sábado, 17 de maio de 2025

Infância caiçara

 

A rede elétrica ainda não existia,

notícias  só por rádio de pilha,

mas tinha música à vontade,

a trilha sonora milenar

dos canarinhos, saíras, sem-fins,

mais a melodia que só o sabiá assovia,

e uma mãe que parava o que fazia,

com o rosto iluminado por um sorriso

ao ouvir a música do nosso paraíso.






 


Pitiguari


Pitiguari, eu não sabia seu nome,
passarinho bonito para cantar
uma melodia que guardo na memória
de criança a brincar
na imensa caixa de areia
que é a restinga da Maranduba,
minha antiga aldeia.
Fiquei muito tempo desaldeado,
mas continue a cantiga, 
para melhor mostrar, pitiguari,
o rumo do retorno à landa antiga.



sexta-feira, 16 de maio de 2025

Vizinho da alegria


As crianças da vizinhança

cedo já estão a rir, a gritar, a brincar

de pique, bicicleta ou bola,

porque de tarde tem a escola

para penar com a matemática

e compensar com a gramática:

É fácil ler e a escrever,

difícil é aprender a viver.

Coisa boa

 Coisa boa é acordar com a corruíra chamando:

"Ei, ei, ei, preguiçoso, já começou o dia!"

Mas o corpo já está desperto, 

só falta retornar a alma do reino da utopia.





Poesia na periferia


Nas periferias ainda dá para escutar
a cantoria dos pássaros nas árvores
e o alarido de crianças a brincar,
de pique, de pipa, de bola de gude,
com craques do futebol a surgir,
(os melhores são de origem humilde)
Aqui os dias são cheios de possibilidades
de iniciar ou  reatar amizades:
apesar da era da tecnologia,
na periferia ainda tem poesia,







quinta-feira, 15 de maio de 2025

Menino na lua


Será que os passarinhos se divertem

quando as árvores balançam com os ventos?

Só sei que galhos acenam, pássaros assoviam

e o aluno Marquinhos se perdeu nos pensamentos,

em vez de fazer a lição,

logo passou à divagação

de como seria bom estar no pátio,

do pátio passar para a rua

e, logo depois, num pulinho,

já estava no mundo da lua.




Tem poesia nas ruas




Nem vi o cheiro,

agora só amanhã,

a luz dormiu acesa,

fiquei trancado pela lado de fora,

bom é pastel de vento,

escuta para você ver,

espere só um minuto,

só vou depois que o sol esfriar.

Faz tempo que sou criança

Faz tempo que sou criança,

mas desde uma época tão antiga

que nem existia música,

o que havia era cantiga;

na feira tinha consertadores de panelas,

afiadores de facas,

ervas para afastar urucubacas

Para ter uma ideia da minha idade,

fiz o curso de datilografia

e comprei uma olivetti

só para escrever poesia.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Tem poesia lá fora

 

Do quintal tem uma algazarra

de vozes, de risos, de gritos

da criançada a brincar,

para muitos é só algaravia,

aos meus ouvidos,

soa como boa poesia.


Mágicas de Dona Laura

 

Mamãe fazia mágicas,

manta virava cachecol;

cortina já foi lençol.

Fazia calções para os bagunceiros

com muita destreza

e saias para sua única princesa;

uma roupa do irmão velho

logo era renovada

com pó de pirlimpimpim

e servia para mim.

Menino rico


Lista de riquezas

do menino mais rico do mundo:

Avô, avó, mãe, pai, carinho,

manos, cão, passarinho

riacho, fogão a lenha, balanço na árvore,

esconderijo secreto, gibis

e plantas que dão flores,

borboletas e colibris.



terça-feira, 13 de maio de 2025

Cancioneiro popular

 


Quantos milhares de anos de práticas

e quantos ensaios fez o sabiá laranjeira 

até acertar a correta melodia 

para tão belas música e poesia?

Não entendo a linguagem

de tão antiga e bela cantiga,

só me toca no coração sua mensagem

que faz calar os outros pássaros

só para melhor escutá-lo.

E o mesmo faço eu,

só escrevo e nada falo.





domingo, 11 de maio de 2025

Papo de avô caiçara

 Era uma vez um vovô

em um bote maravilhoso

que voava em dia ventoso,

levando e trazendo o bom pescador

com um balaio de peixes, histórias,

muita conversa e vice-versa:

vocês sabem a diferença entre o cação e o tubarão?

- Quando a gente o come, é cação;

quando ele come a gente, é tubarão.



Substantivos coletivos


Um século de anos;
uma gataria de bichanos.
um coral de cantores;
uma constelação de astros;
uma caterva de malfeitores;
uma chusma de marinheiros;
uma tertúlia de amigos;
uma manada de carneiros;
uma miríade de insetos;
e um panapaná de borboletas.
Será que "planetário"
é o coletivo de planetas?



quinta-feira, 8 de maio de 2025

Palavras bonitas

Escrevo o seu nome, Ana Maria,

entre todas as palavras bonitas

que vêm na lembrança,

escrevo o seu nome

na esperança que seja cantada

pelo coral das aves canoras

ao anunciar a alvorada,

repetida por todas as criaturas,

mais os anjos em epifania

Cantando seu nome, Ana Maria.



Caçador de palavras

Para caçar palavras é preciso arrumar os apetrechos,

papel, lápis ou caneta,

reler os autores preferidos

para afiar a inspiração,

olhar o ambiente, sentir o clima,

não buscar qualquer uma,

tem que ser a que dá rima,

ou que faz pensar, ou que causa emoção,

algumas delas estão no ar,

outras, ao rés do chão.

Caçar palavras também é um ofício, 

e, na minha opinião, muito difícil.


Uma bola, uma bicicleta, um brinquedo de armar


Uma bola, uma bicicleta, um brinquedo de armar

são as coisas mais importantes para uma criança.

Depois vem a adolescência, a escola,

os livros, a curiosidade, 

a vida adulta, o trabalho, a complexidade,

portas se abrem, outras são forçadas,

acontece o vai e vem de pessoas,

algumas menos, outra mais amadas.

momentos para esquecer, outros para relembrar

a beleza da simplicidade da vida

do tempo da bola, bicicleta, brinquedo de armar...







terça-feira, 6 de maio de 2025

Esperanças



O planeta mal pode esperar:

Criança aprendendo a andar,

passarinho aprendendo a voar,

filhote de peixe migrando para o mar,

anjo da guarda novato aprendendo a guardar,

futuro artista a se exercitar

e a humanidade custando a se irmanar.






sábado, 3 de maio de 2025

Vida caiçara


O tempo de trabalhar se confundia com o tempo de se divertir,

o tempo de exercitar era o mesmo de caçar e pescar.

e ninguém era néscio de enfrentar

chuva forte ou sol escaldante,

Até as pessoas mais simples

tinham tempo para aprender a arte

de tocar viola ou violão, 

dançar conforme a música

ao compor uma canção.




quinta-feira, 1 de maio de 2025

Assim na terra como no céu.


O vento forte arrebentou a linha

e fez a pipa rodopiar, elevar-se

e sumir entre as as nuvens.

O menino ficou olhando até ficar com torcicolo,

mas não ficou triste porque, na verdade,

é bom que se arrebente tudo o que prende

e atrapalha a liberdade.