sábado, 15 de agosto de 2026

Dona Eugênia, minha avó.

 

Seu coração tem a simplicidade

de uma casa caiçara,
com fogão a lenha,
com florzinhas no quintal,
com rádio de válvulas,
com oratório de santos
e anjos de Deus.
Seu coração tem a riqueza
de uma casa caiçara.

Eternidade da lembrança

 


A casa de meu bisavô
feita de pau-a-pique,
com reboco esmerado,
de assoalhos bem lavrados
e de frente para o mar
nunca desabará,
pois tem os alicerces bem firmes 
em meu coração de menino.

Eternidade


O armazém do Bananinha,

a mercearia do Maciel,

o bar São Paulo,

a pensão do Maestro,

a casa Souza,

morreram junto com seus donos.

Por isso Tio Antônio

desistiu da cidade

e enfurnou-se no Sertão

e na perenidade

da mata, do rio, do matacão. 

 

Estrada do tempo


A estrada do tempo

começa no quintal

da casa da gente,

atravessa ruas,

vozes que seduzem,

apelos de aventuras,

segredos para desvendar.

Quando a gente

começa a precatar,

muda o humor do mar,

a ciência da lida

com as coisas da terra

acaba sendo esquecida,

a estrada vira asfalto,

a tranquilidade muda em sobressalto.

De todas as antigas lições

fica apenas a certeza

que é curta esta vida

e a estrada do tempo

só tem viagem de ida. 

Recado da chuva

 

Eu sei das minhas responsabilidades,

que preciso ir à luta,

que tenho uma família pra sustentar...

Mas, meu bem, ouça a chuva a tamborilar.

 

Eu sei que tem trabalho pra fazer,

que sou assalariado

e o dinheiro é contado...

Mas, meu bem, ouça a chuva no telhado.

 

Eu sei que tem contas a pagar,

que há um preço a pagar

pra viver em sociedade...

Mas, meu bem, ouça a chuva que convida

a retornar à normalidade.

Espírito de Menino

 

 Sebastião Almiro dos Santos

encheu um balaio de caranguejos

na costeira do Bonete

e no caminho de volta

avistou uma gaiola de alçapão

e resolveu soltar

os passarinhos da prisão.

Em troca deixou guaiá

espumando de espanto

a sete braças do chão.

 

Estilo caiçara

 

Quem vê um caiçara fazendo a sesta,

nem imagina que ele despertou de madrugada,

visitou a rede, trouxe os peixes e,

após o almoço, descansa com muita sabedoria

na hora mais nociva do sol do meio-dia.

Mais tarde irá à roça

fazer uma coivara ou capinar um eito,

para retornar em tempo de rezar a Ave-Maria

e dormir com as galinhas, feliz e satisfeito.

Escola do mar


Crianças estão brincando

de saltar ao mar,

de jacaré nas ondas,

de descobrir os segredos

das águas profundas.

Crianças estão brincando

no estuário do rio,

de capturar siri,

de jogar tarrafa,

de pescar parati.

Crianças estão brincando

de remar a canoa,

de embicar a proa

como se fosse adaga

a cortar a vaga.

Crianças estão brincando

de cantar o cântico

da vida que começa

às margens do Atlântico.

 

Escola caiçara

 

Jogo de miriguitos,

captura de cafulas e tamanqueiras no rio.

feitura de gaiolas de alçapão,

histórias de pescarias,

colheita de café no quintal,

puxada de rede,

brincadeira de barcos de cortiça,

encantamento de guaiás,

pesca de siri com cruzeta

e preguari no mergulho.

Lições da escola caiçara

que frequentei quando criança

e que ainda guardo na lembrança.

Escarcéu

 


Houve uma ocasião em que no céu
a trovoada armou um escarcéu,
acompanhado de uma saraivada de chuva grossa
e um corisco matou uma velha,
velha timbuíba, com um tiro de fuzil.
A mais bela árvore desta banda do rio.

Outras sabedorias

 

Quem sabe o tempo certo

da primavera começar é o sabiá,

que antes da invenção do calendário

já sabia assobiar.

Época da alma pura


Joaquim emprestou

os sete lenços

do pássaro saíra,

a voz do sabiá

e os modos do tangará,

só pra pedir em casório

Rosa, a mais bela moça do lugar.

Conforme se avizinhava

da casa da amada,

o pássaro emplumado

foi ficando envergonhado

e chegou ao destino

vestido de tico-tico,

cantando de corruíra,

em passos de saracura.

Mesmo assim Rosa aceitou

a desenxabida criatura,

aleluia! 

Em risco de extinção

 


Suçuarana, irara, ariranha,

araçari, araponga, ararinha,

sagui, curiango, urutau,

saracura, jaó, macuco,

caiçara, caipira, capiau.

 

Em busca de Deus

 

Encontro Deus nas notícias

de crianças salvas por milagre

de acidentes, de abandonos,

das águas e do frio

de desumanos corações. 

Embalo de sábado à tarde

 

A chuva fraca que cai

sobre as folhas das bananeiras

convida-me a ficar deitado

nesta tarde de sábado

e, com proveito, passar o dia

fomentando a nostalgia.

 

Elias do cavaquinho


Com toda a humildade,

o desconhecido Elias

ficará para a posteridade,

pois ele é um homem grande

com coração de menino;

é homem de pouca fala

e toda sua eloquência

está nas cordas do cavaquinho,

que em dia bom soa com alegria

e só plange o chorinho

quando ataca a nostalgia.

Elegia ao tamanduá

 

Eu vi no meio da estrada,

com a bandeira desfraldada,

amode que pedindo trégua,

um bicho-tamanduá.

Quase fui abraçá-lo,

por saber que ainda tem tamanduá 

dando bandeira por aí,

na Serra do Mar. 

Dos direitos


Toda criança devia ter direito 

a um rio com cachoeira, 

a um quintal  com árvore fruteira, 

a um pedaço de capoeira, 

ou ilha ancestral, 

mesmo que seja a casa do avô, 

isolada pelo bananal. 
 

São Simão do Egito

 

Toda vida é caminho,

toda pessoa é viajante,

todo bem material é ônus

que pesa nos ombros,

todo amor é bônus

que alivia a caminhada.

E ao fim da estrada

muitos desejariam ter tido por companheiro,

o mais humildes dos egípcios:

São Simão sapateiro.

Hidrografia


Nas nuvens, nas chuvas,

no orvalho, no mar,

nos rios, nas minas d’água,

nos coquinhos brejaúva,

no sumo do abacaxi,

na garapa da cana,

entre as folhas do caraguatá...

água nunca foi problema

nos domínios tupinambá.