segunda-feira, 23 de março de 2026

Já dizia Vovó Eugênia


Brincos de princesa,
estrelitzias,
câmpanulas ao vento,
flor do japão,
açucena, flor de lis,
chuva de ouro…
quem tem um jardim
tem um tesouro.

Ipê-Amarelo

  

Todas as horas do dia,

todos os dias do ano,

o ipê se prepara para,

no final do inverno,

despir-se das folhas,

vestir-se de ouro

e, nos dias seguintes,

derramar todo seu tesouro

aos pés dos transeuntes. 

domingo, 22 de março de 2026

Abobrinhas

 

Meu chuchu diz que há de me amar,

mesmo sem cacau,

e que basta caqui, caju, cajá...

Se juntarmos os temperos,

quais serão os nomes dos filhos?

— Sálvia, Celso e Salsão!

Amo-a tanto, mas tanto,

que passo a me chamar Amaranto.


Parece, mas não é.

Para começo de poema

morango nada tem a ver com moranga,

lagarto não é o companheiro da lagarta,

e a cavala não é parceira do cavalo.

E abelhudo é marido da abelha?

Nananinanão, o correto é zangão!



Quem entende?


No sábado, o menino acordou cedo,

alimentou-se e foi jogar futebol com os amigos.

Ao voltar, estava todo sujo e estropiado.

Era caso para se lamentar,

mas retornou cheio de satisfação... por quê?

 

A menina foi à praia com colegas:

nadou, jogou, bronzeou-se, tomou sorvete.

Perdeu a noção das horas e, ao voltar para casa,

ficou de castigo no quarto.

Fez cara de triste diante da mãe,

mas, por dentro, sorria... por quê?







Já foi à praia hoje?


Em uma praia cabe, por exemplo:

campo de jogar bola descalço;

reino com castelos de areia;

área de pesquisa de conchinhas;

aeroporto de gaivotas;

tela para desenhos com gravetos;

mirante de horizontes

para sonhar com viagens

e dossel de areia para deitar-se,

admirar e viver nas nuvens.


sábado, 21 de março de 2026

Um pequeno detalhe


O carpinteiro desempregado, que má notícia!

Logo arranjou serviço de porteiro, que alegria!

O patrão mandou cerrar a porta, coisa simples de fazer...

Ai, ai, ai! Ele pegou um serrote e serra que serra,

e, em vez de cerrada, a porta foi serrada.

Perdeu o emprego de novo; na próxima vez, vê se não erra!



E as crianças da Ucrânia, Irã, Sudão e Gaza?

Que a ONU faça, com urgência,

a lei de que crianças precisam

de quintais, jardins, parques de diversão,

escolas, praias, amizades

e carinhos de pai e mãe.

Que a lei deixe bem claro

que infância não combina com conflitos

e que conste no novo estatuto infantil:

"Antes de começarem qualquer guerra,

mandem as crianças para o Brasil."


Universo arbóreo

As famílias de passarinhos,

crianças, bromélias e frutinhas crescem

nos troncos e galhos das jabuticabeiras,

cuidado com as vespas brabas! 

É época das pretas, retintas, jabuticabas.

Araucária



No primeiro ano

O menino plantou a semente;

No segundo ano a planta brotou;

No terceiro, ramos tímidos foram lançados;

No quarto, cresceu em graça;

No quinto, abriu os braços;

No sexto, alcançou as alturas do céu;

No sétimo, o menino, agora jovem,

Estendeu a mão e colheu pinhão.

Poema escrito na Serra da Mantiqueira


Quem acha que o mundo é chato

devia conhecer as serras brasileiras:

do Mar, da Bocaina, da Mantiqueira,

da Canastra, da Cantareira...

É um sobe e desce

de morros, colinas e picos nublados;

surpresas de pássaros, bichos, paisagens,

histórias, culinárias e outras viagens.

Nomes com sabores

 



Camila é a mais bonita Pitanga;

Cacau é apelido de Cláudia;

Ainda tem a atriz Mel Lisboa,

O compositor Dorival Chocolate,

e o Carlos Martins, ou Mestre Guaraná.

Haverá alguma Carla Jabuticaba?

Algum Pedro Maracujá?



Nova botânica (para Ana Maria)

Da mexeriqueira vêm mexericos;

Roma produz romãs;

jabuticabeira dá jabutis

e a macieira, só maçãs.


sexta-feira, 20 de março de 2026

Inventário de meus avós maternos


Tem bananal que sobe e desce morros;

pomar de todas as frutas;

casa de telhas de barro feitas nas coxas;

sala com oratório da Mãezinha do Céu

e com chão assoalhado para dançar bailes;

rádio de ondas curtas pra pegar todas as emissoras do planeta

na antena de fio de cobre instalada sobre o telhado.

Na cozinha, tem farinha de mandioca no barril

e muitos quilos de sal

guardados sob o calor do fogão a lenha;

tem casa de farinha com roda de ralar, prensa de fuso,

cocho, gamelas de madeira e forno com tacho de cobre,

pra deixar a farinha torradinha,

farinha boa, farinha da terra.

No quintal, tem café secando ao sol;

peixes secando no jirau; 

dezenas de galinhas, patos e até perus.

Suíno não podia, porque era pecado

comer carne de porco na casa de meus avós.

Ingrediente secreto


Eu bem que tentei

Fazer um pirão de peixe

Igual ao de minha avó Martinha:

Usei o mesmo tempero,

O mesmo peixe correto,

Com a nossa farinha...

Só faltou aprender o bendito

Que Vovó costumava entoar

Enquanto mexia a panela,

Para o pirão não desandar.

Impressão

Céu azul

entre nuvens esfiapadas;

cerejeiras em flor

na paisagem espalhadas;

luzes e cores

em pinceladas entrelaçadas.

Desconfio que Van Gogh

quis aperfeiçoar 

no que Deus tanto caprichou

no momento de criar.

Historinha

 

Paulinha ficou encantada quando desenhei

o tubarão-martelo, o peixe-rei, o peixe-espada

e o peixe-lua rodeados de estrelas no fundo do mar.

E ela só ficou sabendo

que a imaginação ficou aquém da realidade

quando descobriu

que esses peixes existem de verdade.

História recente

 


Antigamente as crianças caiçaras tinham quintais

com bananeiras, laranjeiras, goiabeiras,

jabuticabeiras e muita caapoeira.

As crianças tinham espaço

pra jogar futebol,

pra empinar pipa,

pra fazer jogo de roda,

balanço e gangorra.

Tinham areia pra se sujar,

rio pra se lavar

e soltar barquinhos feitos em pau de caixeta.

O tempo passou rápido demais para aquela geração,

hoje seus filhos vivem apertados

em terrenos 10 x 30, em horizontes 10 x 30.

Nossa Senhora de Ubatuba

 

Quando, na opinião de Vovó Martinha,

eu alcancei inteligência,

ela me contou uma história maravilhosa

de flores que choveram do céu,

de uma panela de pirão

que alimentou uma multidão

e de crianças de pés descalços

que pisaram no reino dos céus.

Tudo isso sucedido no Sertão da Quina,

quando ainda era menina,

quando os caiçaras ainda pescavam

e as pessoas ainda rezavam.

História do marinheiro Benedito

 

Minha intimidade com o mar

começou na praia em que nasci,

no mergulho em que renasci,

na canoa de meu avô,

nos ofícios de pescador,

e fui ganhando confiança,

e fui vencendo distância,

e pesquei rente à costa,

e pesquei embarcado,

e fisguei quem me gosta

e também fui fisgado.

Mas quem há de enredar

um pescador escolado?

Adentrei o oceano,

naveguei em cabotagem,

ganhei muito dinheiro,

gastei tudo em bobagem.

Trabalhei em longo curso,

aportei até em Roterdão

e não consigo mais sossegar,

senti o gosto do mundo

meu destino é navegar.