Peixe,
padre,
galinha,
banana,
defunto,
farinha.
Meu avô carregava
o mundo na canoa.
Peixe,
padre,
galinha,
banana,
defunto,
farinha.
Meu avô carregava
o mundo na canoa.
Os de pé fiquem sentados,
os de fé, a Deus voltados,
que o vento sul está atravessado
no boqueirão do Mar
Virado.
entre dois pontos,
mas não a mais agradável,
se a meio caminho houver
um sorriso bonito,
ou jabuticabas na
jabuticabeira,
ou primavera na Mantiqueira.
O passarinho fura mato,
de tanto mato furar,
acabou por encontrar,
entre as touceiras de pacová,
as ruínas da casa do alambique
de meu trisavô Francisco
Aleixo Cabral.
O fura-mato contou para o tié,
o tié para o bem-te-vi
e o bem-te-vi contou pra mim.
Fui lá assuntar,
senti o cheiro de cana
e ouvi a moenda girar
na Praia do Pulso,
que, infelizmente,
para nós deixou de pulsar.
Brincando, brincando,
a gente aprendia
a capturar camarão,
siris e guaiás.
A remar canoa,
puxar rede,
conhecer peixe bom,
a pilotar traineira.
Até hoje não soube
onde começava o trabalho,
onde terminava a brincadeira.
Muitos séculos aqui foram consumidos
por homens e mulheres
vivendo demasiado em paz,
por tempo demais,
como se estivessem no paraíso.
E estavam.
O problema é que o diacho,
fantasiado de paletó e
gravata,
desceu serra abaixo,
os pegou sem malícia,
com reação lenta,
e com muita ingenuidade,
antes de 1960.
Porque sei que em casa
tem sempre um fogão quentinho,
com um café fresquinho,
com banana da terra ou cará,
com peixe assado e uma cuia de farinha,
é que me atrevo a sair para pescar
neste junho quase julho,
com este frio, com este mar.
Bisavó Zulmira Cabral
nasceu sob as barbas de Pedro
II,
porém neste canto do mundo,
e todo seu universo abrangia
a enseada da Maranduba
desde o Sertão da Quina
até à ponta da espia,
desde as estrelas cadentes
até à morada dos ausentes.
De vez em quando,
abafado pelo barulho do mar
ou pelo ribombar do trovão,
chegava rumor de guerra
ou notícia de explosão
nas distâncias da Europa,
além da imaginação.
Enquanto tiver guaiá na costeira,
pampo no quebramar,
fruta na bananeira,
feijão na panela
e mandioca na gamela,
da minha terra não saio, não!
Mesmo com muita idade
não quero ir pra cidade,
pois onde eu haveria de morar
sem a algazarra dos pássaros
pela manhã a me despertar?
E onde há música igual
ao som do riozinho
entre as pedras a correr,
que faço gosto de ouvir
até meu último adormecer?
Entre
tantas opções servidas à mesa,
a mulher bonita pegou salada,
frutas e um pouco de massa.
Carnes?
Só um pedacinho de coração,
mas como dói!
A sociedade dos frequentadores
da cachoeira do salão do Rio da Fortaleza,
resolve suspender de seus quadros
o Sr. João de tal,
porque encheu a cara de
cachaça
e foi à cachoeira no horário reservado
ao banho das damas.
E que, só de olhá-las,
declarou o desavergonhado,
ficou mais embriagado.
Escute a música que
vem da rua,
espie quem está a tocar,
joga-lhe umas moedas
e um arenque por via das dúvidas:
pode ser Johann S. Bach.
O coração levou uns cambotes na vida,
peitou grileiro de terra,
distribuiu carinho e amor
e foi se gastando,
a tal ponto que seu doutor
recomendou mais parcimônia
no uso das emoções.
Mas, João de Souza,
que não nunca foi cerimônias
ou de meias medidas
como os causos que contou,
era todo paladar
como o pirão que provou,
era todo caiçara
como o povo que amou,
era todo coração
que nem o fôlego acompanhou
e por isso veio a falecer
no dia 07/12/2007,
quando a alvorada despontou.
Modéstia à parte pesco bem,
pesco até esquecer da vida,
mas só até soprar o vento
leste,
quando iço a vela de traquete
e minha canoa voa, fura vento,
rompe ondas, come milhas,
no rumo da Maranduba,
acompanhando as batidas do meu
peito,
na correta direção
dos olhos de uma caiçarinha
onde procuro atracação.
de frágil pau-a-pique,
ergue-se imprudente
entre matacões imensos,
cá no piemonte.
E vivemos muitos dias tranquilos
e dormimos muitas noites serenos,
até a geomorfologia explicar
que as mesmas pedras
outrora estiveram
nos altos da Serra do Mar.
Moça solteira procura vaga
para proteger-se das intempéries
naturais ou sociais
e abrigar dois cachorros,
uma pilha de livros e
um baú de recordações.
Tem preferência por casa
no inverno, ensolarada, no verão, arejada,
com paredes pintadas de cores vivas,
floreiras e cortinas de rendas nas janelas:
Jovem procura por casa
que só existe em contos de fadas
ou em livros de poesia.
Antigamente era o canto do
galo
nas fímbrias da madrugada
que franqueava os caminhos
às pessoas de bem:
pescadores partindo para o
mar,
lavradores nas trilhas das
roças,
ou viajantes partindo,
talvez por nomadismo atávico,
pois aqui não faltava peixe
pra comer,
nem água boa de beber.
O dinâmico Padre Anchieta,
segundo conta a história,
andava pelas serranias e
praias
da nossa região,
com os pés no chão
e a cabeça nas coisas do céu
que a distância não o cansava,
a chuva não o molhava
e os perigos se arredavam
conforme o Santo passava,
pois, como se aprende na
academia,
uma boa história tem que ser
pelo menos 50% verdade,
o restante é poesia.
Vista a camisa,
respeite os mais velhos,
arrume os cabelos,
guarde suas coisas,
escove os dentes,
não se esqueça de rezar,
peça a bênção,
tire a cabeça das nuvens
e nada de má-criação!
Pessoa amiga mesmo
a gente não chama pelo nome,
mas, sim, pelo apelido:
Roberto é Beto,
Luísa é Zica,
Cris é Cristina,
Pedro é Pedro III,
(pois já teve o Pedro I e o Pedro II)
e ainda tem o Jajá, que é um mistério,
ele próprio esqueceu o nome verdadeiro.