quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Ouvidos atentos para a poesia




Uma vez um menino viu
uma casa de joão-de-barro sobre outra
e perguntou para sua mamãe
se eles já não se contentavam
em ter casas térreas.
De onde as crianças
tiram tanta poesias e ideias?

Telúrico


Sei da minha condição telúrica,
mas muitas vezes eu fico tão tontinho
que até dá vontade de cair fora...
Mas também com esse planeta
rodando em volta do próprio eixo
à velocidade de 1700 km por hora!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O pescador Zé Almiro


Na rede de tresmalhos
tresmalhou uma cambeba
daquelas brabas
que espadanou, saltou e fugiu.
A rede ficou lá toda estragada,
da cambeba ficou só o suspiro
Mãe do céu, cada coisa acontece
com a rede do Zé Almiro

domingo, 29 de setembro de 2019

Duas mães



Quando expliquei para mamãe
que eu precisava cair na estrada,
ela arrumou na minha mochila
roupas limpas, dinheiro,
documentos e, por último,
antes de ir-me embora,
para eu não ficar sem mãe nenhuma,
deu-me uma medalha de Nossa Senhora.

Você sabia que o sabiá sabia assobiar?





O passarinho alma-de-gato
tem pios que lembram miados;
o passarinho bem-te-vi
com avisos de advertência
faz a segurança das matas;
já o sabiá aprendeu a cantar
com o Arcanjo Gabriel
só para depois vir à Terra
nos trazer música do céu.



sábado, 28 de setembro de 2019

Amor de mãe




Mamãe sempre nos inspecionava
para ver se os cabelos estavam penteados,
roupas limpas, os sapatos lustrados
e depois nos deixava sair pelo mundo
para estudar, para trabalhar, para namorar...
No fim do dia, cansados, sujos,
bem tratados ou maltratados,
ela nos recebia de volta
com o café quentinho, a bênção maternal
e a oração do rosário
para nos proteger de todo mal.


domingo, 15 de setembro de 2019

Quando o céu toca a Terra














Na época em que os ipês se enfeitam,
em que os sabiás começam a cantar,
e as nuvens cobrem a serra,
é quando o céu toca a Terra.
Sentidos atentos, então,
mamãe deixou-nos muita herança
roseiras de todas as cores
e o perfume da flor-do-japão,
rezava o terço todos os dias
e pedia por todos os seus,
dizia um chiste, rezava uma ave-maria
e assim alcançou as graças de Deus.
Foi bem numa época assim
que um anjo passou por mim,
eu no meio de uma multidão,
sacolas de compras nas mãos,
minhas mãos estavam ocupadas,
minha mente em outra sintonia,
como eu poderia abraçá-lo
se em meu coração ele não cabia?
Você viu o que eu vi?
perguntei a uma senhora.
Ela nem precisou responder
o que, em seu rosto, podia-se ler.





Luz contra as trevas











Cuidado, meus amigos,
os pseudo-ditadores retornaram
com posturas ou palavras de intimidação,
são gente sem graça e sem cerimônia
que trazem nuvens escuras para o Brasil
e não é só o incêndio da Amazônia.

Meus amigos, peço a vocês
que mantenham viva a esperança,
pois somos o povo dos livros
e vamos derrotar a ignorância,
escrevam poesias, abracem a liberdade,
pratiquem a coerência, façam canções,
leiam romances, defendam a verdade.

Coragem, meus amigos,
continuem firmes no bom combate
e não esqueçam de estender a mão
àqueles que são mais vulneráveis
que estão por aí, nos mares,
a bordejar na resistência,
ou a enfrentar as correntezas
na peleja pela sobrevivência.


sábado, 7 de setembro de 2019

À margem do Brasil













Tá vendo essa estrada, rapaz,
ela sobe serra acima
até chegar no Brasil.
O Brasilzão fica lá no alto
e nós vivemos cá na borda
que nem era terra há cinco mil anos,
pois o oceano chegava cá no piemonte.
Tudo isso que você está vendo,
casas, prédios, condomínios,
marinas construídas sobre o manguezal,
tudo isso já foi mar e você sabe, 
o que é dele, ele vem buscar...
Me diga, rapaz, você sabe nadar?


Queimada no coração do Brasil


Foge, capivara,
entoca, tatu,
voa, arara,
mergulha, jacaré,
corre, paca...
Ai, meus São Francisco de Assis,
Curupira tupinambá,
anjos da guarda, matimpererê,
a ignorância dos incendiários
quem haverá de deter?


Agosto, mês do desgosto.

Quero deixar aqui um recado de José Almiro, meu avô,
para os piromaníacos
que querem fazer dos cerrados, um deserto
e da Amazônia, um inferno:
"Quem faz coivara em julho ou agosto
só colhe desgosto."

domingo, 1 de setembro de 2019

Não vacile na ortografia



Meus pais, vou viajar pelo país,
vou provar as mangas e os mangás,
quero beijar a miss de maio, de maiô,
que sabe que baba está para babá,
assim como camelo está para camelô.
Além de bela, ela é sábia, sabiá!


sábado, 31 de agosto de 2019

Vai tomar banho, Cabral!












Quando Pedro Álvares Cabral chegou em Pindorama
só para encher o saco e torrar a paciência,
meu antepassado não foi na conversa fiada dele, não.
Ele mostrou uma galinha e meu vovô mostrou um jacu;
ele ofereceu vinho do porto e meu avô, o cauim;
ele apresentou a maçã e meu avô, o caju;
o luso lhe deu farinha de trigo e meu avô, de mandioca;
o excomungado deu um caramelo e meu avô devolveu uma paçoca;
ele disparou um trabuco e meu avô, no ato, truco!,
convocou um boitatá e pôs toda a galera para dançar.
A última vez que ele espiou, as caravelas tomavam o rumo do norte,
e o que ficou na lembrança foi que fediam como a morte.

domingo, 25 de agosto de 2019

Recenseamento














A primavera está chegando
e é tempo de fazer o balanço
da população de casa:
pessoas, cinco;
cachorros, dois;
cambucás de jardim, dois;
pé de rabo-de-galo, um;
cajueiros, dois;
flores da ressurreição, quinze;
gatos, seis;
e, num buraco da parede,
um casal de corruíras
que logo serão mais três.


sábado, 24 de agosto de 2019

Regras do futebol caiçara












Para jogar futebol na praia
não é preciso goleiro,
as traves são gravetos, pedras ou chinelos,
separados por um passo de distância;
deve-se jogar descalço
e não ter medo de canelada,
de afundar os pés na areia macia
ou de machucar a sola na areia grossa;
é necessário horário de pouca insolação,
pelear atrás da bola até dentro d'água
e preferir o estirâncio das ondas
onde a areia é mais compacta.
E para perdedores e vencedores,
depois que o jogo acabar,
o prêmio é um banho de mar.





Poesia para Laismel




Algumas pessoas são amargas,
outras são doces,
mas só há uma Laismel.

Poesia na prática



Gosto de sair por aí
a distribuir cumprimentos
e palavras de gentilezas
para conhecidos e desconhecidos.
Não pega bem asperezas
em um planeta tão esférico.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Tudo o que ele queria era nos abraçar













Gosto muito de reler a antiga história
do jovem que se arriscou a sair pelo mundo
a convencer as pessoas
a amarem uns aos outros,
a respeitar todo ser vivo,
a louvar a Deus pela Terra,
pelas árvores e pelos bichos...

E saiu em andanças,
dando pão a quem tem fome,
dando água a quem tem sede,
curando quem era cego,
consertando a vida de uns e outros
e até ressuscitou mortos.

Depois de tanto amor e bem,
quando pensou que ia ser amado,
trataram-no com mentiras e pancadas
e o mataram na cruz.

Agora penso como estaria o mundo
se ele fosse bem recebido
e se pudessem compreendê-lo?
Tudo o que ele queria era nos abraçar.





Mil em uma

Num dia ela se trata,
noutro ela relaxa,
tem vez que está descalça,
noutra, usa botas...
Quem me atenderá
quando eu bater à sua porta?

sábado, 10 de agosto de 2019

Peixe sapreso












A cambeba fez um estrago no tresmalho
do Zé Almiro, meu avô,
que não teve pesca a semana toda
e  a gente teve na mistura das refeições
a criação do quintal,
pato, galinha e marreco.
Eu pedi e vovó fez peixe sapreso com banana-verde.
Já Tio Tonico atravessou a espingarda nas costas
e subiu o morro com uma carga de abricó
para preparar a ceva das pacas,
a melhor carne quando ainda não existiam as vacas.