sábado, 24 de outubro de 2015

Caiu na rede é peixe

namorado
bonito
parati
perna-de-moça.

Aula de história


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Que coisa é o mundo,
D.Pedro, o último,
era pra ser somente o segundo.

Inconveniências

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Batidas em portas e janelas…
não vou atender, que voltem outro dia,
fantasmas cismam em fazer visitas
nos dias de ventania.

Homofonia

Feliz de quem ainda por aí descalço,
pisando em pedras e espinhos gramaticais,
não se importando com os puristas
e nem se vê em complicações
se assiste a um conserto ou um concerto,
se dá um cheque ou um xeque,
se prepara um cesto ou um sexto,
se faz um cozido ou um cosido…
eu mesmo, numa situação destas,
fiquei estático e extático,
quando uma moça contou-me em segredo,
que estava, céus!, com inflamação no nervo asiático.

Extinção

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Ditadura, pobreza, caçadas ilegais,
tanto atraso em algumas regiões d’África,
que o outrora rinoceronte,
hoje é rinocerontem.

Memória


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Quero registrar aqui
os nomes de meus antepassados
cujos domínios se estendiam
desde os esporões da Serrinha da Fortaleza
até ao oceano e adjacências,
incluindo as alvoradas,
o mar e suas candências:
Laurentina e Almiro Mesquita,
Ana e Manoel Almiro,
Maria e Genésio dos Santos,
Eugênia e José Almiro,
todos caiçaras de fé, casos de pescarias
e outras formas de poesias.

Insight

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À sombra de um guarda-sol ou palma
muita gente teve a revelação
que o caiçara sabe desde criancinha:
água do mar é bom pra lavar a alma.

Herança

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O mundo se encontrava
no quintal de meus avós:
o cheiro do limão cravo,
o gosto do cambucá
e as cores da flor do beijo.
O primeiro veio de portugal,
o segundo é tupinambá
e o beijo é iorubá.

Viagem para o outro lado do mundo

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Meu avô cruzava a Baía da Fortaleza até à Praia do Lázaro,
deixava a canoa no jundu
e tomava o ônibus da Viação Atlântico
para ir à Vila de Ubatuba comprar quase nada:
macarrão padre-nosso, manteiga viação,
biscoutos aymoré, queijo do reino,
cartuchos CBC, linhas e anzóis.
O resto era plantado, criado,
caçado ou pescado por nós.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sinais


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Eu estava viajando para longe
e espiando pela janela do ônibus
a imensidão do Brasil rural,
quando vi uma casa bonitinha de capiau
soltando sinais de fumaça pela chaminé,
consultei o dicionário dos índios das pradarias,
que todo mundo precisa ter na bagagem,
e logo dei o sinal de parada,
“arroz, tutu e galinha com quiabo”
é o que dizia a mensagem.

Ulisses


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Eu estava navegando,
obedecendo direitinho às normas,
a todo pano em tempo bom,
respeitando o vento forte,
desviando das sereias,
perseguindo a boa sorte,
seguindo meu caminho…
Mas o oceano é tão grande, meu bem,
e eu estava tão sozinho.




Quem não tem cão, caça com gato.
É um bom ditado
pra quem está sem cachorro no mato.

H2O


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Lixo, esgoto, metais pesados
lixo tóxico corre pro rio,
onde isso vai parar?
o rio corre para o mar…
tem plástico até na barriga da tartaruga…
esta água é doce?
Toda lágrima é de  amargar.

Praia isolada


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Quando nossa praia era isolada,
após o almoço, todo mundo ficava, 
como bons cristãos,
pinchados pelos cantos das casas
ou nas sombras do jundú.
Seus anjos da guarda
também se sentiam no paraíso.

Calmaria

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o vento parou e o mar
parece que foi nivelado com régua de pedreiro,
tudo calmo, tudo bem acomodado
na superfície oceânica.
Mas, nas profundezas do líquido amniótico,
boto caça sardinha,
polvo devora caranguejo,
tubarão engole polvo,
jubarte come camarão
e eu pesco garoupa
pra garantir o pirão.

Cantoria


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O meu nome é Zé Armiro
viajo nos caminhos das águas
ando com o motor do vento
o barco vai na frente
lá atrás vem meu pensamento
o rosto se lava com água
a garganta com cachaça
tá no antigo testamento.
A moça professora me passou o ensinamento
de botar x em peixe, eu prefiro botar coentro.
Que ninguém pesque em funduras
onde a coragem não alcança.
Tem gente que desperdiça a vida
e morre de qualquer coisa,
eu morro de saudades
da filha de Benedito Bento
quem faz um cesto faz um cento
tá no antigo testamento.

Ave de arribação

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De um grupo de aves migratórias
voltando pra casa de verão
algumas desistem da viagem.
Sabe como é, a jornada é longa,
têm tantos perigos no caminho
e é preciso dar um basta
em tanto nomadismo.

domingo, 23 de agosto de 2015

Poesias das pequenas coisas


O menino quebrou um vidro da janela

e uma aranha o consertou
com uma teia bem tecida
ligou os cacos que restaram
e minha casa continuou bem protegida.

Perto do céu


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No último dia dos feriados prolongados
eu ficava no quintal admirando o retorno
de incontáveis empresários, operários,
estudantes, profissionais liberais
e os últimos da fila eram sempre
os arcanjos e anjos da guarda,
muito cansados de tantos salvamentos,
morrendo de vontade
de ficar na praia um pouco mais,
mas, sempre, em ascendente procissão, que beleza.
Eu estava pertinho do céu
quando morei na Serrinha da Fortaleza.

Estatísticas


Resultado de imagem para mar de livros


Em média
o poeta apaga, deleta, rabisca,
nove em dez palavras que escreve;
vai ao dicionário cinco vezes por estrofe;
diz que vai rasgar o caderno,quebrar o lápis,
martelar o computador
até acertar a palavra que buscava;
burila o tema,
pede um beijo e ganha:
acabou o poema.