é preciso recolher a rede, içar a vela,
erguer a âncora e retornar pra casa.
Mesmo que o pescador esteja bêbado,
ou o  poeta um tanto ébrio,
o barco e o poema chegam ao porto
porque o vento está sempre sóbrio.

Terra caiçara

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Minha vontade, mesmo,
é um dia dormir na praia do Município de Ubatuba
e acordar na Vila Nova da Exaltação
da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba,
com todos os mangues intactos,
as praias enfeitadas de jundu
e o ubatubense voltando a ser caiçara.
E, quem sabe, assim vai acabar
a tristeza que enfeia meu poema.

Janela para o horizonte


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O mundo não é só o que existe:
gente, bicho, casa, mar, serra…
Tem também o que não existe:
sereia, boitatá, sombras…
Todo pescador sabe, por exemplo,
que tem o boitatá que corre sobre o mar
e ilumina a noite igual tatá, o fogo;
que há vultos tímidos que se escondem
nos desvãos dos mistérios;
que tem gente que sonha com santos
e tem gente que vê anjos.
Tenho dó daqueles que não tem uma casa
igual morada caiçara,
que é exatamente do tipo
que tem janelas adequadas
para espiar o outro lado da realidade.

São Sumé

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Á água do mar vem dos rios,
água dos rios vem da chuva
e a chuva vem do mar.
Até São Sumé de Ubatuba
veio caminhando sobre o mar
trazendo a ciência de fazer farinha de mandioca,
que ensinou ao meu parente tupinambá.
E só, pois que peixe bom e coentro para fazer pirão
já tinha neste lado do paraíso.

Só podia dar nisso

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Bem que mamãe sempre dizia
pra gente se contentar
com as praias de nossa baía
e havendo vontade de ir mais além
que conhecêssemos as bordas do oceano,
mas que nunca fôssemos nos aventurar
no lado de lá das montanhas,
pois que somos povo do mar
e não estamos acostumados
aos ritmos de quem precisa
se tornar áspero como o sertão
pra tirar o sustento do chão.

Blues poems



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Billie Holiday:
“Quando nasci,
eu, mamãe e papai éramos crianças.”

No way

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Os acertos são variados
cada qual com sua peculiaridade,
já os erros são sempre os mesmos,
escritos ou vividos,
nas Ilhas Marianas,
no outro lado da lua,
no quintal do vizinho
motivos de tantos desalinhos
de roupas, cabelos e destinos.