sábado, 15 de agosto de 2026

Depois da tempestade

 

Vai ter muito iconoclasta por aí

tentando reconstruir

os pedaços das obras quebradas

e das próprias vidas estilhaçadas. 

De Benedito para Balbina

 

Ainda me lembro, enfermeira,

quando você perguntou os meus sintomas

e respondi que tinha um abalo no coração.

E que isso acontecia sempre

quando diante dos meus olhos você passava

e que um beijo aliviaria o meu mal.

Você riu, como se fosse normal

um impaciente do coração

quase em estado terminal,

misturar galanteria com taquicardia.

Debalde


Um morador da Ilha Vitória

remou quase quatro horas

para comprar a rede

de José Almiro, meu avô.

Mas não houve negócio,

não houve história,

ficou para o almoço

e só recusou a salada

dizendo que não era cabrito

pra comer mato.

Despediu-se

e antes de embarcar de volta,

comentou que tinha vindo debalde.

Só o que conseguiu com a viagem

foi deixar Eliazinho admirado

por, de balde, ter o mar atravessado.

Danças do vento sul


Esse vento sul

que traz de terra estrangeira

uma dança agitada,

uma estranha maneira

pra nossa terra aquietada

e põe toda a mata pra dançar,

que chega em hora imprópria

e começa a bulir e inquietar

as árvores,

as aves,

os bichos todos

e os homens

que saíram pra pescar.

É bolero?

Fandango?

Tirana de espantar?

Da primavera

  

São as andorinhas,

tão frágeis, tão pequeninas,

que levam e trazem a primavera

de um para outro hemisfério.

Quem puder que resolva este mistério.

Ciosa (lírio do brejo)

 

Cheiro bom 
de capim melado, 
de chão molhado, 
de picumã, 
de tarumã, 
de flor de jasmim, 
da moça que passou por mim, 
e, raro privilégio, 
que cheiro bom 
tem o lírio do brejo. 

Cruz do Pontal


Quem vive de pescar
conhece a inconstância do mar
e suas súbitas mudanças,
desde as ressacas malcomportadas
até relatos e marcas de antigos maremotos.
É por isso que se plantou cruzeiros
em Ubatuba e restante do litoral
na antiga Terra da Santa Cruz.
Convém deixá-los lá.

Aconteceu com Tio Antônio

  

A gripe espanhola

desembarcou no porto de Ubatuba no ano de 1918

e matou meus bisavós,

Francisco Félix e Ana Maria Amorim

e deixou órfãos meu avô e seu irmão,

ai deles, ai de mim.

Vinte e cinco anos depois de morta,

minha bisavó, com seus olhos azuis do céu,

apareceu a Antonio Félix, seu neto e meu tio

e pediu uma novena que, tão logo foi rezada,

ao som da trombeta do Serafim,

deu entrada no céu, Ana Maria Amorim.

Casa finada

 

Sei da história

de uma casa que morreu,

mas não de repente.

Primeiro as crianças cresceram

e foram para longe,

depois os adultos envelheceram,

ficaram sem companhia

e acabaram vitimados

pela doença da tristeza.

E assim, diante de um mar de solidão,

findou-se uma casa

no canto da Praia do Boqueirão.

O que era doce jabuticabou-se

 

No quintal de meus avós

eu vi árvore balançar

em dia sem ventos

e ouvi festa barulhenta

entre seus galhos,

sem nenhuma maritaca

que pudesse justificar

tamanha algazarra.

Porém, tudo que existe

um dia se acaba

e um dia uma ventania

derrubou o pé de jabuticaba.

Cosmovisão

 

Conforme nossa ciência,

o universo todo inteiro

é um enorme balão.

que se move na escuridão.

Se move no vazio

e em um breu para angustiar,

se nos conduzíssemos pelos egos

e não reconhecêssemos

que ainda somos cegos.

Cosmogonia

 

Na Terra de Santa Cruz

não tinha fruta-do-conde

até que um conde

a trouxe do sudeste da Ásia,

que brotou, cresceu,

frutificou e espalhou

frutos por toda a Terra,

tal qual a semente dos Cosmos

que, no devido tempo,

espalhou esporos de estrelas

por todo o universo

(Que é único ou são diversos?)

Só sei que nada sei,

então fico aqui a fazer versos.

Consertada


Nas festas juninas de antigamente
os homens tomavam quentão
ou cachaça em grandes talagadas.
Para as mulheres sobrava chá quente -
ou pelo menos assim pensavam os marmanjos -
sem saber que a bebida estava consertada
com um boa dose de aguardente.

Ingredientes: 5 litros de água, 1 litro de pinga, 1 kg de açúcar, 1 pacote de canela, 1 pacote de cravo, casca de 6 laranjas (preferência curtida) e capim cidrão.

Preparo: Pôr no fogo o açúcar, a canela, o cravo, o capim e as cascas. Mexer até dourar. Em seguida, colocar a água e deixar ferver até reduzir a mais ou menos 3 litros. Colocar a pinga e deixar ferver mais um pouco.

Conto de fadas


Igual ao peixe

que viaja pelo mundo

e sempre há de retornar

ao lugar onde nasceu,

também resolvi voltar

para a Praia da Fortaleza, de Ubatuba,

para a casa de meus avós,

aos braços da primeira namorada...

Mas cheguei tarde demais,

meus avós faleceram,

a velha casa está derruída

e quem despertou a bela adormecida? 

Um certo Manuel

 

Mané Bento, dos pecados miúdos:

uma cachacinha,

uma mentirinha,

uma preguicinha...

resolveu ser mais devoto

depois da revelação

que o manjar dos céus

é o pirão de garoupa,

e o néctar dos santos

é o café de garapa. 

Jogo do Santos

 

De todas as casas saía o zumbido das ondas hertzianas,

todos os rádios estavam sintonizados no jogo do Santos F.C.,

trazendo a emoção das jogadas de Nilton Santos, Pepe, Pelé

e toma drible entre as canetas - entre as pernas -

e bola balançando a rede.

A missa seria adiada porque até o padre,

torcia pelo time santista

e cada gol era acompanhado pelo badalar do sino da igreja,

era pecado capital ignorar a peleja.

Até quando?

 

O nu pior que tudo

é o vazio do morro desnudo;

a ferida mais feia

é a chaga que restou

de uma antiga cachoeira;

o silêncio mais alto

é aquele que ecoa

das águas silenciadas.

Chuva no bananal

 



José Almiro, meu avô,
almoçou um bom pirão
da garoupa que pescou,
tomou um golpe de garapa
do canavial que plantou,
estirou-se na esteira de taboa
que com suas mãos fabricou,
e, ao sonífero som da chuva,
uma graça que Deus nesse dia concedeu,
afinal adormeceu.

Chuva de verão

 

O vento leste é ladino,

chega de mansinho

com modos de brisa

e vai grimpando a Serra,

acumulando cúmulos,

sobrecarregando a atmosfera,

até o primeiro relâmpago

despertar a trovoada

e fazer o céu vir abaixo

em forma de enxurrada,

que faz o córrego virar torrente,

a torrente virar ribeirão,

o ribeirão ficar valente

e estourar a barra do rio

junto à casa de Tio Clemente.

Tuim

 

Olha lá o passarinho tuim,

não tem patrão,

não tem escola,

quando tem vontade namora,

quando tem fome

serve-se na mesa de Deus.

Olha lá o pássaro tuim,

parece que tá rindo de mim.