Na minha infância de caiçara
a refeição malemá enchia
o prato de porcelana
com paisagens de distantes
portos
com navios a vapor
a soltar fiapos de fumos
pelas chaminés.
Enquanto a sopa esfriava
Na minha infância de caiçara
a refeição malemá enchia
o prato de porcelana
com paisagens de distantes
portos
com navios a vapor
a soltar fiapos de fumos
pelas chaminés.
Enquanto a sopa esfriava
Há mais de trinta anos
os cantores da folia do Divino
faziam pouso na casa de Tio
Genésio
para reabastecer a força e a
fé
no escaldado de peixe feito
por Tia Maria.
Até hoje não esqueci o
estribilho da saudação
que a gente parodiava:
- “Quero café com farinha de
milhoooo...
Café com pão! Café com pão!
Café com pão!”
A festa de São João Batista
começa com o repique dos sinos
e o primeiro de muitos
foguetes.
O leiloeiro Tio Maneco Almiro,
tentará impingir toalhas de
mesa,
bolos de fubá, despertador,
produtos de beleza ou ferro de
passar,
dando saltos de adolescente
em corpo de septuagenário.
Dou-lhe uma,
dou-lhe duas e
dou-lhe três...
Um elixir da juventude
aqui para o freguês!
Entre todos os presentes eletrônicos, comestíveis,
de vestir ou de enfeitar,
desejo-lhes um abraço filial, um carinho fraternal,
uma bênção familiar, como havia antigamente
e foram rareando, iguais os presépios e as novenas
oferecidas a Jesus, o aniversariante.
Vaquinha, cabrito, galinha,
jumento, camelo, bezerro,
anjinhos, pastores e reis
magos,
ouvem maravilhados
numa manjedoura de Belém,
a canção de ninar
que Santa Maria canta
para Jesus Cristinho,
que veio para o nosso bem
e tem dores de cólicas,
igual todo neném,
que o carinho de mãe cura,
O amor de Maria,
o carinho de José,
os braços de Simeão,
a dedicação de Pedro,
a conversão de Paulo,
a devoção de Madalena,
são mais fortes
que a raiva de Herodes,
que a traição de Judas,
que a fúria dos soldados,
que tanto o farão sofrer...
Por isso no Natal
o menino Jesus vai nascer.
Quando a gente nasce
recebe uma página em branco
pra escrever e desenhar a
vida.
Quando a gente morre
tem que mostrar pra Deus
tudo o que a gente fez.
E aí vamos perceber
rabiscos de crianças,
desenhos de flores,
corações desenhados,
palavras escolhidas para rimar
entremeando nossas obras.
E é isso que vai nos salvar.
Duas míseras lagartas
comiam couve na minha horta
e discutiam metafísica:
- Tem vida após a morte, dizia uma.
- Não seja idiota, respondia a outra.
Em teimosia típica de lagarta
mastigavam mais um pouco de couve
e voltavam ao mesmo assunto:
- A vida não acaba aqui, dizia uma.
- Guarde seu fôlego pra comer couve, respondia a outra.
Enquanto isso borboletas multicores
pairavam acima de toda essa discussão
e bebiam o néctar das flores.
Antigamente nos ensinavam
Que é preciso proteger a nação
Com paus e pedras,
Com mosquetes e bombardas,
Com bombas e canhões.
Felizmente os tempos mudaram
E todo esse belicismo acabou,
agora defendemos a Pátria
Com chutes e bolas ao gol.
Seu coração tem a simplicidade
de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.
A casa de meu bisavô
feita de pau-a-pique,
com reboco esmerado,
de assoalhos bem lavrados
e de frente para o mar
nunca desabará,
pois tem os alicerces bem firmes
em meu coração de menino.
O armazém do Bananinha,
a mercearia do Maciel,
o bar São Paulo,
a pensão do Maestro,
a casa Souza,
morreram junto com seus donos.
Por isso Tio Antônio
desistiu da cidade
e enfurnou-se no Sertão
e na perenidade
da mata, do rio, do
matacão.
A estrada do tempo
começa no quintal
da casa da gente,
atravessa ruas,
vozes que seduzem,
apelos de aventuras,
segredos para desvendar.
Quando a gente
começa a precatar,
muda o humor do mar,
a ciência da lida
com as coisas da terra
acaba sendo esquecida,
a estrada vira asfalto,
a tranquilidade muda em sobressalto.
De todas as antigas lições
fica apenas a certeza
que é curta esta vida
e a estrada do tempo
só tem viagem de
ida.
Eu sei das minhas
responsabilidades,
que preciso ir à luta,
que tenho uma família pra
sustentar...
Mas, meu bem, ouça a chuva a
tamborilar.
Eu sei que tem trabalho pra
fazer,
que sou assalariado
e o dinheiro é contado...
Mas, meu bem, ouça a chuva no
telhado.
Eu sei que tem contas a pagar,
que há um preço a pagar
pra viver em sociedade...
Mas, meu bem, ouça a chuva que
convida
a retornar à normalidade.
encheu um balaio de
caranguejos
na costeira do Bonete
e no caminho de volta
avistou uma gaiola de alçapão
e resolveu soltar
os passarinhos da prisão.
Em troca deixou guaiá
espumando de espanto
a sete braças do chão.
Quem vê um caiçara fazendo a sesta,
nem imagina que
ele despertou de madrugada,
visitou a rede, trouxe os
peixes e,
após o almoço, descansa
com muita sabedoria
na hora mais nociva do
sol do meio-dia.
Mais tarde irá à roça
fazer uma coivara ou
capinar um eito,
para retornar em tempo de
rezar a Ave-Maria
e dormir com as
galinhas, feliz e satisfeito.
Crianças estão brincando
de saltar ao mar,
de jacaré nas ondas,
de descobrir os segredos
das águas profundas.
Crianças estão brincando
no estuário do rio,
de capturar siri,
de jogar tarrafa,
de pescar parati.
Crianças estão brincando
de remar a canoa,
de embicar a proa
como se fosse adaga
a cortar a vaga.
Crianças estão brincando
de cantar o cântico
da vida que começa
às margens do Atlântico.
Jogo de miriguitos,
captura de cafulas e
tamanqueiras no rio.
feitura de gaiolas de alçapão,
histórias de pescarias,
colheita de café no quintal,
puxada de rede,
brincadeira de barcos de
cortiça,
encantamento de guaiás,
pesca de siri com cruzeta
e preguari no mergulho.
Lições da escola caiçara
que frequentei quando criança
e que ainda guardo na
lembrança.
Houve uma ocasião em que no céu
a trovoada armou um escarcéu,
acompanhado de uma saraivada de chuva grossa
e um corisco matou uma velha,
velha timbuíba, com um tiro de fuzil.
A mais bela árvore desta banda do rio.
Quem sabe o tempo certo
da primavera começar é o sabiá,
que antes da invenção do
calendário
já sabia assobiar.