sábado, 15 de agosto de 2026

Canoa de Zé Almiro

 

Peixe,

padre,

galinha,

banana,

defunto,

farinha.

Meu avô carregava

o mundo na canoa. 
 

Aviso aos navegantes

 

Os de pé fiquem sentados,

os de fé, a Deus voltados,

que o vento sul está atravessado

no boqueirão do Mar Virado. 

Caminho Suave


 Uma reta é a menor distância

entre dois pontos,

mas não a mais agradável,

se a meio caminho houver

um sorriso bonito,

ou jabuticabas na jabuticabeira,

ou primavera na Mantiqueira.

Calendas caiçaras


O passarinho fura mato,

de tanto mato furar,

acabou por encontrar,

entre as touceiras de pacová,

as ruínas da casa do alambique

de meu trisavô Francisco Aleixo Cabral.

O fura-mato contou para o tié,

o tié para o bem-te-vi

e o bem-te-vi contou pra mim.

Fui lá assuntar,

senti o cheiro de cana

e ouvi a moenda girar

na Praia do Pulso,

que, infelizmente,

para nós deixou de pulsar.

Brincadeira de criança

Brincando, brincando,

a gente aprendia

a capturar camarão,

siris e guaiás.

A remar canoa,

puxar rede,

conhecer peixe bom,

a pilotar traineira.

Até hoje não soube

onde começava o trabalho,

onde terminava a brincadeira.

A outra história de Ubatuba

 

Muitos séculos aqui foram consumidos

por homens e mulheres

vivendo demasiado em paz,

por tempo demais,

como se estivessem no paraíso.

E estavam.

O problema é que o diacho,

fantasiado de paletó e gravata,

desceu serra abaixo,

os pegou sem malícia,

com reação lenta,

e com muita ingenuidade,

antes de 1960.

Bom refúgio



Porque sei que em casa
tem sempre um fogão quentinho,
com um café fresquinho,
com banana da terra ou cará,
com peixe assado e uma cuia de farinha,
é que me atrevo a sair para pescar
neste junho quase julho,
com este frio, com este mar.

Zulmira Cabral

 

Bisavó Zulmira Cabral

nasceu sob as barbas de Pedro II,

porém neste canto do mundo,

e todo seu universo abrangia

a enseada da Maranduba

desde o Sertão da Quina

até à ponta da espia,

desde as estrelas cadentes

até à morada dos ausentes.

De vez em quando,

abafado pelo barulho do mar

ou pelo ribombar do trovão,

chegava rumor de guerra

ou notícia de explosão

nas distâncias da Europa,

além da imaginação.

Bisavô Almiro

  

Enquanto tiver guaiá na costeira,

pampo no quebramar,

fruta na bananeira,

feijão na panela

e mandioca na gamela,

da minha terra não saio, não!

Mesmo com muita idade

não quero ir pra cidade,

pois onde eu haveria de morar

sem a algazarra dos pássaros

pela manhã a me despertar?

 E onde há música igual

ao som do riozinho

entre as pedras a correr,

que faço gosto de ouvir

até meu último adormecer?

Nem te conto

 

Entre tantas opções servidas à mesa,
a mulher bonita pegou salada,
frutas e um pouco de massa.
Carnes?
Só um pedacinho de coração,
mas como dói!

Punição

 

A sociedade dos frequentadores

da cachoeira do salão do Rio da Fortaleza,

resolve suspender de seus quadros

o Sr. João de tal,

porque encheu a cara de cachaça

e foi à cachoeira no horário reservado

ao banho das damas.

E que, só de olhá-las,

declarou o desavergonhado,

ficou mais embriagado.

Bach

 

Escute a música que vem da rua,
espie quem está a tocar,
joga-lhe umas moedas
e um arenque por via das dúvidas:
pode ser Johann S. Bach.

Elegia

 

O coração levou uns cambotes na vida,
peitou grileiro de terra,
distribuiu carinho e amor
e foi se gastando,
a tal ponto que seu doutor
recomendou mais parcimônia
no uso das emoções.
Mas, João de Souza,
que não nunca foi cerimônias
ou de meias medidas
como os causos que contou,
era todo paladar
como o pirão que provou,
era todo caiçara
como o povo que amou,
era todo coração
que nem o fôlego acompanhou
e por isso veio a falecer
no dia 07/12/2007,
quando a alvorada despontou.

Benedito e Balbina


Modéstia à parte pesco bem,

pesco até esquecer da vida,

mas só até soprar o vento leste,

quando iço a vela de traquete

e minha canoa voa, fura vento,

rompe ondas, come milhas,

no rumo da Maranduba,

acompanhando as batidas do meu peito,

na correta direção

dos olhos de uma caiçarinha

onde procuro atracação.

No sopé da Serra do Mar


 A casa de meus avós,

de frágil pau-a-pique,

ergue-se imprudente

entre matacões imensos,

cá no piemonte.

E vivemos muitos dias tranquilos

e dormimos muitas noites serenos,

até a geomorfologia explicar

que as mesmas pedras

outrora estiveram

nos altos da Serra do Mar.

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Moça solteira procura vaga
para proteger-se das intempéries
naturais ou sociais
e abrigar dois cachorros,
uma pilha de livros e
um baú de recordações.

Tem preferência por casa
no inverno, ensolarada, no verão, arejada,
com paredes pintadas de cores vivas,
floreiras e cortinas de rendas nas janelas:
Jovem procura por casa
que só existe em contos de fadas
ou em livros de poesia.

Anunciadores da aurora

 

Antigamente era o canto do galo

nas fímbrias da madrugada

que franqueava os caminhos

às pessoas de bem:

pescadores partindo para o mar,

lavradores nas trilhas das roças,

ou viajantes partindo,

talvez por nomadismo atávico,

pois aqui não faltava peixe pra comer,

nem água boa de beber.

Anchieta de Ubatuba

 

O dinâmico Padre Anchieta,

segundo conta a história,

andava pelas serranias e praias

da nossa região,

com os pés no chão

e a cabeça nas coisas do céu

que a distância não o cansava,

a chuva não o molhava

e os perigos se arredavam

conforme o Santo passava,

pois, como se aprende na academia,

uma boa história tem que ser

pelo menos 50% verdade,

o restante é poesia.

Amor de mãe


Vista a camisa,

respeite os mais velhos,

arrume os cabelos,

guarde suas coisas,

escove os dentes,

não se esqueça de rezar,

peça a bênção,

tire a cabeça das nuvens

e nada de má-criação!

Amigos são assim

 Pessoa amiga mesmo

a gente não chama pelo nome,

mas, sim, pelo apelido:

Roberto é Beto,

Luísa é Zica,

Cris é Cristina,

Pedro é Pedro III,

(pois  já teve o Pedro I e o Pedro II)

e ainda tem o Jajá, que  é um mistério,

ele próprio esqueceu o nome verdadeiro.