domingo, 24 de dezembro de 2017
Mas no final a poesia vencerá
Corte de verba da educação,
redução de investimentos,
fechamento de hospitais,
economia de mercado,
jogo com baralho marcado,
marche, ordinário,
ordem e retrocesso,
déficit social, superávit primário.
No governo da oligarquia
não tem vez para a poesia.
Pausa para balanço
tem uma estreita viela
que acaba em um quintal
onde tem uma pitangueira,
um limoeiro, roseiras
e uma goiabeira com um balanço.
E no balanço tem uma criança que brinca
um limoeiro, roseiras
e uma goiabeira com um balanço.
E no balanço tem uma criança que brinca
de vai e vem sobre o planeta.
Recorte de documento antigo
Saibam quantos o presente edital virem
ou dele conhecimento tiverem,
que pretendem casar-se,
ele, José de Tal,
ele, José de Tal,
nascido aos 15/08/1913,
nacionalidade brasileira,
nascido, residente e domiciliado
neste município;
neste município;
ela, Maria das Mercês,
nascida aos 03/07/1920,
nacionalidade brasileira,
nascida, residente e domiciliada
nesta freguesia...
e o resto virou poesia.
nesta freguesia...
e o resto virou poesia.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Mudando o destino
Lagarta que assusta
vira borboleta que encanta;
pororoca faz o rio correr ao contrário;
ostra ferida
produz pérola para não sentir dor;
a vida vence a morte: ressurreição;
Davi enfrentou Golias;
bem-te-vi bate no gavião;
besouro não foi feito pra voar,
mas, na boa, ele voa.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Eu estava lá
Naquele tempo o mundo era das crianças
e as mães as deixavam brincar
em grupo ou a sós com o anjo da guarda,
então o menino desceu a estrada da praia
e chegou à capela de S. João
de frente para a baía da Fortaleza,
e ficou admirando o Atlântico.
No mar tinha um cardume de sardinhas se deslocando,
atrás delas os botos fazendo evoluções
como um balé ensaiado
e gaivotas que se atiravam às ondas, suicidas,
que nada, foram mergulhos
para deixarem o menino maravilhado.
Céu nos olhos
Fabiano Lopes, meu bisavô,
de tanto cismar com os mistérios
e ficar olhando as nuvens
para tentar flagrar os anjos
na brincadeira de esconder
entre os estratos e os cúmulos
nunca viu nenhum deles no céu
porque estava sempre com os pés no chão.
sábado, 9 de dezembro de 2017
Má pedagogia
Se as origens não fossem tão humildes,
o rumo da vida do menino
já estaria traçado desde o berço
casa-escola-emprego-sucesso
e nada ficaria no improviso
como de fato aconteceu:
andou, tropeçou, catou os cacos,
reergueu-se, caiu acolá
até acertar o caminho por outras vias.
Aprender com as quedas
é a pior das pedagogias.
Palavras em nheengatu
O mais analfabeto dos meus avós
sabia costurar rede de pesca,
sabia onde o peixe se escondia
e conhecia-os todos pelos nomes,
gornia o cabo de içar os panos
para a canoa correr no vento
e usava palavras proibidas
pelo decreto do Marquês do Pombal:
charungo é armadilha para tatu,
tacuruba é fogão rústico,
carapirá é o pássaro fragata
e com ele aprendi
que taturana não existe,
o certo é tatarana.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Poema para Ana Maria

Qualquer dia desses
eu gostaria que você acordasse, de novo,
menina que reparava nas flores e nas borboletas,
e nunca nas pedras que haviam no caminho.
Que contava histórias de viagens
e lugares que conheceria
enquanto somava os trocados
para comprar um enfeite para os cabelos,
como se pudesse melhorar
o que já estava perfeito.
Que colocava um LP para tocar
e dançava até depois
que a música já tinha terminado.
Eu gostava, mana, quando havia
um pouco do mundo da lua
na rotina do dia-a-dia.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Elegia
Meus amigos, minhas amigas,
vocês repararam que nos últimos dias
o tempo esteve chuvoso e tristonho?
Alguém ouviu alguma catira,
fandango, toada de congada,
alguém ouviu algum passarinho cantar?
É que anteontem
arrebentou a última corda da viola
do mestre Benedito Fernandes de Cristo.
Chorem de saudades, amados meus,
mas fiquem sabendo que um clarão de sol
acabou de avisar
que Benedito Fernandes já foi presenteado
com uma nova viola por São Gonçalo do Amarante
e já está ensaiando um novo ponteado.
.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
A primeira vez que o menino voou
Menino era ainda pequeno e estava doentinho,
então desejou voar e voou,
igualzinho voa o pássaro carapirá.
Do alto viu o tamanho do mundo,
uma maravilha,
com as terras se desdobrando em outras terras
e o mar se perdendo sem acabar
até ao horizonte onde some.
Mãe então o chamou para comer banana assada
e findou o voo na vertigem da fome.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Quando eu vivia no meio natural
Este que está na sua presença não sou eu,
este sujeito de calças, camisa social, o escambau,
passando calor no país tropical,
pagando o pecado de Pai Adão
e perdido em meio à civilização, não sou eu.
Minha alma está no meio do mato
prestando atenção na arenga dos pássaros
para saber onde tem cambucá maduro,
araçá amarela, bacupari e ai!, o cambuci.
sábado, 18 de novembro de 2017
Matéria-prima
Tem gente que ajunta postais,
outros guardam fotografias,
eu coleciono histórias
para fabricar poesias.
A casa do artista
No bairro mais colorido,
na rua mais alegre,
na casa que mais parece
que saiu do reino de Renoir,
mora o pintor Vicente,
que veio migrante
com a missão de colorir o Brasil,
e, até o presente momento,
meia tarefa ele já cumpriu.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Sonhos siderais
O planeta gira em volta do Sol,
que gira em torno da galáxia,
que gira solta no universo,
que também gira, gira, gira
desde que foi sonhado,
porque nem tudo que existe
teve que ser criado.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Sondando o tamanho do nada
Fui dar uma espiadinha
no começo dos tempos
e não gostei do vi,
não tinha tempo nenhum lá.
Fui checar como começou
a criação do espaço,
e o espaço não existia.
Fiquei tomado de angústia,
igual criança que, de repente,
se perde da família.
sábado, 4 de novembro de 2017
Canção para Ubatuba
Alô, lugar onde eu nasci,
quantas saudades eu estava
das matas que descem da serra
como uma onda verde sobre o mar,
das cachoeiras das nascentes entre as nuvens
que trazem lá do céu algo que acalma
e cura as dores da alma.
Ai, que vontade de mergulhar
nas águas do presente
e emergir no tempo dos caiçaras
donos do lugar,
com a restinga de casas simples,
com ranchos de canoas ao lado,
varais para estender as redes de pesca,
jiraus de secar peixes,
as crianças brincando nos quintais
e os anjos da guarda sossegados,
porque no meio dos guris
quem mais se diverte é o menino Jesus.
Flores no jardim de Deus
No meio da boniteza da mata
é comum encontrar canteiros naturais
de lírios-do-brejo
ou de mariquinhas-da-serra
com uma ou outra flor
carregada pelo vento
ou será borboleta?
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Dê-me sua mão
A vida é uma aventura
que se desdobra em vários atos
que avançam por muitos caminhos
e nenhum deles foi feito
para desbravarmos sozinhos.
Paisagens se sucedem,
experiências, gostos e rostos
enriquecem a memória
e a idade traz a certeza
que o sal de viver será mais apreciado
quanto mais compartilhado.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Arte para viver
Um viva para o artista
que trabalha em ofício
de cultivar o chão,
ou de peão de gado,
ou de operário em construção,
com um violão na cabeceira da cama,
que é ponteado à noite e fins de semanas,
apresenta-se em porta de bar,
ou em dança em roda de quintal,
com notas tiradas nas cordas e no tampo,
temperadas por cerveja e cachaça
até entortar os ritmos
subverter as melodias,
fazendo mais claras as noites,
tornando mais alegres os dias.
Assinar:
Postagens (Atom)




