domingo, 20 de julho de 2025

O caso das bananeiras meio-pé


Mané Bento

desistiu de trabalhar na roça,

largou mão de capinar

e resolveu cultivar bananeiras

que crescem e matam pragas

e ainda dão 'muitas fruitas',

boas de fazer pirão,

saborosas de se fartar,

baixinhas de colher com a mão

Ocasião de festa

 


Em tempo de carnaval,

as árvores do quintal em frente,

se agitam com o vento

e atiram confetes na gente. 
 

O bom Dr. João

 



Quando fiquei com ziguizira
e procurei o Seu Doutor,
ele pôs ouvido no pulmão,
mediu minha palpitação,
e escreveu no papel
que o meu mal
é excesso de civilização:
muito barulho nas orelhas,
pouca música de pássaros;
muita fumaça no nariz,
pouco perfume de mato;
muita roupa no corpo,
pouco pé descalço;
muita conta pra pagar,
pouco dinheiro no bolso;
muito pressa na vida
e pouco tempo pra Deus.
Assinado,
de uma boa cura esperançoso,
Dr. João Luiz Cardoso.

O bom mestre de obras

 Todo construtor sabe trançar

varas e bambus

e amarrá-las com cipó-imbé.

Sabe barrear as paredes

com a argila certa

para manter a moradia

no inverno aquecida

e no verão refrescada.

Sabe escolher

a boa madeira

para fazer os esteios

e a viga cumeeira.

Sabe fazer ripas da jiçara

e cobrir tudo com feixes de sapé

para a casa ter um bom teto

Mas todo bom construtor

sabe que o arremate final

só com a bênção da água benta

para afastar todo mal.


O bicho mar




Quando eu tomei um caldo

e saí da praia todo zonzo

só Tio Chico me consolou:

- O mar, menino, é um bicho perigoso!

sábado, 19 de julho de 2025

Onde está sua casa?

Há mais de cinquenta anos

o barco santense ancorava em Ubatuba

para carregar farinha de mandioca,

peixe seco, cachaça, banana

e um ou outro inocente da terra ubatubana

partindo para Santos

em demanda de emprego e agitação.

Como explicar às pessoas

que a gente mora onde está o coração?

Lições de viver


Os peixes nadando,

os pássaros voando,

os rios fluindo,

o vento soprando,

as árvores frutificando,

as crianças brincando

e ainda tem adultos

sem saber o que fazer.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Inverno 2025

 

A madrugada foi fria

mais frio houve no alto da serrania,

a geada embranqueceu a paisagem,

as plantas sentiram-se congelar,

menos o pinheiro do Paraná,

que já passou por muitas eras glaciais

e, parece, está esperando por mais.



O barco santense

 


Há mais de cinquenta anos

o barco santense ancorava em Ubatuba

para carregar farinha de mandioca,

peixe seco, cachaça, banana

e um ou outro inocente da terra ubatubana

partindo para Santos

em demanda de emprego e agitação.

Como explicar aos jovens

que a gente mora onde está o coração?

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O barco dos sonhos


Durante a noite trovejou

após o galo cantar.

Depois o vendaval

começou a fazer miséria

no alto da Serra

e abateu-se na planície,

com tanto estardalhaço,

que acordou o menino

que pensou que já era grande

e ficou encolhido em sua caminha

debaixo do cobertor, mas não chorou.

Depois veio o anjo da guarda

com a bênção do sono,

porém, o vendaval no quintal

passou para o sonho do guri

e pôs a pique o barco Taurus,

que sempre tinha navegado

nos sonhos da criança

e o resto é lembrança.

Novo estatuto


 Todas as crianças,

mesmo as que moram em apartamentos,

terão direito a um quintal,

com árvores para abraçar, sacudir, balançar

e espaço para brincar de amarelinha, pique

e o rei mandou, com poder de autoridade suprema,

que se cumpra este poema.

Nova teoria astronômica


E se as imensas galáxias

com turbilhões de estrelas

não passarem de carrosséis

em caprichosos arranjos,

girando desde antigamente

no jardim da infância dos anjos?

 

Novena


Nossa Senhora Aparecida,

eu, herdeiro de terras perdidas,

de sabedorias que estão esquecidas,

de lembranças esmaecidas

do povo caiçara,

ainda assim vos bendigo,

pois ainda restam cores

para refazer o mundo antigo

e a fé dos meus avós

que foram íntimos de vós.

 

Nova teoria


 É uma máquina de guerra

que tem depois da Serra

e que faz disparos de canhões

só para nos assustar…

raios e trovões.

domingo, 13 de julho de 2025

Nova e antiga lição


Sabe aquele pão

arrancado da despensa quase vazia

para dar a quem pedia?

Sabe aquele dinheiro

tirado de seu saldo devedor

emprestado a um amigo?

Sabe aquela palavra de ouro

tirada do rico veio de seu coração

pra dar a um necessitado de afeição?

No final se verificará

que são pequenos atos de sapiência,

porque foi-nos ensinado que a eternidade

tem alicerces na solidariedade.

Nos tempos dos candeeiros


Após o canto do galo

que assinalava o fim

do domínio das trevas,

após um café forte

feito por Tia Maria

no fogão a lenha,

Tio Genésio rolava a canoa

e enfrentava o mar

em quatro horas

de remo e vela traquete

até à Ilha Vitória,

para pescar caçoa,

da caçoa tirar o fígado,

do fígado extrair o óleo

que depois era transformado,

Milagre da medicina,

em óleo de fígado de bacalhau

fonte de muita vitamina

e cura pra todo mal.

No Sertão do Ubatumirim

 

Antigamente, dizia Antônio Clemente,

era fácil encontrar Deus,

ele passava por aqui todo domingo,

na capelinha do bairro.

Mas a fé foi morrendo

e ninguém tinha tempo

para o compromisso mais importante da vida.

Na falta de onde ficar

foi que ofereci meu abrigo

e, desde então,

Ele está aqui comigo.

Notícias de pássaros

 


É bom morar perto da mata

para receber toda manhã

lições de esperança

dos passarinhos de Deus:

Antes mesmo de o Sol nascer

eles põem-se a cantar

a grande ópera do dia,

movidos a insetos e sementes,

iguaizinhos a São João Batista,

o Santo que anunciou

Cristo, Deus do Amor.

Notícias


A enfermeira Cida Giraud,

da Santa Casa de Ubatuba,

disse que Aparecida Amorim,

uma das meninas

que viu Nossa Senhora,

no Sertão da Quina,

após viver muitos anos,

acabou por falecer

e, que, tão logo a vida a deixou,

um misterioso perfume de rosas,

o sinal de Nossa Senhora,

pelo seu quarto se espalhou.

Porque me tornei poeta

  

Quando a gente dizia
que ia colher jabuticabas
Vovó nos lembrava
para deixar um pouco aos passarinhos.
Era assim Dona Eugênia,
não lia e nem escrevia,
então praticava poesia.