sábado, 15 de agosto de 2026

Fiapos de memória

  

Na minha infância de caiçara

a refeição malemá enchia

o prato de porcelana

com paisagens de distantes portos

com navios a vapor

a soltar fiapos de fumos

pelas chaminés.

Enquanto a sopa esfriava

eu, distraído, navegava. 
 

Festa na Praia


Há mais de trinta anos

os cantores da folia do Divino

faziam pouso na casa de Tio Genésio

para reabastecer a força e a fé

no escaldado de peixe feito por Tia Maria.

Até hoje não esqueci o estribilho da saudação

que a gente parodiava:

- “Quero café com farinha de milhoooo...

Café com pão! Café com pão! Café com pão!”

Pregoeiro de poesia

 

A festa de São João Batista

começa com o repique dos sinos

e o primeiro de muitos foguetes.

O leiloeiro Tio Maneco Almiro,

tentará impingir toalhas de mesa,

bolos de fubá, despertador,

produtos de beleza ou ferro de passar,

dando saltos de adolescente

em corpo de septuagenário.

Dou-lhe uma,

dou-lhe duas e

dou-lhe três...

Um elixir da juventude

aqui para o freguês!

 

Presente

 

Entre todos os presentes eletrônicos, comestíveis,

de vestir ou de enfeitar,

desejo-lhes um abraço filial, um carinho fraternal,

uma bênção familiar, como havia antigamente

e foram rareando, iguais os presépios e as novenas

oferecidas a Jesus, o aniversariante.

Os anjos digam amém.


Vaquinha, cabrito, galinha,

jumento, camelo, bezerro,

anjinhos, pastores e reis magos,

ouvem maravilhados

numa manjedoura de Belém,

a canção de ninar

que Santa Maria canta

para Jesus Cristinho,

que veio para o nosso bem

e tem dores de cólicas,

igual todo neném,

que o carinho de mãe cura,

os anjos digam amém. 

Uma boa notícia


O amor de Maria,

o carinho de José,

os braços de Simeão,

a dedicação de Pedro,

a conversão de Paulo,

a devoção de Madalena,

são mais fortes

que a raiva de Herodes,

que a traição de Judas,

que a fúria dos soldados,

que tanto o farão sofrer...

Por isso no Natal

o menino Jesus vai nascer.

 

Feliz aniversário, Flavinha

 


Quando a gente nasce

recebe uma página em branco

pra escrever e desenhar a vida.

Quando a gente morre

tem que mostrar pra Deus

tudo o que a gente fez.

E aí vamos perceber

rabiscos de crianças,

desenhos de flores,

corações desenhados,

palavras escolhidas para rimar

entremeando nossas obras.

E é isso que vai nos salvar.

 

Fábula com poesia


Duas míseras lagartas
comiam couve na minha horta
e discutiam metafísica:
- Tem vida após a morte, dizia uma.
- Não seja idiota, respondia a outra.
Em teimosia típica de lagarta
mastigavam mais um pouco de couve
e voltavam ao mesmo assunto:
- A vida não acaba aqui, dizia uma.
- Guarde seu fôlego pra comer couve, respondia a outra.
Enquanto isso borboletas multicores
pairavam acima de toda essa discussão
e bebiam o néctar das flores.

Evolução

 

Antigamente nos ensinavam
Que é preciso proteger a nação
Com paus e pedras,
Com mosquetes e bombardas,
Com bombas e canhões.
Felizmente os tempos mudaram
E todo esse belicismo acabou,
agora defendemos a Pátria
Com chutes e bolas ao gol.

Dona Eugênia, minha avó.

 

Seu coração tem a simplicidade

de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.

Eternidade da lembrança

 


A casa de meu bisavô
feita de pau-a-pique,
com reboco esmerado,
de assoalhos bem lavrados
e de frente para o mar
nunca desabará,
pois tem os alicerces bem firmes 
em meu coração de menino.

Eternidade


O armazém do Bananinha,

a mercearia do Maciel,

o bar São Paulo,

a pensão do Maestro,

a casa Souza,

morreram junto com seus donos.

Por isso Tio Antônio

desistiu da cidade

e enfurnou-se no Sertão

e na perenidade

da mata, do rio, do matacão. 

 

Estrada do tempo


A estrada do tempo

começa no quintal

da casa da gente,

atravessa ruas,

vozes que seduzem,

apelos de aventuras,

segredos para desvendar.

Quando a gente

começa a precatar,

muda o humor do mar,

a ciência da lida

com as coisas da terra

acaba sendo esquecida,

a estrada vira asfalto,

a tranquilidade muda em sobressalto.

De todas as antigas lições

fica apenas a certeza

que é curta esta vida

e a estrada do tempo

só tem viagem de ida. 

Recado da chuva

 

Eu sei das minhas responsabilidades,

que preciso ir à luta,

que tenho uma família pra sustentar...

Mas, meu bem, ouça a chuva a tamborilar.

 

Eu sei que tem trabalho pra fazer,

que sou assalariado

e o dinheiro é contado...

Mas, meu bem, ouça a chuva no telhado.

 

Eu sei que tem contas a pagar,

que há um preço a pagar

pra viver em sociedade...

Mas, meu bem, ouça a chuva que convida

a retornar à normalidade.

Espírito de Menino

 

 Sebastião Almiro dos Santos

encheu um balaio de caranguejos

na costeira do Bonete

e no caminho de volta

avistou uma gaiola de alçapão

e resolveu soltar

os passarinhos da prisão.

Em troca deixou guaiá

espumando de espanto

a sete braças do chão.

 

Estilo caiçara

 

Quem vê um caiçara fazendo a sesta,

nem imagina que ele despertou de madrugada,

visitou a rede, trouxe os peixes e,

após o almoço, descansa com muita sabedoria

na hora mais nociva do sol do meio-dia.

Mais tarde irá à roça

fazer uma coivara ou capinar um eito,

para retornar em tempo de rezar a Ave-Maria

e dormir com as galinhas, feliz e satisfeito.

Escola do mar


Crianças estão brincando

de saltar ao mar,

de jacaré nas ondas,

de descobrir os segredos

das águas profundas.

Crianças estão brincando

no estuário do rio,

de capturar siri,

de jogar tarrafa,

de pescar parati.

Crianças estão brincando

de remar a canoa,

de embicar a proa

como se fosse adaga

a cortar a vaga.

Crianças estão brincando

de cantar o cântico

da vida que começa

às margens do Atlântico.

 

Escola caiçara

 

Jogo de miriguitos,

captura de cafulas e tamanqueiras no rio.

feitura de gaiolas de alçapão,

histórias de pescarias,

colheita de café no quintal,

puxada de rede,

brincadeira de barcos de cortiça,

encantamento de guaiás,

pesca de siri com cruzeta

e preguari no mergulho.

Lições da escola caiçara

que frequentei quando criança

e que ainda guardo na lembrança.

Escarcéu

 


Houve uma ocasião em que no céu
a trovoada armou um escarcéu,
acompanhado de uma saraivada de chuva grossa
e um corisco matou uma velha,
velha timbuíba, com um tiro de fuzil.
A mais bela árvore desta banda do rio.

Outras sabedorias

 

Quem sabe o tempo certo

da primavera começar é o sabiá,

que antes da invenção do calendário

já sabia assobiar.