sábado, 3 de abril de 2021

Amor saudável

  


Minha namorada é vegetariana
e ela me beija, me ameixa,
me faz um carinho,
uma salada de frutas e pergunta:
- Que couve?

 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Amarras

 



Reparem bem nas casas antigas:

como são bem construídas

com telhados centenários,

de madeira bem ajustadas

por grandes travas, pregos,

mais as teias das aranhas

feitas com muita paciência,

que justamente é o segredo

de tanta resistência.


Ambrosia

 

Vovó fazia um pirão tão bom

Com garoupa e coentro

Cujo cheiro subia pela chaminé

E chegava até ao céu

Com tão agradável odor

Que, Nosso Senhor,

cedo, para lá a levou.

Além da viagem

 

No começo não tinha estradas

e a gente ia aos lugares

por trilhas centenárias

feitas em primeiro lugar

pelos bichos que andam em carreira:

caititu, paca, tapir, formiga de correição…

A gente ia mais longe antigamente

porque viajava a pé.

Alegria no mar

 

Espio as nuvens arrastadas pelos ventos

que vão despejando chuva no mar,

como se estivessem regando um jardim.

E acho que por milagre brotam botos,

contentes toda a vida, aos saltos e trambolhões,

achando graça, salvo engano,

só porque a chuva está lavando o oceano.


Aldeia Global


 


Meu avô colhia café, banana e feijão,
que rendiam arroz, carne de charque
e pilhas pro rádio de ondas curtas
que captava a rádio tupi
e a globo-bo-bo do Rio de Janeiro.

A cobra caninana

 

 
Quando a escolinha agrupada do primeiro grau

da praia da Fortaleza era no sopé do morro,

no meio do bananal,

uma cobra caninana foi se enrodilhar

entre os caibros do telhado para aprender o beabá.

Mas acabou sendo expulsa, tão logo foi notada,

porque não estava inscrita no livro de chamada.

Abaetê Tupi

 


 

Onde foi parar o tamoio

que morava aqui?

Parte fugiu para o norte

e parte continua nos costumes,

nas técnicas de pesca e de agricultura,

nos nomes das plantas, de animais, de lugares

e no sangue dos caiçaras.

Minha avó dizia: esse curumim tá muito aíbo,

só come um cuí de comida.

Quem for tupinambá que entenda.

A benzedeira Tia Aninha morreu

 


 

Quem vai continuar

a receitar padre-nosso

e emplastro de plumera

para machucados e feridas?

Quem vai puxar a novena

e o ponto de caramelo

para adoçar a vida?

Quem vai dar lições

de mistérios e orações

em terços de capiá?

Quem vai abrir o véu

e explicar pra gente

sobre os assuntos do céu?

Poeminha caiçara

 Antes do Progresso  

a simplicidade

estava em voga,

até as doenças

eram simples

e as pessoas sofriam

de quebranto,

defluxo,

dor nas cadeiras,

espinhela caída,

paixão recolhida,

e golpe de vento

era cama na certa. 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Atalho para o mar



A estrada mais linda 

que ligava minha casa ao mar 

era rio abaixo na canoa de meu avô

que ia nos dizendo os nomes

das árvores, peixes, aves e, 

de vez em quando, até poesia,

enquanto remava a canoa: 

- "Olha, meu filho,  borboleta é uma flor que voa."

quarta-feira, 3 de março de 2021

Homenagem às professoras porretas


Todos os dias os jornais trazem notícias ruins
de violências covardes e assassinatos de mulheres.
E os culpados têm a cumplicidade
do juiz que perdoou o feminicida,
do idiota que quebrou a homenagem a Marielle Franco,
do político que homenageou o torturador de mulheres
e de quem, mesmo já antevendo o mal,
assim mesmo o elegeu.

Quanto tempo vai demorar para virar a página
e começar uma nova história
sem Joana D'Arc queimada,
sem Maria Madalena apedrejada
e sem Maria da Penha baleada?
Quando vai começar o novo capítulo
em que as mulheres tenham igualdade
no trabalho, no salário e nas oportunidades?

A nova história vai começar na consciência 
das pessoas
para não repetirem palavras de ódio;
para não acreditarem
que lugar de mulher não é na política;
para se somarem a quem está
na resistência contra os fascistas.

Quem tem essa sabedoria
sabe qual lado está no jogo da existência,
toma partido a favor da vida
e tem a consciência
que serão as novas Evas
que vencerão as forças das trevas.






domingo, 21 de fevereiro de 2021

Pobrezas e riquezas caiçaras

 








A casa de caiçara era simples 

com reboco sobre as paredes de pau-a-pique,

telhado com ripas de jiçara

e telhas que não existem mais,

telhas feitas nas coxas.

Janelas e portas sempre ficaram abertas

para entrar a luz do sol, a brisa do mar,

crianças a todo instante e, de vez em quando,

um passarinho que errava de rumo.

As plantas do jardim sempre foram bem cuidadas,

como podem declarar

os fiscais das flores desta comarca,

borboletas, colibris e mariquitas.

A casa era guardada por um cachorro viralata,

mas quem nos protegia mesmo era São Miguel Arcanjo,

vovó o viu apenas uma vez na vida

quando voltava da reza do rosário na capela.

- Ele é uma pessoa muito muito grande, dizia ela.


Nostalgia de tarde de domingo








É de entristecer um quintal sem criação,

sem galinhas a ciscar,

sem, pelos menos, três espécies de roseiras,

sem crianças a reinar,

sem um cachorro viralata sequer...

eu acho a coisa mais triste do mundo

um balanço  onde só o vento é quem brinca.


Sabedoria de Seu Júlio



Desperto cedo e vou espiar o mar
para constatar que o caiçara já tinha acordado,
visitado o pesqueiro
e retirado os peixes do tresmalho.
- Por que tão cedo, pescador?
- Ora, cada um tem que saber o que é,
eu não fui feito para o sol,
pois não sou mandacaru
e nem tenho couro grosso de jacaré.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A voz da experiência




Com tantas coisas interessantes

para brincar de vir a ser:

tarzan entre as árvores,

jogador de futebol,

buscador de mães do ouro,

aprendiz de pescador,

dançarino de cirandas...

Eu acabei, olha só,

de gravata e paletó.

Poema do aprendizado

 


Eu não sabia que não sabia, por exemplo,

morar longe do mar, 

navegar só nos panos, 

brincar de namorar,

pedalar a bicicleta...

então eu fui lá e quebrei a cara.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Recomeço


Com máscaras nos rostos
só nos resta ler os olhos,
ouvir as palavras e
apreciar os gestos
para superar o distância pandêmica
que nos afastou uns dos outros.
Mal posso esperar o recomeço,
especialmente da esperança
de que a escola é lugar para se gostar;
de que o povo vai acordar
e o homem violento vai tombar;
de que os falsos profetas não enganarão mais,
e o dinheiro já não comprará mais consciências;
de que a ignorância não é mais do que  a ciência
e de que, quando passar esta pandemia,
se outra vier, que venha a da empatia.



Recomeço

 


No meio do caminho tem uma pedra, 

mas que pedra, Senhor CDA!,

um obstáculo microscópico, 

um vírus, ser incompleto que nem tem DNA,

mas que virou pandemia,

que perturbou a vida,

que puxou o freio da economia:

fecharam os hotéis e pousadas,

nada de festas e carnavais,

nenhuma viagem de avião,

aulas só virtuais

e cancelaram até os abraços nos avós.

Médicos, médicas, enfermeiros e enfermeiras

ministram oxigênio e a esperança da cura;

cientistas procuram soluções,

poetas procuram rimas:

adrenalina, celestina, aglutina, vaticina,

hemoglobina, horizontina, examina,

penicilina, raciocina, reexamina, 

serotonina, interdisciplina, nitroglicerina

até chegar, Cristina, ufa!, na descoberta da vacina.












sexta-feira, 27 de novembro de 2020

No reino de Dona Martinha












Meus avós pescaram muito
e também cultivaram bananas,
 filhos e netos em pencas
e a terra ficou pequena
para tamanha produção.
Teve quem foi para cidade grande,
quem permaneceu no lugar,
quem nem ligou,
quem continuou a pescar,
quem estudou
e quem sentiu o tempo passar.
Teve toda uma geração  que saiu
em busca da terra prometida
com casa, pomar e criação no terreiro,
ai, Vovó Martinha,
exatamente o que a gente já tinha.