quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Céu furado








Esse céu todo esburacado
deixando vazar luz
é obra do caçador Órion
depois que passou a usar
espingarda cartucheira
que espalha chumbo
por todo o universo.
Para confirmar, vide o verso.

Categoria luxo



As vaidosas senhoras
da mata atlântica
sacodem seus ornamentos
(bromélias e orquídeas)
na passarela dos ventos.

Cavalo-marinho




Nos espaços marinhos
galopam os hipocampos
por montes e vales
por florestas e campos
entre os cardumes de peixes
em elegante cavalgar.
Bendita seja a delicadeza de Deus
que criou o cavalinho-do-mar.

Ciclone extratropical sul



Tormenta de ventos,
mares enfurecidos,
raios e trovoadas em vão.
Nenhuma instituição no chão

Além da viagem



No começo não tinha estradas
e a gente ia aos lugares
por trilhas centenárias
feitas em primeiro lugar
pelos bichos que andam em carreiros:
caititu, paca, tapir...
A gente ia mais longe antigamente
porque viajava a pé.



Aldeia Global



Meu avô colhia café, banana e feijão,
que rendiam arroz, carne de charque
e pilhas pro rádio
de ondas curtas
que captava a rádio tupi
e a rádio globo-bo-bo
do Rio de Janeiro.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Do progresso


Todo o dinheiro não compra,
toda  a técnica não monta,
toda a ciência não acrescenta,
uma nota de melodia
à música do sabiá laranjeira,
um quinhão de conforto
à casa do joão de barro,
um pouco de beleza
à roupagem da saíra de sete lenços,
um tanto de graça
à elegância da garça.

Sinais de trânsito insano

Cruzes,
quanta cruz
na rodovia Osvaldo Cruz. 

Cruz


Quem vive de pescar
conhece a inconstância do mar
e suas súbitas mudanças
desde as ressacas mal comportadas
até relatos e marcas de antigos maremotos.
É por isso que plantou-se cruzeiros
em Ubatuba e restante do litoral
na antiga Terra da Santa Cruz.
Convém deixá-los lá.

Criança tem cada uma




- Menino, de quem você  gosta mais,
da mamãe ou do papai?
- Eu gosto mais é de sorvete! 

Como é o céu



O céu é um grande terreiro
com espaço pra brincar de pique,
esconde, amarelinha, pular corda,
subir em árvores e mergulhar nos rios
sem quaisquer riscos de ferimentos
seja no corpo ou nos sentimentos.
Como eu sei disso?
Tá escrito que o Reino dos Céus
é das crianças
e também já brinquei nesse paraíso.

sábado, 6 de janeiro de 2018

A ciência de comprar peixe




Quem compra sargo, olhete, xaréu
ou, até mesmo sardinha,
tem que ser experiente
na gastronomia e na filosofia do litoral,
pois não se compra só o peixe,
se compra as memórias
de gostos e sabores do mar.
Uma mistura de coentro,
cheiro-verde, um toque de pimenta,
o cheiro do limão-cravo
e a lembrança de uma mãezinha
dos tempos antigos, de muitas orações:
- Que esse menino, meu Deus,
não perca o pé do fundo do mar do mundo!








sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando os poetas vão à guerra



Soube de uma história que aconteceu na 2ª guerra
em uma estação meteorológica
cujo único contato diário com o mundo era através do rádio
e de um avião inimigo que chegava,
metralhava as pedras, decerto que só para constar no relatório,
depois fazia um novo sobrevoo para assegurar
que estava tudo bem, balançava as asas
e voltava para seu aeródromo.
Mas teve um dia que as balas
arrancaram estilhaços de rochas
que machucaram o cachorrinho mascote da base.
O piloto alemão ficou um tanto aflito,
mas da terra foram feitos sinais
que o bichinho estava bem.
O piloto balançou as asas e depois deixou
cair um objeto branco,  que deixou, por um momento,
as pessoas de terra assustadas. 
Mas era só seu estojo de primeiros socorros.

P.J. Reader's Digest nov/68

Beijinho de mãe


Eu vi um menino que caiu,
fez cara de choro
e a mãe o levantou,
fez um carinho e o beijou.
Alguma coisa curou nele,
alguma coisa curou em mim.

Dia sem ventos




Ah, uma rede de capturar borboletas...
Peixes nadam nas nuvens
quando o lago está um espelho.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Ciências caiçaras











Minha família era toda do mar
mesmo quem chegou mais tarde
vindo de Portugal, ou da África,
teve que ser batizado nas águas salgadas,
ter intimidades com as ondas,
aprender a lida da pesca,
conhecer os peixes e
saber os nomes deles todos,
aprender a ciência dos ventos,
deixá-los despentear os cabelos
e sussurrar nos ouvidos
a previsão da meteorologia:
amanhã promete ser um bom dia.








Uma casa de mil portas












A vida começa com muitas portas
e à medida que uma passagem é escolhida
outras se fecham para sempre,
as possibilidades se afunilam
quando se faz opções de cursos,
estado civil, ideologia,
profissão, artes e pessoas para amar,
até que no fim todas as portas se fecham
e abre-se uma janela
para quem aprendeu a voar.




Raízes



A casa de meus avós na Praia da Fortaleza
era muito antiga,
construída pelos meus antepassados
com alicerces de pedras,
colunas de tijolos,
revestidas de estuque,
com ripas de jiçara
e telhas feitas nas coxas.
Eu recebia carinhos e bênçãos
quando os visitava e,
depois de bem abençoado,
ia até ao mar e completava
meu mergulho no passado.



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pescador e poeta


O caiçara saiu para pescar
com rede de espera
e como tinha que esperar,
pegou a viola e se pôs a tocar
uma música que aprendeu com Doquinha,
que ficou cego quando menino,
por isso cantava muito comovente,
de mexer com os sentimentos
de todo tipo de gente,
inclusive dos peixes que foram chegando
e começaram a se enredar
em tamanha quantidade,
que o próprio pescador pinchou a viola no mar,
por achar que aquilo já era maldade.


Árvore de natal tropical










O menino queria muito uma árvore de natal
e o pai plantou uma que foi crescendo
subiu goiabeira acima e deu lindos enfeites
de bolas verdes e amarelas
que deixou o menino maravilhado
e muitas crianças da vizinhança, também.
Só pessoas sem imaginação,
que viam nada mais que um pé de maracujá,
é que a menosprezaram.
Ah, mas quando, à noite, as luzes se acenderam...