A casa mais bonita do bairro está escondida
por bananeiras, juçaras e até um pé de cambucá,
maravilhas desta terra em que plantando tudo dá.
A casa mais bonita do bairro está escondida
por bananeiras, juçaras e até um pé de cambucá,
maravilhas desta terra em que plantando tudo dá.
Um quintal fica bem melhor
se tirar o muro cinzento e morto
e plantar uma cerca viva em seu lugar
com flores, colibris e borboletas
borboleteando no ar.
É preciso alimentar bem os gatos,
plantar flores de todas as cores e de todos os cheiros,
quebrar os concretos dos pátios e os asfaltos das calçadas,
pensar como pássaros, principalmente os colibris,
derrubar os muros mortos, construir cercas vivas
e, por fim, pôr Milton Nascimento de música chamariz.
Antigamente o tempo era dividido direitinho
entre a claridade do dia e a escuridão da noite.
A luz iluminava os seres humanos e seus ofícios,
que, de tanto elucubração,
inventaram archotes, lâmpadas a óleo, lampiões de gás,
luz elétrica e foram avançando
sobre os domínios das sombras,
chegando ao ponto de não restar aos boitatás
senão o refúgio no espaço das lendas.
Eu aqui vou ouvindo histórias, palavras, músicas
que guardo na memória,
para, quiçá, formar outras histórias.
Se novas histórias não se formarem, não tem problema,
sei marear o barco nos piores ventos,
e sempre dá para construir um novo poema...
No coração das estrelas é que se formam os novos elementos.
Um de meus avós, sem brincadeira,
chegou aqui e conheceu a farinha da terra,
a banana da terra e o canto do canário da terra,
então resolveu esquecer Portugal e suas parcimônias,
rasgou a certidão de nascimento e sem mais cerimônias
tratou de arranjar uma tupinambá,
minha antepassada, Vó Dina,
que ensinou tudo o que a gente sabe,
de remédios da mata às técnicas de pescar.
Eu, meu pensamento e mais o que o vento traz:
idiomas de pássaros,
rios contando sobre as chuvas no alto da serra,
histórias antigas de árvores e bichos
que os avozinhos também já tinham ouvido...
Ninguém fica solitário nas latitudes tropicais,
já os ventos dos desertos falam só a língua
das pedras e areais.
Mar azul, areia branca,
cabelos lisos e escuros, pele morena,
serra verde, café preto, bananas amarelas,
farinha de mandioca tem que ser torrada,
mulheres dos olhos verdes, todas elas minhas parentes
e não há cor nenhuma nos rios de águas transparentes.
Pensa em um curta planície toda praia e restinga
entre os esporões da Serra do Mar,
pensa em uma casa branca e azul
no meio de um pomar,
pensa em cafeeiros, bananeiras,
aqui um limoeiro, adiante duas jabuticabeiras,
pensa em detalhes como um jardim
frequentado por colibris, borboletas
e criaturas celestes em geral,
pensa em uma avózinha querendo aperfeiçoar
a natureza com mais perfumes e cores,
que plantou uma flor-trepadeira no pé do coqueiro
que subiu, subiu e encheu o céu de flores.
Quando tudo parecia perdido,
quando as trevas venciam a luz
e a ignorância atacava a ciência,
eis que surge uma adolescente
e, com toda sua fragilidade e inocência,
assesta um golpe profundo na violência.
Obrigado, Deus de Amor,
meu Deus e Deus de Malala,
foi mais uma lição para a gente,
nem a força de uma bala
transpassa um coração valente.
Quem disse que as meninas não podem estudar?
Estudar é perigoso, faz o injustiçado acordar
a leitura burila a mente e deixa a pessoa consciente.
O que mete medo na vilania
é que a educação e conhecimento
podem desvendar uma alma vazia.
Quando crescer eu vou comprar um barco à vela
para me levar aonde o vento sopra,
vou pintá-lo de nuvens e ondas
e chamá-lo de valente.
Vou deixar de bobagem,
navegar só de cabotagem,
ter amigos em cada porto,
pescar o peixe grande e soltar o filhote,
assistir o espetáculo dos golfinhos,
respeitar os sinais dos tempos,
fugir das tempestades,
e ter tenência das coisas,
pois, como disse vovô José:
"escute e veja se não erra,
o pior dos tubarões
muitas vezes está em terra".
Não se escrevia,
Mas se praticava poesia,
Vovó costurou uma blusinha
para um franguinho doentio transido de frio.
Foi o tempo de repô-lo no quintal
E o gavião catar o bichinho,
Mas ficou só com a flanela
E deixou na Terra um escarcéu
De pinto que pia
De neto que berra
De avó que se ria.
Quem ultrapassou as alturas
Não quer voltar ao chão
Quem conheceu o céu
Não se limita à Terra
Quem provou das liberdades
Quer que vá para o inferno
O ditador e suas maldades.
No meu país ideal, aliás,
Fechará a escola superior de guerra
E abrirá a escola superior de paz.