No meu bairro tem 20 ruas,
cada rua tem 50 casas,
cada casa tem, em média,
duas crianças e um cachorro
menos nos endereços das pessoas
que padecem, sem saber o porquê,
de solidão ou depressão.
No meu bairro tem 20 ruas,
cada rua tem 50 casas,
cada casa tem, em média,
duas crianças e um cachorro
menos nos endereços das pessoas
que padecem, sem saber o porquê,
de solidão ou depressão.
A gente caiçara aprende a não abusar
e está sempre atento à direção que sopra o vento,
ao aviso barulhento das trovoadas,
às mensagens cantadas das aves
e, sobretudo, a mais delicada sensibilidade
de escutar os avisos dos anjos da guarda
que dão sempre três sinais
segundo os pais dos pais dos meus pais.
Venha Aoi,
a gente vai pôr ordem
na bagunça do mundo
só para as crianças terem direito a:
bichinhos gato e cachorrinho
que, sem pilhas ou energia elétrica,
brincam e dão carinho;
admirar a árvore ipê
que despe a folhagem
para se vestir de ouro;
aprender com o beija-flor
a mágica de parar no ar;
entender que lagarta quando vira borboleta
ensina a lição da ressurreição;
ver para crer
que a bela adormecida verdadeira
está em Paris, na Rue du Bac,
e seu nome é Catarina Labouré.
E, para você, o que vale mais,
tem o cafuné de vovó Neide
e o amor dos pais.
A gente só sabia ler as nuvens,
acompanhar a direção dos ventos,
para perceber, antes que fosse tarde,
os sinais que anunciam a tempestade.
A gente só sabia os remédios do mato,
as sabedorias do tupinambá,
o jeito certo de conversar com Deus,
a tocar rabeca e viola,
essas e tantas outras matérias
que não ensinam em nenhuma escola.
A gente só sabia fazer a embarcação,
costurar a rede e acordar de madrugada,
para surpreender os peixes,
a gente não sabia quase nada.
Nós vivemos tempo demais no mato
para saber todos os nomes das plantas e bichos
que existem e que não existem.
E aqueles que não existem são espíritos
bons para quem é bom,
maus para quem cisma de abusar,
exemplo: Vovó Martinha dizia que fica assombrado
quem caça ou pesca na sexta-feira santa,
pois ninguém merece morrer
no dia em que o Amor foi crucificado.
Os passos, a voz e o rosto revelam muito,
até mesmo as histórias que precisavam ser esquecidas,
os trechos tranquilos e intranquilos
dos caminhos percorridos,
das palavras que cantam, encantam
e até servem de lição...
Mas o que isso tudo altera o universo?
Tanto quanto a sua música é capaz
de influenciar as melodias dos anjos,
para mim ele é Milton Sentimento, aliás.
Senhor,
me
mantenha sempre
católico
apostólico ubatubano,
devoto
de São Pedro,
para
sempre me lembrar
de
pedir vossa benção
antes
de sair para pescar.
Não
permita que acabem
com
o ofício de pescador,
para
que eu possa viver
e
sustentar o meu lar.
Dê-me
a graça de continuar
de
lançar minha rede
no
Vosso imenso mar,
para
que a cultura caiçara
nunca
venha a acabar.
Muro de arrimo
muito
bem feito
e
que põe o oceano
em
seu devido lugar
foi
Deus que construiu
ao
erguer a Serra do Mar.
É
preciso ser batizado no mar,
ter intimidade com o mar
e as marés;
o conhecimento dos ventos
e das tormentas;
saber o sabor dos caldos
e escaldados;
os detalhes das plantas
e dos desplantes;
o domínio das pontes
e dos ponteios;
enredar-se nas pescas
e histórias de pescarias;
ter o respeito e a devoção
às horas das ave-marias.
Açucena, Margarida, Jasmim,
Rosa, Violeta, Magnólia,
Jacinta, Camélia, Orquídea,
Amapola, Malva, Dália,
Hortência, Petúnia, Melissa,
e Verônica também é nome de flor,
de todas o nome mais bonito
por se compadecer de Nosso Senhor.
Experimente todas as culinárias,
aprenda a dançar ou a tocar violão,
aprenda um pouco de navegação,
tente conversar com os pássaros
como fez São Francisco de Assis,
não tenha pressa em sua jornada,
aproveite bem o transcurso da vida,
porque lá no fim, todos sabem,
tem um beco sem saída.
Querido Luís Inácio Lula da Silva,
que reconheceu os quilombolas de Ubatuba,
que pôs na lei os diretos dos pescadores
de terem um ranchinho de canoa na faixa de marinha,
seja bem vindo ao meu lar,
venha para uma refeição,
não digo que tenha pão,
pois aqui não é terra de trigo,
mas sempre tem um cuité de farinha
e um peixe deste amigo,
o quintal está perfumado de kanangas de Vovó Eugênia,
o cachorro é de boa,
os pássaros dão lições de cantos
aos sapos da gamboa,
venha sim, venha conversar
de quando a criação vai chegar à perfeição
com as pessoas a aprender com as árvores frutíferas
a conjugar o verbo ofertar.
Desconfio que essas velhinhas,