domingo, 15 de setembro de 2019

Luz contra as trevas











Cuidado, meus amigos,
os pseudo-ditadores retornaram
com posturas ou palavras de intimidação,
são gente sem graça e sem cerimônia
que trazem nuvens escuras para o Brasil
e não é só o incêndio da Amazônia.

Meus amigos, peço a vocês
que mantenham viva a esperança,
pois somos o povo dos livros
e vamos derrotar a ignorância,
escrevam poesias, abracem a liberdade,
pratiquem a coerência, façam canções,
leiam romances, defendam a verdade.

Coragem, meus amigos,
continuem firmes no bom combate
e não esqueçam de estender a mão
àqueles que são mais vulneráveis
que estão por aí, nos mares,
a bordejar na resistência,
ou a enfrentar as correntezas
na peleja pela sobrevivência.


sábado, 7 de setembro de 2019

À margem do Brasil













Tá vendo essa estrada, rapaz,
ela sobe serra acima
até chegar no Brasil.
O Brasilzão fica lá no alto
e nós vivemos cá na borda
que nem era terra há cinco mil anos,
pois o oceano chegava cá no piemonte.
Tudo isso que você está vendo,
casas, prédios, condomínios,
marinas construídas sobre o manguezal,
tudo isso já foi mar e você sabe, 
o que é dele, ele vem buscar...
Me diga, rapaz, você sabe nadar?


Queimada no coração do Brasil


Foge, capivara,
entoca, tatu,
voa, arara,
mergulha, jacaré,
corre, paca...
Ai, meus São Francisco de Assis,
Curupira tupinambá,
anjos da guarda, matimpererê,
a ignorância dos incendiários
quem haverá de deter?


Agosto, mês do desgosto.

Quero deixar aqui um recado de José Almiro, meu avô,
para os piromaníacos
que querem fazer dos cerrados, um deserto
e da Amazônia, um inferno:
"Quem faz coivara em julho ou agosto
só colhe desgosto."

domingo, 1 de setembro de 2019

Não vacile na ortografia



Meus pais, vou viajar pelo país,
vou provar as mangas e os mangás,
quero beijar a miss de maio, de maiô,
que sabe que baba está para babá,
assim como camelo está para camelô.
Além de bela, ela é sábia, sabiá!


sábado, 31 de agosto de 2019

Vai tomar banho, Cabral!












Quando Pedro Álvares Cabral chegou em Pindorama
só para encher o saco e torrar a paciência,
meu antepassado não foi na conversa fiada dele, não.
Ele mostrou uma galinha e meu vovô mostrou um jacu;
ele ofereceu vinho do porto e meu avô, o cauim;
ele apresentou a maçã e meu avô, o caju;
o luso lhe deu farinha de trigo e meu avô, de mandioca;
o excomungado deu um caramelo e meu avô devolveu uma paçoca;
ele disparou um trabuco e meu avô, no ato, truco!,
convocou um boitatá e pôs toda a galera para dançar.
A última vez que ele espiou, as caravelas tomavam o rumo do norte,
e o que ficou na lembrança foi que fediam como a morte.

domingo, 25 de agosto de 2019

Recenseamento














A primavera está chegando
e é tempo de fazer o balanço
da população de casa:
pessoas, cinco;
cachorros, dois;
cambucás de jardim, dois;
pé de rabo-de-galo, um;
cajueiros, dois;
flores da ressurreição, quinze;
gatos, seis;
e, num buraco da parede,
um casal de corruíras
que logo serão mais três.


sábado, 24 de agosto de 2019

Regras do futebol caiçara












Para jogar futebol na praia
não é preciso goleiro,
as traves são gravetos, pedras ou chinelos,
separados por um passo de distância;
deve-se jogar descalço
e não ter medo de canelada,
de afundar os pés na areia macia
ou de machucar a sola na areia grossa;
é necessário horário de pouca insolação,
pelear atrás da bola até dentro d'água
e preferir o estirâncio das ondas
onde a areia é mais compacta.
E para perdedores e vencedores,
depois que o jogo acabar,
o prêmio é um banho de mar.





Poesia para Laismel




Algumas pessoas são amargas,
outras são doces,
mas só há uma Laismel.

Poesia na prática



Gosto de sair por aí
a distribuir cumprimentos
e palavras de gentilezas
para conhecidos e desconhecidos.
Não pega bem asperezas
em um planeta tão esférico.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Tudo o que ele queria era nos abraçar













Gosto muito de reler a antiga história
do jovem que se arriscou a sair pelo mundo
a convencer as pessoas
a amarem uns aos outros,
a respeitar todo ser vivo,
a louvar a Deus pela Terra,
pelas árvores e pelos bichos...

E saiu em andanças,
dando pão a quem tem fome,
dando água a quem tem sede,
curando quem era cego,
consertando a vida de uns e outros
e até ressuscitou mortos.

Depois de tanto amor e bem,
quando pensou que ia ser amado,
trataram-no com mentiras e pancadas
e o mataram na cruz.

Agora penso como estaria o mundo
se ele fosse bem recebido
e se pudessem compreendê-lo?
Tudo o que ele queria era nos abraçar.





Mil em uma

Num dia ela se trata,
noutro ela relaxa,
tem vez que está descalça,
noutra, usa botas...
Quem me atenderá
quando eu bater à sua porta?

sábado, 10 de agosto de 2019

Peixe sapreso












A cambeba fez um estrago no tresmalho
do Zé Almiro, meu avô,
que não teve pesca a semana toda
e  a gente teve na mistura das refeições
a criação do quintal,
pato, galinha e marreco.
Eu pedi e vovó fez peixe sapreso com banana-verde.
Já Tio Tonico atravessou a espingarda nas costas
e subiu o morro com uma carga de abricó
para preparar a ceva das pacas,
a melhor carne quando ainda não existiam as vacas.


sábado, 27 de julho de 2019

É coisa nossa




Mano do céu,
pindaíba, faniquito, gororoba,
urucubaca, mixuruca, piripaque,
peteleco, pororoca, jabuticaba,
ideia de jerico, biruta, cafuné,
só existem no Brasil!

Para Victor




No tempo em que os homens
tinham a caverna como teto
o joão-de-barro já era arquiteto.

domingo, 21 de julho de 2019

Fiquem atentos



E teve um dia que a sorte passou por mim,
mas eu estava tão desligado
que ela foi bater na casa ao lado.

Casa de caiçara



A casa mais segura do mundo
é protegida por uma cerca viva de hibiscos
que atraem todas os beija-flores, mariquitas,
abelhas e mamangavas da vizinhança,
que só deixam passar a criançada
e outros bichos andejos à sua semelhança.


Construção da liberdade







Uma marreta ainda é a melhor ferramenta
para gravar a palavra liberdade nos muros.




domingo, 14 de julho de 2019

Aulas de poesia


Vovó, o que a senhora está fazendo?
Estou misturando gordura e cinzas,
duas coisas muito sujas,
para fazer sabão e deixar tudo mais limpo.
Vovó, o que a senhora está fazendo?
Estou fazendo enxertos
para ter rosas de duas cores.
Vovó, o que a senhora está fazendo?
Estou colocando as brasas para dormir
debaixo das cinzas do fogão a lenha.
Vovó Eugênia era assim,
a todo instante dava aulas de poesia.

Sabedoria de Vovó Eugênia




Menino, me ajude a recolher o café espalhado no terreiro,
porque vai chover, venha ver, está escrito no céu.
Eu olhei o céu para todos os lados, mas não consegui ler nada,
naquela época eu era analfabeto em sabedoria popular.