segunda-feira, 23 de março de 2026

Avô pescador

 

Meu avô era rico com três canoas de madeira de lei

e uma rede de arrastar curtida na casca da aroeira

pra não se estragar.

Uma vez por semana tocava o búzio

chamando companhia pra participar da pescaria.

A rede era arriada distante

algumas centenas de metros e quando a canoa aportava,

homens, mulheres e crianças puxavam os cabos.

Os mais velhos, ao experimentar o peso da rede,

com antecedência se riam ou se lamentavam.

Mas sempre tinha peixes bons,

estrelas do mar, tartarugas, peixe-elétrico,

caranguejos, camarões,

baiacus para coçar a barriga

só pra vê-los indignados

encherem-se como balões.

Nós que éramos pequeninos

tínhamos a tarefa de salvar os filhotinhos

devolvendo-os às ondas.

Ao fim do trabalho procedia-se à partilha

da mistura para os próximos dias.

Todo dia de pescaria era dia de se maravilhar,

porque a rede sempre trazia surpresas do fundo mar.

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