Seu coração tem a simplicidade
de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.
Seu coração tem a simplicidade
de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.
A casa de meu bisavô
feita de pau-a-pique,
com reboco esmerado,
de assoalhos bem lavrados
e de frente para o mar
nunca desabará,
pois tem os alicerces bem firmes
em meu coração de menino.
O armazém do Bananinha,
a mercearia do Maciel,
o bar São Paulo,
a pensão do Maestro,
a casa Souza,
morreram junto com seus donos.
Por isso Tio Antônio
desistiu da cidade
e enfurnou-se no Sertão
e na perenidade
da mata, do rio, do
matacão.
A estrada do tempo
começa no quintal
da casa da gente,
atravessa ruas,
vozes que seduzem,
apelos de aventuras,
segredos para desvendar.
Quando a gente
começa a precatar,
muda o humor do mar,
a ciência da lida
com as coisas da terra
acaba sendo esquecida,
a estrada vira asfalto,
a tranquilidade muda em sobressalto.
De todas as antigas lições
fica apenas a certeza
que é curta esta vida
e a estrada do tempo
só tem viagem de
ida.
Eu sei das minhas
responsabilidades,
que preciso ir à luta,
que tenho uma família pra
sustentar...
Mas, meu bem, ouça a chuva a
tamborilar.
Eu sei que tem trabalho pra
fazer,
que sou assalariado
e o dinheiro é contado...
Mas, meu bem, ouça a chuva no
telhado.
Eu sei que tem contas a pagar,
que há um preço a pagar
pra viver em sociedade...
Mas, meu bem, ouça a chuva que
convida
a retornar à normalidade.
encheu um balaio de
caranguejos
na costeira do Bonete
e no caminho de volta
avistou uma gaiola de alçapão
e resolveu soltar
os passarinhos da prisão.
Em troca deixou guaiá
espumando de espanto
a sete braças do chão.
Quem vê um caiçara fazendo a sesta,
nem imagina que
ele despertou de madrugada,
visitou a rede, trouxe os
peixes e,
após o almoço, descansa
com muita sabedoria
na hora mais nociva do
sol do meio-dia.
Mais tarde irá à roça
fazer uma coivara ou
capinar um eito,
para retornar em tempo de
rezar a Ave-Maria
e dormir com as
galinhas, feliz e satisfeito.
Crianças estão brincando
de saltar ao mar,
de jacaré nas ondas,
de descobrir os segredos
das águas profundas.
Crianças estão brincando
no estuário do rio,
de capturar siri,
de jogar tarrafa,
de pescar parati.
Crianças estão brincando
de remar a canoa,
de embicar a proa
como se fosse adaga
a cortar a vaga.
Crianças estão brincando
de cantar o cântico
da vida que começa
às margens do Atlântico.
Jogo de miriguitos,
captura de cafulas e
tamanqueiras no rio.
feitura de gaiolas de alçapão,
histórias de pescarias,
colheita de café no quintal,
puxada de rede,
brincadeira de barcos de
cortiça,
encantamento de guaiás,
pesca de siri com cruzeta
e preguari no mergulho.
Lições da escola caiçara
que frequentei quando criança
e que ainda guardo na
lembrança.
Houve uma ocasião em que no céu
a trovoada armou um escarcéu,
acompanhado de uma saraivada de chuva grossa
e um corisco matou uma velha,
velha timbuíba, com um tiro de fuzil.
A mais bela árvore desta banda do rio.
Quem sabe o tempo certo
da primavera começar é o sabiá,
que antes da invenção do
calendário
já sabia assobiar.
Joaquim emprestou
os sete lenços
do pássaro saíra,
a voz do sabiá
e os modos do tangará,
só pra pedir em casório
Rosa, a mais bela moça do
lugar.
Conforme se avizinhava
da casa da amada,
o pássaro emplumado
foi ficando envergonhado
e chegou ao destino
vestido de tico-tico,
cantando de corruíra,
em passos de saracura.
Mesmo assim Rosa aceitou
a desenxabida criatura,
Suçuarana, irara, ariranha,
araçari, araponga, ararinha,
sagui, curiango, urutau,
saracura, jaó, macuco,
caiçara, caipira, capiau.
Encontro Deus nas notícias
de crianças salvas por milagre
de acidentes, de abandonos,
das águas e do frio
de desumanos corações.
A chuva fraca que cai
sobre as folhas das bananeiras
convida-me a ficar deitado
nesta tarde de sábado
e, com proveito, passar o dia
fomentando a nostalgia.
Com toda a humildade,
o desconhecido Elias
ficará para a posteridade,
pois ele é um homem grande
com coração de menino;
é homem de pouca fala
e toda sua eloquência
está nas cordas do cavaquinho,
que em dia bom soa com alegria
e só plange o chorinho
quando ataca a nostalgia.
Eu vi no meio da estrada,
com a bandeira desfraldada,
amode que pedindo trégua,
um bicho-tamanduá.
Quase fui abraçá-lo,
por saber que ainda tem
tamanduá
dando bandeira por aí,
na Serra do Mar.
Toda criança devia ter direito
a um rio com cachoeira,
a um quintal com árvore fruteira,
a um pedaço de capoeira,
ou ilha ancestral,
mesmo que seja a casa do avô,
isolada pelo bananal.
Toda vida é caminho,
toda pessoa é
viajante,
todo bem
material é ônus
que pesa nos
ombros,
todo amor é
bônus
que alivia a
caminhada.
E ao fim da
estrada
muitos desejariam
ter tido por companheiro,
o mais humildes
dos egípcios:
São Simão
sapateiro.
Nas nuvens, nas chuvas,
no orvalho, no mar,
nos rios, nas minas d’água,
nos coquinhos brejaúva,
no sumo do abacaxi,
na garapa da cana,
entre as folhas do caraguatá...
água nunca foi problema
nos domínios tupinambá.