Uma mamangava veio contar
que floriu a guapirijuba.
Como eu não entendo o tupi-guarani,
fui lá fora espiar e sentir o perfume.
Ora, é só o cambucá de jardim...
que mania desses seres
de querer encantar a mim.
Uma mamangava veio contar
que floriu a guapirijuba.
Como eu não entendo o tupi-guarani,
fui lá fora espiar e sentir o perfume.
Ora, é só o cambucá de jardim...
que mania desses seres
de querer encantar a mim.
Abri a porta com gentileza
e a deixei passar: - Primeiro as damas
e depois os cavalões!
Não sei o por quê, mas ela ficou brava:
- Ora, deixe de palhaçada!
- Obrigado pelo elogio, senhora,
sim, de vez em quando somos patetas,
nós, palhaços e poetas.
Fico pensando nos pequeninos
que estão em idade de jogar futebol,
pular corda, dançar ciranda,
soltar pipas, mas não podem,
porque a qualquer hora
a maldita bomba explode,
na Ucrânia e na Palestina.
Até quando as malditas bombas assassinas
vão continuar a matar os sonhos meninos
e as esperanças ainda meninas?
A festa na floresta estava muito bacana,
as árvores se enfeitaram de flores,
os pássaros capricharam nas cores,
camaleão usou trajes de camuflagem,
crocodilo vestia lacoste,
ao leão bastou a cara e a coragem,
o macaco estava com a macaca,
tinha penosa soltando a franga,
pinguim de casaca,
Tarzan veio de tanga
e veja se adivinha
quem usava vestido de oncinha?
Todo mundo devia fazer a experiência
de mergulhar
e ver o outro lado da existência
que existe no fundo do mar:
caranguejos, tartarugas, ouriços,
astérias, holotúrias, hipocampos,
bichos que parecem plantas,
plantas que parecem obras de arte,
peixes por toda parte.
Só nunca vi sereia, senão aquelas com biquínis mínimos estiradas na areia, quem nem precisam cantar para quem elas querem encantar. No fundo do mar tem também, meu povo, o admirável e moluscoso polvo.
A rede elétrica ainda não existia,
notícias só por rádio de pilha,
mas tinha música à vontade,
a trilha sonora milenar
dos canarinhos, saíras, sem-fins,
mais a melodia que só o sabiá assovia,
e uma mãe que parava o que fazia,
com o rosto iluminado por um sorriso
ao ouvir a música do nosso paraíso.
As crianças da vizinhança
cedo já estão a rir, a gritar, a brincar
de pique, bicicleta ou bola,
porque de tarde tem a escola
Coisa boa é acordar com a corruíra chamando:
Será que os passarinhos se divertem
quando as árvores balançam com os ventos?
Só sei que galhos acenam, pássaros assoviam
e o aluno Marquinhos se perdeu nos pensamentos,
em vez de fazer a lição,
logo passou à divagação
de como seria bom estar no pátio,
do pátio passar para a rua
e, logo depois, num pulinho,
já estava no mundo da lua.
Nem vi o cheiro,
agora só amanhã,
a luz dormiu acesa,
fiquei trancado pela lado de fora,
bom é pastel de vento,
escuta para você ver,
espere só um minuto,
só vou depois que o sol esfriar.
Faz tempo que sou criança,
mas desde uma época tão antiga
que nem existia música,
o que havia era cantiga;
na feira tinha consertadores de panelas,
afiadores de facas,
ervas para afastar urucubacas
Para ter uma ideia da minha idade,
fiz o curso de datilografia
e comprei uma olivetti
só para escrever poesia.
Do quintal tem uma algazarra
de vozes, de risos, de gritos
da criançada a brincar,
para muitos é só algaravia,
aos meus ouvidos,
soa como boa poesia.
Mamãe fazia mágicas,
manta virava cachecol;
cortina já foi lençol.
Fazia calções para os bagunceiros
com muita destreza
e saias para sua única princesa;
uma roupa do irmão velho
logo era renovada
com pó de pirlimpimpim
e servia para mim.
Lista de riquezas
do menino mais rico do mundo:
Avô, avó, mãe, pai, carinho,
manos, cão, passarinho
riacho, fogão a lenha, balanço na árvore,
esconderijo secreto, gibis
e plantas que dão flores,
borboletas e colibris.
Quantos milhares de anos de práticas
e quantos ensaios fez o sabiá laranjeira
até acertar a correta melodia
para tão belas música e poesia?
Não entendo a linguagem
de tão antiga e bela cantiga,
só me toca no coração sua mensagem
que faz calar os outros pássaros
só para melhor escutá-lo.
E o mesmo faço eu,
só escrevo e nada falo.
Era uma vez um vovô
em um bote maravilhoso
que voava em dia ventoso,
levando e trazendo o bom pescador
com um balaio de peixes, histórias,
muita conversa e vice-versa:
vocês sabem a diferença entre o cação e o tubarão?
- Quando a gente o come, é cação;
quando ele come a gente, é tubarão.
Escrevo o seu nome, Ana Maria,
entre todas as palavras bonitas
que vêm na lembrança,
escrevo o seu nome
na esperança que seja cantada
pelo coral das aves canoras
ao anunciar a alvorada,
repetida por todas as criaturas,
mais os anjos em epifania
Cantando seu nome, Ana Maria.