sábado, 15 de agosto de 2026

Domingo na praia


Hoje é domingo

depois do almoço,

de muito descanso

e pouco alvoroço.

 

Hoje é domingo

de dormir na esteira,

na areia da praia

sob a amendoeira.

 

Hoje é domingo

sem preocupação,

meu apelido é Barba,

meu nome é João.

 

Hoje é domingo,

de tarde tem missa,

depois tem namoro

e acabou a preguiça.

Quase paraíso no ano de 1972.


A trilha sonora

das aves canoras

em abertura triunfal

inauguram o domingo

que será magistral,

de céu azul-marinho

sobre o mar celeste,

de jogo de bola

na areia da praia,

de belas banhistas

para alegria das vistas,

de brisa marinha,

de missa matutina,

para absolvição

dos poucos pecados

que há por esses lados.

Divisão de trabalho

 Vovó Eugênia, Vovô José e meus tios

dividiam entre si as funções

de capinar, plantar,

colher, transportar,

caçar, pescar, cozinhar

enquanto nós, crianças,

brincávamos de sobreviver

e levávamos para casa

guaiás, mariscos e cambucás.

Solteiros x Casados

 

Antigamente,

quando as pessoas eram donas do tempo,

e não vice-versa, como hoje acontece;

um típico dia de domingo começava

com jogo de futebol

dos solteiros contra os casados.

Os solteiros, muito visados

pelas moças casadoiras,

em espera do definitivo tento

que conduz ao casamento.

Por sua vez, os rapazes

faziam todo o esforço contrário

para não vestir tão cedo a camisa

do time adversário.

Dicionário de Dona Eugênia

 

Córrego é córgo,

quarto é camarinha,

luz é lúmen,

chama é luzerna,

enjôo é fastio,

sonolência é quebranto,

salgado é sapreso

e há poucos instantes

é dejahoje.

 

Dia dos pais


 

Aprendi com meu pai,

que por sua vez,

herdou do pai de seu pai,

que a rama se planta inclinada;

que é preciso fazer aceiro

para a coivara não virar queimada;

que se esquadreja uma casa

com a regra de Pitágoras;

que para consertar canoa

não se pode usar prego

ou qualquer remendo de metal;

que se deve unir três anzóis

para fazer um garatéia;

que se arma um mundéu

com pedaços de pau;

que se funde o chumbo

pra munição de espingarda;

que no cerco de picaré

o calão deve estar rente ao chão;

que se faz um telhado

com serrote, martelo e formão;

que a corda pode ser feita

com a entrecasca de embaúba

e que, para estar juntinho de Deus,

não há melhor lugar que Ubatuba.

Dia dos namorados

 

Vós de lá e eu de cá,

ribeirão passa no meio.

Vós de lá dais um suspiro,

eu de cá tchabau na água. 

Massa polar Antártica


O vento sul traz

notícias da Antártica

e eco de vozes de fantasmas

em diferentes línguas,

desde a esquina das Américas:

homem ao mar,

uomo al mare,

man at the sea,

homme a la mér,

no Cabo de Hornos,

no Cabo Horn,

no Cabo dos Cornos. 

De volta pra casa

 

O que eu gostei mesmo 
quando voltei de Santos, 
foi ser saudado 
pelos coqueiros de meu avô. 
E enquanto caminhei 
na estrada para nossa casinha, 
os acenos de saudação 
contagiaram toda a paisagem: 
as bananeiras, 
as laranjeiras, 
as árvores todas, 
as sempre-vivas, 
as sempre-lindas, 
até as roupas no varal 
me acenaram boas-vindas. 

Despedida

 

 A roda do mundo girou.

Quem era criança, cresceu;

quem era talvez, aconteceu;

quem era solteiro, casou;

a flor cheirosa murchou;

uma nova rosa apareceu;

a roda do mundo girou,

só faltou levar junto

a nostalgia que restou.

Descompasso

 

Eu a amo,

eu a amo,

eu a amo.

Ela me estima.

 

Depois da tempestade

 

Vai ter muito iconoclasta por aí

tentando reconstruir

os pedaços das obras quebradas

e das próprias vidas estilhaçadas. 

De Benedito para Balbina

 

Ainda me lembro, enfermeira,

quando você perguntou os meus sintomas

e respondi que tinha um abalo no coração.

E que isso acontecia sempre

quando diante dos meus olhos você passava

e que um beijo aliviaria o meu mal.

Você riu, como se fosse normal

um impaciente do coração

quase em estado terminal,

misturar galanteria com taquicardia.

Debalde


Um morador da Ilha Vitória

remou quase quatro horas

para comprar a rede

de José Almiro, meu avô.

Mas não houve negócio,

não houve história,

ficou para o almoço

e só recusou a salada

dizendo que não era cabrito

pra comer mato.

Despediu-se

e antes de embarcar de volta,

comentou que tinha vindo debalde.

Só o que conseguiu com a viagem

foi deixar Eliazinho admirado

por, de balde, ter o mar atravessado.

Danças do vento sul


Esse vento sul

que traz de terra estrangeira

uma dança agitada,

uma estranha maneira

pra nossa terra aquietada

e põe toda a mata pra dançar,

que chega em hora imprópria

e começa a bulir e inquietar

as árvores,

as aves,

os bichos todos

e os homens

que saíram pra pescar.

É bolero?

Fandango?

Tirana de espantar?

Da primavera

  

São as andorinhas,

tão frágeis, tão pequeninas,

que levam e trazem a primavera

de um para outro hemisfério.

Quem puder que resolva este mistério.

Ciosa (lírio do brejo)

 

Cheiro bom 
de capim melado, 
de chão molhado, 
de picumã, 
de tarumã, 
de flor de jasmim, 
da moça que passou por mim, 
e, raro privilégio, 
que cheiro bom 
tem o lírio do brejo. 

Cruz do Pontal


Quem vive de pescar
conhece a inconstância do mar
e suas súbitas mudanças,
desde as ressacas malcomportadas
até relatos e marcas de antigos maremotos.
É por isso que se plantou cruzeiros
em Ubatuba e restante do litoral
na antiga Terra da Santa Cruz.
Convém deixá-los lá.

Aconteceu com Tio Antônio

  

A gripe espanhola

desembarcou no porto de Ubatuba no ano de 1918

e matou meus bisavós,

Francisco Félix e Ana Maria Amorim

e deixou órfãos meu avô e seu irmão,

ai deles, ai de mim.

Vinte e cinco anos depois de morta,

minha bisavó, com seus olhos azuis do céu,

apareceu a Antonio Félix, seu neto e meu tio

e pediu uma novena que, tão logo foi rezada,

ao som da trombeta do Serafim,

deu entrada no céu, Ana Maria Amorim.

Casa finada

 

Sei da história

de uma casa que morreu,

mas não de repente.

Primeiro as crianças cresceram

e foram para longe,

depois os adultos envelheceram,

ficaram sem companhia

e acabaram vitimados

pela doença da tristeza.

E assim, diante de um mar de solidão,

findou-se uma casa

no canto da Praia do Boqueirão.