Vai ter muito iconoclasta por aí
tentando reconstruir
os pedaços das obras quebradas
e das próprias vidas
estilhaçadas.
Vai ter muito iconoclasta por aí
tentando reconstruir
os pedaços das obras quebradas
e das próprias vidas
estilhaçadas.
Ainda me lembro, enfermeira,
quando você perguntou os meus sintomas
e respondi que tinha um abalo no coração.
E que isso acontecia sempre
quando diante dos meus olhos você passava
e que um beijo aliviaria o meu
mal.
Você riu, como se fosse normal
um impaciente do coração
quase em estado terminal,
misturar galanteria com
taquicardia.
Um morador da Ilha Vitória
remou quase quatro horas
para comprar a rede
de José Almiro, meu avô.
Mas não houve negócio,
não houve história,
ficou para o almoço
e só recusou a salada
dizendo que não era cabrito
pra comer mato.
Despediu-se
e antes de embarcar de volta,
comentou que tinha vindo
debalde.
Só o que conseguiu com a
viagem
foi deixar Eliazinho admirado
por, de balde, ter o mar
atravessado.
Esse vento sul
que traz de terra estrangeira
uma dança agitada,
uma estranha maneira
pra nossa terra aquietada
e põe toda a mata pra dançar,
que chega em hora imprópria
e começa a bulir e inquietar
as árvores,
as aves,
os bichos todos
e os homens
que saíram pra pescar.
É bolero?
Fandango?
Tirana de espantar?
São as andorinhas,
tão frágeis, tão pequeninas,
que levam e trazem a primavera
de um para outro hemisfério.
Quem puder que resolva este
mistério.
Cheiro bom
de capim melado,
de chão molhado,
de picumã,
de tarumã,
de flor de jasmim,
da moça que passou por mim,
e, raro privilégio,
que cheiro bom
tem o lírio do brejo.
A gripe espanhola
desembarcou no porto de
Ubatuba no ano de 1918
e matou meus bisavós,
Francisco Félix e Ana Maria
Amorim
e deixou órfãos meu avô e seu irmão,
ai deles, ai de mim.
Vinte e cinco anos depois de
morta,
minha bisavó, com seus olhos
azuis do céu,
apareceu a Antonio Félix, seu
neto e meu tio
e pediu uma novena que, tão
logo foi rezada,
ao som da trombeta do Serafim,
deu entrada no céu, Ana Maria
Amorim.
Sei da história
de uma casa que morreu,
mas não de repente.
Primeiro as crianças cresceram
e foram para longe,
depois os adultos
envelheceram,
ficaram sem companhia
e acabaram vitimados
pela doença da tristeza.
E assim, diante de um mar de
solidão,
findou-se uma casa
no canto da Praia do Boqueirão.
No quintal de meus avós
eu vi árvore balançar
em dia sem ventos
e ouvi festa barulhenta
entre seus galhos,
sem nenhuma maritaca
que pudesse justificar
tamanha algazarra.
Porém, tudo que existe
um dia se acaba
e um dia uma ventania
derrubou o pé de jabuticaba.
Conforme nossa ciência,
o universo todo inteiro
é um enorme balão.
que se move na escuridão.
Se move no vazio
e em um breu para angustiar,
se nos conduzíssemos pelos
egos
e não reconhecêssemos
que ainda somos cegos.
Na Terra de Santa Cruz
não tinha fruta-do-conde
até que um conde
a trouxe do sudeste da Ásia,
que brotou, cresceu,
frutificou e espalhou
frutos por toda a Terra,
tal qual a semente dos Cosmos
que, no devido tempo,
espalhou esporos de estrelas
por todo o universo
(Que é único ou são diversos?)
Só sei que nada sei,
então fico aqui a fazer
versos.
Nas festas juninas de
antigamente
os homens tomavam quentão
ou cachaça em grandes talagadas.
Para as mulheres sobrava chá quente -
ou pelo menos assim pensavam os marmanjos -
sem saber que a bebida estava consertada
com um boa dose de aguardente.
Ingredientes: 5 litros de água, 1 litro de pinga, 1 kg de açúcar, 1 pacote de canela, 1 pacote de cravo, casca de 6 laranjas (preferência curtida) e capim cidrão.
Preparo: Pôr no fogo o açúcar, a canela, o cravo, o capim e as cascas. Mexer
até dourar. Em seguida, colocar a água e deixar ferver até reduzir a mais ou
menos 3 litros. Colocar a pinga e deixar ferver mais um pouco.
Igual ao peixe
que viaja pelo mundo
e sempre há de retornar
ao lugar onde nasceu,
também resolvi voltar
para a Praia da Fortaleza, de
Ubatuba,
para a casa de meus avós,
aos braços da primeira
namorada...
Mas cheguei tarde demais,
meus avós faleceram,
a velha casa está derruída
e quem despertou a bela
adormecida?
Mané Bento, dos pecados miúdos:
uma cachacinha,
uma mentirinha,
uma preguicinha...
resolveu ser mais devoto
depois da revelação
que o manjar dos céus
é o pirão de garoupa,
e o néctar dos santos
é o café de garapa.
De todas as casas saía o zumbido das ondas hertzianas,
todos os rádios estavam
sintonizados no jogo do Santos F.C.,
trazendo a emoção das jogadas
de Nilton Santos, Pepe, Pelé
e toma drible entre as canetas
- entre as pernas -
e bola balançando a rede.
A missa seria adiada porque
até o padre,
torcia pelo time santista
e cada gol era acompanhado
pelo badalar do sino da igreja,
era pecado capital ignorar a
peleja.
O nu pior que tudo
é o vazio do morro desnudo;
a ferida mais feia
é a chaga que restou
de uma antiga cachoeira;
o silêncio mais alto
é aquele que ecoa
das águas silenciadas.
José Almiro, meu avô,
almoçou um bom pirão
da garoupa que pescou,
tomou um golpe de garapa
do canavial que plantou,
estirou-se na esteira de taboa
que com suas mãos fabricou,
e, ao sonífero som da chuva,
uma graça que Deus nesse dia concedeu,
afinal adormeceu.
O vento leste é ladino,
chega de mansinho
com modos de brisa
e vai grimpando a Serra,
acumulando cúmulos,
sobrecarregando a atmosfera,
até o primeiro relâmpago
despertar a trovoada
e fazer o céu vir abaixo
em forma de enxurrada,
que faz o córrego virar
torrente,
a torrente virar ribeirão,
o ribeirão ficar valente
e estourar a barra do rio
junto à casa de Tio Clemente.
Olha lá o passarinho tuim,
não tem patrão,
não tem escola,
quando tem vontade namora,
quando tem fome
serve-se na mesa de Deus.
Olha lá o pássaro tuim,
parece que tá rindo de mim.