quinta-feira, 22 de maio de 2025

Sabedorias

 

Caiçara é igual guaruçá,

tem que pisar na areia,

tem que viver junto ao mar;

tem que ter canoa, rede de tresmalho,

balaio e samburá; 

Tem que ter horta com coentro bravo,

pimenta, alfavaca, e limão cravo;

Tem que ter jabuticaba, carambola, cambucá,

Tem que ser devoto de Santa Maria,

para ter pra quem rezar.

 

Tio Tonico

 

Antônio José, meu tio,

alcançou salvação,

por muita fé em Deus

e por praticar a lição

do pescador em canoa de traquete

que se lança ao largo de madrugada

com o vento terralão

e retorna à terra

no sopro da viração.

Tio Tonico

 


Tio Tonico aprendeu com seu pai,

que aprendeu com seu avô,

que aprendeu com seu bisavô,

que aprendeu com Cunhambebe,

as artes e segredos do oficio de ser

caiçara empedernido,

que amassa estrepe com os pés

e que resiste decidido,

todo dia benzendo-se

com água do mar,

antes de sair para pescar,

a melhor água benta que há .

.


Tio Antônio e Vovó Martinha

 


Antônio Félix foi roceiro,

caçador, taifeiro, pescador, pedreiro

e se tornou jardineiro

só para fazer sua obra-prima,

uma cerca viva com arco sobre o portão

só para emoldurar

com o vermelho dos mimos

e o verde das folhagens

os olhos cor-de-céu-sem-nuvens

de Vovó Martinha.

Tia Rosa, afilhada de Nossa Senhora

 

A casa de Tia Rosa,

tão bonita que coá,

foi feita de pau-a-pique

com reboco de argamassa

e pintada de azul e branco,

as cores de Nossa Senhora.

Mas ainda não estava completa

e na sala ela fez um oratório

com o retrato de Nossa Senhora.

Mas faltava alguma coisa

e ela plantou um jardim

com muita rosa e jasmim,

as flores de Nossa Senhora.

Tia Rosa se contentou por fim

quando pode ouvir da sala

o canto dos passarinhos

misturado com querubim

e viveu na paz de seu lar,

até que um dia dormiu

e esqueceu de despertar.


Tia Aninha benzedeira


 De sua casa pobrezinha

abria as janelas

direto para o céu,

dava risos sozinha,

igual criancinha,

que conversa com os anjos.

Fazia orações, benzimentos

e dizia palavras,

aparentemente sem tino:

- Menino, não sabeis

que sangue de passarinho

deixa nódoas na alma? 


Tia Aninha

 


Tia Aninha ainda não era tia

e a noite não dera lugar ao dia

quando atravessou o mar

pra trabalhar na roça

na Ilha do Mar Virado,

quando uma onda mais forte

virou a embarcação

e Tia Aninha desapareceu

puxada por um turbilhão.

E foi procurada em vão,

até que com a tristeza

içada ao mastro,

o pai resolveu voltar

para buscar socorro.

Foi aí que Tia Aninha emergiu

e o pai a socorreu.

Ainda espantada,

perguntou ao pai choroso,

o porquê de tanta tristeza

se foi só por um instante

que ela havia afundado.

Foi então que o velho esclareceu

que por quase meia-hora

de suas vistas ela desapareceu.

Foi o primeiro milagre

entre outros que aconteceram

com Tia Aninha benzedeira,

que com ervas e orações,

curava males dos corpos

e até dos corações.

E quando alguém agradecia

respondia que ela só pedia

e curar a Deus competia.

Tesouro culinário

 Quem conhece os segredos

do fundo do mar?

Essa garoupa, por exemplo,

podia ter a toca

em um baú do tesouro,

podia ter a cama

do mais puro ouro.

Essa garoupa, quem diria,

que meu avô pescou,

que minha avó cozinhou,

que no pirão se acabou,

mas deixou a certeza

que cada partícula de sabor

valeu toda aquela riqueza.

Vento terralão

 


Os ventos que desciam

Dos altos da Serra

Enchiam os panos das velas

E fazia descolar do porto os pescadores

Fazendo-os transmutar

De tíbios e tímidos terrestres

Em audazes senhores do mar.

Terra de sonhos

 

Quem andou pela

Terra do Nunca e Ilha de Utopia

sentiu-se em casa quando,

do alto do último morro avistou,

por volta de 1970,

entre árvores e bananeiras,

a Vila Escondida dos Pescadores

da Praia da Fortaleza, Ubatuba.

 

Teoria da dança

 


No começo somente as garças

bailavam delicadas valsas,

andorinhas faziam coreografias no ar

e os tangarás dançavam o cancã.

Depois veio Isadora Duncan.

Técnica de pesca

 

Uma isca na ponta de uma vara

tira um guaiá da toca

e depois é preciso agilidade

para apanhá-lo,

ou tomar um beliscão

de sua potente tenaz...

descole se for capaz.

 

Taurus


Quando o navio sai do porto,

ainda que se conheça a derrota,

há uma grande incógnita

sobre os comportamentos

dos tempos, mulheres, mares

que o destino põe

nas ondas, nos portos, nos ares.

A história está cheia

de navios festejados

que retornaram enlutados,

desde a nau Argos,

desde a capitânia de Magalhães

até ao barco Taurus

que afundou desarvorado,

ainda que cheio de glória,

nos escolhos da memória.


Tarumã

 

Neste dia de sol registro numa folha

de meu caderno de bobagens,

as ilustres visitas

que chegam ao velho tarumã,

em frente à minha janela:

corruíra, tié, sanhaço,

periquito, saíra, rolinha,

sabiá, mariquita, bem-te-vi

e andorinha que fez desfeita,

efetuou um voo rasante,

e foi esbanjar alegria adiante. 


Tapete de boas vindas

 

Quem quiser ir à casa de meus avós

tem que seguir pela praia

e subir o caminho da igreja,

desviar pela trilha de chão batido,

atravessar uma pequena ponte

e entrar no quintal enfeitado

de flores da ressurreição,

jasmins, rosas, espadas de São Jorge,

mariquinhas da serra, antúrios, onze horas,

helicônias, flores daqui, flores de fora,

para bem receber em qualquer hora,

os amigos, os parentes, a Bandeira do Divino

e a visita dos Reis Magos ao presépio do menino.


Recado de mamangava

 


Uma mamangava veio contar

que floriu a guapirijuba.

Como eu não entendo o tupi-guarani,

fui lá fora espiar e sentir o perfume.

Ora, é só o cambucá de jardim...

que mania desses seres

de querer encantar a mim.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Palhaços são poetas e vice-versa


Abri a porta com gentileza

e a deixei passar: - Primeiro as damas

e depois os cavalões!

Não sei o por quê, mas ela ficou brava:

- Ora, deixe de palhaçada!

- Obrigado pelo elogio, senhora,

sim, de vez em quando somos  patetas,

nós, palhaços e poetas.


segunda-feira, 19 de maio de 2025

Até quando?

 

Fico pensando nos pequeninos

que estão em idade de jogar futebol,

pular corda, dançar ciranda,

soltar pipas, mas não podem,

porque a qualquer hora

a maldita bomba explode,

na Ucrânia e na Palestina.

Até quando as malditas bombas assassinas

vão continuar a matar os sonhos meninos

e as esperanças ainda meninas?








domingo, 18 de maio de 2025

Festa dos bichos


A festa na floresta estava muito bacana,

as árvores se enfeitaram de flores,

os pássaros capricharam nas cores,

camaleão usou trajes de camuflagem,

crocodilo vestia lacoste,

ao leão bastou a cara e a coragem,

o macaco estava com a macaca,

tinha penosa soltando a franga,

pinguim de casaca,

Tarzan veio de tanga

e veja se adivinha

quem usava vestido de oncinha?


Bicho moluscoso?

 

Todo mundo devia fazer a experiência

de mergulhar

e ver o outro lado da existência

que existe no fundo do mar:

caranguejos, tartarugas, ouriços,

astérias,  holotúrias, hipocampos,

bichos que parecem plantas,

plantas que parecem obras de arte,

peixes por toda parte.

Só nunca vi sereia, senão aquelas com biquínis mínimos estiradas na areia, quem nem precisam cantar para quem elas querem encantar. No fundo do mar tem também, meu povo, o admirável e moluscoso polvo.