sábado, 15 de agosto de 2026

O que era doce jabuticabou-se

 

No quintal de meus avós

eu vi árvore balançar

em dia sem ventos

e ouvi festa barulhenta

entre seus galhos,

sem nenhuma maritaca

que pudesse justificar

tamanha algazarra.

Porém, tudo que existe

um dia se acaba

e um dia uma ventania

derrubou o pé de jabuticaba.

Cosmovisão

 

Conforme nossa ciência,

o universo todo inteiro

é um enorme balão.

que se move na escuridão.

Se move no vazio

e em um breu para angustiar,

se nos conduzíssemos pelos egos

e não reconhecêssemos

que ainda somos cegos.

Cosmogonia

 

Na Terra de Santa Cruz

não tinha fruta-do-conde

até que um conde

a trouxe do sudeste da Ásia,

que brotou, cresceu,

frutificou e espalhou

frutos por toda a Terra,

tal qual a semente dos Cosmos

que, no devido tempo,

espalhou esporos de estrelas

por todo o universo

(Que é único ou são diversos?)

Só sei que nada sei,

então fico aqui a fazer versos.

Consertada


Nas festas juninas de antigamente
os homens tomavam quentão
ou cachaça em grandes talagadas.
Para as mulheres sobrava chá quente -
ou pelo menos assim pensavam os marmanjos -
sem saber que a bebida estava consertada
com um boa dose de aguardente.

Ingredientes: 5 litros de água, 1 litro de pinga, 1 kg de açúcar, 1 pacote de canela, 1 pacote de cravo, casca de 6 laranjas (preferência curtida) e capim cidrão.

Preparo: Pôr no fogo o açúcar, a canela, o cravo, o capim e as cascas. Mexer até dourar. Em seguida, colocar a água e deixar ferver até reduzir a mais ou menos 3 litros. Colocar a pinga e deixar ferver mais um pouco.

Conto de fadas


Igual ao peixe

que viaja pelo mundo

e sempre há de retornar

ao lugar onde nasceu,

também resolvi voltar

para a Praia da Fortaleza, de Ubatuba,

para a casa de meus avós,

aos braços da primeira namorada...

Mas cheguei tarde demais,

meus avós faleceram,

a velha casa está derruída

e quem despertou a bela adormecida? 

Um certo Manuel

 

Mané Bento, dos pecados miúdos:

uma cachacinha,

uma mentirinha,

uma preguicinha...

resolveu ser mais devoto

depois da revelação

que o manjar dos céus

é o pirão de garoupa,

e o néctar dos santos

é o café de garapa. 

Jogo do Santos

 

De todas as casas saía o zumbido das ondas hertzianas,

todos os rádios estavam sintonizados no jogo do Santos F.C.,

trazendo a emoção das jogadas de Nilton Santos, Pepe, Pelé

e toma drible entre as canetas - entre as pernas -

e bola balançando a rede.

A missa seria adiada porque até o padre,

torcia pelo time santista

e cada gol era acompanhado pelo badalar do sino da igreja,

era pecado capital ignorar a peleja.

Até quando?

 

O nu pior que tudo

é o vazio do morro desnudo;

a ferida mais feia

é a chaga que restou

de uma antiga cachoeira;

o silêncio mais alto

é aquele que ecoa

das águas silenciadas.

Chuva no bananal

 



José Almiro, meu avô,
almoçou um bom pirão
da garoupa que pescou,
tomou um golpe de garapa
do canavial que plantou,
estirou-se na esteira de taboa
que com suas mãos fabricou,
e, ao sonífero som da chuva,
uma graça que Deus nesse dia concedeu,
afinal adormeceu.

Chuva de verão

 

O vento leste é ladino,

chega de mansinho

com modos de brisa

e vai grimpando a Serra,

acumulando cúmulos,

sobrecarregando a atmosfera,

até o primeiro relâmpago

despertar a trovoada

e fazer o céu vir abaixo

em forma de enxurrada,

que faz o córrego virar torrente,

a torrente virar ribeirão,

o ribeirão ficar valente

e estourar a barra do rio

junto à casa de Tio Clemente.

Tuim

 

Olha lá o passarinho tuim,

não tem patrão,

não tem escola,

quando tem vontade namora,

quando tem fome

serve-se na mesa de Deus.

Olha lá o pássaro tuim,

parece que tá rindo de mim.

Sem explicação

O jardim de minha infância

em casa de Vovó Eugênia,

que ainda cultivo na lembrança,

fica cada vez mais bonito

à medida que o tempo avança. 

Crônica poética

 

A casa da família Oliveira

situava-se no canto da Praia da Fortaleza,

à distância segura das ondas ressacadas,

porém sob a influência deletéria

do sódio,

do fósforo,

das ondas,

dos moluscos,

dos peixes,

dos crustáceos,

dos quelônios,

dos cetáceos,

das palmeiras

e dos cantos das sereias.

Casa de Tio Clemente

De frente para o mar

tinha uma casinha

pintada de cal

e pela porta da frente

o sol nascia

para lembrar ao pescador

a hora de visitar

a rede de tresmalhos.

Meu parente faleceu,

a porta foi fechada

e o sol da nossa praia

buscou outra entrada. 

Casa de Tia Maria da Barra


Casal emoldurado,

flâmula do Santos Futebol Clube,

santo com cordeiro aos ombros,

rádio de válvulas

irradiando estática...

Que nada,

é chiado de marimbondo

construindo toca

na parede de pau-a-pique.

Morada de poeta

 

Morar em Ubatuba é bom,

no morro da Fortaleza é melhor

para quem abre a janela

e saúda,

bananeira,

embaúba,

timbuíba,

e outras tantas matas,

até onde a vista alcança,

ou chega a brisa do mar,

trazendo junto sons de rádios

distorcidos e melhorados

pela generosa distância,

que até mesmo moda estrangeira,

tudo chega traduzido

em Nelson Gonçalves

ou Orlando Silva.

Para constar no registro

 

Entre a praia e o morro,

José Almiro, meu avô,

construiu sua casa

próxima de um córrego

e espalhou bananeiras,

cafeeiros, laranjeiras,

filhos e netos no quintal.

Casa do bisavô materno

  

As portas da casa

de Nhonhô Almiro Mesquita

abriam-se para o mar,

para a brisa do mar,

para o cheiro do mar,

para a visão do mar sem fim,

cheio de baleias, pescadores,

gaivotas e mistérios afins.

Relatos

 

Na casa de meu avôs

havia muitos tesouros:

um rádio de válvulas

que irradiava Lamartine Babo

e Orlando Silva

que a gente não se cansava de escutar.

Um retrato que visto de frente

mostrava Nosso Senhor Jesus,

olhando de viés via-se, à direita, São João Batista

e, à esquerda, São Lázaro

que a gente não cansava de espiar.

 Na cozinha um velho fogão

fumegava cheiro de pirão de peixe

que a gente não cansava de paladar,

de tal modo, que até esse substantivo

virou verbo defectivo.

Carneirinhos no céu


O vento sul é o pastor que toca

carneirinhos de nuvens nos campos celestes,

que chegam mansinhos, não são de nada,

só abrem alas às nuvens de trovoada.