Um cuitelinho novo por aqui -
será que veio de Minas?
Será o mesmo da música de Milton?
Chegou no jardim de casa, beijou as flores que quis,
voou, pairou, revoou e chocou-se com a vidraça.
Acho que bebeu néctar fermentado, o infeliz.
Um cuitelinho novo por aqui -
será que veio de Minas?
Será o mesmo da música de Milton?
Chegou no jardim de casa, beijou as flores que quis,
voou, pairou, revoou e chocou-se com a vidraça.
Acho que bebeu néctar fermentado, o infeliz.
Eu sei o que tem no meio do mato:
bichos de todas as espécies,
tem herbívoros, carnívoros
e os colibris, que vivem de beber néctar.
Serão eles bebívoros?
Meu tio também bebia muito,
mas não bebia para viver,
somente para esquecer.
No século passado só havia escola na cidade,
bem longe da gente,
porque o país não tinha escola suficiente
para atender a nós, nas praias isoladas.
Mas a catequista que vinha ensinar religião,
também nos ensinava como enfileirar as letras em palavras
e a pôr ordem nos números até fazerem sentido.
Ela nos chamava de "meus queridinhos analfabetos".
mas completava sempre: "- Analfabetos, mas espertos".
Eu gostava muito quando falava dos Santos de Deus,
dos seus milagres e de muita sabedoria.
Depois escrevia algumas palavras em uma lousa e perguntava:
- "O que está escrito aqui?"
- "Ave Maria!"
Sol ao sul, céu azul,
quem precisa, vai trabalhar;
quem está de folga, vai para o mar;
de manhã tem o calor do sol,
de tarde vem a chuva de verão;
crianças dançam na chuva
e quanto mais sujam os pés na lama,
mais limpa fica a alma.
Sol ao sul, céu azul,
sou brasileiro, sou americano do sul.
Passear no zoológico é bom,
mas ouvir as crianças é melhor:
"- Esse leão preguiçoso só dorme,
alguém devia cutucá-lo!"
"- Não vou entender nada da voz do elefante,
ainda não aprendi elefantês!"
"- Gostei mesmo foi do popótis!"
John Audubon embrenhou-se no mato,
foi observar e pintar pombos, corujas, gaviões, pica-paus,
um bando de aves, centenas de passarinhos...
Será que viu o pássaro urutau,
ou pensou que era só um pedaço de pau?
- Antigamente o mar era mais recuado,
aqui era a casa do Bertolino,
o mar avançou sobre o antigo cemitério,
lá para cima tinha roças de feijão e mandioca,
e se procurar no meio do mato,
ainda se encontram laranjeiras...
você quer uma laranja, eu busco!
- Não, obrigado, deixa para os passarinhos
e fantasmas.
Até 1970, a nossa praia isolada
era acessível somente por mar
ou por sete quilômetros de caminhada.
Ao longo do caminho, havia casas de pau-a-pique,
com terreiros onde se viam apetrechos de pescarias,
bananeiras, cafeeiros, jaqueiras, goiabeiras,
laranjeiras e muitas espécies de flores.
A riqueza das pessoas se media em roseiras,
antúrios, hibiscos, primaveras, margaridas...
A vida tinha sabor de eternidade,
mas depois a estrada foi alargada
para virem os automóveis e a modernidade.
Balbúrdia de bugio, passo de saracura,
pio de inhambu, voo de tanajura,
toca de tatu, canto de sabiá,
luzes de vaga-lume, fagulhas de boitatá,
Bafo de onça, alvoroço de tiriba,
bote de jararaca, susto de guariba,
casa de jataí, grito de carcará,
música de mamangava, dança de tangará...
Arrelá!
Debaixo de sol, debaixo de
chuva,
os tropeiros conduziam a tropa
de mulas
serra abaixo trazendo artigos
do planalto,
serra acima levando produtos
de Ubatuba
e um estranho linguajar com
sotaque de mar:
“Arrelá, bedes lá,
de gente sem-bergonha
não sejais alcobiteiro!”
E outros papos do povo
canoeiro.
Foi com o tupinambá
que meu antepassado
aprendeu a fazer casa
de barro pilado,
de teto de sapé
de imbé amarrado,
no verão refrescado,
no inverno aquecido.
E depois da casa pronta
acrescentou um toque de poesia
ao fazer uso das taramelas
para trancar portas e janelas.
Tem dias que o vento sul
transtornado em tormenta
ruge entre os brandais
e obriga o capitão
a orçar a embarcação,
porque no mar,
assim como na vida,
às vezes é preciso cambar
para não naufragar.
Nas alturas do Equador,
o Oceano Atlântico
sente tanta sede
ao atravessar aquelas zonas,
que abre a bocarra
e bebe todo o Amazonas.
Minha primeira casa
eu fiz de pau-a-pique em três
semanas.
Depois minha mulher a enfeitou
com um jardim e filhos bonitos
iguais a nós
e foi o lar de minha família
por muitos e muitos anos.
Mas, veja só, já trabalhei
mais de dois anos
junto com minha turma na
construção da casa
de um doutor de São Paulo
que a aproveitou por seis
meses e depois morreu.
E ainda dizem que o ignorante
sou eu.
Saibam que inimizade de gente grande
dura uma eternidade,
mas briga de criança
dura até ao próximo folguedo
de jogar bola, empinar pipa,
mergulhar no mar ou fazer castelos de areia.
E como está escrito
que delas é o reino dos céus,
Sebastião Almiro, caiçara,
preferiu fazer artes e brincadeiras
do que gastar o tempo em asneiras.