quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tarumã

 

Neste dia de sol registro numa folha

de meu caderno de bobagens,

as ilustres visitas

que chegam ao velho tarumã,

em frente à minha janela:

corruíra, tié, sanhaço,

periquito, saíra, rolinha,

sabiá, mariquita, bem-te-vi

e andorinha que fez desfeita,

efetuou um voo rasante,

e foi esbanjar alegria adiante. 


Tapete de boas vindas

 

Quem quiser ir à casa de meus avós

tem que seguir pela praia

e subir o caminho da igreja,

desviar pela trilha de chão batido,

atravessar uma pequena ponte

e entrar no quintal enfeitado

de flores da ressurreição,

jasmins, rosas, espadas de São Jorge,

mariquinhas da serra, antúrios, onze horas,

helicônias, flores daqui, flores de fora,

para bem receber em qualquer hora,

os amigos, os parentes, a Bandeira do Divino

e a visita dos Reis Magos ao presépio do menino.


Recado de mamangava

 


Uma mamangava veio contar

que floriu a guapirijuba.

Como eu não entendo o tupi-guarani,

fui lá fora espiar e sentir o perfume.

Ora, é só o cambucá de jardim...

que mania desses seres

de querer encantar a mim.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Palhaços são poetas e vice-versa


Abri a porta com gentileza

e a deixei passar: - Primeiro as damas

e depois os cavalões!

Não sei o por quê, mas ela ficou brava:

- Ora, deixe de palhaçada!

- Obrigado pelo elogio, senhora,

sim, de vez em quando somos  patetas,

nós, palhaços e poetas.


segunda-feira, 19 de maio de 2025

Até quando?

 

Fico pensando nos pequeninos

que estão em idade de jogar futebol,

pular corda, dançar ciranda,

soltar pipas, mas não podem,

porque a qualquer hora

a maldita bomba explode,

na Ucrânia e na Palestina.

Até quando as malditas bombas assassinas

vão continuar a matar os sonhos meninos

e as esperanças ainda meninas?








domingo, 18 de maio de 2025

Festa dos bichos


A festa na floresta estava muito bacana,

as árvores se enfeitaram de flores,

os pássaros capricharam nas cores,

camaleão usou trajes de camuflagem,

crocodilo vestia lacoste,

ao leão bastou a cara e a coragem,

o macaco estava com a macaca,

tinha penosa soltando a franga,

pinguim de casaca,

Tarzan veio de tanga

e veja se adivinha

quem usava vestido de oncinha?


Bicho moluscoso?

 

Todo mundo devia fazer a experiência

de mergulhar

e ver o outro lado da existência

que existe no fundo do mar:

caranguejos, tartarugas, ouriços,

astérias,  holotúrias, hipocampos,

bichos que parecem plantas,

plantas que parecem obras de arte,

peixes por toda parte.

Só nunca vi sereia, senão aquelas com biquínis mínimos estiradas na areia, quem nem precisam cantar para quem elas querem encantar. No fundo do mar tem também, meu povo, o admirável e moluscoso polvo.


sábado, 17 de maio de 2025

Infância caiçara

 

A rede elétrica ainda não existia,

notícias  só por rádio de pilha,

mas tinha música à vontade,

a trilha sonora milenar

dos canarinhos, saíras, sem-fins,

mais a melodia que só o sabiá assovia,

e uma mãe que parava o que fazia,

com o rosto iluminado por um sorriso

ao ouvir a música do nosso paraíso.






 


Pitiguari


Pitiguari, eu não sabia seu nome,
passarinho bonito para cantar
uma melodia que guardo na memória
de criança a brincar
na imensa caixa de areia
que é a restinga da Maranduba,
minha antiga aldeia.
Fiquei muito tempo desaldeado,
mas continue a cantiga, 
para melhor mostrar, pitiguari,
o rumo do retorno à landa antiga.



sexta-feira, 16 de maio de 2025

Vizinho da alegria


As crianças da vizinhança

cedo já estão a rir, a gritar, a brincar

de pique, bicicleta ou bola,

porque de tarde tem a escola

para penar com a matemática

e compensar com a gramática:

É fácil ler e a escrever,

difícil é aprender a viver.

Coisa boa

 Coisa boa é acordar com a corruíra chamando:

"Ei, ei, ei, preguiçoso, já começou o dia!"

Mas o corpo já está desperto, 

só falta retornar a alma do reino da utopia.





Poesia na periferia


Nas periferias ainda dá para escutar
a cantoria dos pássaros nas árvores
e o alarido de crianças a brincar,
de pique, de pipa, de bola de gude,
com craques do futebol a surgir,
(os melhores são de origem humilde)
Aqui os dias são cheios de possibilidades
de iniciar ou  reatar amizades:
apesar da era da tecnologia,
na periferia ainda tem poesia,







quinta-feira, 15 de maio de 2025

Menino na lua


Será que os passarinhos se divertem

quando as árvores balançam com os ventos?

Só sei que galhos acenam, pássaros assoviam

e o aluno Marquinhos se perdeu nos pensamentos,

em vez de fazer a lição,

logo passou à divagação

de como seria bom estar no pátio,

do pátio passar para a rua

e, logo depois, num pulinho,

já estava no mundo da lua.




Tem poesia nas ruas




Nem vi o cheiro,

agora só amanhã,

a luz dormiu acesa,

fiquei trancado pela lado de fora,

bom é pastel de vento,

escuta para você ver,

espere só um minuto,

só vou depois que o sol esfriar.

Faz tempo que sou criança

Faz tempo que sou criança,

mas desde uma época tão antiga

que nem existia música,

o que havia era cantiga;

na feira tinha consertadores de panelas,

afiadores de facas,

ervas para afastar urucubacas

Para ter uma ideia da minha idade,

fiz o curso de datilografia

e comprei uma olivetti

só para escrever poesia.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Tem poesia lá fora

 

Do quintal tem uma algazarra

de vozes, de risos, de gritos

da criançada a brincar,

para muitos é só algaravia,

aos meus ouvidos,

soa como boa poesia.


Mágicas de Dona Laura

 

Mamãe fazia mágicas,

manta virava cachecol;

cortina já foi lençol.

Fazia calções para os bagunceiros

com muita destreza

e saias para sua única princesa;

uma roupa do irmão velho

logo era renovada

com pó de pirlimpimpim

e servia para mim.

Menino rico


Lista de riquezas

do menino mais rico do mundo:

Avô, avó, mãe, pai, carinho,

manos, cão, passarinho

riacho, fogão a lenha, balanço na árvore,

esconderijo secreto, gibis

e plantas que dão flores,

borboletas e colibris.



terça-feira, 13 de maio de 2025

Cancioneiro popular

 


Quantos milhares de anos de práticas

e quantos ensaios fez o sabiá laranjeira 

até acertar a correta melodia 

para tão belas música e poesia?

Não entendo a linguagem

de tão antiga e bela cantiga,

só me toca no coração sua mensagem

que faz calar os outros pássaros

só para melhor escutá-lo.

E o mesmo faço eu,

só escrevo e nada falo.





domingo, 11 de maio de 2025

Papo de avô caiçara

 Era uma vez um vovô

em um bote maravilhoso

que voava em dia ventoso,

levando e trazendo o bom pescador

com um balaio de peixes, histórias,

muita conversa e vice-versa:

vocês sabem a diferença entre o cação e o tubarão?

- Quando a gente o come, é cação;

quando ele come a gente, é tubarão.