sexta-feira, 24 de julho de 2020

Duras lições



A natureza tem ritmo e candência
inaquedos para quem não tem paciência:
os loucos derrubaram a mata atlântica
e plantaram cafeeiros nos morros.
Vieram as enxurradas e levaram de roldão
nutrientes, solos e plantação.

Os tolos aspergiram inseticidas de avião
e mataram abelhas, joaninhas e passarinhos,
o gafanhoto virou praga,
acabou a polinização
e o silêncio tomou conta da criação.

Os egoístas aterraram os manguezais
para construir marinas e condomínios
taparam as tocas dos guaimús
e jogam esgotos no mar para desgosto do caiçara,
para adoecer a tal ponto as baleias,
que, por tristeza, se suicidam nas areias.




Histórias do avô dos peixes


Aquelas histórias de paraíso
com árvores a fazer sombras no mar,
de rios a trazer água limpa e doce
para reduzir o amargor do mar
e de imensos manguezais
até a vista não alcançar mais...
Não eram histórias de fazer peixe dormir.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Segredos das profundezas



Meu tio, um famoso pescador de mergulho,
foi chamado para pescar um mergulhador
que demorou demais no fundo
dos abismos que rodeiam a Ilha Vitória
e o achou entre as pedras e as algas,
parecendo à vontade em ambiente familiar.
- Que aconteceu com ele, caiçara?
- Mergulhou para nunca mais voltar.

Frente fria

A mPa - massa polar atlântica
chegou tão chuvosa e fria
que faz até minha canela doer,
lá fora, desdenhando as intempéries,
tem um jovem trabalhador de construções
gastando suas energias
cavando alicerces, carregando tijolos,
para erguer moradias.
E o dinheiro do vale semanal
em parte vai para ajudar a família
e a outra parte é para os livros e jornais.
A vizinha perguntou para mamãe:
- Por que seu filho
não é como os jovens normais?




Livro de sebo



Livro antigo, além das histórias que contém,
têm as histórias das marcas das mãos
que os manusearam,
dedicatórias para pessoas queridas,
garatujas nas margens,
marcadores esquecidos
e outros pedaços de papéis para marcar
os trechos lidos,
já encontrei notas de dinheiro
que perderam a validade,
bilhetes de loteria esportiva
que, espero,não foram premiados
e recados de amor para a posteridade.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Navegações




Teve uma tarde
que a chuva veio na medida certa
para esvaziar as nuvens, limpar o ar
e encher uma poça d’água
no campinho de futebol,
uma poça tão grande
que coube uma flotilha de barquinhos
a fazer transportes
de passageiros e mercadorias
entre a Terra e o reino da fantasia:
sementes, sonhos, insetos
e todas outras coisas que cabem
em barquinhos de papel.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Poema para Théo












Para quem quiser saber,
todos os segredos do universo
estão na gestação de um bebê,
os elementos se juntando,
a vida se desenvolvendo,
os astros se multiplicando
e um novo coração pulsando
na nação latino-americana,
para o contentamento do mundo,
para aumentar o sorriso de Ana.
Nascimentos são lições de esperança,
seja bem vindo, Théo Antunes,
seja bem vindo, criança.


domingo, 14 de junho de 2020

Longevidade


Para viver mais de cem anos,
para conhecer o mundo inteiro,
para ir além dos limites do salário
e dos obstáculos do itinerário,
é aconselhável ter livros
e muitos amigos,
pois uns puxam os outros,
dão assuntos para conversas,
poem poesia no cotidiano,
provocam ataques de risos
e quanto mais alegria mais vidas
à vida se acrescenta,
de fazer qualquer navegante
ir além do Cabo das Tormentas.





Cajueiros




Não adianta explicar para as crianças a teoria de Darwin,
elas querem fazer o inverso dos antepassados,
querem subir nas árvores, se pendurar nos galhos
ou colher as frutas dos últimos ramos.
Quando eu virar agricultor
vou encher a terra de cajueiros
até a lembrança da saudade se perder,
cajueiro é a melhor árvore do mundo
e caju não dá bichos, só gostosuras de morder.


Meteorologia popular

Se de tarde perguntar ao vento
sobre as condições do tempo
e o vento se mostrar enigmático,
repita a questão para o mar
que, exceto em dias de calmarias,
tem sempre algo a informar.
Em último caso, insista com as nuvens,
as nuvens não escondem nada,
por exemplo, elas sempre avisaram mamãe
para recolher as roupas do varal
antes do susto da trovoada.



sábado, 13 de junho de 2020

Preferências poéticas














Eu aprecio os poemas
com rumor de cachoeiras que cantam
que até as pedras mais ásperas
são suavizadas pela leveza das águas.

Eu gosto de poemas de cantigas de passarinhos
cantadas e aperfeiçoadas de geração em geração
nos galhos das fruteiras carregadas
e nem precisam ser poemas
com as palavras rimadas.

Eu prefiro os poemas que tresandam
a cheiro de capim orvalhado
às margens de um caminho
que não tem outra serventia
senão ligar-nos com o passado.









domingo, 7 de junho de 2020

Aonde nós vamos?




Floresta Amazônica, cerrados,
manguezal bercário das tainhas,
crustáceos, celenterados,
zangões, abelhas rainhas,
onças pintadas, pacas,
elefantes paquidérmicos,
algas clorófitas, cracas,
águias, seres estratosféricos,
acarás, tamanduás bandeira,
homens, mulheres, a criação inteira,
que há milhões de anos viajamos juntos
na translação de 108.000 km/hora,
calma que estamos chegando lá,
a leste já se vê a aurora.

domingo, 24 de maio de 2020

Poema de domingo












Eu sei, desde os tempos de menino,
que a gente vive por teimar,
pois quem nasce à beira-mar
tem o destino escrito na areia
e se a onda vem e apaga tudo,
e se não der peixe na linhada,
e se vier pouco peixe no espinhel
ainda tem a rede armada
no pesqueiro do parcel.
Este mar está cheio de vida,
(mas já teve mais!)
este mar ainda é generoso
(mas já foi mais!)
Quando a gente chegava da pescaria
com uma fieira de peixes na mão,
vovó  nos abençoava e dizia:
"Quando Jesus andou no mundo
procurando seguidores,
escolheu os melhores
no meio dos pescadores."





domingo, 17 de maio de 2020

Fé e obras












Toda montanha começou colina,
Marco Polo na estrada
achou o caminho da China,
foi menino o gigante Adamastor,
Bartolomeu de Gusmão foi padre
e tornou-se homem-voador,
de tijolo em tijolo se faz mil casas,
antes a gente não tinha
e Santos Dumont nos deu asas,
se uma árvore inteirinha
cabe em uma semente,
imagina a potência da alma
que está dentro da gente?

Poema dos tempos difíceis












Que as borboletas alegrem
as entrelinhas de toda as palavras,
que brotem também margaridas
no meio de todas as lavras.
Da mesma maneira
que um produto não vale pela embalagem,
não importa a prosa das pessoas,
o que vale são as poesias.
E um tapinha nas costas
nada vale sem uma ação amiga:
não esqueçam do pão que sustenta
a cigarra que canta para a formiga.



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Fiquem firmes



O vento vai dissipar as nuvens escuras no céu,
o povo vai acordar com as más notícias dos jornais,
o homem de sangue haverá de tombar,
os falsos profetas não enganarão mais,
o dinheiro já não comprará consciências,
a ignorância não é mais do que a ciência
e depois que passar essa pandemia,
se outra vier, que venha a da empatia.


domingo, 10 de maio de 2020

Feliz Dia das Mães


















Uma vez um aluno me perguntou,
(um caso de reinserção social)
qual o melhor presente
que podia dar à sua mãe?
Eu respondi que havia muitas opções,
flores, mesmo colhidas do jardim,
um cartão, principalmente feito por suas mãos,
e que todo carinho deixa uma mãe feliz.
Só uma coisa ele tinha que evitar,
não há coisa mais triste
do que fazer uma mãe chorar.
Tempos depois eu o revi
e ele me disse com um sorriso:
- Olha, professor, eu segui o seu aviso.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Crônicas do futebol: casos engraçados










          Mário Jardel Almeida Ribeiro nasceu em Fortaleza (CE), em 18 de setembro de 1973,  destacou-se na posição de atacante na escolinha de futebol do Ferroviário (CE) e, logo, o Vasco da Gama (RJ) comprou o seu passe. Em 1992 estreou no time principal e foi, também, nos anos seguintes, astro do futebol por outros times nacionais e internacionais. Seu último time, antes de aposentar-se em 2011, foi o Rio Negro (AM). Após afastar-se dos gramados, resolveu se candidatar a deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, foi eleito, mas antes do fim do mandato foi cassado. Melhor teria feito se continuasse no mundo dos esportes.
            O jogador pode até negar, a gente até compreende que ninguém gosta de ser vítima de invencionices, mas não há jeito de mudar  o rumo da história depois que se cria a fama e os casos caem no gosto popular. A Jardel são atribuídas as seguintes frases divertidas :

            "Clássico é clássico e vice-versa."
            "Quando o jogo está a mil, a minha naftalina sobe."
            "Eu, Paulo Nunes e Dinho vamos fazer uma dupla sertaneja."
            “No México que é bom. Lá a gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias.”
            “Que interessante, aqui no Japão só tem carro importado!”

              O caso das dores de Jardel
            Jardel foi ao médico, quando jogava pelo time do Porto, reclamando de uma dor generalizada: “Como é isso Jardel? “
            “Doutor, o meu corpo todo dói. Onde eu ponho o dedo dói. Se boto o dedo na perna, dói. Se ponho o dedo na barriga, dói. O senhor sabe o que eu tenho? “
            “Deixa eu ver a sua mão! Mas que coisa Jardel, você quebrou o dedo!”

O Diamante Negro



   

O carioca Leônidas da Silva brilhou no futebol brasileiro dos anos 1930-50 e ficou célebre por ser goleador e, principalmente, por ter inventado a jogada ‘da bicicleta’ que exige um alto grau de habilidade e agilidade física.
O craque ficou tão popular que, em 1938, a empresa de chocolates Lacta, num lance de genialidade de marketing, criou um novo bombom e batizou-o de ‘Diamante Negro’, o apelido carinhoso com que o povo o chamava. O jogador se tornou, então, um dos primeiros jogadores brasileiros a cobrar pelo uso da imagem em propagandas.
O tempo passou, o nosso herói veio a falecer em 2004, passou para a história do futebol, mas o chocolate que leva seu apelido continua popular e é um dos mais vendidos pela Lacta, até aos dias de hoje.
Gostaria de ver a empresa fazer um pequeno gesto de reconhecimento, explicando nas embalagens do bombom o histórico do “Diamante Negro”, para que as novas gerações tenham, também, o prazer de saber quem foi Leônidas da Silva.





quinta-feira, 16 de abril de 2020

Poesia no futebol




Gosto muito de acompanhar os jogos de futebol pelas ondas radiofônicas. Mais do que o desenrolar da refrega esportiva, aprecio o colorido dos comentários e narrações feitas pelos radialistas. Gosto, principalmente, daqueles que esticam a liberdade de expressão para tentar descrever com palavras o que os olhos mal podem acreditar, são os narradores poetas.
Penso que isso se deve à minha infância na Praia da Fortaleza, em Ubatuba, uma vila de pescadores isolada até meados de 1970, lugar em que as notícias chegavam por rádios de pilhas que, aos domingos, ficavam zumbindo e narrando os feitos dos craques da época: Mané Garrincha, Didi, Manga, Pelé, Rivelino, Djalma Santos, Ademir da Guia e tantos outros.
É a mais pura poesia quando se ouve dizer que saída do vestiário é “boca do jacaré”, jogadores são chamados de “os protagonistas”, dirigentes são “cartolas”, a torcida é denominada de “milhares de não combatentes”, ou quando o choque de oponentes passa a ser “acidente de trabalho”.
Tem ainda muita criatividade e emoção, quando no calor das partidas, usa-se as expressões “Goleiro de mãos de folha de alface!” “Açougueiro na defesa!” “O arqueiro só caçou borboletas!” “A bola foi direto aonde dorme a coruja!” “Gol do meio da rua!” “Ao apagar das luzes!”
A torcida vai ao delírio! E eu vou junto!