quinta-feira, 5 de junho de 2025

Maravilhas de Deus

 


O mundo é mais bonito

visto com os olhos dos peixes

ou de um mergulhador.

Sob as águas o sol lança luz nas sombras,

revela as cores das algas

e arranca irisdescências

das escamas dos peixes.

É por isso que Benedito Félix,

de tanto ver as maravilhas de Deus

na baía da Maranduba,

resolveu dividir seu tempo

de pai, carpinteiro e mergulhador

com as funções de ministro

do Pai Eterno, o Criador.

Recados do vento leste

 

Às vezes o vento leste
traz aos nossos ouvidos
em permeio ao clamor
da arrebentação das ondas,
dos ruídos de refregas
de acontecidas batalhas navais,
das canções de marinheiros
de longitudes orientais,
cá para a América,
ecos distantes
das antigas vozes d’África.

Tempus fugit


Quem souber que dê notícias:
dos antigos leiteiros
que entregavam o leite
em garrafas de vidros
aos domicílios;
dos ceguinhos
e seus inseparáveis violões
fazendo escambo de músicas
por pouso e almoço;
dos mascates e suas malas
com cortes de panos,
tesouras de unhas
e  outros artigos
de primeira necessidade
para damas e cavalheiros
de fino trato.

Do progresso


Todo o dinheiro não compra,
toda  a técnica não monta,
toda a ciência não acrescenta
uma nota de melodia
à música do sabiá laranjeira,
um quinhão de conforto
à casa do joão de barro,
um pouco de beleza
à roupagem da saíra de sete lenços,
um tanto de graça
à elegância da garça.

Boitatá


Que fenômeno salta na rocha
e tremeluz feito tocha?
Que espécie de luzerna
corre sobre o mar
sem se apagar?
Que tipo de bicho
põe fogo no rabicho
só pra nos assustar?

Manoel Félix

 


Tio Manoel virou maneco

de tanto ver assombros

boitatás, mães do ouro,

estrelas cadentes,

visões de mouros,

pirilampos, peixes pampos,

abraços de tamanduás,

fila de marandovás,

correção de formigas quem-quem,

vozes daqui e dalém

das quais ficou só o eco

e Tio Maneco virou Neco. 

Maneco Almiro


Porque toda pessoa tem que ser um artista,

Tio Maneco Almiro empunhou uma rabeca

que trocou por um leitão

e tornou-se um astro da Folia de Reis.

Também era fogueteiro entusiástico

na festa do padroeiro São João Batista.

Acho que foram as suas bombas

que espantaram os anjinhos

que zelavam pelos pescadores

da Praia da Fortaleza.

Malasartes


 

Todas as árvores da mata atlântica

balançam animadas com a brisa do mar,

menos o guapuruvu

às margens do Rio Fortaleza,

só porque um menino pendurou

em um dos seus galhos,

uma gaiola de alçapão

e capturou uma ilustre visita,

o passarinho azulão.

Made in Pindorama

 


Samburá, tipiti, covo,

peneira, balaio, esteira,

de palhas, taquaras e cipós.

Quem faz um cesto

faz um cento.

 

Cidade moderna




Na grande cidade dos milhares de prédios-pombais

apertam-se pessoas solitárias ou casais,

em dezenas e até centenas de apartamentos

apartam-se famílias, histórias e sentimentos.

São moradas próprias ou sob aluguéis,

choros e festas são permitidos,

desde que não ultrapassem 50 decibéis.









terça-feira, 3 de junho de 2025

Propagação sísmica


Quando eu era muito novo,

diante da Baía da Fortaleza,

minha avó falou

que não se pode fiar

na mansidão do mar,

pois sua avó ouviu de sua avó

sobre um acontecimento

muito antigo,

alguma coisa

sobre o mar que se levantou

em ondas maiores

que a maior amendoeira,

e semeou mortandade

e destruição

e matou muito cristão.

Desconfio que

o que minha avó descreveu,

à maneira caiçara,

passados centenas de anos,

foi o maremoto de Lisboa.

Projeto de vida

 

Quando crescer

quero ser igual meu avô,

que acordava de manhãzinha

para trabalhar

na pesca ou na roça,

almoçava na hora certa,

descansava na hora da sesta,

na esteira,

ou na rede,

ou na cama,

para a salvação do corpo

e da alma.

De tarde remendava rede,

negociava banana e farinha,

fazia balaios,

tomava uma ou duas pinguinhas

e a noite o encontrava

dormindo com as galinhas.

Produtos das palmas

 

Das benditas palmeiras,

não bastassem os frutos,

há os palmitos, os esteios das casas,

os caibros, as ripas, as palhas

para cobertura dos chapéus

e outros tetos.

Procissão

 

Padres e Frades,

Anjos e Querubins (de faz de conta),

santos e pecadores,

estandartes e estudantes,

cheiro de rosa e jasmim...

parece até que Nossa Senhora

passou diante de mim. 

 

Procissão de Nossa Senhora do Sertão da Quina

 


Devotos entoam benditos,

três pombinhas descem do céu,

festeiros castigam os pandeiros,

opas e estandartes ao vento

e anjos no firmamento.

Uma criança fez um colar

com as flores da mariquinha da serra

e, de um jeito muito contrito,

o pôs no pescoço de Santa Maria,

que fez questão de ostentar

um sorriso muito bonito.

Primeiras leituras


Guardo na memória

os primeiros livros

tão caros e tão raros

de histórias de animais, árvores

e lugares fantásticos com

macieiras,

castelos,

baobás,

leões,

pontes de pedras,

oliveiras,

rouxinóis,

vacas leiteiras,

que, em meu conhecimento rudimentar,

situavam-se entre o mundo dos sonhos

e o antigo Reino de Zanzibar.

Presépio caiçara


O marulho das ondas

entra pelas portas abertas

da Igrejinha de São João

na Praia da Fortaleza

e embala o menino Jesus

que dorme tranqüilo,

em uma cesta de timbopeba,

dentro de uma casinha de pau-a-pique.

Os anjinhos curiosos,

com asas de penugem de galinha,

vigiam o sono do menino.

As ovelhas, a vaquinha

e o burrinho pastam

em um chão de musgos.

Baltazar, Belquior e Gaspar

andariam mais mil quilômetros

pela importância e beleza

do momento.

Nossa Senhora e São José

apreciam o conjunto,

um verdadeiro brinco

e abençoam o mundo

no natal de 1975. 

Presente do céu


Porque criança mistura

realidade com fantasia

e porque a boca não pôde falar

o que o coração sentia,

deixo aqui registrado

em forma de poesia,

que foi um anjo

que me deu o primeiro presente:

um carrinho de madeira

que achei no quintal de meus avós

sob um pé de laranjeira.

Presente do Céu


A bananeira é um pacote

que conforme cresce

vai se desembrulhando,

folha por folha

até revelar o segredo

de um coração em camadas

que, por sua vez,

também se desembrulha

para ofertar pencas de bananas,

o fruto do paraíso,

explicação para tanta gentileza,

segundo meu juízo.

Presente de pobre

 

Um favor é uma das poucas coisas 

que os pobres podem dar, 

assim dizia Vovó Martinha, 

ao sair para mais um serviço de parteira 

na Praia da Maranduba. 

Quando contei essa história 

ao professor Aziz  Ab'Saber, 

ele gostou e comentou: 

Como é fácil trilhar o caminho 

para o coração da gente, 

basta uma solidariedade simpática 

tão comum antigamente.